domingo, 1 de agosto de 2021

Paulo Moura - Se isto não é um herói OTELO SARAIVA DE CARVALHO


Ele não escolheu o protagonismo. A revolução era urgente, mas ninguém a fazia. Quando era preciso agir, mas, por medo, inépcia ou calculismo, ninguém agia, ele foi herói. Depois continuou a desempenhar o seu papel, sem perceber que o pano já tinha caído. Eis os factos, segundo uma longa entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho.

* Paulo Moura
24 de Abril de 2009, 9:09


Otelo: "Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões" ADRIANO MIRANDA

Nevoeiro cerrado, Lisboa, rotunda da Encarnação, 6h30 da manhã de 16 de Março de 1974. Otelo está no meio da praça a ver se a Revolução acontece sozinha. Vai a uma cabine fazer um telefonema, sai e dá alguns passos perscrutadores no terreiro vazio. Tem uma camisola de lã castanha por cima do uniforme e uma pistola 6.65 no coldre, carregada. Olha em redor. Estacionado na berma está um Ford Capri cor bordeaux, de capota negra. Um tipo de gabardina e chapéu fuma um cigarro, de pé, junto à porta aberta do carro.

Quem era?

“Pide, claro”, diz Otelo, identificando um agente da polícia política.

O inimigo já sabia de tudo. Mais do que o próprio Movimento. Fora alertado e ia reagir. Mas contra quê? Uma coluna militar vinda das Caldas da Rainha devia estar a chegar à rotunda, mas todas as outras iniciativas tinham falhado. Que iria acontecer?

“O pide estava ali parado em posição estratégica”, conta hoje Otelo Saraiva de Carvalho, 73 anos, no seu apartamento de Carnaxide. “E eu vi logo que se preparava um grande granel.”

Otelo, 37 anos, um homem bonito, atlético, determinado e corajoso, um líder nato, no auge da sua vitalidade, não é mais do que um fantasma no meio da praça. Ainda não experimentou a sua força. Está à espera que as coisas aconteçam. Perdeu o controlo da situação. Está à espera que o regime caia com um sopro. Está a espera de um banho de sangue. Está à espera de ser preso. De que está ele à espera?

Moçambique, anos 40. Cumprindo ordens da mãe, Otelo leva o empregado doméstico da família à administração do concelho. Ao lavar a loiça, o rapaz partiu um copo, e portanto tem de ir ao sipaio levar umas palmatoadas nas mãos.

“Não vais nada. Eu não te levo lá”, diz, pelo caminho, Otelo ao criado, que é mais velho do que ele.

“Mas eu tenho de aparecer com as mãos inchadas.”


Foto ADRIANO MIRANDA  “Ó pá, sei lá, esfrega-as com urtigas.”

Otelo é amigo do criado, bem como dos outros miúdos negros do bairro onde vive, em Lourenço Marques, e com quem costuma jogar futebol. Mas se o criado se desleixa no trabalho, ou bebe uns copos a mais, é submetido a formidáveis sessões de pancada do pai de Otelo.

“De repente, aquela fraternidade que existia num jogo de futebol de rua transformava-se num distanciamento, quando o preto tinha de levar uns tabefes, ou um arraial de batatada”, recorda Otelo. E quando punha em causa o racismo vigente, respondiam-lhe que na África do Sul ainda era pior. Para o confirmar, meteu-se num comboio e viajou, durante 18 horas, até Joanesburgo. Tinha 17 anos. “Era chocante. Havia filas para europeus e para não-europeus. Em Moçambique o racismo era semelhante, embora mais encapotado.”

Otelo tornou-se rebelde. Só pensava em fugir, em libertar-se. No liceu, admirava um grupo de colegas mais velhos, de que faziam parte os irmãos Fernando e José Gil, Eugénio Lisboa, Hélder Macedo, Rui Knopfli, Rui Guerra. Eram brilhantes, gostavam de classificar o liceu Salazar como “o maior centro intelectual comunista da África Austral”, e costumavam reunir-se em casa do Fernando Gil, para discutir política. Por essa razão, começaram a ser presos e interrogados pela PIDE, que rondava o liceu. Otelo não se conformava. Adolescente, tentou visitar os amigos na prisão. Mas não o deixaram entrar.

“Eu só pensava em conhecer o mundo, abrir horizontes. Queria ser actor, para poder desempenhar uma multiplicidade de papéis. Estudar em Nova Iorque, no Actor's Studio, onde estavam o Marlon Brando, o Montgomery Cliff, o Paul Newman.”

O avô Otelo
O avô paterno de Otelo foi actor. Era um homem baixinho e gordo, e por isso nunca conseguiu representar outros papéis que não fossem os de mordomo. E no entanto formou-se com 20 valores no conservatório de arte dramática. Otelo Augusto Fernandes de Carvalho tornou-se empresário de teatro. Criou a sua própria companhia, e actuou no Salão Foz, em Lisboa. Mas em 1930 foi em tournée para Angola, onde, aos 44 anos, morreu subitamente de um AVC. Deixou em situação económica precária a mulher e três filhos. O mais velho, que sonhava vir a ser oficial da Marinha, foi obrigado, aos 17 anos, a trabalhar para sustentar a mãe e os irmãos. Escreveu a um tio que era inspector superior dos Correios, Telégrafos e Telefones de Lourenço Marques, e ele conseguiu-lhe um emprego como aspirante dos correios.

Nunca recuperou da frustração e foi talvez por isso que quando o filho Otelo quis seguir a carreira dos palcos, como o avô Otelo, se recusou a ajudá-lo ("de mim, não levas um centavo!"), o que levou o jovem actor em potência a optar pela carreira militar, a conselho do avô materno.

Este fora um homem bem-sucedido. Assentou praça como soldado e ofereceu-se como voluntário para a Índia. Foi lá que casou e teve duas filhas. Fez a sua carreira no chamado Exército Ultramarino, foi colocado em Moçambique. Com 16 anos, a filha mais velha conheceu o pai de Otelo, de 21, funcionário dos Correios, casou com ele, em Julho de 1934, e deixou de estudar. Otelo nasceu em Lourenço Marques em 1936, “fruto das andanças do Império”.

Quando, em 1955, terminou o liceu, candidatou-se à Escola do Exército, porque o avô materno o entusiasmou com os valores da vida militar: a coragem, a frontalidade, a camaradagem, a lealdade.

“Filho, escolhe a vida militar, porque vais sentir-te bem. É uma vida disciplinada, mas tu vais adaptar-te. Porque, cá fora, a vida civil é uma selva de competição, de invejas, com cada um a querer passar à frente do outro”, explicou o avô.

Otelo acreditou, e ingressou na vida militar, apesar de, um ano antes, ter chumbado na milícia da Mocidade Portuguesa. “Não possui a mínima vocação militar”, fora a apreciação final.

“Há em mim uma série de contradições imensas”, confessa Otelo. Em alternativa ao teatro, escolheu as Forças Armadas, como meio de libertação. “Eu tive na altura a noção de que só ali poderia fazer alguma coisa para combater o poder. Porque era ali que estavam as armas. E só com armas seria possível fazer alguma coisa.”

O professor preso
Na Escola do Exército, organizou um núcleo de teatro, como já tinha feito no Liceu Salazar, em Lourenço Marques. Foi aluno excelente nas áreas de comando, regular nas disciplinas teóricas.

Numa prova oral de Matemática, o mestre-examinador major Alcides Oliveira chama o aluno Otelo ao estrado. Este, que desde que começou a namorar colocou os livros completamente de lado e já reprovou um ano, faz uma prova miserável.

“Bem, Saraiva de Carvalho, vamos considerar a coisa assim: eu sei que você faz para aí umas imitações, entre as quais a minha. Pois vou conceder-lhe uma última oportunidade. Você vai imitar-me. Se eu gostar da imitação, dou-lhe 10. Se não gostar, você chumba.”

Quando Otelo termina, Alcides Oliveira aplaude. “Está perfeito. Tem 10. Passou.”

Foi com outro professor, o major Augusto Pastor Fernandes, que percebeu que as tentativas dos militares para derrubar o regime já tinham começado.

11 de Março de 1959. Vai realizar-se o jogo de basquete da equipa da Academia Militar (a que Otelo pertence) contra a do Instituto Superior Técnico, a contar para o Campeonato Universitário. Para a manhã seguinte está marcado um teste da disciplina de Tiro de Artilharia e não vai haver tempo para estudar. O jogo, obviamente, é mais importante e Otelo pede ao chefe de curso que telefone ao professor, implorando pelo adiamento do ponto.

Pastor Fernandes atende o telefone.

“Adiar? Com certeza. O ponto fica adiado, obrigatoriamente, sine die. Isto porque, neste momento, estão aqui em minha casa dois agentes da PIDE que me vão levar preso para Caxias, ou para a Trafaria, ainda não sei bem.” Pastor Fernandes, que participou na chamada Intentona da Sé, será “deportado” para Timor, e depois passará à reserva.

“Nós gostávamos muito dele. Era um homem de grande envergadura moral e intelectual. Foi um choque para mim.” No ano anterior, Humberto Delgado fizera a sua campanha e Otelo, aproveitando a boleia, num Citroën 2 cv, de duas francesas amigas da namorada, viajou até Paris. A viagem demorou uma semana, apesar da pressa que Solange e Michelle tinham em chegar, para votarem a favor da autodeterminação da Argélia no referendo organizado por De Gaulle. As conversas versaram quase sempre sobre isso, sobre a democracia dos países europeus e sobre o regime ditatorial português. Otelo sentiu-se humilhado por ser estudante militar num país de regime fascizante.

“Os militares são a principal base de apoio do regime”, diz uma.

“Isso não é bem assim. Nós, os militares, não estamos assim tão submissos ao regime”, responde Otelo.

“Mas como, se vocês são o derradeiro bastião da ditadura?”, argumenta a outra. E Otelo contra-ataca:

“É dentro da instituição militar que eu tenho a possibilidade de derrubar a ditadura.”

“Isso nunca vai acontecer, porque vocês são a última defesa que o regime tem, face a uma insurreição que possa surgir.”

“Não”, insiste Otelo, tentando convencer, ao mesmo tempo, as raparigas e a si próprio. “Eu vou ser militar para derrubar a ditadura.” Três anos depois será enviado para Angola, para defender a pátria dos terroristas.

