terça-feira, 7 de novembro de 2023

Carta de demissão de Craig Mokhiber, Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU

 

Craig Mokhiber      

Esta carte de demissão é provavelmente um dos mais significativos documentos recentes sobre a situação do povo palestiniano. Exprime com grande clareza os antecedentes que conduziram à trágica situação actual. Denuncia a longa cumplicidade das principais potências ocidentais (com os EUA e a Grã-Bretanha em maior destaque) com décadas de crimes do ocupante sionista. Denuncia a completa – e deliberada - impotência da ONU em agir de acordo com os princípios definidos na sua Carta fundadora, impotência que o genocídio em curso torna ainda mais dramática. Aponta dez pontos essenciais para que este massacre possa ser detido, para a necessária condenação dos crimes do sionismo, para uma solução política de futuro. Dificilmente se poderia admitir que a actual ONU está em condições de dirigir a sua concretização.

Senhor Alto Comissário,

Esta será a minha última comunicação oficial como Director do Escritório de Nova Iorque do Alto Comissariado para os Direitos Humanos (ACNUDH).

Escrevo-lhe num momento de grande angústia para o mundo, incluindo muitos dos nossos colegas. Mais uma vez, estamos a testemunhar o genocídio que se desenrola diante dos nossos olhos e a Organização que servimos parece impotente para o impedir. Como alguém que investigou os direitos humanos na Palestina desde a década de 1980, viveu em Gaza como conselheiro de direitos humanos da ONU na década de 1990, e realizou várias missões de direitos humanos no país antes e depois destes períodos, esta situação afecta-me pessoalmente.

Foi novamente nestas instalações da ONU que trabalhei durante os genocídios contra os tutsis, os muçulmanos bósnios, os yazidis e os rohingyas. Em cada caso, à medida que a poeira assentava sobre os horrores perpetrados contra populações civis indefesas, tornou-se dolorosamente óbvio que havíamos falhado no nosso dever de cumprir os imperativos de prevenir atrocidades em massa, proteger os vulneráveis e proteger os vulneráveis. O mesmo aconteceu com sucessivas ondas de assassinatos e perseguições contra os palestinos ao longo da existência das Nações Unidas.

Senhor Alto Comissário, estamos novamente a falhar.

Como advogado especializado em direitos humanos, com mais de trinta anos de experiência nesta área, sei bem que o conceito de genocídio tem sido frequentemente objecto de exploração política abusiva. Mas o actual massacre do povo palestiniano, ancorado numa ideologia colonial etno-nacionalista, uma continuação de décadas de perseguição e purificação sistemáticas, baseadas inteiramente no seu estatuto de árabes, e associado a declarações explícitas de intenções por parte dos líderes do governo israelita e exército, não deixa espaço para dúvidas ou debate. Em Gaza, casas, escolas, igrejas, mesquitas e instalações médicas estão a ser atacadas sem razão e milhares de civis estão a ser massacrados. Na Cisjordânia, incluindo Jerusalém ocupada, as casas são confiscadas e realocadas com base unicamente na raça. Além disso, os pogroms violentos perpetrados pelos colonos são acompanhados por unidades militares israelitas. O apartheid reina em todo o país.

Este é um caso clássico de genocídio. O projecto colonial europeu etno-nacionalista de colonização na Palestina entrou na sua fase final, rumo à destruição acelerada dos últimos vestígios da vida indígena palestina na Palestina. Além do mais, os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de grande parte da Europa são completamente cúmplices deste ataque horrível. Estes governos não só se recusam a cumprir as suas obrigações decorrentes do tratado de “garantir o cumprimento” das Convenções de Genebra, como também estão activamente a armar a ofensiva, a fornecer apoio económico, informações e a encobrir política e diplomaticamente as atrocidades cometidas por Israel.

Em conjunto com tudo isto, os meios de comunicação social ocidentais, cada vez mais a mando dos governos, estão a romper completamente com o Artigo 20 do PIDCP, desumanizando constantemente os palestinianos para justificar o genocídio, e divulgando propaganda de guerra e apelos ao ódio nacional, racial ou religioso que constituem incitamento à discriminação, à hostilidade e à violência. As empresas de redes sociais sediadas nos EUA estão a suprimir as vozes dos defensores dos direitos humanos, ao mesmo tempo que amplificam a propaganda pró-Israel. A polícia do lobby online israelita e os GONGOS (NDT, organizações não governamentais apoiadas pelos governos) perseguem e difamam os defensores dos direitos humanos, as universidades ocidentais e os empregadores colaboram com eles para punir aqueles que ousam falar contra as atrocidades. Na sequência deste genocídio, estes intervenientes também terão de ser responsabilizados, como foi o caso da rádio des Milles Collines no Ruanda.

