1. Saíu do prelo o primeiro volume (Evangelhos) da tradução da Bíblia feita por Frederico Lourenço. Confesso que o recebi com entusiasmo, mas também desconfiança perante a ambígua publicidade precursora: ao contrário do que insinua, não é a primeira vez que a Bíblia é traduzida das línguas originais para português. A novidade da obra está em traduzir a versão grega do Antigo Testamento (chamada “LXX”), elaborada a partir do texto hebraico, no séc. III a.C. em Alexandria, destinada aos judeus da diáspora, que já só falavam e compreendiam grego — ou seja, é uma tradução para português da, por sua vez, tradução do hebraico para o grego.
2. O autor apresenta o seu trabalho como uma tradução que «privilegia, sem a interferência de pressupostos religiosos, a materialidade histórico-linguística do texto». De facto, nota-se uma acentuada e muito positiva preocupação linguística, mas que desencarna as palavras da sua alma semântica e as desaloja do seu contexto e finalidade. Parece esquecer que todos os livros bíblicos nasceram num contexto crente e têm uma finalidade religiosa e que, embora os termos sejam gregos, os conceitos são veterotestamentários, hebraicos e semitas. Além disso, começa por afirmar que «as notas não pretendem interpretar o texto na sua extraordinária riqueza teológica (nem eu teria competência para tal)», mas acaba por fazer considerações teológicas e recorrer frequentemente ao trabalho de biblistas para fundamentar as suas opiniões. Em que ficamos? PUB
3. Lourenço faz pairar ao longo da introdução (e das entrevistas que deu) a suspeição sobre todas as outras traduções portuguesas; apenas a sua levará o leitor a encontrar-se com a verdade «histórico-linguística do texto». Qual verdade? A de Lourenço? A Bíblia não tem uma tradução, mas traduções. Todas elas com qualidades e fragilidades, que se enriquecem na medida em que não são mónadas mas textos dialogantes, que iluminam o significado sempre inesgotável de determinada passagem ou livro bíblico.
4. Uma outra característica reveste esta obra e é, concomitantemente, a sua riqueza e fraqueza: resulta do trabalho de um homem só. Riqueza, porque lhe dá harmonização de critérios; fraqueza, porque brota de um texto não dialogado. Há quatro anos que trabalho na tradução da Bíblia para a Conferência Episcopal, agora na moderação da equipa do Novo Testamento. Na revisão das traduções solicitadas a diferentes biblistas, acontece-nos discorrer demoradamente sobre opções de tradução e, não havendo consenso, preferimos deixá-las em suspenso e consultar outros exegetas. Trata-se de uma tradução dialogada, fruto de reflexão sobre o sentido linguístico, mas também semântico e simbólico de palavras e expressões, enriquecida pelos diferentes ângulos e contributos. Na de Lourenço encontramos apenas a sua perspetiva e a evocação dos biblistas surge somente para fundamentar os seus pressupostos.
Em conclusão: Lourenço aporta-nos um contributo muito positivo, na medida em que nos proporciona não «a» tradução, mas «mais uma» tradução de Bíblia, com importantes anotações linguísticas que nos ajudam, a par de outros bons e variados estudos, a tirar do tesouro da Sagrada Escritura «coisas velhas e coisas novas» (Mt 13,52).
Padre e professor do Instituto Superior de Teologia de Évora
Come gather 'round people Wherever you roam And admit that the waters Around you have grown And accept it that soon You'll be drenched to the bone. If your time to you Is worth savin' Then you better start swimmin' Or you'll sink like a stone For the times they are a-changin'.
Come writers and critics Who prophesize with your pen And keep your eyes wide The chance won't come again And don't speak too soon For the wheel's still in spin And there's no tellin' who That it's namin'. For the loser now Will be later to win For the times they are a-changin'.
Come senators, congressmen Please heed the call Don't stand in the doorway Don't block up the hall For he that gets hurt Will be he who has stalled There's a battle outside And it is ragin'. It'll soon shake your windows And rattle your walls For the times they are a-changin'.