E é lá que, pela primeira vez, toma contacto com o Portugal autêntico. “As condições terríveis em que vivíamos levavam a criar laços de estreita proximidade com os soldados, que eram gente do povo. Camponeses, operários. Comandando o meu pelotão, tinha, por vezes, de acampar a céu aberto, com uma parelha de combate, um soldado. Estávamos ali a olhar para as estrelas e falávamos da vida.

‘Eu sou trabalhador numa fábrica’

‘Sim? E como é? Quanto ganhas?’

‘Eh pá, a gente ganha muito mal. Mal dá para a família. A minha mulher trabalha nas limpezas e lá vamos conseguindo...’

Uns trabalhavam no campo, de sol a sol, outros tinham de sustentar os pais, eram um mundo de gente miserável, com que eu nunca tinha contactado. Tive pela primeira vez uma perspectiva do que era o povo e da animosidade surda em que ele vivia, em relação ao regime. Os soldados contavam-me que se na fábrica onde trabalhavam faziam um ligeiro protesto contra os salários miseráveis, o patrão telefonava à GNR local, que ia lá obrigá-los a trabalhar à cacetada.

‘Ó meu alferes, vocês é que podiam fazer qualquer coisa em nosso favor... Vocês é que têm as armas’, diziam-me eles. E eu pensava: sim, é verdade, nós temos essa obrigação para com este povo.”

A consciência de que a vida no país era injusta precedeu em vários anos a da própria injustiça da guerra colonial. “Quando fomos enviados para ‘Angola rapidamente e em força’, como disse o Salazar, estávamos convencidos de ir proteger as populações portuguesas indefesas, e restabelecer a paz. Só com o tempo começámos a tomar consciência do que se passava.”

Admiração pelo Velho
Foi um processo lento. Nas reuniões do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas, já em 1973, muitos militares ainda recusavam terminantemente a ideia de pôr fim à guerra. Mas foi ganhando terreno a noção de que era preciso resolver o conflito de outra forma. Até entre alguns oficiais superiores que se notabilizaram pela fidelidade ao regime, como era o caso de António de Spínola.

Como começasse a ver a carreira a fugir-lhe, aos 52 anos, o ambicioso e então ainda tenente-coronel Spínola ofereceu-se como voluntário para comandar um batalhão em Angola. Já não era um jovem, usava monóculo, luvas brancas de pelica, camuflado e pingalim, mas ia para o mato com a sua tropa, dormindo em tendas, atravessando rios a pé, o que lhe valeu um imenso prestígio nas Forças Armadas. Foi nomeado para o conselho de administração da indústria de siderurgia de Champalimaud, o que lhe permitia encomendar, para o seu batalhão, jipes e camiões blindados com chapa de ferro, helicópteros e toda uma panóplia de equipamento com que as outras unidades em África apenas sonhavam.

“Fez uma guerra de luxo, era um grande combatente, foi idolatrado e subiu rapidamente na carreira”, conta Otelo, sem esconder a admiração pelo “Velho”, como era conhecido. Em 1968 já é oficial general na Guiné, e pouco depois governador da província, onde se rodeia de um escol notável de oficiais, como Rafael Durão, Almeida Bruno ou Manuel Monge.

É nessa altura, e por influência desses oficiais, que a sua perspectiva em relação à guerra se altera, até chegar à conclusão de que a solução teria de ser, não militar, mas política. Ele, de quem circulavam lendas de façanhas sanguinárias contra as populações autóctones, toma agora a iniciativa de organizar os congressos da Guiné, uma experiência de democracia directa que Otelo nunca mais esquecerá.

Durante três dias, representantes das tabancas da Guiné (das zonas controladas pelas forças portuguesas, obviamente) vinham a Bissau e reuniam-se numa sala de espectáculos para discutir os problemas das suas regiões. Os oficiais tiravam notas das intervenções dos representantes do povo e depois tomavam as providências necessárias. Alguns dos líderes indígenas, nas suas vestes de cerimónia, imaculadas, louvavam as obras dos militares colonizadores. Mas outros criticavam duramente os abusos e maus-tratos por parte dos administradores locais, sem qualquer receio.

Spínola queria conquistar a confiança das populações, e Otelo ajudou-o, nas funções que desempenhou nas subsecções de Imprensa e Acção Psicológica, e depois como verdadeiro Relações Públicas do general. Produzia e coreografava festas e cerimónias, recebia jornalistas nacionais e estrangeiros. E ainda conseguiu reunir um grupo de teatro e uma banda, com o Fernando Girão, que fez uma tournée à volta da Guiné. Mas foi nessa altura que o Chefe de Estado, Américo Tomás, promulgou o decreto-lei 353/73, o início do rastilho que levaria à revolução.

Segundo o diploma, os oficiais oriundos de milicianos poderiam entrar para o Quadro Permanente, através da frequência de cursos intensivos na Academia Militar. A medida destinava-se a incentivar a entrada para os quadros das Forças Armadas de jovens que provinham de cursos civis, para prover às necessidades da guerra. Mas desagradava aos oficiais do Quadro Permanente, principalmente os capitães, que precisaram de vários anos de estudo na Academia Militar para chegar à sua patente.

Os protestos começaram logo. Na Guiné e no Continente, houve reuniões, abaixo-assinados, manifestos. Mais tarde Marcelo Caetano revogaria o decreto, aumentaria os salários dos capitães, mas o Movimento já estava em marcha e era imparável. 

O regresso à metrópole
A comissão de Otelo na Guiné termina e ele regressa à metrópole, onde é colocado como professor adjunto de Táctica de Artilharia na Academia Militar. Mas mete uma licença, porque tem outros afazeres.

Após uma reunião, em Outubro de 1973, no apartamento do capitão Diniz de Almeida, no Bairro do Rego, o capitão Vasco Lourenço dá boleia a Otelo, cujo carro ainda não chegou da Guiné. Têm um furo, na Avenida de Berna.

“Eu não sei o que é que tu pensas, Vasco, mas ultrapassada esta parte da luta do Movimento dos Capitães, que praticamente já ganhámos, acho que podemos ir muito mais longe, e criarmos condições para derrubarmos o Governo. Que é que tu achas?”, diz Otelo, enquanto mudam o pneu.

“Eu penso exactamente como tu”, responde Vasco Lourenço.

“Então vamos para a frente. Mas com calma, para não chocar os camaradas.”

Numa das últimas reuniões ainda na Guiné, a 25 de Agosto, na sala do Agrupamento de Transmissões, para aprovar um documento de protesto contra o decreto, um capitão engenheiro, Jorge Golias, toma a palavra e declara, exaltado:

“Estamos a perder demasiado tempo a pensar e discutir sobre o conteúdo do documento, quando devíamos era preparar-nos para a revolução armada, pois o que interessa é abater o regime, e isso só se consegue à porrada.”

É o pânico na sala, e a maior parte dos participantes quer abandonar a reunião.

“Não, nisso eu não alinho”, dizem. E o Golias, isolado, acaba por calar-se.

Sábado, 24 de Novembro de 1973. A reunião realiza-se num armazém nas traseiras da Colónia Balnear Infantil de O Século, em São Pedro do Estoril. Estão presentes os elementos das comissões coordenadora e consultiva e oficiais de patente mais elevada. Ao todo, 80 camaradas. O objectivo é a eleição de uma Comissão Coordenadora efectiva, que represente o Movimento. Quando ninguém espera, o tenente-coronel Luís Banazol faz um discurso, com voz rouca: “A única via possível para a reconquista do prestígio há muito perdido pelas Forças Armadas é o derrube pela força do Governo marcelista através de um golpe militar e o fim da ignominiosa guerra colonial...”

Burburinho na sala.

“Meus senhores, sejamos realistas!”, grita o major Vítor Alves. E acaba por se aprovar a continuidade da guerra, exigindo embora melhor armamento.

“Naquele momento, o nosso objectivo já era o derrube do Governo”, explica Otelo. “Mas precisávamos de generais, para constituirmos um directório militar que assumisse o poder depois da queda do Governo, credibilizando a revolução. Não vamos aparecer, nós os capitães, e dizer: o poder é nosso.”

Em Janeiro, Spínola, regressado da Guiné, é nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Otelo e Vasco Lourenço vão falar com ele. Informam-no de que o Movimento o elegeu, juntamente com Costa Gomes (os dois generais mais prestigiados do país), para constituírem o directório militar pós-revolução.

“Ok, tomo conhecimento e fico à espera”, diz Spínola. “Mas tomem cuidado.”

Em Fevereiro, Spínola tem pronto o livro que anda há meses a escrever, Portugal e o Futuro, em que advoga uma solução política para o problema das colónias. Otelo vai a descer a Rua do Telhal e um Mercedes pára no semáforo vermelho. Uma buzinadela fá-lo voltar-se. Vê o vidro traseiro abrir-se e uma luva de pelica a chamá-lo.

“Olá Otelo, está bom?”, diz Spínola. “Quer saber de uma coisa? O Marcelo Caetano não me deixa publicar o meu livro.”

“Ó meu general, mas o livro que está a escrever não é sobre a política colonial?”, pergunta Otelo.

“É esse mesmo. O Marcelo não mo deixa publicar. Entreguei-lhe um exemplar e ele diz que não posso publicar, porque advoga uma política completamente oposta à do Governo.”

“E qual é a posição do general Costa Gomes?”

“O Chico está comigo. Já deu luz verde para a publicação. O Marcelo é que diz que se demite se eu publicar.”

“Ó meu general, mas é isso mesmo que nós queremos. Se o livro provocar a demissão do Governo, óptimo. Meu general, publique o livro, mesmo contrariando o Marcelo Caetano. Nós apoiamos”, diz Otelo, assumindo já, individualmente, as decisões fundamentais do Movimento.

“Vocês estão comigo? Apoiam?”

“É evidente meu general.”

Dias depois, Portugal e o Futuro está nas livrarias. Vende 100 mil exemplares numa semana. Marcelo cumpre o prometido e apresenta a demissão a Américo Tomás, mas este não a aceita. Antes ordena a Marcelo que exonere Spínola e Costa Gomes. Para haver um pretexto para o fazer, organiza-se a chamada Brigada do Reumático. Chefes militares, comandantes das forças militarizadas, da Legião Portuguesa e da PIDE, em conjunto com os ministros, vão ao Palácio de S. Bento, a 14 de Março, manifestar a sua lealdade a Marcelo.

Três dias antes, Otelo recebe um telefonema do ajudante de campo de Spínola, António Ramos, que, muito nervoso, o convida para almoçar.