Em tais circunstâncias, a nossa organização é mais do que nunca chamada a agir de forma eficaz e baseada em princípios. Mas não enfrentamos esse desafio. O poder protector do Conselho de Segurança foi mais uma vez bloqueado pela intransigência dos EUA, o Secretário-Geral está sob ataque pelos seus débeis protestos e os nossos mecanismos de direitos humanos estão sob ataque calunioso, apoiados por uma rede online organizada que defende a impunidade.

Décadas de distração provocadas pelas promessas ilusórias e em grande parte decepcionantes de Oslo distraíram a Organização do seu dever essencial de proteger o direito internacional, os direitos humanos e a própria Carta. O mantra da “solução de dois Estados” tornou-se uma piada aberta nos corredores da ONU, tanto pela sua total impossibilidade de facto como pelo seu completo fracasso em ter em conta os direitos humanos inalienáveis do povo palestiniano. O chamado “Quarteto” nada mais é do que uma folha de parreira para a inação e submissão a um status quo brutal . A referência (escrita pelos Estados Unidos) a “acordos entre as próprias partes” (em vez do direito internacional) sempre foi um óbvio truque de prestidigitação, destinado a fortalecer o poder de Israel contra os direitos dos palestinianos ocupados e desapropriados das suas propriedades.

Senhor Alto Comissário, juntei-me a esta Organização na década de 1980 porque encontrei uma instituição baseada em princípios e normas que estavam decididamente do lado dos direitos humanos, inclusive nos casos em que os poderosos EUA, Reino Unido e Europa não estavam do nosso lado. Embora o meu próprio governo, as suas instituições subsidiárias e grande parte da comunicação social norte-americana ainda apoiassem ou justificassem o apartheid sul-africano, a opressão israelita e os esquadrões da morte centro-americanos, as Nações Unidas defenderam os povos oprimidos destes países. Tínhamos o direito internacional do nosso lado. Tínhamos os direitos humanos do nosso lado. Tínhamos os princípios do nosso lado. A nossa autoridade estava enraizada na nossa integridade. Mas esse não é mais o caso.

Nas últimas décadas, membros importantes das Nações Unidas cederam ao poder dos EUA e ao medo do lobby israelita, abandonando estes princípios e renunciando ao próprio direito internacional. Perdemos muito neste abandono, incluindo a nossa própria credibilidade global. Mas foi o povo palestiniano quem sofreu as maiores perdas devido aos nossos fracassos. Ironicamente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) foi adoptada no mesmo ano em que a Nakba foi perpetrada contra o povo palestiniano.

Ao comemorarmos o 75º aniversário da DUDH, faríamos bem em abandonar o mito banal de que a DUDH surgiu das atrocidades que a precederam e admitir que surgiu ao mesmo tempo que um dos genocídios mais atrozes do século XX, o da destruição da Palestina. Num certo sentido, os autores da Declaração prometeram direitos humanos a todos, excepto ao povo palestiniano. Não esqueçamos também que as Nações Unidas cometeram o pecado original de facilitar a expropriação do povo palestiniano ao ratificar o projecto colonial europeu que se apoderou da terra palestiniana e a entregou aos colonos. Temos muito o que compensar.

Mas o caminho da expiação é claro. Temos muito a aprender com a posição de princípio tomada nos últimos dias em cidades de todo o mundo, onde milhões de pessoas se manifestam contra o genocídio, mesmo correndo o risco de serem espancadas e presas. Os palestinianos e os seus aliados, os defensores dos direitos humanos de todos os matizes, as organizações cristãs e muçulmanas e as vozes judaicas progressistas que dizem “não em nosso nome”, estão todos a liderar o caminho. Tudo o que temos que fazer é segui-los.

Ontem, a poucos quarteirões daqui, a Estação Grand Central de Nova Iorque foi completamente invadida por milhares de defensores dos direitos humanos judeus, solidários com o povo palestiniano e exigindo o fim da tirania israelita (muitos deles arriscando ser presos). Ao fazê-lo, eliminaram num instante o argumento da propaganda hasbara israelita (e o velho cliché do anti-semitismo) de que Israel representa de alguma forma o povo judeu. Este não é o caso. E, como tal, Israel é o único responsável pelos seus crimes. Neste ponto, vale a pena repetir, apesar da calúnia do lobby israelita, que as críticas às violações dos direitos humanos cometidas por Israel não são anti-semitas, tal como as críticas às violações sauditas não são islamofóbicas, e as críticas às violações de Mianmar são anti-budistas, ou crítica às violações indianas é anti-hinduísta. Quando procuram silenciar-nos caluniando-nos, em vez de silenciar devemos levantar a voz. Espero que concorde, Senhor Alto Comissário, que esta é a própria essência de falar a verdade aos poderosos.