Come mothers and fathers Throughout the land And don't criticize What you can't understand Your sons and your daughters Are beyond your command Your old road is Rapidly agin'. Please get out of the new one If you can't lend your hand For the times they are a-changin' The line it is drawn The curse it is cast The slow one now Will later be fast As the present now Will later be past The order is Rapidly fadin'. And the first one now Will later be last For the times they are a-changin'.
Dylan inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.
Bob Dylan merece o Prémio Nobel da Literatura. Bob Dylan escreve ensaios, ficção e poesia há mais de meio século. Inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.
Desde que Christopher Ricks defendeu Dylan como um grande autor da literatura mundial que há outros críticos académicos que se divertem a fazer pouco de Ricks. Mas a verdade é que Ricks foi o primeiro a ter a coragem de reconhecer o génio de Bob Dylan.
Dantes toda a literatura se dividia em categoriazinhas de merda – canções, contos, ensaios, reportagens, ficções, peças teatrais, poesia. O júri do Nobel tem feito o enorme favor de voltar a confundir tudo. No ano passado deu o prémio à jornalista Svetlana Alexievich, uma grande escritora que utiliza as entrevistas como matéria-prima para construir textos empolgantes sobre a condição humana.
Está fora de moda falar na eternidade, mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais.
A obra de Dylan – que é caoticamente desigual, havendo coisas terríveis ao lado de obras-primas – é uma gloriosa colecção de todas as tradições literárias da humanidade, desde os trovadores aos cantores de blues, desde os contos de fada às orações.
De tempos em tempos, o mundo acadêmico das Letras é questionado a respeito das relações entre Literatura e ideologia.
Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
"Alencar não é misógino, as mulheres alencarianas são mais interessantes que a Capitu" - Cena da série Capitu
Estamos no século 21... em Literatura, como lidar com isto: “Tia Nastácia era uma negra de estimação”, comentário de Monteiro Lobato; “Abolir a escravidão não é bom nem para o Brasil nem para os escravos, pois os escravos brasileiros vivem melhor que os operários da Inglaterra”, personagens de José de Alencar se justificam com argumentos assim; mulheres banais ou letais, como são as mulheres de Machado de Assis; homossexuais perversos, como aparecem em Aluísio de Azevedo e Adolfo Caminha; ... como resolver essas polêmicas sem condenar a Literatura? Não se trata mais de ser politicamente correto ou não – racismo, misoginia e machismo, homofobia, antissemitismo... os nazismos nunca se justificam – trata-se, antes de tudo, de definir o que é Literatura.
Há muitas concepções do termo “Literatura”; em um deles, Literatura é resistência às massificações do capitalismo e às opressões fascistas. Essa identificação entre literatura e ideologia política é bem antiga: sua formulação filosófica mais citada, o famoso ensaio “Lírica e sociedade”, de Teodoro Adorno, é de 1957; para nós, os brasileiros, Carlos Marighella (1911-1969), enquanto político e poeta, talvez tenha sido sua melhor epifania. Nessa concepção política de literatura – mais ética do que estética –, há ênfase nos conteúdos literários – os significados da obra –, uma vez que, desse ponto de vista, apenas esse aspecto das obras torna-se pertinente para a militância.
Isso faz do escritor arma de luta ideológica; espera-se dele que, para lutar, ele seja “bom” – “bom” enquanto pessoa, mas não “bom” necessariamente enquanto escritor –. Parece ingenuidade, mas essa ideologia literária é mais resistente do que parece. Ninguém perde tempo com poetas como Baldur von Schirach, um dos líderes da juventude hitlerista, todavia, não é raro encontrar explicações para o fascismo de Ezra Pound. Schirach é poeta medíocre, ninguém perde tempo com ele. Pound, porém, é um dos grandes nomes da poesia do século passado; parece que poucos se conformam com a ideia de que um grande poeta pode ser, eventualmente, um fascista. Nessa concepção de literatura, “Parque industrial”, de Patrícia Galvão, deveria ser o melhor romance feito no Brasil; o melhor poema brasileiro deveria ser “O operário em construção”, de Vinícius de Moraes.
