Em pleno cinquentenário da nossa Constituição — uma das mais humanistas e avançadas do mundo — respigo estas notas para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez...
* Mário Vieira de Carvalho
Há cem anos, surgia em Lisboa uma nova publicação periódica: Ordem Nova. Na folha de rosto anunciava a sua linha editorial nos seguintes termos:
"Revista antimoderna,
antiliberal, antidemocrática, antiburguesa e antibolchevista;
contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica;
intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e
quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa."
O seu diretor era Marcelo
Caetano.
Ao longo do ano publicaram-se
cerca de dez números. O guia era a “voz da Igreja”, “guarda da sabedoria
eterna” — lê-se num dos artigos. A razão era “débil e impotente no seu
mesquinho poder de adaptação compreensiva e daí a necessidade de a erguer sobre
a colunata sólida e eterna do Evangelho”. A defesa da razão, assim entendida,
opunha-se à “tara romântica”, uma “doentia manifestação de indisciplina moral”
que afetava “o homem primitivo, o selvagem, a criança e a mulher”, até o
próprio homem, “mas na sua adolescência”, isto é, em “certos estados de
infância física e moral”. Historicamente, a “tara romântica” representava “uma
inversão brutal da hierarquia”: “o regresso à barbárie, ao primitivismo, à
infância mental”, a “feminização do masculino”, o “império dos elementos
femininos sobre os elementos viris do espírito”. O “vírus romântico”, que
causava “degenerescência”, irrompera com as Luzes e, particularmente, com
Rousseau.
Noutro texto, assinado pelo
próprio diretor, este insurgia-se contra “a praga dos intelectuais”,
apelava a “varrê-los” como na Itália de Mussolini e louvava a “violência” como
“virtude”. Era o antídoto “para curar as nações fundamente atacadas do mal”.
Mal esse – dizia-se noutro número – que remontava mais longe ainda, ao século
XV, englobava a Reforma e o Renascimento, e não só “a erupção violenta do
século XVIII”. Tratava-se, enfim, de restaurar as relações feudais.
Tão abrangente era o desígnio
reacionário dos autores que nem a música escapava. O diabo fizera-se músico e
servira-se da mulher para atingir os seus fins: “O problema musical não é mais
do que um aspecto da grande insurreição feminina. [...] Modernamente o
sensualismo musical, envolvente e corruptor, domina o espírito. A razão
perdeu-se nos desvios de uma sensibilidade desvairada. [...] Separada da razão,
a música tornou-se como o ópio, a morfina e a cocaína, um perigoso dissolvente
de energia. Ergue paraizos artificiais [...] – todo um universo rubro de
pecado. [Produz uma] emoção toda carnal [...] continua a ser a voz do
tentador.”
A “ordem nova” que assim saía da
“moderna renovação escolástica” não era senão a velha ordem patriarcal: “Ordem
nas ruas! Ordem nos espíritos! Ordem em casa!”, já se proclamava no manifesto
da Cruzada Nacional Nun’Álvares Pereira (1921).
Se, por um lado, o Integralismo
Lusitano aspirava à instauração de uma teocracia medieval, hostil às artes e,
em especial, à música, hostil à igualdade entre os humanos, à não-discriminação
em função do género, da raça e da condição social, os novos “cruzados” sonhavam
igualmente com uma ditadura, mas um pouco mais atualizada.
Em 1921, António Ferro falava do “Ditador que é preciso”, comparando-o a Parsifal, o protagonista do drama musical de Wagner, então estreado no São Carlos com um êxito colossal (nove representações, mais do dobro de qualquer outra ópera da temporada!). Sidónio Pais – lê-se numa entrevista de Ferro à escritora Veva de Lima – tinha sido “o Parsifal raté da nossa decadência”. Parsifal é também comparado ao “Santo Condestável” e a D. Sebastião. E como “o sebastianismo é a religião da raça", Ferro dedica “À saudade e à esperança do Encoberto” o seu livro Viagem em torno das ditaduras (1927). Por fim, o Encoberto revela-se em Salazar, a quem uma cronista do jornal católico A Voz dedica as suas impressões do Parsifal do Festival de Bayreuth de 1937... Não é, pois, por acaso que Salazar, “Salvador da Pátria”, é representado como um cavaleiro medieval, à imagem e semelhança de Hitler.
Na antologia de discursos de
Salazar publicada na Alemanha (1938), com uma Geleitwort do dr. Goebbels
e um prefácio de Gustavo Cordeiro Ramos, Sidónio é considerado um pioneiro e
Salazar colocado ao lado de Mussolini e Hitler, com a diferença de governar a
partir do seu gabinete, enquanto estes preferiam o permanente contacto com as
multidões. É que Salazar, como reconhece António Ferro, entretanto nomeado
Secretário da Propaganda Nacional, queria encenar uma “ditadura imponderável,
ausente” (discurso intitulado A Alma do Chefe, proferido solenemente, de
casaca, em 1942).
Em pleno cinquentenário da nossa
Constituição – uma das mais humanistas e avançadas do mundo – respigo estas
notas do meu livro sobre o Teatro de São Carlos (INCM, 1993) para relembrar o
obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez.
25 de Abril de 2026
Professor catedrático jubilado de Sociologia da Música (FCSH-UNL)
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990


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