sexta-feira, 24 de abril de 2026

Joyce Lussu - Scarpette Rosse


2026 04 21 - Mural em Orgosolo - A Joyce Lussu (2022)


Este é um dos poemas mais impactantes de Joyce Lussu, escrito após sua visita aos campos de concentração. O poema é uma poderosa denúncia do Holocausto, focando na imagem dilacerante da inocência interrompida.


Scarpette Rosse

C’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove:
sulla suola interna si vede ancora la marca di fabbrica
«Schulze Monaco».

C’è un paio di scarpette rosse
in cima a un mucchio di scarpette infantili
a Buchenwald

erano di un bambino di tre anni
di un bambino di tre anni
dai piedi scalzi
che correva piangendo
e s’è fermato fuori della porta
perché la sua mamma lo prendesse in braccio

e poi è entrato nel fumo
ed è diventato fumo
che nel vento si è disperso

ora c’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove
perché i piedini dei bambini morti
non consumano le suole.

Contexto e Significado
A Origem: O poema foi inspirado em um par de sapatos reais que a autora viu no museu do campo de concentração de Buchenwald. O Contraste: A força do texto reside no contraste entre a precisão técnica (o número 24, a marca "Schulze Monaco") e o destino trágico e imaterial da criança que se torna fumo. O Encerramento: Os últimos versos são considerados alguns dos mais pungentes da literatura italiana do pós-guerra, explicando o porquê de os sapatos estarem "quase novos": a morte não dá tempo ao desgaste.

Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:


Sapatinhos Vermelhos

Joyce Lussu

Há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos:

na sola interna ainda se vê a marca de fábrica

«Schulze Munique».


Há um par de sapatinhos vermelhos

no topo de um monte de sapatinhos infantis

em Buchenwald


eram de um menino de três anos

de um menino de três anos

de pés descalços

que corria chorando

e parou diante da porta

para que a sua mãe o pegasse no colo


e depois entrou no fumo

e tornou-se fumo

que no vento se dispersou


agora há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos

porque os pezinhos das crianças mortas

não gastam as solas.


Notas sobre a tradução

  • "Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.

  • "Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.

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