Desse ponto de vista, parece difícil aceitar que um dos grandes escritores da nossa literatura infantil – quem inventou o Sítio do Pica-Pau Amarelo – tenha sido racista. Acusar José de Alencar de racismo também procede – na época de Alencar já havia a poesia negra de Luiz Gama, nunca houve desculpas para escravocratas –; além disso, para muitos, deve ser prazeroso vingar-se das leituras obrigatórias de “O Guarani” e “Senhora”, feitas na adolescência. Entretanto, Alencar não é misógino, as mulheres alencarianas são mais interessantes que a Capitu; Guimarães Rosa é bem mais racista do que José de Alencar, basta conferir contos como “Lélio e Lina”, “Lão-dalalão (dão-lalalão)”, “São Marcos” – neles há posturas mais ofensivas que os comentários escravocratas de “O tronco do ipê” –. Em meio aos patrulhamentos, muitas autoras brasileiras laureadas por feministas foram donas de casa; muitos poetas brasileiros, tão sensíveis, são machistas – “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental” –; ... a lista dessas “impropriedades” pode não terminar nunca...
Em busca de soluções, a menção a Pound vem a calhar novamente. Octavio Paz, Augusto e Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e todos os que se interessam por Pound, interessam-se por sua poesia, não por seu fascismo; Augusto de Campos, quando fala de Dante Alighieri, fala do autor da “Vida Nova” e da “Divina Comédia”, não do monarquista; se Nero tivesse sido bom poeta, certamente seria matéria nos cursos de Estudos Clássicos. Ao que tudo indica, na Literatura, os fazeres literários vêm antes dos fazeres políticos.
Todavia, cabe indagar: separar poetas e prosadores de suas ideologias faria do estudo da Literatura uma disciplina alienada e alienante das condições sociais da produção dessa mesma Literatura? Em palavras mais diretas, esse ponto de vista faria, da Literatura, uma matéria burguesa? Estudar o fazer literário apenas enquanto forma literária seria uma concepção crítica de direita?
Se as formas literárias forem identificadas aos embelezamentos da palavra – o beletrismo –, acompanhados de esvaziamento do conteúdo, certamente que se trata de estudo bastante estéril. Todavia, as formas literárias podem ser utilizadas para desenvolver a inteligência e a criatividade; os estudos literários podem, sem se afastarem da História da Literatura, ser aproximados da Educação Artística. Em outras palavras, trata-se de ensinar, nas escolas, a fazer poesia e outras formas literárias em prosa, além de dissertações.
O soneto, por exemplo, pode ser definido formalmente, em linhas gerais, como poema de quatorze versos de dez sílabas, com acentuações tônicas e rimas predeterminadas, dispostos em dois quartetos e dois tercetos. Em meio a tantas coerções, o soneto pode parecer difícil de ser feito, entretanto, ninguém faz sonetos contando sílabas. Cada verso metrificado tem uma prosódia própria – uma certa “música” particular – por meio da qual o poeta se põe a compor. Os músicos conhecem esses procedimentos muito bem; percussionistas costumam memorizar divisões complicadas por meio de solfejos rítmicos – as talas indianas são aprendidas assim –. Basta memorizar essas fórmulas prosódicas para começar a compor sonetos, madrigais, versos livres, etc.
Além do mais, o soneto tem suas histórias temáticas, dos sonetos renascentistas e barrocos aos sonetos experimentais da pós-modernidade. Na história temática do soneto, há muitos poetas célebres, entre eles: há os sonetos racistas de Gregório de Matos e os sonetos contra racistas de Luiz Gama; há os sonetos machistas de Vinícius de Moraes e os sonetos gays de Glauco Mattoso.