“O nosso general está numa posição tramada”, começa ele. “Já viste, está anunciada esta manifestação de generais...”

“Pois está, mas eles não representam nada”, diz Otelo.

“Pois, mas eles vão apresentar a sua fidelidade ao Marcelo e pedir a continuidade da guerra, e o nosso general e o general Costa Gomes vão ser exonerados.”

“Pois, isto não deu o resultado que esperávamos. Mas qual é a alternativa? O nosso general propõe alguma coisa?”

“O nosso general propõe que os oficiais do Movimento se fardem com o uniforme número 1, com faixa, espada, luvas brancas e condecorações, e vão para a frente do Ministério do Exército exigir que não se realize a manifestação dos generais e que o ministro se demita.”

Otelo não concorda. “Diz ao general que nós não vamos fazer nada disso. Não estás a ver os oficiais do Movimento, que têm estado em semiclandestinidade, a aparecerem em frente ao ministério numa manifestação. A PIDE iria tirar fotografias de todo o pessoal, e o Movimento morre.”

Dia 16
Entretanto regressam da Guiné o Manuel Monge e o Casanova Ferreira, que tinha sido instrutor da maior parte dos actuais capitães do Movimento.

Otelo põe-os a par da proposta de Spínola. Casanova responde logo:

“Nem pensar nisso. O nosso general está louco. Não é ele que nos vai dizer o que fazer. Consegues marcar uma reunião com os militares das escolas práticas, que são as unidades mais fortes? Eu tenho uma vivenda em Algueirão, marca a reunião para lá.”

Otelo convocou tenentes e capitães das escolas práticas e a comissão executiva do Movimento.

“Eh pá, vamos fazer uma acção, rapidamente, para evitar a Brigada do Reumático”, diz Casanova na reunião. E todos aplaudem. À tarde, numa outra reunião mais restrita, Casanova apresenta uma Ordem de Operações, que traz esboçada num papelinho: “A acção começa com o lançamento, por via aérea, de uma bomba de 250 quilos na Assembleia Nacional”, diz ele.

“Eh pá, ó Casanova, aí é que estamos tramados”, responde Otelo. “A Força Aérea não está connosco, e nem sei se há em paiol bombas de 250 quilos.”

“Eh pá, mas isso é que era giro, rebentar com aquilo tudo. Mas não faz mal. Aqui está a ordem de operações.” E começa a distribuir papelinhos com as várias funções. A Escola Prática de Cavalaria manda uma coluna para Lisboa e fica na rotunda da Encarnação à espera de ordens. Vem uma bateria de Cavalaria da Escola Prática de Vendas Novas. Uma coluna motorizada com morteiros de Mafra.

Otelo tenta objectar: “Eh pá, ó Casanova, mas isso não é uma operação militar com pés e cabeça...”

“Isto cai logo pá. Isto está podre.”

“Olha que é capaz de não ser bem assim. Mas está bem. O que determinas que eu faça?”

“Vais amanhã de manhã à Escola Prática de Cavalaria, que é a mais renitente, e convences a malta a sair para a rua, na noite de 13 para 14.”

Dia 13 de manhã, Otelo parte para Santarém. Mal acaba de ler a descrição da missão, levanta-se um capitão, homem respeitador da hierarquia: “Meu major, desculpe, essa ordem de operações vem assinada pelo nosso general Spínola?”

“Não. Ele nem sonha que estamos a fazer isto.”

“Então nós não alinhamos nessa aventura.”

“Ok, mas posso falar com os pára-quedistas?”

“Sim, vou chamar um representante deles a Tancos.”

Otelo reúne-se com três pára-quedistas no seu carro. Convoca-os para uma reunião no Dafundo, às 6 da tarde. Aí, o representante dos pára-quedistas recusa-se a colaborar na operação, mas promete elaborar um plano no prazo de dez dias (o que nunca fará).

“Vocês são quantos?”, pergunta o Casanova.

“Uma força de 800 homens, perfeitamente disciplinada.”

“Óptimo. Com isso já se faz uma revolução. Esperamos então pela vossa Ordem de Operações”, diz o Casanova aos oficiais presentes, entre os quais alguns da Escola Prática das Caldas da Rainha. “Ficam portanto canceladas todas as acções para amanhã.”

Nesse mesmo dia, todos assistem pela televisão ao espectáculo da Brigada do Reumático. No dia seguinte, é anunciada a exoneração de Spínola e Costa Gomes. Otelo e Casanova decidem passar em Miraflores, por casa do Manuel Monge, spinolista convicto, para o consolar. Quando estão lá, tocam à campainha. É um capitão, Marques Ramos, que diz estar em contacto com as Caldas da Rainha.

“Tenho notícia de que aquilo nas Caldas está em polvorosa. A malta parece disposta a pegar em armas e a vir por aí abaixo.”

“Eh pá, não vamos cometer nenhuma loucura”, diz Otelo. “As acções estão canceladas.”

Toca o telefone. É o capitão Manuel Ferreira da Silva, colocado no Centro de Instrução de Operações Especiais de Lamego.

“Lamego está em pé de guerra. Está a organizar uma coluna e vai marchar sobre Lisboa”, diz o Ferreira da Silva. E acrescenta que já contactaram Viseu para fazerem o mesmo. O Monge fica fora de si:

“Eh pá, Ferreira da Silva, ganda Manel, pá, tu nunca me enganaste! É assim mesmo, vamos embora! Tá a andar!” Pousa o telefone e diz: “Lamego vai sair!”

Agora é o Casanova que fica eufórico. “Ainda tens aí o papelinho das operações?”, vira-se para Otelo. “Dá cá isso. Telefona já para Vendas Novas. Manda vir de lá uma bateria de artilharia. Vais a Mafra e trazes de lá uma coluna de infantaria, com morteiros e essa coisa toda. Eu vou a Santarém e trago uma coluna de blindados. Monge, tu ficas aqui agarrado ao telefone, para receberes as comunicações. Marques Ramos, vai já para as Caldas, diz ao pessoal para se preparar para avançar para Lisboa.”

“Isto vai dar um buraco desgraçado”, ainda resmunga Otelo.

“Não vai nada. Quatro ou cinco colunas nas estradas e o Governo cai já.”

Otelo telefona para Vendas Novas e atende o cantor Duarte Mendes.

“Meu major, anteontem disse que estava tudo cancelado, a malta foi toda de fim-de-semana. Só aqui estou eu e os sentinelas. É impossível mandar uma bateria para Lisboa.”

Segunda missão: Mafra. Otelo chega lá às 3 da manhã, sob um nevoeiro cerrado. A resposta é a mesma: está tudo de fim-de-semana.

Regressa a Miraflores. O Monge deve saber o que se passa. Quando chega, às 5h30 da manhã, um carro estaciona 50 metros à sua frente. As portas abrem-se e saem cinco homens de gabardina e chapéu, apontando para o andar do Monge. É a PIDE. Otelo acelera o Morris 1100. Ruma à rotunda da Encarnação, para onde, segundo a Ordem de Operações, a coluna das Caldas se deveria dirigir, para esperar instruções. Telefona para casa do Monge e atende a mulher a chorar. A PIDE esteve lá. Revistaram tudo. Mas o Monge já tinha saído, não sabe para onde.

São 6h30 da manhã. Otelo caminha pela rotunda da Encarnação, que está vazia, sob o nevoeiro. O silêncio só é cortado pelo walkie-talkie de um pide, de pé junto à porta aberta de um Ford Capri bordeaux com capota negra.

Otelo não sabe que o Monge, quando o Casanova chega de Santarém também sem a missão cumprida, vai com ele a casa de Spínola, tentando convencê-lo a assumir a liderança da revolução. Sem êxito. O general, respeitador da hierarquia, diz que nunca poderá pegar em armas contra o seu Governo. A seguir, Casanova e Monge correm na direcção das Caldas. Encontram a coluna às 4 da manhã, já perto de Lisboa, e fazem-na dar meia volta. Assumem a sua liderança e entrincheiram-se no RI5 das Caldas da Rainha, até serem cercados e presos.

Otelo não sabe nada disto. Ignora se a coluna revoltosa das Caldas vai entrar na rotunda.

Mas as forças do regime, essas, chegam em força, de repente e com apavorado espalhafato. De boina e uniforme negro, armados até aos dentes, surge o corpo de intervenção da Legião Portuguesa. A seguir, a GNR, Regimento de Cavalaria 7, com autometralhadoras Panhard, Batalhão de Caçadores 5, blindados M 47, jipes e Berliets. Uma multidão de soldados, polícias, pides, alguns dos quais muito jovens, de cabelo comprido, hippies que Otelo nunca imaginou que a polícia política pudesse ter ao seu serviço. Ouvem-se os walkie-talkies, os apitos da PSP tentando controlar os veículos que parecem cruzar a praça de forma completamente descoordenada.

“Então é isto!”, pensa Otelo.

“Então era aquilo a força de reacção do regime! Eles têm conhecimento de que uma coluna militar vem pela estrada fora a caminho de Lisboa, desde as Caldas da Rainha, e aquele dispositivo todo era por causa disso.”

“Se os gajos ficam todos em palpos de aranha por uma coluna que vem aí, se forem cinco colunas, em vários pontos do país, não terão capacidade de reagir.”

E nessa madrugada de 16 de Março, estoirado, cheio de sono, mas de súbito iluminado por uma compulsiva evidência, Otelo planeou o 25 de Abril. 

Otelo sozinho
A seguir à tentativa de golpe, 23 camaradas foram presos, o que, a acrescer ao facto de Vasco Lourenço ter sido colocado nos Açores, deixava Otelo sozinho na direcção do Movimento. Além disso, não se sabia o que poderia acontecer aos detidos. “Talvez fossem parar a um Tarrafal qualquer.” E nessa altura, sentindo-se sacrificados e abandonados pelo movimento, era provável que começassem a denunciar os companheiros.

“Eu tenho enormes responsabilidades, agora. Fundamentalmente, chegámos a um ponto crítico, em que é preciso actuar”, disse Otelo numa reunião em Oeiras. E começou a planear tudo, sozinho. Era como se a revolução estivesse à espera de ser feita, mas precisasse, ainda assim, de alguém que a fizesse.

“Sem a tentativa das Caldas, o golpe poderia ter ficado adiado eternamente. Mas agora era preciso agir rapidamente.” Dia 18, encontrou-se com Melo Antunes num café da Praça de Londres. Dissuadiu-o de abandonar o Movimento, como ele queria, e encomendou-lhe um programa político para o Movimento das Forças Armadas.

