quinta-feira, 21 de maio de 2026

Manuel Augusto Araújo - João Abel Manta, cronista de Abril


* Manuel Augusto Araújo

32 anos depois da Revolução de Abril, rever os «cartoons» de João Abel Manta, é reviver alguns dos momentos fortes que balizaram a história daquele tempo que se viveu em aceleração apaixonada, entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro.

Se naquela altura radiografavam à velocidade do pensamento o que estava a acontecer, hoje são parte imprescindível da história da Revolução. Não perderem a ironia, feroz e subtil, com que João Abel Manta dissecava os sucessos desses dias traçando um mapa que nos continua a orientar pelas estradas vertiginosas do que ficou conhecido por PREC.

Eram comentários urgentes e acutilantes, feitos em cima do acontecimento e o que era e continua a ser espantoso, é nunca perderem o norte e acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu.

Em João Abel Manta a inteligência cortante, ancorada numa vasta e sempre actualizada cultura, distingue os seus «cartoons» desde os primeiros publicados na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Al­ma­naque ou no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do «Di­nos­sauro Ex­ce­len­tís­simo», personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava Salazar-o-Botas, parceria que continuou no «Burro em pé», uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

Arquitecto de profissão (um dos melhores conjuntos arquitectónicos de Lisboa, os blocos na avenida Infante Santo, são projecto que realizou com Alberto Pessoa e Hernani Gandra), pintor e desenhador por vocação, cartonista por gozo pessoal e para nosso gozo, o traço mesmo quando é grosso é de um rigor deslumbrante e filia João Abel Manta entre os Bordalos, os Steinbergs, os Daumier ou os François, colocando-o como um dos melhores cartonistas de todos os tempos

É evidente que não é indiferente ao risco dos «cartoons» o saber adquirido enquanto desenhador e pintor onde evidencia um saber, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

A história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas contradanças dos mar­ke­tings mais diversos, não tem dado a devida atenção a este artista que ocupa um lugar destacado na pintura, no desenho, na ilustração, no cartoon, nas maquetas de cenários, na tapeçaria e na arquitectura. Raramente alguém verteu o seu talento invulgar por tão diversas áreas, realizando obras como, por exemplo, os cenários para Shakespeare, a tapeçaria que foi premiada e figura no salão nobre da Gulbenkian, as ilustrações da «Arte de Furtar», o desenho distinguido na II Exposição Gulbenkian ou o já referido bloco de habitações na avenida Infante Santo.

Já é tempo de se realizar uma retrospectiva de toda a sua obra.

Em Abril há que lembrar que a história de Portugal entre Junho de 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os «cartoons» de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do país está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Olhar hoje para os «cartoons» de João Abel é reviver um tempo que alguns de nós vivemos exaltantemente, mas é igualmente descobrir como o seu fazedor coloca o cartonismo entre as artes maiores.

Avante nº 1602 - 2006 94 27

200https://www.avante.pt/pt/1691//13990

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O regresso dos cartoons de João Abel Manta

A Tinta da China re­e­dita, hoje, o livro com os «icó­nicos car­toons» (1969-1975) de João Abel Manta, um dos «me­lhores de­se­nha­dores e ilus­tra­dores por­tu­gueses» das úl­timas dé­cadas do sé­culo XX, que, desde cedo, re­velou a sua opo­sição à di­ta­dura fas­cista.

«Ao fim de 48 anos, esta é a pri­meira re­e­dição deste tí­tulo: levou, pois, quase tanto tempo a que estes de­se­nhos re­gres­sassem ao con­vívio dos lei­tores por­tu­gueses como o que durou o re­gime der­ru­bado pela Re­vo­lução de Abril de 1974. Fe­chados já os jor­nais para onde eles foram en­vi­ados, ama­re­le­cidos ou apo­dre­cidas as edi­ções onde foram im­pressos, es­que­cidos até al­guns dos mo­mentos ou per­so­na­gens neles re­pre­sen­tados, aqui os temos de novo, tão bri­lhantes e per­ti­nentes como quando saíram do es­ti­rador de João Abel Manta», des­creve a edi­tora, no texto de apre­sen­tação da obra.

Neste livro in­cluem-se car­toons an­te­ri­ores a 1975 que não cons­tavam da pri­meira edição e todos os pos­te­ri­ores a esse ano, com notas, da­tação ri­go­rosa, or­ga­ni­zação cro­no­ló­gica e uma in­tro­dução con­tex­tu­a­li­zada deste tra­balho.

Avante nº 2577 - 2023 04 20 

https://www.avante.pt/pt/2577//171296

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