Por tudo isso, aprender a fazer sonetos – ou outras formas literárias –, implica em aprender a metrificar, mas também implica em desenvolver visões críticas a propósito dos temas abordados pela Literatura. Desse modo, longe de transformar os estudos literários em matéria reacionária, o ensino das formas literárias como educação artística pode compensar, sem se desviar das questões temáticas, a ênfase dada na ética dos autores, que tanto os compromete como seres humanos.
No dia 13 chega às livrarias francesas um volume com 1218 cartas que o antigo Presidente francês escreveu a Anne Pingeot, a mulher com quem viveu um amor clandestino durante mais de 30 anos.
Mazarine Pingeot-Mitterrand e a mãe, Anne Pingeot, no funeral de François Mitterrand, em 1996 PHILIPPE WOJAZER/REUTERS
Um dos grandes estadistas do século XX na intimidade, escrevendo, apaixonado, à mulher da sua vida: “Quando te encontrei percebi logo que ia partir numa longa viagem”, diz-lhe em Novembro de 1964. “Lá, para onde vou, sei ao menos que tu estarás sempre. Abençoo o teu rosto, minha luz. Jamais haverá uma noite absoluta para mim. A solidão da morte será menos solidão. Anne, meu amor.”
Durante mais de 30 anos, François Mitterrand (1916-1996), antigo Presidente francês (1981-1995), teve uma relação extra-conjugal com a historiadora de arte Anne Pingeot, com quem viria a ter uma filha, Mazarine. Uma relação que permaneceu secreta. Agora, Pingeot, 73 anos, conservadora honorária do Museu D’Orsay, resolveu que era tempo de publicar as mais de mil cartas que Mitterrand lhe escreveu.Lettres à Anne (1962-1995), o volume de 1280 páginas que a editora Gallimard faz chegar às livrarias a 13 de Outubro, está já a agitar os franceses. Excertos das cartas publicados na quarta-feira na revistaL’Obs, que inclui ainda fotografias inéditas, e no jornal Le Figaro (esta quinta-feira) tiveram eco em vários meios de comunicação e já lançaram o debate sobre o direito à privacidade dos políticos. Um debate em que a antiga amante do Presidente certamente não participará, pelo menos publicamente.
Anne Pingeot, que passou um ano a transcrever e a anotar as centenas de cartas e poemas agora editados, já anunciou que não participará em qualquer iniciativa de promoção do livro que já se antecipa um best-seller. Fiel à sua habitual discrição, a mesma que lhe permitiu viver um amor proibido longe dos holofotes durante mais de três décadas, a historiadora de arte justificou a amigos próximos o timing desta publicação dizendo, segundo a agência AFP e a edição francesa do jornal online Huffington Post, que ela já não pode magoar ninguém - François Mitterrand morreu há 20 anos e Danielle, a mulher com quem ele casou em 1944, há cinco.
“Era este o momento”, disse o jornalista Philip Short, autor de um livro sobre Mitterrand que saiu em 2015 (Portrait d’un Ambigu), citado pela AFP. “Durante anos, Anne tolerou mal as versões não autorizadas da sua vida que circulavam. Quis, sem dúvida, dar a sua versão da verdade.”
Diz quem as leu, como o escritor e jornalista Jérôme Garcin, da L’Obs, que as cartas revelam um homem apaixonado, um companheiro atento e um leitor voraz, que não deixa de lado as suas obrigações políticas nem as preocupações de Estado. A Pingeot, Mitterrand conta como lhe correm os dias longe dela, o que pode incluir reuniões com líderes mundiais e episódios dos bastidores do Eliseu, a Pingeot admite fraquezas e inseguranças. “Pus uma fotografia tua à minha frente no escritório”, escreve-lhe em Maio de 1964. “Acabo de te deixar. Acabo de acender o candeeiro da minha vigília (um cavalo veneziano em cobre serve de suporte e o abat-jour, cor de mel, é de um tecido forte). Penso em ti com tal ternura que é impossível que, neste momento, o teu coração não o saiba. Tenho o coração e a consciência mais livres, mais tranquilos desde que te falei. De mim para ti tudo é dito. E não me arrependo, mesmo que isso te assuste. […] Se optares pelo caminho que te conduz a mim, só a morte me afastará. Se tomares outro caminho, o meu orgulho e a minha alegria, com a minha dor pelo meio, estarão no facto de ter preservado a integridade daquela que amo. Terei ganho ao menos o afecto da tua alma, Anne querida, que vale bem todas as renúncias.”