Mas também encontro esperança em todos os membros das Nações Unidas que, apesar da enorme pressão, se recusaram a comprometer os princípios da Organização em matéria de direitos humanos. Os nossos relatores especiais independentes, as comissões de inquérito e os peritos dos órgãos de tratados, bem como a maioria do nosso pessoal, continuaram a defender os direitos humanos do povo palestiniano, mesmo quando outros membros das Nações Unidas (mesmo ao mais alto nível) vergonhosamente inclinaram a cabeça diante dos poderosos. Como guardião das normas e padrões de direitos humanos, o ACNUDH tem o dever especial de defender esses padrões. A nossa tarefa, creio eu, é fazer ouvir a nossa voz, desde o Secretário-Geral até ao mais recente recruta da ONU e, horizontalmente, em todo o sistema da ONU, insistindo que os direitos humanos do povo palestiniano não são objecto de debate, nenhuma negociação, nem qualquer compromisso, em qualquer lugar sob a bandeira azul.

Então, como seria uma posição baseada nos padrões da ONU? Em que direção estaríamos trabalhando se fôssemos fiéis às nossas exortações retóricas sobre os direitos humanos e a igualdade para todos, a responsabilização dos criminosos, a reparação das vítimas, a proteção dos vulneráveis e o empoderamento dos titulares de direitos, tudo no âmbito do Estado de direito? A resposta, creio eu, é simples – se tivermos a clareza para ver para além das cortinas de fumo da propaganda que distorcem a visão de justiça que jurámos, se tivermos a coragem de abandonar o medo e a deferência pelos Estados poderosos, se nos movermos pelo desejo de elevar o padrão dos direitos humanos e da paz. É verdade que este é um projecto de longo prazo e um caminho íngreme. Mas temos de começar agora, a menos que nos rendamos a um horror indescritível. Vejo dez pontos essenciais:

1- Acção legítima: em primeiro lugar, devemos, no seio das Nações Unidas, abandonar o paradigma falhado (e em grande parte falacioso) de Oslo, a sua solução ilusória de dois Estados, o seu Quarteto impotente e cúmplice, e o desvio do direito internacional para os ditames dos seus supostos méritos políticos. As nossas posições devem basear-se inequivocamente nos direitos humanos e no direito internacional.

2- Uma visão clara: devemos parar de fingir que se trata simplesmente de um conflito territorial ou religioso entre duas partes em conflito e admitir a realidade da situação, nomeadamente que um Estado com um poder desproporcional coloniza, persegue e desapropria uma população indígena com base na sua etnia.

3- Um Estado único baseado nos direitos humanos: devemos apoiar o estabelecimento de um Estado único, democrático e secular em toda a Palestina histórica, com direitos iguais para cristãos, muçulmanos e judeus, e, portanto, o desmantelamento do projecto colonialista profundamente racista e o fim do apartheid em todo o território.

4- Luta contra o apartheid: devemos redireccionar todos os esforços e recursos das Nações Unidas para a luta contra o apartheid, como fizemos para a África do Sul nas décadas de 1970, 1980 e no início da década de 1990.

5- Regresso e compensação: devemos reafirmar e insistir no direito ao retorno e à compensação total de todos os palestinianos e das suas famílias que vivem actualmente nos territórios ocupados, no Líbano, na Jordânia, na Síria e na diáspora em todo o mundo.

6- Verdade e justiça: devemos apelar a um processo de justiça transicional, aproveitando ao máximo as décadas de investigações, pesquisas e relatórios acumulados pela ONU, a fim de documentar a verdade e garantir a responsabilização de todos os criminosos, a compensação para todas as vítimas e reparação de injustiças documentadas.

7- Protecção: Devemos insistir no envio de uma força de protecção da ONU com recursos suficientes e um mandato forte para proteger os civis do rio ao mar.

8- Desarmamento: devemos defender a remoção e destruição dos enormes arsenais de armas nucleares, químicas e biológicas de Israel, evitando assim que o conflito conduza à destruição total da região e, quem sabe, mais além.

9- Mediação: Devemos reconhecer que os Estados Unidos e outras potências ocidentais não são mediadores credíveis, mas sim partes no conflito, que são cúmplices de Israel na violação dos direitos palestinianos, e devemos confrontá-los como tal.