“Eu vou fazer uma operação militar, elaborar uma Ordem de Operações, à minha responsabilidade”, disse Otelo. “O Vítor Alves vai constituir o grupo político e tu o programa.”

O golpe teria de ser feito na última semana do mês, para aproveitar o facto de a PIDE estar ocupada a prender os agitadores políticos do PCP e do MRPP que enchiam as paredes de graffiti no 1.º de Maio.

Em três semanas, Otelo preparou tudo. Sozinho? “Sim, foi um trabalho solitário. Elaborei uma ordem de operações, sem ajuda de ninguém. Eu sabia quais eram as unidades com que podia contar. E essas eram suficientes. Só não conhecia as forças inimigas. A GNR, a PIDE, a Legião. Esse era o grande problema. Foi o maior risco que tive de correr.”

Como obter as informações? Lembrou-se de que tinha um primo que era comandante da GNR, no quartel do Carmo. E que um antigo colega, o Rosa Garoupa, estava colocado no Estado-Maior do Exército. Nenhum deles era simpatizante do Movimento. Mas tinha de arriscar.

“Eh, Fernando. Aqui é o Otelo. Gostava imenso de te ver, pá”, cumprimentou, pelo telefone, o primo, que não via há anos. Foi a sua casa em Alfragide e disse-lhe: “Fernando, é o seguinte: eu vou fazer uma operação militar, uma revolução, e preciso da tua ajuda.”

“Eh pá, estás a brincar comigo.”

“Não, é a sério, pá. E vou confiar totalmente em ti. Eu preciso de saber informações sobre a GNR. Efectivos, armamento, viaturas, patrulhas, que postos de observação têm, que objectivos têm em Lisboa para defender, etc. Tens de me dar isso tudo, pá, e não me vais denunciar.”

“Eu não posso fazer isso...”

“Podes, e vais fazer, a bem da nação. Rapidamente.”

Alguns dias depois, o primo telefonou.

“Já tenho tudo.”

A mesma coisa com o Rosa Garoupa. “Eh pá, há quantos anos a gente não se vê...”

“Eh pá, estás bom? Dá cá um abraço. Senta aí, queres tomar alguma coisa? Então que contas?”

“Eh pá, vou fazer uma revolução e preciso da tua ajuda.”

“Estás a gozar, pá.”

“Eu explico: preciso de elementos sobre a Legião, a PIDE, a polícia. É isso que eu te peço.”

E, tal como o primo da GNR, não demorou a reunir toda a informação. Por que o fizeram? “Por camaradagem, lealdade militar. Não por afinidade ideológica.”

Faltava a prisão de Caxias. “Fui lá fazer um reconhecimento com o meu carrito, mas não podia demorar, para não levantar suspeitas. Havia um grande portão verde, e eu pensei: como uma bazucada, deito isto abaixo. A tropa entra por aqui, tomamos isto de surpresa. Mas o que está para lá do portão? Pode haver uma fogachada, a GNR dá para aqui uns tiros, pode morrer alguém, é uma chatice. Então lembrei-me de telefonar ao Silva Graça, que esteve preso.”

O militante do PCP estivera preso, embora não em Caxias. Mas contactou um companheiro que, desgraçadamente, conhecia bem o forte por dentro e que, dias depois, enviou um croquis. Só depois do 25 de Abril Otelo soube que se tratava de Jorge Sampaio.

No dia 15 de Abril, a Ordem de Operações estava pronta. O anexo de transmissões, encomendado a Amadeu Garcia dos Santos, ficou concluído pouco depois. Uma linha telefónica directa foi montada da Escola Prática de Transmissões até ao Posto de Comando, instalado no regimento de Engenharia da Pontinha. Otelo combinou com jornalistas do Rádio Clube Português e da Renascença as canções-senha que dariam o sinal para o início das operações. Entre 16 e 19 de Abril, distribuiu as missões aos líderes das várias unidades.

Oeiras, na casa de Otelo. “Vou fazer-te a leitura da Ordem de Operações. Tu vais ouvir com atenção, sem tirar notas. No fim, fazes as perguntas que quiseres”, diz Otelo ao capitão Salgueiro Maia, que comandará a força da Escola Prática de Santarém.

“Ok. Estou a ouvir-te.”

Otelo explica a manobra, a situação, as forças amigas e inimigas, a logística, as transmissões, as rações de combate, tudo. “Então, Salgueiro? Tens perguntas?”

“Duas. Primeira: temos base de sustentação política, para o caso de sermos bem-sucedidos na operação militar?”

“Temos, sim senhor. O Vítor Alves formou o grupo político e o Melo Antunes deu-nos as bases programáticas.”

“Segunda pergunta: temos generais no posto de comando?” Otelo pensou rapidamente: se lhe digo que não, ele, respeitador da hierarquia como é, recusa-se a entrar na operação. Mentiu:

“Temos, sim senhor. É evidente. Generais não faltam.”

E Salgueiro Maia só vem a saber que Spínola e Costa Gomes não estão no posto de comando pela boca do próprio Marcelo Caetano, momentos antes de se render.


Foto ADRIANO MIRANDA

Quartel do Carmo, 25 de Abril. Cumprindo ordens de “Óscar”, o nome de código de Otelo no posto de comando, as forças de Salgueiro Maia, vindas do Terreiro do Paço, cercam o edifício, onde se refugiou o presidente do Conselho. Salgueiro é levado até ele.

“Entre, sr. Capitão”, diz Marcelo. Salgueiro Maia faz continência e fica parado no meio da sala. Marcelo continua:

“Pode informar-me do que pretende?”

“Recebi ordens do posto de comando do Movimento para formular um ultimato. Ou V. Excia. se entrega, ou terei de mandar arrasar o quartel a tiros de armas pesadas.”

“E quem comanda o Movimento?”

“O general Spínola!”

“O quê? É o general Spínola que está no posto de comando? Olhe que não é. Acabo de falar ao telefone com o general Spínola. Ele está em casa e diz que não chefia a revolução. Mas pedi-lhe para vir cá, para eu lhe entregar o poder.”

Salgueiro Maia fica estarrecido. Depois de garantir a Marcelo que nunca pegaria em armas contra o seu Governo, Spínola telefonou para o posto de comando.

“Acaba de me ligar o presidente do Conselho, pedindo que eu vá ao Carmo receber o poder. Eu disse-lhe que não tinha nada a ver com o Movimento, mas poderia contactá-lo. Qual é a sua ideia, Otelo? Vai lá você, ou aceita que vá eu?”

“Meu general, considere-se mandatado pelo Movimento das Forças Armadas para ir ao Quartel do Carmo receber o poder das mãos do presidente do Conselho.”

Spínola partiu. Marcelo rendeu-se-lhe e foi entregue a Salgueiro Maia, que o levou numa chaimite até ao posto de comando. Daí, seria transportado num DC-6 para o Funchal, e depois para o Brasil. Quando chegou à Pontinha, Spínola abriu um sorriso que nunca ninguém lhe vira. “Olha o Otelo!”, disse o “Velho”. “Dê cá um abraço, homem! Isto foi uma coisa extraordinária!” Logo a seguir, assumia a presidência da Junta de Salvação Nacional, e depois a Presidência da República. Otelo voltou para casa.

“No dia 28 apresentei-me na Academia Militar, como se nada tivesse acontecido.” Pensou que a sua missão estava concluída. Mas mal tinha começado.

O chefe da revolução
A Junta anunciou o Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA), formaram-se os primeiros governos provisórios, libertaram-se os presos políticos, regressaram os exilados, surgiram os partidos. O golpe transformou-se em Revolução, o poder caiu realmente na rua, e três meses depois de Abril foi criado o Comando Operacional do Continente (Copcon). Tinha sob o seu mando nada menos que todas as forças regulares do país e também todas as forças especiais. Foi criado para reagir a uma eventual reacção dos fascistas, mas, na prática, o Copcon tinha poder absoluto. Para o liderar, o chefe da revolução: Otelo.

“Confinado à missão puramente militar que lhe foi atribuída, o Copcon teria levado uma vida tranquilíssima”, admite ele. Mas não foi o caso. “Começaram a aparecer no Copcon os problemas mais diversos e mais disparatados, trazidos por gente que não tinha nada a ver com militares, gente pobre, trabalhadores, camponeses, que não sabiam a quem se dirigir”, conta Otelo.

As estruturas existentes foram destruídas, era preciso reinventar tudo, e as pessoas colocadas nas várias funções de poder não tomavam decisões, por incompetência, ou puro medo de um reviralho. Esta é a explicação de Otelo. Desorientados, mandavam todos para o Copcon. “O Otelo que resolva”, diziam. “Ele é que fez a revolução.”

Quando, por exemplo, a administração de uma empresa desaparecia, os trabalhadores iam ao Copcon perguntar o que fazer. Quem não tinha casa ia ao Copcon, quem não tinha trabalho ia ao Copcon.

“Fiquei numa situação difícil. Das duas uma: ou corria com toda aquela gente, mandando o sentinela dar uns tiros para o ar, para os afugentar, ou tinha de resolver os problemas”, explica Otelo. E eram cada vez mais pessoas. E queriam ser recebidas pelo Otelo, pessoalmente. Prometeram-lhes a revolução, e o Otelo era a revolução. Ninguém previra que isto ia acontecer. “Fizemos o 25 de Abril para termos uma democracia burguesa, não isto”, diz Otelo. Mas agora uma força colossal, incontrolável, tinha-se soltado no país. Desconhecida e imprevisível. Ninguém a queria ou conseguia segurar. Otelo ficou sozinho com a revolução nas mãos.

“Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões.” Passou a receber as pessoas numa sala.

“Vamos lá a ver isso. Os patrões fugiram? Muito bem. Vocês têm matéria-prima?”

“Sim, está lá no armazém. Mas agora quem é que nos diz o que temos de fazer?”

“Eh pá, quem é o mais antigo na fábrica? Ficas chefe da comissão de trabalhadores. Continuem a trabalhar. Vamos depois tentar vender os produtos que fabricarem.”

Para acompanhar as situações, Otelo nomeava um capitão, que supervisionava cada caso. Mas começaram a surgir outros problemas. O programa do MFA dizia que todos têm direito a uma casa.

