Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido
* Joana Pereira Bastos, Jornalista
Pedro Lauret
tinha 25 anos quando se juntou à conspiração de militares que levou ao 25 de
Abril, integrando o primeiro grupo de ligação da Marinha ao Movimento dos
Capitães. E fez parte da pequena comissão que redigiu o Programa do Movimento
das Forças Armadas, no qual ficou escrito o rumo a seguir no país: liberdade e
democracia, paz e descolonização. Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o
Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o
trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado
democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter
sido devidamente reconhecido. E que acusa de estar agora a ser intencionalmente
menorizado pelo Governo.
Como
interpreta o bloqueio do Governo ao Museu do 25 de Abril?
O 25 de Abril é
uma das datas mais importantes da História de Portugal, porque derruba uma
ditadura longuíssima, quebra o ciclo colonial e permite que, pela primeira vez,
se realizem eleições livres e se institua uma democracia. Era fundamental ter
um espaço museológico que preservasse esta memória, mas o Governo não quer que
isso aconteça. Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril e
branquear a ditadura, porque este Governo tem na extrema-direita o seu aliado
preferencial e, para isso, convém-lhe menorizar a Revolução. Tudo o que seja
feito para enaltecer o 25 de Abril não lhe interessa. Mas este apagar da
História é criminoso. E os capitães de Abril, então, estão a ser completamente
votados ao esquecimento. Mas isso já acontecia, mesmo antes desta conjuntura
Porque diz
isso?
Nunca houve um
grande reconhecimento do poder político, no geral, em relação aos capitães que
fizeram o 25 de Abril. E isso vê-se em várias coisas. Por exemplo, até ao final
do mandato de Jorge Sampaio tinham sido condecorados apenas os militares que
fizeram parte do Conselho da Revolução e da Comissão Coordenadora [do MFA] e,
mesmo no último dia do mandato, foram condecorados mais 15, que foram os
comandantes das unidades que saíram no dia 25 de Abril. O Mário Soares não
condecorou, individualmente, um único, mas apenas os estandartes das unidades.
E a maioria continua até hoje sem ter a Ordem da Liberdade. Por outro lado, se
olharmos para a toponímia de Lisboa, as ruas estão cheias de referências aos
heróis do Liberalismo e da República, mas não se veem ruas com nomes dos
militares de Abril. As nossas carreiras militares foram todas feitas em cacos.
E hoje em dia considera-se que os ‘pais da democracia’ são o Mário Soares, o
Freitas do Amaral, o Sá Carneiro... e os capitães são esquecidos. No discurso político
e mediático, é como se não existissem. E mesmo no âmbito das Comemorações dos
50 anos, houve muito pouco envolvimento dos capitães no programa. Tudo isto
entristece-nos e revolta-nos bastante. E não é por vaidade, mas por uma questão
de justiça e de verdade histórica.
A que acha
que se deve essa falta de reconhecimento por parte do poder político?
Acho que há
razões profundas. A oposição civil à ditadura sempre esteve muito dividida e
nunca teve uma estratégia consistente para derrubar o regime. E foram os
militares que, sozinhos, conseguiram fazê-lo. Um grupo de miúdos com 25, 30
anos que em nove meses fizeram uma conspiração e em 18 horas deitaram abaixo a
ditadura. Acho que os políticos da altura sempre tiveram algum ciúme em relação
a isso. E apesar de já terem passado uma ou duas gerações, isso permanece. Para
os políticos, os militares são um incómodo. Mas o que fizemos é notável e não
há, na história mundial, nenhum outro exemplo de militares que tenham feito um
golpe e não tenham querido ficar com o poder. Tal como prometemos, um ano
depois fizeram-se as primeiras eleições livres. E tivemos de fazer tudo para as
pôr de pé, montando uma operação extraordinária para fazer o recenseamento e os
cadernos eleitorais.
A
instauração da democracia era consensual entre todos os militares de Abril?
Os militares
eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam
bem o que era isso da democracia. A vida de um oficial do Exército era muito
difícil. Estava dois anos em comissão [na guerra], vinha para cá um ano e pouco
e voltava novamente. Uma vida destas não dava para fazer grandes reflexões
políticas. A preocupação era sobreviver. O que motivou os militares para o
golpe foi a necessidade de acabar com a guerra, a partir do momento em que se
tornou evidente que ela estava perdida.
“Os
militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos
nem sabiam bem o que era isso da democracia”
Em que
momento isso aconteceu?
Em março de
1973, na Guiné, quando o PAIGC [movimento independentista da Guiné] adquiriu à
União Soviética uma nova arma que mudou tudo: os mísseis antiaéreos. No mesmo
mês abateram dois Fiat, que eram os nossos aviões mais sofisticados, e logo em
maio abateram três no mesmo dia. A partir daí, a nossa Força Aérea deixou de
conseguir, com a mesma eficácia, contrariar os ataques e fazer a evacuação de
feridos. A guerra estava perdida e não estávamos dispostos a ser sacrificados.
Além disso, o regime foi incompetente e criou uns decretos que punham os
milicianos à frente dos outros, o que criou ainda mais descontentamento, mas a
questão central não foi essa. Foi acabar com a guerra. E, a dada altura,
percebemos que a única maneira de o fazer era derrubando o regime. Foi isso que
motivou a conspiração.
Participou
na conspiração desde o início?
Sim. Fiz parte
do primeiro grupo de ligação da Marinha ao movimento dos capitães. O
planeamento militar do golpe não teve dificuldade nenhuma e correu rapidamente.
Em janeiro de 1974, a estratégia estava delineada. Depois faltava a parte
política, que foi mais complicada. Só se começa a falar disso em fevereiro ou
março, já às portas do 25 de Abril. E enquanto que a ordem de operações foi
muito falada e discutida, o programa [político] foi muito restrito e feito por
um núcleo muito pequeno. O Melo Antunes, que era dos oficiais do Exército mais
politizados, e alguns oficiais da Marinha, nomeadamente o Martins Guerreiro, o
Almada Contreiras e eu próprio, trabalhámos no documento político quase
clandestinamente dentro do próprio movimento.
O programa
político foi facilmente aceite por todos?
A grande
maioria dos militares envolvidos no 25 de Abril não teve conhecimento do
programa político até ao golpe. Mas nunca houve nenhuma contestação. A partir
do momento em que se dá o 25 de Abril, o programa foi assumido por todos. Foi à
militar: “Este é o nosso programa, temos de o cumprir.” E cumprimos. No
programa do MFA estava escrito: no prazo máximo de um ano tem de ser eleita uma
assembleia constituinte para fazer uma nova Constituição; quando ela estiver
pronta, serão eleitos os órgãos de soberania que nela estiverem previstos.
Assim foi. No dia 25 de Abril de 1975 formou-se a Assembleia Constituinte por
sufrágio universal, no ano seguinte estava pronta a Constituição, que fez este
mês 50 anos, e foi eleita a primeira Assembleia da República, o primeiro
Presidente da República democraticamente eleito, os Governos Regionais dos
Açores e da Madeira e os órgãos das autarquias locais. E os militares saíram de
cena. Mas fomos nós que construímos os alicerces da democracia e isso nunca foi
devidamente reconhecido. E hoje menos ainda.
23 abril 2026
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