Anne Pingeot e François Mitterrand apaixonaram-se no começo dos anos 1960, quando o político francês tinha 46 anos e ela 19. Diz quem o conheceu, entre eles biógrafos e amigos próximos, que Pingeot não era apenas a sua amante, era a mulher da sua vida. Esta relação intensa, de grande cumplicidade, só se tornou pública em 1994, quando a revistaParis Match publicou fotografias do então Presidente da República a sair de um restaurante parisiense com a filha de ambos, Mazarine, nascida 20 anos antes. Um escândalo mediático.
É precisamente a Mazarine, hoje uma escritora de 41 anos, que se dirige uma das cartas que Anne quis ver publicadas: “Mazarine, querida, escrevo pela primeira vez este nome. Sinto-me intimidado perante esta nova personagem sobre a Terra que és tu. Tu dormes. Tu sonhas. […] Mais tarde vais conhecer-me. Cresce, mas não demasiado depressa. […] Anne é a mamã. Verás que não podíamos ter escolhido melhor, tu e eu.”
“Sou feliz por tua causa”
O volume da Gallimard reúne aquilo que o Figaro define como uma “correspondência prodigiosa” – na quantidade, na qualidade, na diversidade - em que o antigo Presidente revela o seu talento para a escrita em arroubos líricos de um entusiasmo que por vezes parece juvenil e considerações políticas. É Mitterrand quem diz que Pingeot despertou nele sentimentos que desconhecia, é Mitterrand quem admite sentir necessidade de lhe contar tudo, é Mitterrand quem confessa que, até a encontrar, construíra um muro à sua volta para se proteger, criando um espaço onde a alegria e a paz nunca o visitaram: “Sim, preciso muito de ti, minha Anne. Sim, sou feliz por tua causa. E não tenho se não um desejo: dar-te o equivalente ao que recebo. Estar ao serviço da tua vida.”
Uma das cartas, em Setembro de 1965, é escrita quando Mitterrand acaba de fazer saber que é candidato à presidência da república. Nela fala-lhe dos momentos “intensos”, por vezes “dramáticos”, das últimas horas. Para depois voltar a um registo que só a eles diz respeito: “Sabes que penso em ti e que é maravilhosamente útil que exista este amor Anne-François? Adoro-te Anne e anseio pelos teus braços, pelos teus lábios, pela tua ternura, pela tua paz. Anne, meu amor, até amanhã. Amo-te.”
Em 1995, três meses antes de morrer, diz na última carta que a sua felicidade continua a estar em poder pensar nela, em poder amá-la: “E eis que não sei mais o que fazer de mim, o meu tempo está a acabar. Uma verdadeira conspiração! Mas eu sairei deste estado bizarro, ridículo e pitoresco. É muito difícil saber que uso devemos dar à vida. O resto é mais fácil porque basta tomar decisões. […] Tu sempre me deste mais. Tu foste a minha possibilidade de vida. Como não te amar?”
No volume não há qualquer missiva de Anne Pingeot para Mitterrand. Esse arquivo não é seu. O que há são cartas e cartas em que se vê um homem entre a sua vida política e a intimidade, entre os seus deveres públicos e os seus desejos privados, procurando equilibrar uns e outros, mesmo quando isso parece impossível: “É uma vaga de fundo, meu amor, ela arrasta-nos, separa-nos, e eu grito, grito, tu ouves-me no meio do tumulto, tu amas-me, eu sou desesperadamente teu […]. Amar-te-ei até ao meu fim, e se tens razão ao acreditar em Deus, amar-te-ei até ao fim dos tempos.”