“Sim, senhor, vamos resolver isso.” Otelo chama um capitão da Força Aérea. “Tu ficas encarregado desta questão da ocupação de casas. O princípio é este: estes camaradas vêm dizer que há uma batelada de andares vagos ali perto do Casal Ventoso. Vamos ocupá-los, mas com disciplina. Nomeias uma comissão, para coordenar as ocupações. É preciso fazer um levantamento dos andares e ver quais são as famílias mais necessitadas.”

Depois, a partir de Fevereiro de 1975, vieram as ocupações de terras, no Alentejo. Um grupo de trabalhadores vai dizer a Otelo que ouviu falar de uma reforma agrária. Não sabem bem o que isso é, mas sabem que, em consequência dos rumores e dos graffiti a dizer “a terra a quem a trabalha”, os latifundiários já começaram a fugir para o estrangeiro, e a levar com eles o gado, as máquinas e as alfaias agrícolas.

“Quando as terras chegarem a ser distribuídas, não teremos nada para as podermos trabalhar”, explicam os camponeses.

“Bem, para já, ocupem as terras”, diz Otelo. “E não deixem sair nem mais uma cabeça de gado.”

“Já podíamos ter feito isso. Mas não temos armas.”

“Vocês não têm caçadeiras?”

“Temos, mas a GNR vai lá expulsar-nos, com metralhadoras G3.”

“Bom, amanhã às 9 da manhã tenho um briefing com o capitão que comanda a GNR, e vou-lhe dar ordem para, a partir de amanhã, não actuar contra as ocupações de terras no Alentejo. Portanto vocês vão para lá, com as caçadeiras, defendam a terra e não deixem sair mais nada.”

Em pouco mais de um mês, um milhão e 200 mil hectares de terras foram ocupados no Alentejo, por vezes com a ajuda de soldados armados do Copcon. O Partido Comunista, que estava bem implantado na região, assumiu depois a organização da Reforma Agrária, criando unidades colectivas de produção. Mas quem possibilitou as ocupações de terras foi Otelo.

“Cá está mais um caso em que alguém tinha de tomar uma atitude. O ministro da Agricultura dizia: calma, está em preparação uma reforma agrária. Mas era preciso agir rapidamente.

Assumindo um verdadeiro poder paralelo, o Copcon dirigiu de facto uma revolução socialista. De forma tão precipitada e unilateral, que acabou por dividir rapidamente o país em dois.

“Eu agi em benefício de gente que nunca tinha tido nada, e que, entusiasmada com as promessas do MFA, começava a exigir condições de vida básicas. Mas isso criou contra mim ódios terríveis”, admite Otelo. “E contribuiu largamente para a bipolarização do país. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Hoje reconheço que não havia condições para dar esse salto enorme. Precisávamos da ajuda dos países ocidentais, e a solução socialista não era possível. Se me tivessem explicado essa realidade, eu teria agido de forma diferente. Mas na altura, com toda a minha inexperiência política, não vi outra alternativa. E também ninguém me apresentou nenhuma.” 

As prisões
A 25 de Novembro de 1975, o país estava à beira da guerra civil. Uma tentativa de golpe dos esquerdistas, cuja ponta visível foi a ocupação das bases aéreas por parte das forças pára-quedistas, foi o pretexto para o golpe dos moderados, chefiados por Ramalho Eanes. Mas, dizem os historiadores, quem deu a ordem fatal aos “páras” foi o próprio Otelo, ou alguém por ele. O comandante do Copcon diz que não, embora tenha confessado que sim a Vasco Lourenço, alegadamente para ilibar os seus subordinados, que tinham sido presos. Por causa dessa confissão, foi ele próprio preso, por 44 dias. “Eh pá, a minha candura e ingenuidade têm-me feito enfiar cada barrete, pá.”

Pouco depois de ser libertado participou num comício na Aula Magna, em Lisboa. À saída, um grupo de apoiantes abordou-o pedindo-lhe que se candidatasse à Presidência da República. Apesar de não ser apoiado por nenhum grande partido, obteria 18 por cento dos votos nas eleições de 1976.

Essa força, que representava um projecto de poder popular, de democracia directa, sem partidos, que Otelo defendia desde 1975, acabou por implodir. Mas, segundo Otelo, foi o pretexto para a criação, entre 1978 e 1979, de um movimento designado por Projecto Global, que incluía uma face legal e duas clandestinas, armadas. O objectivo era ambíguo: defender o país de um eventual regresso do fascismo, ou usurpar o poder burguês por via violenta. Essa ambiguidade levaria Otelo de novo à prisão, condenado por chefiar as FP-25, um grupo extremista que cometeu vários crimes nos anos 80 e que, segundo o tribunal de Monsanto, não era mais do que uma das secções do Projecto Global.

Otelo cumpriu cinco anos. O país não conseguia manter preso o homem que lhe ofereceu a liberdade, e que, afinal, diz que “foi o 25 de Novembro que restituiu ao país a pureza dos ideais do 25 de Abril”.

https://www.publico.pt/2009/04/24/sociedade/noticia/se-isto-nao-e-um-heroi-1376370

Manuel Loff - Otelo

OPINIÃO

* Manuel Loff
27 de Julho de 2021, 0:15
 
“Há em mim uma série de contradições imensas”, confessou há anos a Paulo Moura, que dele fez a sua última biografia (Otelo, o revolucionário, 2012). Tinha toda a razão. Tal é seguramente verdade com a maior parte de nós, mas a biografia de Otelo Saraiva de Carvalho é feita de muitas.

A primeira delas é apenas aparente mas é a que fez com que tivéssemos uma dívida de gratidão para com ele. A de, sem antecedente algum que possa ser descrito como democrático ou rebelde, se ter transformado num protagonista central do MFA que, coletivamente, organizou o 25 de Abril de 1974 mas que entregou a Otelo em particular a preparação do plano de operações. Participar num movimento de jovens oficiais rapidamente transformado em conspiração para, ao fim de doze anos de guerra colonial, derrubar uma ditadura que, ao fim de 47 anos, lhes devia parecer confundir-se com a identidade do seu próprio país, não foi, de forma nenhuma, pouca coisa. Naqueles meses de preparação do 25 de Abril, Otelo conquistou um lugar na História e na nossa memória coletiva, e é isso mesmo que lhe reconhecem hoje todos quantos, com mais ou menos reservas ao seu percurso posterior, sabem bem como esse momento foi decisivo nas vidas dos portugueses e dos povos sujeitos ao nosso domínio colonial.

Nada havia no percurso biográfico anterior de Otelo que o fadasse para, aos 36 anos, romper a hierarquia castrense, montar a única conspiração que conseguiu derrubar a ditadura e que se viesse a transformar no revolucionário que nele reconheceram muitos portugueses. O mesmo, aliás, se pode dizer da grande maioria dos capitães de Abril, o que torna ainda mais admirável o ato de rebeldia deles todos: formados no seio de umas Forças Armadas intrinsecamente reacionárias às grandes mudanças do séc. XX, garantes da ditadura que elas próprias instauraram e do império colonial que preenchia o imaginário da instituição, estes oficiais constituíram-se como rebeldes e, contra as ordens dos seus superiores, acabaram com o regime para acabar com a guerra em que eles próprios tinham combatido durante mais de uma década.


Outra contradição é, afinal, uma das características centrais do processo revolucionário português – aliás, de qualquer processo intenso de mudança, que tende a fazer com que os atores políticos e sociais procurem não perder o pé. O jovem capitão que manteve sempre admiração por Spínola (como confessou a Paulo Moura, PÚBLICO, 24.4.2009) começou por ser tido como um spinolista, para, depois do 28 de Setembro, passar a autodefinir-se como social-democrata, como lembra Sánchez Cervelló; é só depois do 11 de Março que Otelo passa a ser aquilo que a maior parte de nós se lembra: o comandante do COPCON por ele descrito como “vanguarda e braço armado do MFA”, o homem que julgava que “se tivesse mais cultura política seria o Fidel Castro da Europa”, o candidato presidencial que, no verão de 1976, galvanizou a maioria do povo de esquerda que queria a revancha do 25 de Novembro, apesar de este não ter, longe disso, impedido o avanço da Reforma Agrária e a consagração constitucional de muitas das conquistas de Abril.

Pelo meio, depois de ser o comandante militar com mais poder em Portugal, permanentemente enfrentado com Vasco Gonçalves e com o PCP, referência da maioria das correntes da extrema-esquerda, sem, contudo, queimar as pontes com os moderados do Grupo dos 9, foi preso por ordem das Forças Armadas dos tempos de Eanes duas vezes, em 1976 e outra em 1977. Todo aquele capital político esfumou-se em pouco tempo. Nos anos seguintes, desde a criação da FUP e o desastre da sua segunda campanha presidencial (1980) ao seu envolvimento na concretização do Projeto Global que, em 1975, havia sido concebido por militantes do PRP-BR, sob a forma das FP-25 – processo no qual ele sempre rejeitou qualquer participação –, a biografia de Otelo está marcada pela irrelevância política, o esmagamento policial e judicial e a batalha pela sua reabilitação.

Os últimos 25 anos de Otelo são feitos de bonomia, da sua habitual loquacidade, da surpreendente reconciliação com a maioria dos camaradas de armas com que havia rompido em 1975-76, a inesperada exposição pública da sua vida privada. E, creio, também pela confirmação de muita da sua inconsistência quando, por exemplo, disse a Paulo Moura que, afinal, “foi o 25 de Novembro que restituiu ao país a pureza dos ideais do 25 de Abril”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Historiador

https://www.publico.pt/2021/07/27/opiniao/opiniao/otelo-1971917

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Florbela Sebastião e Silva - Sobre a ditadura sanitária


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Florbela Sebastião e Silva [*]

APOCALIPSE I (28 de Julho de 2021)  (palavra grega para REVELAÇÃO)

Tenho vindo a assistir a um atropelo, sem paralelo, neste País, quer da Constituição da República Portuguesa, que ainda está em vigor, quer dos direitos humanos absolutamente fundamentais para qualquer sociedade que se preze poder progredir e desenvolver toda a sua plenitude, quer a nível intelectual, quer a nível físico e moral.

Já não bastava o facto dos direitos fundamentais, as liberdades e as garantias expressamente consagrados na Constituição da República Portuguesa (CRP) terem sido alvo de forte ataque nestes últimos meses, com medidas legislativas que não só violam, em termos da sua estrutura, ou seja, em termos orgânicos, a CRP, porque o Governo não pode através de uma Resolução de Conselho de Ministros, nem mesmo através de um Decreto-Lei produzir normas que limitam, suspendem ou eliminam os direitos, liberdades e garantias, como violam materialmente a CRP, ou seja, violam o seu coração e razão de ser ao incidir directamente sobre normas que, nem mesmo em sede de um Estado de Emergência, alguma vez poderiam ser atacadas.

