O duelo
político, com a tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae
venturiano, quer agora transformar-se na escolha aparentemente apolítica do
candidato com o perfil mais presidenciável.
31 jan. 2026
No Domingo, 8
de Fevereiro, a escolha, agora pintalgada como meramente protocolar,
não-ideológica e “moral”, vai ser particularmente consequente e política.
E Ventura, que
há meia dúzia de anos surgiu como “o Perturbador” daquilo a que começou logo
por chamar “o sistema”, está no centro da escolha e da perturbação, gerando uma
coligação negativa, cuja amplitude seria então difícil de imaginar.
Ora esta
polarização não se passa só em Portugal. Depois do fim da União Soviética e do
sonho globalista do comunismo, veio um globalismo plutocrático alternativo e,
com ele, a deslocalização e desindustrialização de muitos países da
Euro-América. Na Europa, esse globalismo tomou a forma de federalismo europeu,
um federalismo ideológico e económico impulsionado a partir de Bruxelas e da
Comissão Europeia.
Estes
movimentos globalistas, a par da imigração, ao irem contra as nações e as
identidades e ao causarem um empobrecimento relativo das comunidades atingidas,
levantaram fortes reacções populares a que os partidos do chamado Centrão, da
esquerda socialista e social-democrata à direita social-democrata e
democrata-cristã, não foram capazes de responder, gerando muitos “deixados para
trás”. Daí vieram as novas forças políticas nacionalistas, populares e
nacionais-conservadoras que, na Europa e nas Américas, apareceram como uma
“nova direita” essencialmente nascida do voto popular, em democracia e pela
democracia.
Em Portugal, as
condições especiais geradas pelo 25 de Abril, que trouxe uma situação de
pré-revolução comunista década e meia antes do fim do comunismo na Rússia e na
Europa Oriental, pesaram muito para que se mantivesse um regime governado pelo
Centrão, com tutela cultural esquerdista.
Quando André
Ventura e o Chega apareceram, ainda que centrados numa dialéctica anti-sistema
e num discurso tribunício e populista, com uma natural nota de generalização e
de excesso, foram-se afirmando casuisticamente valores de orientação esquecidos
ou negligenciados: a nação, a família, o trabalho, a identidade, o controlo da
imigração.
Por ironia do
destino, António José Seguro, que havia de correr contra ele, era alguém por
quem a esquerda do Partido Socialista e a Extrema-Esquerda não morriam de
amores. E por quem a Direita tinha até alguma simpatia, pela moderação, pelos
maus-tratos sofridos às mãos de camaradas, pela honestidade pessoal.
No entanto, com
esta nova moda estalinista do voto público ou de braço no ar, não deixa de ser
desconcertante ver todo o “arco da governação”, de Cavaco Silva a Catarina
Martins, a convergir em Seguro contra Ventura, no que aparenta ser a prova, não
apenas de uma persistente necessidade de sinalização de virtude, mas da
existência real de um “sistema” que, até aqui, muitos viam só como uma
inexistência populista esgrimida por Ventura e pelo Chega.
Mas parece que
não é nada disso. Parece que não se trata da súbita união de um qualquer
“sistema” em luta pela sobrevivência; trata-se, isso sim, de uma abrangente
cruzada para “salvar a democracia”. Vamos ver como:
Da luta
existencial ao manual de boas maneiras
Primeiro, era
unânime que a luta se faria contra o perigoso fascista-nazi-racista André
Ventura; agora, ainda que alguns “democratas” devotos da falecida União
Soviética ou do Grande Timoneiro chinês persistam na táctica, a estratégia é
outra: Seguro é bem-educado, manso, moderado, de fino trato, previsível e
presidenciável; Ventura não tem maneiras nem gravitas para o
cargo – é mal-educado, brutal, impetuoso e quer agitar as águas e fazer coisas.
E, bruscamente,
da salvação do mundo e da democracia em solo pátrio, passou-se ao protocolo do
MNE, ao manual de boas maneiras, à arte de saber estar; dos anti-fascistas,
passámos aos liberais chiques; dos Direitos do Homem em perigo ao horror
perante a etiqueta atropelada. Ventura deixou de encarnar Hitler, Mussolini,
Franco e Salazar para vestir a pele de um Zé Povinho sempre a fazer manguitos
que não sabe estar entre os grandes, de um grunho que promete deixar mal o
Estado português “lá fora”, em Bruxelas, no Buckingham Palace, no Eliseu, onde
seja.
Ora esta nova
estratégia oferece-nos um tipo de entretenimento inédito: o espectáculo do
choque, do escândalo, do alarme e da preocupação dos revolucionários de ontem e
dos activistas de hoje, dos herdeiros dos sans-cullotes de
Paris e do Proletariado de todo o mundo, perante a falta de moderação, de
decência, de decoro e de pose institucional de Ventura, a quem parecem exigir a
bonomia discreta e cinzenta de político do antigo regime que vêem (e apreciam)
no outro candidato…
Mas então e o
povo, os trabalhadores, tão queridos à Esquerda, e que fazem muito do
eleitorado de Ventura? poder-se-ia perguntar. Qual povo, se o candidato da
Direita é apoiado, não por formidáveis trabalhadores em luta ou por operários
fabris progressistas, mas por deploráveis “eleitores de baixa escolaridade”,
reaccionários, equivocados e febris? Responder-nos-iam.
Enfim, pouco
importa, porque a campanha existencial, o duelo político, ideológico, com a
tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae venturiano,
quer agora transformar-se (até para conquistar o centro e a direita que não
saiba resistir à pressão) na escolha aparentemente apolítica, não-ideológica,
do candidato com o perfil cívico, “moral” e até “cristão” mais presidenciável;
daí o apelo transversal à civilidade, à “humanidade”, em nome da preservação da
decência democrática.
Uma
escolha política
Convém, no
entanto, não esquecer que, ao contrário do que possamos ser levados a pensar, o
que vamos ter no dia 8 não é um concurso de misses, mas uma escolha política –
ainda que alguns a reduzam à “escolha fácil” entre um candidato que grita e um
outro que não grita.
Acontece que o
candidato que não grita é socialista… mas, lá está, não grita, e é simpático,
cordato, educado, decente, pacato, razões mais do que suficientes para ser
apoiado por todos os vultos do regime – da direita consentida, que corre feliz
para os braços temporária e interesseiramente abertos da Esquerda, à
extrema-esquerda, subitamente institucional. Todos juntos em morna, medrosa,
“civilizada” e moderada unanimidade para defender, não o bem-comum, não o país
do presente e do futuro, não o povo, mas a velha “pluralidade democrática”
instituída em que vivem e da qual vivem.
Esta pressão das elites políticas unidas contra um candidato que, cada vez mais, se vai consolidando como o único candidato alternativo junto dos “deixados para trás”, pode bem ser a prova viva de que “o sistema”, afinal, existe.
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