Eu...
Quando voltar, não quero voltar a ser eu,
não quero ser água nos meus olhos,
não quero ser esta forma de escrever,
não quero a vida interior que é Inverno
sem lugar para repouso,
não quero ser mágoa de gente,
não quero recordar o rosto das palavras sem luz,
não quero ter a noção do tempo
nem tão pouco quero ser a vida inteira de um lugar.
Quando voltar, quero ver de longe o anoitecer
que cruza conversas estranhas,
quero possuir o corpo de um arrepio inclinado de desejo,
quero ser voz sobre o silêncio
em que sobram memórias,
quero ser um dia em que espero não acordar,
ser a superfície em que te guardo,
talvez ser sangue a infiltrar-se na multidão dos homens,
ser o ultimo fim de todos os dias sem fim.
Mila
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 29 de julho de 2011
.Ó Mãe, Mãe...- Eugénio de Andrade
Primavera das Liberdades
Aromas, Sussurrares, Lantejolas, Marionetas, Curvo, Respeito, Volátil, Surrupiar, Voar, Amar e Ser Imperfeito... Tudo o quanto posso... Tudo o quanto devo...
Passo a citar um texto de Eugénio Andrade, registado no seu livro de poemas: "Os Amantes sem Dinheiro". Apesar da sua ausência, pelo menos fisíca, Eugénio de Andrade perpertuar-se-á, através da sua obra marcada por uma saudade, que ainda hoje se manisfesta entre nós.Ó Mãe, Mãe...
."É todo um mundo confuso de penetração difícil, tanto mais difícil quanto mais pretendo pô-lo claro, transparente. Não sei se houve primeiro lágrimas ou o som do harmónio. Em todo o caso lembro-me de duas casa - uma na Eira, outra no Adro. Sei que as lágrimas e as estrelas eram na casa da Eira e a música do harmónio na casa do Adro.
.Minha mãe disse-me que nasci na casa do Adro, e só um pouco mais tarde, quando a família a abandonou de todo, nos mudámos para a casa da Eira. Ambas eram casas pequenas, térreas, com duas divisões, mais que suficientes para mãe e filho viverem. Ainda há poucos anos vi essas casitas onde eu e a minha mãe começámos a ser um do outro, e pareceram-me incrivelmente pequenas, mais pequenas que certas salas de brinquedos que os meninos ricos têm na cidade.
.Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e faca embrulhados num pano linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca ao abrir - é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.
.Ora um dia, quando me aproximei da arca - sabe-se lá para dar a entender a minha mãe que queria pão - estava lá em cima uma coisa que nunca tinha visto. Em bicos de pé, deitei-lhe a mão e puxei. Então o que aconteceu foi maravilhoso: de dentro saíu um som bonito, mais bonito ainda do que a voz de minha mãe, que certamente eu já ouvira cantar. E talvez não, talvez eu não tivesse ouvido ainda minha mãe a cantar. Minha mãe era nesse tempo uma mulher triste.
.Da casa da Eira só me lembro do quartito que se seguia à cozinha. Um tabique separava-nos da casa da Ti Ana, uma velhota a quem a minha mãe às vezes me deixava a guardar. Foi nesse quarto que a minha mãe me ensinou a rezar:Senhora Sant`Ana,tapai-me cum véu,que sou pequenino,levai-me prò céu.
.Mas eu gostava mais de me meter com a velhota do que das orações:- Ó Ti Ana! Ti Ana!Faça-me um favor!- Que é? - perguntava a boa mulher, fingindo ignorar a resposta:- Empreste-me a sua pele para fazer um tambor!Mas isso foi bastante depois. Antes das orações e das brincadeiras com a Ti Ana, lembro-me das lágrimas. Nunca mais voltei a chorar assim.
.Certa manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar. - Ó mãe, mãe... -Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só porta fechada, - Ó mãe, mãe... - E a casa deserta. Pelas frinchas largas da porta via a manhã lá fora. Era uma manhã de sol quente talvez de Julho, talvez de Agosto. Devia haver medas de palha na eira em frente. Mas os meus olhos mal viam, estavam rasos de água e de angústia. - Ó mãe, mãe... - E de repente, na manhã clara, começaram a cair estrelas pequeninas, estrelas verdes, vermelhas, estrelas de oiro. As lágrimas caíam-me pela cara. - Ó mãe, mãe... - O nariz esmagado contra a porta, os olhos muito abertos, vendo através da frinchas as estrelas caindo, umas atrás das outras. - Ó mãe, mãe...
posted by Guida @ 9:34 AME ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos."Não foi em vão que escolhi este texto. Certo dia, da minha eterna pequenez, acordei a chorar. Tinha tido um pesadelo. O certo, é que acordei a chamar pela a minha mãe, "mas a mãe não vinha, não havia mãe". Chorei, voltei a chorar...e doía tanto, tanto, tanto, que chegava ser dor que doía á própria dor. Minha Mãe tinha ido trabalhar.Amo-te muito Mãe.
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http://utopiageral.blogspot.com/2006/06/espao-dedicado-eugnio-de-a_115151299538563034.html
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terça-feira, 26 de julho de 2011
Górki: Pequeno-burgueses | A velha Izerguil e outros contos
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January 31, 2011
January 31, 2011
Górki: Pequeno-burgueses | A velha Izerguil e outros contos
Apresentamos duas obras de um dos grandes nomes da literatura russa dos séculos XIX e XX: Maksim Górki, ficcionista de destaque e autor dramático pioneiro na criação de uma linha sócio-política no âmbito do drama moderno.
Pequeno-burgueses (1902) É a primeira peça de Górki, e foi escrita "devido a pedidos insistentes" do Teatro de Arte de Moscou. Segundo Elena Vássina, autora da introdução desta edição, a estrutura de Pequeno-burgueses é tradicional, próxima ao tipo "drama familiar" , entretanto, " a ideia da peça é mais profunda e mais ampla do que uma simples amostra de um conflito familiar. Ao recriar o cotidiano do dia a dia de uma típica família russa do começo do século XX, o dramaturgo, como que através de uma lente de aumento, examina toda uma cosmovisão social, a qual ele classifica como a “mentalidade pequeno-burguesa”.
A tradução do livro Maksim Górki: Pequeno-burgueses é de Lucas Gomide e o texto integral da introdução, de Elena Vássina, pode ser lida a seguir:
A velha Izerguil e outros contos - coletânea de narrativas da fase inicial do autor russo que trazem sua característica mistura de sopro romântico e observação realista, e contribuíram para a sua fama instantânea dentro e fora da Rússia. Eles mostram como traço comum um olhar renovado sobre as figurações literárias das classes populares do vasto império russo, apresentadas sem as tradicionais idealizações “camponesas”.
Selecionamos duas das narrativas do livro A velha Izerguil e outros contos de Maksim Górki, para a apreciação dos nossos leitores:
Suite Pequenos Burgueses composta inicialmente para violino e piano, por Luís Gustavo Petri para o espetáculo teatral Pequenos Burgueses de M. Górki, dirigido por Jorge Takla.
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