Refiro-me, por exemplo, ao disposto no artº 13º nº 1 subordinado ao princípio da igualdade que diz claramente que:
"Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei."

Refiro-me, ainda, ao disposto no artº 16º da CRP que dispõe que:
"Os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem."

Declaração essa que diz, no seu Artº 7º que:
"Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação."

Ou ainda no disposto no artº 24º da CRP que expressamente determina que:
"A vida humana é inviolável."

Ou no disposto no artº 25º da CRP que diz que:
"A integridade moral e física das pessoas é inviolável."

E, por fim, no artº 26º da CRP que determina, entre outras coisas, que:
"A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação."

Eis senão quando, após uma reunião – que ao que tudo indica não está documentada em acta e foi realizada à porta fechada – com a Infarmed, anunciam-se ainda mais limitações aos já muito debilitados direitos dos cidadãos.

Pasme-se, por uma entidade que, no seu próprio site, define o seu raio de actuação da seguinte maneira:
"O Infarmed é a autoridade competente do Ministério da Saúde, com atribuições nos domínios da avaliação, autorização, disciplina, inspecção e controlo de produção, distribuição, comercialização e utilização de medicamentos de uso humano, incluindo os medicamentos à base de plantas e homeopáticos, e de produtos de saúde (que incluem produtos cosméticos e de higiene corporal, dispositivos médicos e dispositivos médicos para diagnóstico in vitro) em Portugal."

Eu pergunto com que legitimidade a Infarmed pode aconselhar, sugerir ou até mesmo sussurrar aos nossos governantes que quem não tiver o certificado sanitário, que obriga à toma de duas doses da vacina covid, não poderá ir a um supermercado comprar comida para a sua própria sobrevivência e a dos seus filhos?

Desde quando é que uma doença – ainda que contagiosa – pode impedir o acesso das pessoas a bens essenciais?

E desde quando é que o Infarmed tem o direito de vaticinar o que as pessoas podem e não podem fazer?

Já o disse e volto a dizer, em termos legais, quer na nossa legislação, quer na internacional, a administração de uma vacina é um acto médico que tem de ser consentido, sendo que todas as pessoas têm o inalienável direito de decidir – especialmente quando o que está em causa é uma "vacina" experimental que provoca alterações genéticas e que ainda não se mostra testada em toda a sua plenitude – se querem ou não ser vacinadas.

Há, inclusive, uma Resolução, com nº 2383, do Parlamento do Conselho da Europa que diz expressamente, nomeadamente nos nºs 4, 6, 10 e 13.3.8, que as vacinas covid não podem tornar-se obrigatórias.

No entanto, as Resoluções do Conselho de Ministros que, fora de qualquer Estado de Emergência, e sem passar pelo Parlamento Português, sendo elaboradas apenas no seio dos Ministros do Governo, têm implementado, medidas altamente restritivas dos direitos mais básicos dos portugueses que não pretendem ser vacinados.

E agora, do que já vem sendo anunciado na comunicação social – também paga principescamente pelo erário público – prevêem-se ainda mais restrições, nomeadamente a impossibilidade de uma pessoa comprar comida e bens essenciais, estando o seu acesso a um supermercado condicionado a um passaporte sanitário que não passa de um certificado do apartheid.

Tudo para OBRIGAR o que por força da lei, de tratados internacionais e da legislação da humanidade não pode ser obrigado.

Ou seja, com as medidas já em vigor e as que se preveem ser aprovadas por instrumentos jurídicos fora de qualquer legitimidade constitucional, os nossos governantes pretendem que entre pela janela aquilo que não pôde entrar pela porta.

E não se venha com a defesa da saúde pública, que ainda ninguém no nosso Parlamento definiu até hoje qual seja em cada momento, e que jamais foi alvo de verdadeiro debate democrático, não sendo, seguramente, o Infarmed a entidade própria para, à porta fechada e sem actas, determinar o que é benéfico para a saúde pública dos portugueses.

Então o Infarmed, que não aprova medicamentos perfeitamente inócuos para a saúde, que às vezes estão anos a ser alvo de testes e experiências, e perante uma "vacina" experimental, que não tem autorização definitiva, cujos efeitos secundários só agora se começam a verificar quão graves e potencialmente mortais são, entende que a mesma deve ser imposta – sob pena de ninguém poder comer neste País – em especial a crianças?

Quando a própria OMS – lembrem-se que foi ela quem declarou a pandemia – afirma que não se justifica a administração a jovens com menos de 18 anos por não serem um grupo de risco e não estarem estudados de forma eficaz os respectivos resultados.

Vão-se vacinar crianças e jovens perfeitamente saudáveis por causa de uma gripe quando dos próprios dados da DGS as mortes registadas – e vou fazer de conta que não sei que são apenas os 152 óbitos que a DGS comunicou ao Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa no âmbito do processo nº 525/21.4BELSB , que correu termos no Juízo Comum, e cujo número aqui cito porque parece que há pessoas que duvidam que este processo judicial seja verdadeiro – ocorreram na sua esmagadora maioria em pessoas acima dos 80 anos, não tendo sido registada qualquer morte infantil?!

Como Juíza de um Tribunal Superior, que aplica diariamente a Lei e deve obediência a ela, desde que essa lei seja conforme com a Constituição da República Portuguesa, não consigo ficar de olhos fechados, até porque me incluo, como sempre o fiz, na população portuguesa que também se sente afectada e lesada com as medidas orwellianas que estão a ser impostas.

Como foi afirmado no Compromisso Ético dos Juízes Portugueses:
"Os juízes, actuando em nome do cidadão, afirmam e fazem respeitar a sua independência e manifestam-na, tanto no exercício das suas funções como fora delas."

Há regras constitucionais específicas que definem a chamada reserva de lei, ou seja, a definição das matérias em relação às quais só a Assembleia da República (AR) pode legislar e decidir, as matérias que estão reservadas ao Governo e ainda aquelas que, sendo da competência da AR podem ser delegadas no Governo mediante lei que autorize e expressamente preveja essa delegação e os seus limites.

Uma Resolução do Conselho de Ministros não é uma Lei, nem um Decreto-Lei.

Por outro lado, mesmo os Decretos-Leis que o Governo pode produzir não podem nunca entrar na reserva dos direitos fundamentais previstos na CRP, porque matéria que se lhe mostra subtraída, por razões óbvias, porque só o conjunto do Parlamento é que pode legislar sobre matérias que visam afectar os cidadãos nos seus direitos mais básicos.

Ora, o direito à vida e à integridade física são direitos invioláveis e com chancela constitucional.

Por isso, obrigar uma pessoa, que, após devidamente informada, não deseja ser vacinada e, mais grave ainda, impedir que essa pessoa se alimente a si e à sua família se não se vacinar, é violar o mais básico dos direitos humanos e é fazê-lo de forma que uma sociedade que se diz democrática e se auto-proclama como Estado de Direito jamais pode consentir.

Podendo eventualmente estar em causa, no seu extremo, a prática de um crime de coacção, previsto e punido no artº 154º do Código Penal Português numa pena que pode ir até 3 anos de prisão.

É talvez importante lembrar que nos termos do artº 9º da CRP uma das funções do Estado é:
"b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático; e
d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais…"

Sendo que, nos termos do artº 22º da nossa CRP:
"O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízo para outrem."

Que Deus nos ajude.

"Também obrigou todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, a receberem certa marca na mão direita ou na testa, "para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome.

"Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis." (Apocalipse 13:16-18)

28/Julho/2021

 



APOCALIPSE II (29 de Julho de 2021)

No post de ontem, subordinado ao título "Apocalipse", não fiz menção directa aos testes PCR (e testes rápidos) e à sua imposição para se aceder a certos locais públicos, incluindo – pasme-se – os supermercados que vendem bens de primeira e absoluta necessidade.

Não fiz essa referência para não tornar o texto muito denso e porque me parecia que a questão das vacinas – que têm efeitos muito mais graves e permanentes – era mais premente.

Aproveito agora este novo post para me focar um pouco mais sobre os testes PCR tendo por assente toda a legislação que citei em posts anteriores.

Assim, e simplificando, qualquer teste, seja ele de sangue, de muco, de saliva, de urina, de fezes com o intuito de obter uma "leitura" bio-química do estado físico de uma pessoa é um método de diagnóstico clínico que além de ter de ser consentido – pois implica a invasão do corpo e/ou a extracção de matéria que pode conter material genético – só pode ser praticado por pessoas autorizadas, mormente os médicos.

Ou seja, o acto de diagnosticar uma doença compete ao médico – conforme resulta claramente do Regulamento n.º 698/2019, de 5.9 (regulamento que define os actos próprios dos médicos), publicado em Diário da República.

O que significa que só um médico pode determinar a necessidade ou não de se fazer um diagnóstico com recurso a testes, biopsias, raios-x, TAC's, etc. em face do quadro de SINTOMAS e de QUEIXAS que o doente diante de si apresenta.

Isto, por sua vez, significa que um teste, seja ele qual for, não pode ser imposto por legislação porque não compete ao Estado determinar o que cada pessoa pode e não pode fazer com o seu corpo e a sua integridade física.

E muito menos terá competência para administrar ou sequer exigir um teste PCR, ainda que sejam os "testes rápidos", ou qualquer outro tipo de diagnóstico, um comerciante, um segurança, um polícia, um empregado de mesa, etc. etc. sob pena de incorrerem todos na prática de um crime de usurpação de funções, previsto na al. b) do artº 358º do Código Penal Português punível com pena até 2 anos de prisão.

Significa ainda que, mesmo para um médico determinar a necessidade ou não de se realizar um teste de diagnóstico – seja ele qual for – tem o doente de apresentar alguma sintomatologia que obrigue a que se investigue mais o respectivo quadro clínico.

Assim, uma pessoa que não tem sintomas alguns, e portanto, que não está doente – ser portador de um vírus de entre os milhões de vírus e bactérias que todos nós transportamos diariamente connosco não significa que estamos doentes – não faz qualquer sentido ser testada.

Argumentam os mais preocupados que o facto de uma pessoa não apresentar sintomas não significa que não possa transmitir o vírus à mesma e, nessa medida, ser "perigosa" para a saúde pública.

