Pacheco
Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje,
repetiria”
Em
declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de
desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera
que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um
erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o
líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.
16 Abr 2026,
“Estou muito
contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende
sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as
críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente
transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter
insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do
que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou
publicamente como uma “comparação absurda”.
“Sim, tem
mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia
de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa
posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos
destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.
O historiador
respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e
comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”,
fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o
líder do Chega, com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente
acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.
Mas o antigo
dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos
tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A
história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente
Nacional, esse caminho, inicialmente seguido, foi depois revertido por
uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”
Para Pacheco
Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse
tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo
intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com
eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas
pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito
significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante
para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas que
não se sentem representadas.”
Segundo o
historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de
vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter
comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não
se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o
confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.
Pacheco
Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta:
"expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E
só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o
debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do
Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O
mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse,
inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.
O pecado
original de Pacheco Pereira
Paulo Guinote, Professor do
Ensino Básico
16 Abr 2026
Não sou dos que
acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André
Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do
que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o
universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e
mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e,
nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.
André Ventura
só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam
vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de
financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou
menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de
polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical),
nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com
grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo
inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora,
qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com
mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.
O “verdadeiro
fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas
um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para
consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando
se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma
curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder?
Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de
interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.
Pacheco Pereira
sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como
fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria
para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem
muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade
mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate
foi, pois, a CNN Portugal.
Ao desafiar
Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu
interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou
menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível
uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso
impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama
retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo
significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação
variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não
reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e
exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a
emoção encenada. Enganou-se.
Todos cometemos
erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má
avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter
percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi
esse o seu pecado original.
Escreve sem
aplicação do novo Acordo Ortográfico
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