Para quem quiser uma leitura mais contextualizada de Lettres à Annetalvez não faça mal “ouvir” Anne Pingeot nas páginas da biografia de Mitterrand que o jornalista Philip Short, correspondente da BBC em Paris, lançou em 2015. Nela fala muitas vezes em como foram anos “duros”, com muitas promessas de vida em comum sempre por cumprir. Mitterrand, a quem atribuíram várias relações fora do casamento, nunca deixou Danielle. Pingeot acreditou muitas vezes que o faria.
Nesta praça apregoa-se a Poesia. Sobretudo a dos outros. Possivelmente alguma da que escrevo. Autores da minha terra, da minha pátria-língua-portuguesa, mas também da nossa Terra-mãe-comum. Nesta praça vendo o sonho de ser poeta, mas não passo talvez de um mero divulgador de Poesia.
segunda-feira, 29 de junho de 2009 Romance de Vila do Conde´ Vila do Conde, espraiada Entre pinhais, rio e mar! - Lembra-me Vila do Conde, Já me ponho a suspirar. Vento Norte, ai vento norte, Ventinho da beira-mar, Vento de Vila do Conde, Que é a minha terra natal!, Nenhum remédio me vale Se me não vens cá buscar, Vento norte, ai vento norte, Que em sonhos sinto assoprar... Bom cheirinho dos pinheiros, A que não sei outro igual, Do pinheiral de Mindelo, Que é um belo pinheiral Que em Azurara começa E ao Porto vai acabar..., Se me não vens cá buscar, Nenhum remédio me vale Nenhum remédio me vale, Se te não posso cheirar... Vila do Conde espraiada Entre pinhais, rio e mar! - Lembra-me Vila do Conde, Mais nada posso lembrar. Bom cheirinho dos pinheiros..., Sei de um que quase te vale: É o cheiro da maresia, - Sargaços, névoas e sal - A que cheira toda a vila Nas manhãs de temporal. Ai mar de Vila do Conde, Ai mar dos mares, meu mar!, Se me não vens cá buscar, Nenhum remédio me vale, Nenhum remédio me vale, Nem chega a remediar… Abria, de manhãzinha, As vidraças par em par. Entrava o mar no meu quarto Só pelo cheiro do ar. Ia à praia, e via a espuma Rolando pelo areal, Espuma verde e amarela Da noite de temporal! Empurrada pelo vento, Que em sonhos ouço ventar, Ia à praia e via a espuma Pelo areal a rolar... Espuma verde e amarela Das noites de temmporal, Quem te viu como eu te via, Se te pudera olvidar! E ai não me posso curar, Nenhum remédio me vale, Se te não tenho nos braços, Se te não posso beijar… Vila do Conde espraiada Entre pinhais, rio e mar... - Lembra-me Vila do Conde, Passo a tarde a divagar… Até Senhora da Guia Me deixava ir devagar, Até Senhora da Guia, Que entra já dentro do mar, Como uma pomba que as ondas Receassem de levar; Talvez como uma gaivota Colhida num vendaval… Ou rosa branca, trazida Quem sabe de que lugar, Que embaraçando nas pedras, Ficasse ali, sem murchar, O pé metido no rio, A flor já n’água do mar. Lá de cima do seu monte, Sobre o fundo do pinhal, Senhora Sant’Ana, ao longe, Parece um lenço a acenar. Convento de Santa Clara, Que vulto fazes no ar, Que aos marinheiros no mar Deitas o «pelo sinal»! E o sol desmaia na cal Da capela a branquejar Da Senhora do Socorro, Onde sonhei me ir casar… Da banda de lá do rio, As gaivotas a voar Sobre Azurara se esfolham Como um grande roseiral! Lembranças da minha terra, Da minha terra natal, Nenhum remédio me vale Se me não vindes buscar! Nenhum me pode salvar, Morro em pecado mortal… Vila do Conde, espraiada entre pinhais, rio e mar... - Lembra-me Vila do Conde, Sinto os olhos a turvar… Ia até Poça da Barca, Meu muito amado local, (E quem diz Poça da Barca Diz Caxinas, sua