* Gonçalo Portocarrero de Almada
Um partido ao serviço do
imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a
liberdade de pensamento e de expressão.
23 mai. 2026c
Anda meio mundo zangado com o
Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito
parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido,
cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka,
protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente
visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da
caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente
falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e
foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária
desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos
recentes, o PCP está de parabéns.
A título de declaração de
interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por
tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente
e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único.
Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com
exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente
oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma
afinidade com o PCP.
Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.
O primeiro caso parlamentar
recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da
Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados
comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de
boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um
parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças
xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva
os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da
Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania
representa o povo português.
Tem o seu quê de contraditório,
ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não
ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento
eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento
ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas,
belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o
Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por
último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos
dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado
Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a
23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e
martirizada Polónia.
O segundo caso respeita à
situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O
PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que
atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo
bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald
Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução
comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra
Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo
cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a
crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição
activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil
cubana’.”
É significativo que o regime
comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga
garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar
da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas
dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar
numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que,
tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação
minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não
passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua
reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível
por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao
regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o
vigente sistema repressivo.
Como era expectável, “o
projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os
deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo
‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de
pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de
Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano
e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em
Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime
comunista’.”
Em terceiro lugar, foi deplorável
a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer
respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de
pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de
que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.
Apesar de estas três atitudes
deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de
Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia,
defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder
histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um
partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário,
continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do
imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade
de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética,
infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram
anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da
ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.
Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma
inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato
de slogan, que não destoaria na festa do Avante!,
poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!
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