sexta-feira, 29 de julho de 2011

Eu ... Emília Lamy

  •      Emília Lamy
    Eu...



    Quando voltar, não quero voltar a ser eu,
    não quero ser água nos meus olhos,
    não quero ser esta forma de escrever,
    não quero a vida interior que é Inverno
    sem lugar para repouso,
    não quero ser mágoa de gente,
    não quero recordar o rosto das palavras sem luz,
    não quero ter a noção do tempo
    nem tão pouco quero ser a vida inteira de um lugar.
    Quando voltar, quero ver de longe o anoitecer
    que cruza conversas estranhas,
    quero possuir o corpo de um arrepio inclinado de desejo,
    quero ser voz sobre o silêncio
    em que sobram memórias,
    quero ser um dia em que espero não acordar,
    ser a superfície em que te guardo,
    talvez ser sangue a infiltrar-se na multidão dos homens,
    ser o ultimo fim de todos os dias sem fim.

    Mila



    há 15 minutos ·  · 

    • Gostas disto.


.Ó Mãe, Mãe...- Eugénio de Andrade

Primavera das Liberdades

Aromas, Sussurrares, Lantejolas, Marionetas, Curvo, Respeito, Volátil, Surrupiar, Voar, Amar e Ser Imperfeito... Tudo o quanto posso... Tudo o quanto devo...

Wednesday, June 28, 2006


Espaço dedicado a Eugénio de Andrade

















Passo a citar um texto de Eugénio Andrade, registado no seu livro de poemas: "Os Amantes sem Dinheiro". Apesar da sua ausência, pelo menos fisíca, Eugénio de Andrade perpertuar-se-á, através da sua obra marcada por uma saudade, que ainda hoje se manisfesta entre nós.Ó Mãe, Mãe...

"É todo um mundo confuso de penetração difícil, tanto mais difícil quanto mais pretendo pô-lo claro, transparente. Não sei se houve primeiro lágrimas ou o som do harmónio. Em todo o caso lembro-me de duas casa - uma na Eira, outra no Adro. Sei que as lágrimas e as estrelas eram na casa da Eira e a música do harmónio na casa do Adro.
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Minha mãe disse-me que nasci na casa do Adro, e só um pouco mais tarde, quando a família a abandonou de todo, nos mudámos para a casa da Eira. Ambas eram casas pequenas, térreas, com duas divisões, mais que suficientes para mãe e filho viverem. Ainda há poucos anos vi essas casitas onde eu e a minha mãe começámos a ser um do outro, e pareceram-me incrivelmente pequenas, mais pequenas que certas salas de brinquedos que os meninos ricos têm na cidade.
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Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e faca embrulhados num pano linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca ao abrir - é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.
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Ora um dia, quando me aproximei da arca - sabe-se lá para dar a entender a minha mãe que queria pão - estava lá em cima uma coisa que nunca tinha visto. Em bicos de pé, deitei-lhe a mão e puxei. Então o que aconteceu foi maravilhoso: de dentro saíu um som bonito, mais bonito ainda do que a voz de minha mãe, que certamente eu já ouvira cantar. E talvez não, talvez eu não tivesse ouvido ainda minha mãe a cantar. Minha mãe era nesse tempo uma mulher triste.
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Da casa da Eira só me lembro do quartito que se seguia à cozinha. Um tabique separava-nos da casa da Ti Ana, uma velhota a quem a minha mãe às vezes me deixava a guardar. Foi nesse quarto que a minha mãe me ensinou a rezar:Senhora Sant`Ana,tapai-me cum véu,que sou pequenino,levai-me prò céu.
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Mas eu gostava mais de me meter com a velhota do que das orações:- Ó Ti Ana! Ti Ana!Faça-me um favor!- Que é? - perguntava a boa mulher, fingindo ignorar a resposta:- Empreste-me a sua pele para fazer um tambor!Mas isso foi bastante depois. Antes das orações e das brincadeiras com a Ti Ana, lembro-me das lágrimas. Nunca mais voltei a chorar assim.
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Certa manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar. - Ó mãe, mãe... -Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só porta fechada, - Ó mãe, mãe... - E a casa deserta. Pelas frinchas largas da porta via a manhã lá fora. Era uma manhã de sol quente talvez de Julho, talvez de Agosto. Devia haver medas de palha na eira em frente. Mas os meus olhos mal viam, estavam rasos de água e de angústia. - Ó mãe, mãe... - E de repente, na manhã clara, começaram a cair estrelas pequeninas, estrelas verdes, vermelhas, estrelas de oiro. As lágrimas caíam-me pela cara. - Ó mãe, mãe... - O nariz esmagado contra a porta, os olhos muito abertos, vendo através da frinchas as estrelas caindo, umas atrás das outras. - Ó mãe, mãe...
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E ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos."Não foi em vão que escolhi este texto. Certo dia, da minha eterna pequenez, acordei a chorar. Tinha tido um pesadelo. O certo, é que acordei a chamar pela a minha mãe, "mas a mãe não vinha, não havia mãe". Chorei, voltei a chorar...e doía tanto, tanto, tanto, que chegava ser dor que doía á própria dor. Minha Mãe tinha ido trabalhar.Amo-te muito Mãe.   
posted by Guida @ 9:34 AM
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http://utopiageral.blogspot.com/2006/06/espao-dedicado-eugnio-de-a_115151299538563034.html