igual) E parava a olhar de longe, Estátuas de bronze a andar, As belas gentes do mar… Parava a olhar o estendal Das águas a rebrilhar, E o arco-íris das cores, Cada qual mais singular, Que à tarde, pelos céus fora, Se entornavam devagar… Caía a noite, e eu, parado, Via, subindo no ar, A Lua juncar as ondas De espadanas de luar… Duma vez, estava eu triste, Senti que o Anjo do Mal Vinha para me tentar! Caio de bruços na areia, Ponho as mãos, e, sem rezar, Aguardo que Deus me valha, Me não deixe desgraçar… Foi então que ouvi, distinta, Distinta!, posso-o jurar, Posto vagarosa, grave Do seu repouso eternal, A voz de Ana, que partira Lá para melhor Lugar, Do fundo do seu coval Cantar-me o velho cantar: «…Tomou-o um Anjo nos braços, Não no deixou afogar»… Nenhum remédio me vale, Ou sou eu que não sei qual, Se me não levam depressa A ver o extenso areal Onde se davam mistérios, Que eu sabia decifrar… Vila do Conde, espraiada Entre pinhais, rio e mar... - Lembra-me Vila do Conde, Não me posso conformar… Aquela funda toada, Por toda a vila a toar, Nas negras noites de inverno Me vinha à cama acordar. Vinha do cabo do mundo…? Vinha do fundo do mar…? Vinha do céu, ou do inferno? Vinha de nenhum lugar…? De olhos abertos no escuro Me estarrecia a escutar… E o meu gosto de a sondar Que bem me fazia, ou mal! Pela doçura outonal Das tardinhas de Setembro, Vai e vem, que bem me lembro!, Como sabia embalar! Vinha de longe, de longe, Soturna e familiar, Cada vez mais se achegando Para se logo afastar… Mas que viria dizer-me, Que me diria, afinal, Aquele canto fatal Das ondas sempre a rolar…? Fechava os olhos, sonhava… Ai! Nem me quero lembrar! Mas sei de um som quase igual A que o posso comparar: O som do vento rolando Nas copas dum pinheiral… Pinhal do Corgo, seguido De outro mais longo pinhal, E esse outro seguido de outro Té onde a vista alcançar, Como te posso olvidar Se é na minh’alma, afinal, Que chora, como num búzio, Teu canto irmão do do mar…? Fechava os olhos, sonhava… Caía num meditar Que era pairar noutros mundos… Ai! Nem me quero lembrar! Não quero, e nada mais lembro, Nada me pode agradar, Nada alcança distrair-me, Nada me vem consolar, Nenhum remédio me vale, Nenhum me pode salvar, Nenhum mitiga este mal Que eu gosto de exacerbar, Morro em pecado mortal, Sem me poder confessar…, Se me não levam depressa, Depressa! Estou sem vagar, A tomar ar! O meu ar Da minha terra natal. Vila do Conde, espraiada Entre pinhais, rio e mar…
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Figura central do Modernismo brasileiro, Mário de Andrade (1893-1945) tinha 29 anos quando decorria a Semana de Arte Moderna de São Paulo, um marco fundamental para a literatura brasileira. Publicara Há uma Gota de Sangue em Cada Poema (1917), um pequeno volume de pendor pacifista que repensa as sequelas deixadas pela Primeira Grande Guerra. Seguir-se-iam A Escrava que Não é Isaura (1925), obra na qual defende as propostas modernistas, o livro de poemas Losango Cáqui e um de contos, Primeiro Andar, ambos em 1926. No ano seguinte, lança o novo livro de poemas Clã do Jabuti. O ano de 1927 marca o seu baptismo como romancista com Amar, Verbo Intransitivo. Dá finalmente à estampa em 1928, Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Carácter, que, segundo Oswald de Andrade, presidiu à criação de um «idioma poético nacional» e que representa o Brasil através de uma personagem simbólica como o Macunaíma.