Bem, esse argumento é válido para a gripe sazonal, para a tuberculose, para a ébola, para a lepra e para toda e qualquer doença socialmente contagiosa e, no entanto, não vejo legislação nem preocupação da parte do Infarmed, nem da DGS, em sujeitar as pessoas a testes diários, como acontece em alguns casos a certas pessoas, ou sempre que querem ir a um restaurante ou supermercado, em virtude daquelas doenças que são seguramente muito mais perigosas para a saúde pública.

E não se venha com o argumento de que no que tange à tuberculose a mesma é tratada à nascença com a administração da vacina BCG, pois é a própria classe médica que afirma, há anos, que a BCG não previne a doença durante a vida, tendo um raio de acção limitado.

Aliás, pergunto porque motivo então se continua a impor o uso de máscara às pessoas sempre que têm de aceder aos espaços públicos fechados? Se a máscara visa impedir a transmissão do vírus então uma pessoa sem sintomas também não vai conseguir contagiar seja quem for.

Voltando à questão dos testes, e sem entrar na questão da sua falta total de eficácia no diagnóstico da doença (dito por especialistas na matéria) dependente do número de ciclos que, até hoje, ninguém da DGS, nem do Infarmed, veio publicamente informar qual seja, a verdade é que um teste rápido, seja de zaragatoa, seja de sangue, efectuado à entrada de um restaurante ou supermercado, além de ofender a integridade física da pessoa e por isso ter de ser consentido, além de implicar a prática de um acto médico de diagnóstico que só pessoal clínico habilitado pode determinar em face de sintomatologia concretamente apresentada, traduz, a meu modesto ver, a violação de todas as regras de saúde pública por implicar a aquisição e exposição de detritos biológicos fora dos locais próprios e fora de qualquer contentor apto a resguardá-los.

Então estão os arautos da saúde pública tão preocupados com a disseminação do Covid e não se preocupam com o facto da doença se poder espalhar através dos detritos das zaragatoas e recolhas de sangue fora de qualquer hospital ou centro de saúde?

Ou pior ainda, espalhar-se uma outra doença não declarada mas potencialmente muito mais perigosa?

E qual o fundamento para impedir uma pessoa de aceder a bens de primeira necessidade, nomeadamente comida, para sobreviver?

Se nem mesmo em plena fase aguda da pandemia, no ano passado, em sede de um Estado de Emergência, as pessoas foram algumas vez impedidas de aceder aos supermercados para comprar comida para si e para os seus filhos, qual o motivo que justifica condicionar agora, de forma a meu ver absolutamente inaceitável, o acesso das pessoas a locais de fornecimento de alimentos, quer sejam os supermercados, quer seja a restauração?

Ou seja, se não morremos da doença, nem da vacina, morremos à fome?

É agora o Continente ou o Pingo Doce que vai fixar um estaminé à entrada para condicionar as pessoas a se auto-testarem ou a serem testadas por quem não tem legitimidade legal democrática para o fazer?

Porque muito bem explicado e porque tem força de decisão judicial, que a todos vincula nos termos do artº 205º nº2 da CRP, deixo aqui citado uma pequena mas importante parte do Acórdão da Relação de Lisboa de 11-11-2020, proferido no procº nº 1783/20.7T8PDL.L1 (acessível em www.dgsi.pt), cuja Relatora é a minha Exmª Colega, Srª Desembargadora Drª Margarida Ramos de Almeida:

"15. Assim, qualquer diagnóstico ou qualquer acto de vigilância sanitária (como é o caso da determinação de existência de infecção viral e de alto risco de exposição, que se mostram abrangidas nestes conceitos) feitos sem observação médica prévia aos requerentes, sem intervenção de médico inscrito na OM (que procedesse à avaliação dos seus sinais e sintomas, bem como dos exames que entendesse adequados à sua condição), viola tal Regulamento, assim como o disposto no artº 97 do Estatuto da Ordem dos Médicos, sendo passível de configurar o crime p. e p. pelo artº 358 al. b) (Usurpação de funções) do C. Penal, se ditado por alguém que não tem tal qualidade, isto é, que não é médico inscrito na Ordem dos Médicos.

Viola igualmente o nº1 do artº 6º da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, que Portugal subscreveu e se mostra interna e externamente obrigado a respeitar, uma vez que se não mostra junto aos autos nenhum documento comprovativo de ter sido prestado o consentimento esclarecido que essa Declaração impõe.

Mostra-se assim claro que a prescrição de métodos auxiliares de diagnóstico (como é o caso dos testes de detecção de infecção viral), bem como o diagnóstico quanto à existência de uma doença, relativamente a toda e qualquer pessoa, é matéria que não pode ser realizada por Lei, Resolução, Decreto, Regulamento ou qualquer outra via normativa, por se tratarem de actos que o nosso ordenamento jurídico reserva à competência exclusiva de um médico, sendo certo que este, no aconselhamento do seu doente, deverá sempre tentar obter o seu consentimento esclarecido. (…)

17. Na verdade, o único elemento que consta nos factos provados, a este respeito, é a realização de testes RT-PCR, sendo que um deles apresentou um resultado positivo em relação a uma das requerentes.

i. Ora, face à actual evidência científica, esse teste mostra-se, só por si, incapaz de determinar, sem margem de dúvida razoável, que tal positividade corresponde, de facto, à infecção de uma pessoa pelo vírus SARS-CoV-2, por várias razões, das quais destacamos duas (a que acresce a questão do gold standard que, pela sua especificidade, nem sequer abordaremos):
Por essa fiabilidade depender do número de ciclos que compõem o teste;
Por essa fiabilidade depender da quantidade de carga viral presente.

ii. Efectivamente, os testes RT-PCR (Reacção em cadeia da polimerase), testes de biologia molecular que detectam o RNA do vírus, comumente utilizados em Portugal para testar e enumerar o número de infectados (após recolha nasofaríngea), são realizados por amplificação de amostras, através de ciclos repetitivos.
Do número de ciclos de tal amplificação, resulta a maior ou menor fiabilidade de tais testes.

iii. E o problema é que essa fiabilidade se mostra, em termos de evidência científica (e neste campo, o julgador terá de se socorrer do saber dos peritos na matéria) mais do que discutível. (…)
«Qualquer teste de diagnóstico deve ser interpretado no contexto da possibilidade efectiva da doença, existente antes da sua realização. Para Covid-19, essa decisão de realização do teste, depende da prévia avaliação da existência de sintomas, história médica anterior de Covid 19 ou presença de anticorpos, qualquer potencial exposição a essa doença e não verosimilhança de outro possível diagnóstico.»"

Que Deus nos ajude.

"We have now sunk to a depth at which the restatement of the obvious is the first duty of intelligent men."
"Afundámo-nos ao ponto em que a declaração do óbvio é a primeira obrigação do homem inteligente."
George Orwell

29/Julho/2021

[*] Juíza Desembargadora do Tribunal da Relação de Lisboa
O original encontra-se em bit.ly/2V5edSN

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/


http://paginaglobal.blogspot.com/2021/07/sobre-ditadura-sanitaria.html

 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Alexandre O’Neill - Cartinha Aberta ao Major Otelo Saraiva de Carvalho


 * Alexandre O’Neill

O major Otelo Saraiva de Carvalho diz-nos que só aceitará «a candidatura por uma verdadeira imposição popular».  Raul Rego, in A Luta, 10.5.76

«Imposição popular»,
major Otelo, jamais!
Nos versos, o pé quebrar
não faz mal, vem nos jornais…

Pé quebrado na política,
mais tempo leva a soldar.
Aos que lhe fazem requebros,
mande-os altoduquear.

Sua página está escrita
e dela guarda memória
o povo, que não impõe
as estórias à história.

Em vinte e cinco de Abril
sua página foi escrita.
Não há rasura possível.
É uma página limpa.

E uma página linda,
Otelo, meu capitão!
Que mais quererá ainda
com a palavra «imposição»?

Que venha a vaga de fundo
que o há-de levar ao cume
do tal poder popular?
Presidente, dê-me lume,
vamos mas é charutar…

Alexandre O’Neill (1924-1986)
Poesias Completas & Dispersos
(edição de Maria Antónia Oliveira)

http://malomil.blogspot.com/2021/07/cartinha-aberta-ao-major-otelo-saraiva.html

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Adriano Miranda - O povo ficou feliz

CRÓNICA

* Adriano Miranda

Se Karl Marx fosse vivo, aposto que depressa trocaria a religião pelo futebol – O futebol é o ópio do povo! Talvez a religião e o futebol se toquem. Doses suficientes de fanatismo ou paixão não lhes faltam. Mas se a religião tem bastantes atributos, a começar pelo trabalho desenvolvido nos países pobres, já o futebol tem o atributo de nos meter à volta de uma mesa, regados com tinto e lambidos com entrecosto.

Tudo o resto é negócio, do pior, irracionalidade, pancadaria, very-lights e enxames de políticos submissos. Tenho consciência, caro leitor, que estou a exagerar um pouco. Irracionalidade qb também nos sossega a alma e faz desopilar o fígado. Já políticos submissos vivemos bem sem eles. Vou ao futebol à paisana. Sem bandeira nem cachecol. Apesar de achar que não é necessário puxar muito pela massa encefálica para estabelecer o 4x3x3, gosto de saltar que nem uma mola quando o esférico bate nas malhas. Também gosto de vez em quando de rebaptizar o árbitro.

Acompanhei o Euro 2020 realizado em 2021. Portugal não era o meu favorito. Não gosto de uma equipa que tem o Cristiano Ronaldo e mais dez. A Dinamarca encheu-me as medidas. Pelo círculo construído por verdadeiros camaradas na hora de estabilizar o coração de Christian Eriksen, e bolas, jogavam como ninguém a lembrar o ano de 1992 quando passaram de patinhos feios a campeões europeus. Eles sim, para mim são os campeões.