terça-feira, 26 de julho de 2011

Górki: Pequeno-burgueses | A velha Izerguil e outros contos


 Hedra online




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 January 31, 2011

January 31, 2011

Górki: Pequeno-burgueses | A velha Izerguil e outros contos


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Apresentamos duas obras de um dos grandes nomes da literatura russa dos séculos XIX e XX:  Maksim Górki, ficcionista de destaque e autor dramático pioneiro na criação de uma linha sócio-política no âmbito do drama moderno.
Pequeno-burgueses (1902) É a primeira peça de Górki, e foi escrita "devido a pedidos insistentes" do Teatro de Arte de Moscou. Segundo  Elena Vássina, autora da introdução desta edição,  a estrutura de Pequeno-burgueses  é tradicional, próxima ao tipo "drama familiar" , entretanto, " a ideia da peça é mais profunda e mais ampla do que uma simples amostra de um conflito familiar. Ao recriar o cotidiano do dia a dia de uma típica família russa do começo do século XX, o dramaturgo, como que através de uma lente de aumento, examina toda uma cosmovisão social, a qual ele classifica como a “mentalidade pequeno-burguesa”.
A tradução do livro Maksim Górki: Pequeno-burgueses é de Lucas Gomide e o texto integral da introdução, de Elena Vássina,  pode ser lida a seguir:
  


A velha Izerguil e outros contos  - coletânea de narrativas da fase inicial do autor russo que  trazem sua característica mistura de sopro romântico e observação realista, e contribuíram para a sua fama instantânea dentro e fora da Rússia. Eles mostram como traço comum um olhar renovado sobre as figurações literárias das classes populares do vasto império russo, apresentadas sem as tradicionais idealizações “camponesas”.
 Suite Pequenos Burgueses composta inicialmente para violino e piano, por Luís Gustavo Petri para o espetáculo teatral Pequenos Burgueses de M. Górki, dirigido por Jorge Takla.
Tolstoigorky
Maxim Gorky and Leo Tolstoy em Yasnaya Polyana - 1900




















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http://hedraonline.posterous.com/gorki-pequeno-burgueses-a-velha-izerguil-e-ou 


O legado de Gorki
Há em Gorki a força do natural e a beleza do espontâneo, que tanto fascinam, em nossa busca de legitimidade. Há também a transfiguração da realidade, o surrealismo da fuga ao legítimo, que é uma espécie de descanso do espírito, no seu enquadramento real.
O que a vida e a obra de Górki mostram não é o revolucionário perigoso que, segundo os seus adversários, teria envenenado o mundo através da literatura, mas o homem em que a memória, marcada pela lembrança das agruras sofridas e das injustiças presenciadas, anseia pela transfiguração do mundo.
A obra de Gorki centra-se no submundo russo. O ficcionista registrou com vigor e emoção personagens que integravam as classes excluídas: operários, vagabundos, prostitutas, gente humilde, homens e mulheres do povo. Autores realistas e naturalistas já tinham incorporado estes setores sociais à literatura, mas olhavam para os pobres de fora, apenas com piedade ou com frieza. Gorki, ao contrário, conhecia aquele universo por dentro – ele próprio era um desses desvalidos – e soube captar o que havia de mais profundo na alma do povo russo. Daí a impressão de autenticidade que suas obras nos transmitem.
Sem dúvida, ele foi o criador da chamada literatura proletária que teve seguidores no mundo inteiro em sua época. Mesmo que o mundo resolvesse suas diferenças e corrigisse as injustiças sociais, ainda assim faltaria o último toque, aquele toque que construiu o templo literário de Gorki, resistente às manobras ideológicas e imunes à ação do tempo Максим Горький
(Redireccionado de Maxim Gorky)
Commemorative coin
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