quinta-feira, 30 de abril de 2026

Rodrigo Tavares - Ao ler este artigo está a violar os direitos humanos

* Rodrigo Tavares

Professor catedrático convidado na Nova SBE

A pergunta decisiva não é se algo é verde ou ético, mas que danos esconde

Não há nenhuma atividade económica, nenhum produto, nenhuma transação financeira que não gere impactos negativos para a sociedade ou para o meio ambiente. Nenhuma.

Ao ler este artigo o caro leitor está a usar um computador ou telemóvel que contem alumínio, antimónio, arsénico, bário, berílio, bismuto, boro, cálcio, cério, chumbo, cobalto, cobre, crómio, disprósio, estanho, estrôncio, európio, ferro, flúor, fósforo, gadolínio, gálio, germânio, grafite, índio, ítrio, lantânio, lítio, magnésio, manganês, molibdénio, neodímio, nióbio, níquel, ouro, paládio, platina, potássio, prata, praseodímio, selénio, silício, sódio, tântalo, telúrio, térbio, titânio, tungsténio, zinco e zircónio. São materiais provenientes de cadeias mineiras e industriais ligadas a países como Myanmar, Tajiquistão, China, Rússia, República Democrática do Congo, Gabão, Nigéria, Bielorrússia ou Zimbabué.

Agora seria chegado o momento em que eu citaria vários relatórios de ONGs que alertam para a violação dos direitos humanos na exploração de minérios nestes países. Bastava esticar o dedo para o Google ou um LLM. Prefiro destacar o livro Cobalt Red de Siddharth Kara, finalista do prémio Pulitzer, sobre as condições animalescas em que o cobalto é minerado na República Democrática do Congo. Se o comprar pela Amazon, aproveite e leia também The Everything War: Amazon’s Ruthless Quest to Own the World and Remake Corporate Power, escrito por Dana Mattioli, jornalista veterana do Wall Street Journal e também finalista do Pulitzer pelo seu trabalho sobre a Amazon.

Continuo? Na montagem de computadores e telemóveis, a violação de direitos humanos resulta da pressão contratual exercida pelas marcas sobre fornecedores, através de preço-alvo, prazos de lançamento e penalizações por atraso. Essa pressão converte-se em vínculos laborais precários, trabalho suplementar quase obrigatório, metas horárias extenuantes, controlo punitivo da produtividade e fraca liberdade sindical, afetando o direito ao trabalho digno, ao descanso e à associação coletiva. A exposição a soldaduras, solventes, resinas, retardadores de chama, poeiras metálicas e riscos de baterias de iões de lítio, quando não acompanhada por ventilação, proteção e vigilância médica eficazes, como acontece frequentemente, viola ainda o direito à saúde e à segurança no trabalho.

Não faltam precedentes. Nas fábricas da Foxconn e da Pegatron, auditorias e investigações identificaram violações de normas laborais e da lei chinesa. A Samsung viu tribunais sul-coreanos reconhecerem doenças profissionais associadas à produção de semicondutores. A Apple tem sido criticada pela distância entre os seus compromissos públicos de responsabilidade social e a precariedade laboral dos seus fornecedores. Não há escassez de denúncias. Recomendo o artigo do Financial Times, “Inside China’s mega iPhone factory: long hours, discrimination and delayed pay”, disponível aqui.

Há ainda as violações ambientais. A cadeia do computador consome água, energia e reagentes químicos, gera rejeitados, emite poluentes e produz lixo eletrónico. No fim de vida, placas, baterias, cabos e ecrãs podem entrar em circuitos informais de reciclagem, onde a recuperação de cobre, ouro ou alumínio envolve queima de cabos, banhos ácidos e desmontagem manual sem proteção. O resultado é contaminação do ar, do solo e da água por metais pesados e compostos tóxicos. A autora do livro High Tech Trash: Digital Devices, Hidden Toxics, and Human Health fez uma investigação notável sobre o problema.

Se quiser conhecer os impactos positivos e negativos de todas as empresas listadas em bolsa, recomendo esta plataforma finlandesa. Pode começar pela Apple (aqui).

Entre o impulso de corrigir o mundo e os meios disponíveis para o fazer há cadeias globais de extração, transporte, fabrico, e consumo que comprometem a santidade de qualquer gesto sustentável. Dito de outra forma, a transição de uma economia fóssil para uma economia verde não elimina a dependência de recursos finitos; apenas substitui o petróleo, o gás e o carvão pelo cobre, o lítio, o níquel, o cobalto, a grafite, as terras raras e outros metais indispensáveis à descarbonização.

E é exatamente quando chegamos a este ponto, emaranhados em incoerências e contradições, frustrados com os trade-offs e com a impossibilidade da coerência absoluta, conscientes de que cada solução conserva dentro de si uma forma de perda, que a sustentabilidade deixa de ser uma técnica de otimização e passa a ser uma prática de mitigação de custos sociais e ambientais. Quando ser sustentável se revela insustentável, a sustentabilidade é escolher o menos insustentável. No fundo, tudo se reduz a uma contabilidade honesta dos danos.

A UE seguiu o caminho contrário. Em 2020, criou a Taxonomia Europeia para classificar as atividades económicas ambientalmente sustentáveis. Mas o sistema tornou-se um labirinto técnico de critérios, atos delegados, salvaguardas, indicadores financeiros e obrigações de reporte. Equipas de sustentabilidade, finanças, auditoria e compliance precisam hoje de formação especializada para decifrar a máquina Enigma regulatória. Criada para reduzir o greenwashing, a taxonomia acabou também por oferecer às empresas uma linguagem técnica capaz de ocultar, relativizar ou diluir aquilo que permanece insustentável.

Não precisamos de atividades económicas, produtos ou transações financeiras “verdes”, “sustentáveis”, “eco”, “bio”, “orgânicas”, “naturais”, “amigas do ambiente”, “carbono neutro”, “sem plástico”, “recicláveis”, “reutilizáveis”, “conscientes”, “responsáveis”, “éticos”, “limpos”, “circulares”, “de impacto positivo” ou “alinhados com a transição” como se esses rótulos fossem bulas papais. Precisamos de saber, com precisão, que danos reduzem, que danos produzem, onde ocorrem, sobre quem recaem e quando se manifestam. A linguagem da sustentabilidade tornou-se demasiado adjectival e pouco contabilística.

Se a maioria dos produtos já tem a sua versão “verde”, há que reconhecer que os fabricantes de computadores e telemóveis parecem admitir, ainda que por omissão, que os seus produtos não podem ser verdadeiramente sustentáveis e éticos, nem sequer no plano da retórica. Pelo menos isso.

2026 04 30

https://expresso.pt/opiniao/2026-04-30-

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