Mas acabou. O troféu Henri Delaunay sentiu as mãos e o peito dos italianos. Na arena de Wembley uns choraram outros riram. Outros fizeram contas à vida. Mario Draghi esfregou as mãos de contente. O povo vai-se distrair por uns tempos. Regados com Bellini e lambidos com carbonara, o povo, as praças e as ruas encheram-se de gritos, de abraços e de gotículas voadoras. Prognósticos só no fim do jogo. A pandemia segue dentro de momentos. É a vida e o povo ficou feliz.

tp.ocilbup@adnarima  11 de Julho de 2021, 23:50

https://www.publico.pt/2021/07/11/desporto/cronica/povo-ficou-feliz-1970009

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Daniel Oliveira - A farda

 ? Daniel Oliveira  

O vice-almirante é muito competente e tem sentido político. Mas o escrutínio que antes era um massacre recolheu obedientemente à caserna

Imaginem que, chegado a um centro com grandes filas, o político responsável pela vacinação se justificava com a falta de pontualidade dos técnicos e acrescentava: “colinho dá a mamã em casa”. O que diriam bastonários, oposição e comentadores? Foi a 9 de junho, no centro de vacinação de Monte Abraão. Recordo a data porque estive, na véspera, ao almoço, três horas à espera de receber a primeira toma num outro centro, na cidade de Lisboa (repetiu-se na segunda dose). Acontece em alguns lugares, quando abrem novas vagas de autoagendamento. A espera vale a pena, os profissionais e voluntários são de uma dedicação exemplar e a vacinação é um sucesso. Mas o episódio, que levaria ao massacre de qualquer político, foi mais um grande momento mediático para Gouveia e Melo. As reportagens no Monte Abraão foram excelentes, com o vice-almirante a pôr o centro de vacinação na ordem e a fazer esquecer as filas noutros pontos do país, nesses dias.

A boa imprensa começou no dia em que tomou posse. Ainda nem se tinha instalado e os fura-filas desapareceram. Voltaram porque um caso envolveu uma apresentadora de televisão. Como há 216 inquéritos-crime a vacinações indevidas, sabemos que continuaram. Deixaram é de interessar. Quando aconteciam com Francisco Ramos, o facto de o Ministério Público os investigar valia raspas. O que interessava era saber se iam receber a segunda dose. Com Gouveia e Melo, seguem-se os mesmos procedimentos e o que faz falta é um vice-almirante em cada esquina. É verdade que Francisco Ramos teve uma declaração infeliz sobre os eleitores de Ventura. Mas quando Gouveia e Melo, militar no ativo, ofendeu os britânicos e disse que o país precisava de ser endireitado, relativizou-se. E bem. No dia em que Ramos se demitiu, Portugal era, com falta de vacinas, o quinto país da UE em que mais pessoas tinham recebido pelo menos uma dose, proporcionalmente. Estivemos quase sempre acima da média, antes e depois. Mas era impensável dizer que a vacinação corria bem. Com Gouveia e Melo continuamos no pelotão da frente. Mas os fura-filas deixaram de ser tema e é impensável fazer críticas.

Pode passar a ideia de que tenho má opinião do vice-almirante. Pelo contrário, ela é excelente. É muito competente e as falhas a que assistimos são inevitáveis quando se vacina mais de 1,5% dos portugueses por dia, um feito assombroso. Passa serenidade e autoridade, tem bons resultados e sentido político, evidente pelo uso do camuflado e pelas várias entrevistas pessoais que deu. Apesar de os ofuscar, tem sabido trabalhar com o SNS e as autarquias, principais obreiros deste esforço. A minha crítica não é para ele, é para o jornalismo. A farda põe muita gente em sentido. E o escrutínio que antes era um massacre recolheu obedientemente à caserna. “Sou alto, visto uniforme, tenho voz de comando e sou assertivo”, disse o vice-almirante numa entrevista onde nem uma pergunta difícil lhe foi feita. Usa essas vantagens para o deixarem trabalhar. Francisco Ramos era político e o jornalismo acha que só escrutina políticos, contribuindo para um desgaste desigual. É por isso que ficámos surpreendidos com Tancos, o Tribunal da Relação de Lisboa, o BES ou a Raríssimas, que só ganharam centralidade quando envolveram políticos. António Costa sabia que se livrava de polémicas se escolhesse um militar. O perigo para a democracia está em nós, quando interiorizamos o desprezo pelos políticos e uma farda é o que sobra para o Estado ter autoridade. Pior: para a autoridade do Estado nem ser questionada.


https://expresso.pt/opiniao/2021-07-09-A-farda-937f06fa 

José Gameiro - Querida escrivaninha

DIÁRIO DE UM PSIQUIATRA, 

* José Gameiro   

Não te vou abandonar na rua, como se faz aos tarecos velhos, à espera que alguém os leve

Na hora da despedida acho justo escrever-te e agradecer tudo o que viveste comigo ao longo destes muitos anos. Desculpa a minha ignorância, não percebo nada de estilos de móveis, sei que tens classe com a tua madeira nobre, os teus pés com aplicações em bronze, mas para mim será sempre a minha inha, como te chamei desde criança.

Sim, porque na altura, os pais não deixavam fazer os trabalhos de casa esparramados nos sofás ou deitados na cama. Não havia redes sociais que nos distraíssem dos deveres, mas nesta hora devo falar verdade, nas tuas gavetas escondia o “Cavaleiro Andante”, o “Tintim” e o “Zorro”, que lia às escondidas. Não me recordo com que idade comecei a usar-te, talvez oito, nove anos. Mas lembro-me bem que as primeiras cartas de amor que escrevi, tive-te como companheira.

Eram em papel grosso, enviadas em envelopes forrados e escritas com tinta permanente, numa caneta Parker, que o meu avô me tinha oferecido, quando fiz a 4ª classe. Quando chegava o fim do verão, poucos amores resistiam à distância e, era por carta, que acabavam. Com uns amigos, criámos um modelo tipo, ainda hoje utilizado por alguns...

És boa demais para mim, não te mereço, nunca irás ser feliz na minha companhia...

Claro que acontecia ser “despedido” antes de enviar a carta. Nessa circunstância a resposta também estava tipificada. Mudas de namorado, como quem muda de camisa, não me mereces, continua assim que não vais longe.

O machismo misturado com o despeito não conseguiam esconder a zanga, muito maior do que a mágoa. E a inha lá continuava a assistir a estas parvoíces adolescentes, impávida e serena.

Também foste testemunha das minhas falhadas incursões pela poesia, quando me sentava à tua frente a tentar escrever poemas parvos, que depois enviava para o Juvenil do “Diário de Lisboa”, onde passavam pelo crivo exigente do Mário Castrim. Rapidamente percebi que as rimas não eram o meu forte e fiquei-me pelos poemas práticos, tipo, “por ti o meu coração tem taquicardia e arritmia”. Acho que o primeiro abandono a que te vetei foi quando entrei para Medicina. Podes ter pensado que terá sido por termos muitos e grandes livros, podes ter sido influenciada pela “voz do povo” que diz que o curso é muito difícil, desculpa, mas agora vou-te contar toda a verdade.

O curso não é dos mais fáceis, mas permite uma vida muito boa. Pelo menos no meu tempo, uma boa nota a Anatomia, que exigia 18 horas de estudo diário, durante dois meses, garantia praticamente o curso. Os livros eram grandes, mas a verdadeira razão de te ter abandonado foi que não podias ter quatro pessoas à tua volta... Cada disciplina tinha o seu campeonato de bridge e também as suas sabatinas. Desculpa, inha, ficaste reduzida a depósito de canetas e lápis velhos, papéis abandonados e clipes que um dia seriam usados, mas que nunca saberia onde os tinha guardado.

Quando saí de casa dos meus pais abandonei-te pela primeira vez, mas ficaste à guarda de quem me criou e visitava-te todas as semanas. Nem sempre olhava para ti, eu sei, no entanto, renasceste quando vieram os netos. Quando os avós brincavam com os miúdos aos ovos da Páscoa, ou no Natal havia um presente mais especial, era dentro de ti que estavam guardados. Apesar de todas estas justificações reconheço que não soube reconhecer tudo o que fizeste por mim na minha infância e juventude. É quase como a ingratidão que, em certas fases da vida, tontas, sentimos por quem nos cá trouxe.

Não te vou abandonar na rua, como se faz aos tarecos velhos, à espera que alguém os leve, vais ter um destino mais elegante. Depois de ouvir os meus filhos, todos estiveram de acordo, deves ir para casa de quem seja capaz de cuidar de ti e estimar-te, tal como foi o comboio elétrico e um dia irá a biblioteca.

Vais ser licitada e o teu valor transformado em mais uma viagem.

https://expresso.pt/opiniao/2021-07-09-Querida-escrivaninha-b502487a

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Miguel Esteves Cardoso - Setúbal é que é

CRÓNICA

* Miguel Esteves Cardoso

Estou a apaixonar-me por Setúbal há sessenta anos – mas só nos últimos 30 é que a coisa se agravou. Quando ia com os meus pais, a paixão por Setúbal não era minha – era deles. Mas alguma coisa se infiltrou pelos meus olhos meninos, durante aqueles almoços ao ar livre, quando me estavam a ensinar a comer peixe.

Só nos últimos dias, graças a circunstâncias felizes que me levaram a Setúbal várias vezes, é que me dei conta que era amor e que já não havia nada a fazer. Para mim, é uma revolução apaixonar-me agora por Setúbal quando eu já tinha o coração configurado.

Até aqui, tenho vivido alegremente no meu triângulo das Bermudas: os três sítios que amo, onde me sinto à vontade para andar de bermudas, de pernas ao léu: Lisboa, Cascais e Sintra.

A paixão por Setúbal rouba-me essa piada barata e introduz a figura do quadrilátero. É mais quadrada, mas quero lá saber: Lisboa, Cascais, Sintra e Setúbal.

Não é só Setúbal, a cidade e a gente, a maneira de conviver e a graça, a honestidade e o civismo. É também tudo o que Setúbal tem à volta. Para além da Arrábida e de Tróia – como se fosse preciso mais – há tantas praias e aldeias, tantas paisagens e surpresas, que o único problema para um andarilho é nunca mais parar quieto e não poder assim ver a mesma beleza mais de uma vez.

A vantagem de pertencer ao quadrilátero é que não é nenhum bico-de-obra saltar de aresta para aresta: de Setúbal a Cascais ou Sintra são dois ou três pulinhos, com a vantagem imensa do primeiro pulinho ser Lisboa.

Depois, há a pequena questão dos almoços e jantares. Em Lisboa, Cascais e Sintra é cada vez mais difícil – e caro – comer bem. Mas em Setúbal é preciso muito azar e muita dedicação para comer mal. Pelo menos por enquanto, não é?

8 de Julho de 2021, 6:05

https://www.publico.pt/2021/07/08/opiniao/cronica/setubal-1969516