10- Solidariedade: devemos abrir amplamente as nossas portas (e as do Secretariado-Geral) às legiões de defensores dos direitos humanos palestinianos, israelitas, judeus, muçulmanos e cristãos que se solidarizam com o povo da Palestina e os seus direitos, e colocar um fim ao fluxo descontrolado de lobistas israelitas para os gabinetes dos líderes da ONU, onde defendem a continuação da guerra, da perseguição, do apartheid e da impunidade, ao mesmo tempo que denigrem os nossos defensores dos direitos humanos devido à sua posição de princípio em relação aos direitos palestinianos.

Levaremos anos para conseguir isso, e as potências ocidentais lutarão contra nós a cada passo do caminho, por isso devemos ser duros. Já temos de trabalhar por um cessar-fogo imediato e pelo fim do cerco a Gaza, opor-nos à limpeza étnica de Gaza, de Jerusalém, da Cisjordânia (e de outros lugares), documentar o ataque genocida em Gaza, contribuir para fornecer aos palestinianos apoio humanitário massivo ajuda e os meios para a reconstrução, cuidar dos nossos colegas traumatizados e das suas famílias e lutar arduamente para garantir que a abordagem dos gabinetes políticos da ONU se baseia em princípios.

O fracasso das Nações Unidas na Palestina até agora não é motivo para desistirmos. Pelo contrário, deveria encorajar-nos a abandonar o paradigma falhado do passado e a abraçar plenamente um curso de acção mais baseado em princípios.

Como ACDH, juntemo-nos com ousadia e orgulho ao crescente movimento anti-apartheid em todo o mundo, acrescentando o nosso logótipo à bandeira da igualdade e dos direitos humanos para o povo palestiniano. O mundo está nos observando. Todos teremos de prestar contas da nossa posição neste momento crucial da história. Fiquemos do lado da justiça.

Obrigado, Alto Comissário Volker, por ouvir este último apelo do meu gabinete. Dentro de alguns dias deixarei o Escritório pela última vez, depois de mais de três décadas de serviço. Mas sinta-se à vontade para entrar em contato comigo se eu puder ajudar no futuro.

Por favor, aceite, Senhor Presidente, a expressão das minhas saudações,

Craig Gerard Mokhiber

31 de outubro de 2023

https://www.odiario.info/carta-de-demissao-do-alto-comissariado/

sábado, 4 de novembro de 2023

Alexandra Lucas Coelho - Quero forças internacionais em Gaza. Já. E o boicote do mundo ao governo de Israel

OPINIÃO - 

Em Gaza, Israel está a bombardear o próprio argumento da sua existência: proteger um conjunto de pessoas de serem perseguidas.

*  Alexandra Lucas  Coelho

3 de Novembro de 2023

 1. Vivemos algo sem precedentes. A morte em Gaza é aqui, somos nós. A Europa disse: nunca mais. E era mentira. Estamos a ver o genocídio ao minuto num campo de concentração. Milhões pelo mundo, incluindo milhares de judeus, manifestam-se pelo cessar-fogo. A UE ignora-os: só uma “pausa humanitária”. Os EUA seguem Israel na guerra, agora também com “pausa humanitária”. É a pausa do curativo antes da bomba? A última refeição dos condenados à morte?

Sempre que pego no telefone a ver se W. e R. ainda estão vivos em Gaza, vejo mais uma criança em choque, cortada, tirada dos destroços. Pior. Um pequeno saco de plástico com partes humanas. Muitos sacos brancos no chão, em valas comuns. Muitos sacos com gente agarrada a eles, numa dor que não tem regresso. Há 27 dias consecutivos que 2,3 milhões de pessoas sem saída são bombardeadas em directo nos nossos telemóveis. Nunca visto.

O cessar-fogo é urgente. Mas mais. Uma força internacional de interposição em Gaza. E um boicote global ao governo de Israel. Desde ontem — e aguardamos que a lista cresça — Bolívia, Colômbia, Chile, Bahrein cortaram laços diplomáticos, chamaram os embaixadores ou falaram em genocídio.

2. Muitos judeus pelo mundo percebem isso com clareza, e no último shabat milhares ocuparam a Grand Central Station de Nova Iorque com t-shirts Não Em Nosso Nome, cartazes Nunca Mais É Para Todos. O tributo à memória do Holocausto estava ali, não em Israel. A vida estava ali, não a morte. Centenas foram detidos, numa fila interminável. Desobediência civil inédita na mesma noite em que Israel apagava Gaza do mundo, num black out de telefone e internet.

Entretanto, nos EUA, uma anciã, militar retirada, levanta um cartaz pelo cessar-fogo, interrompendo Blinken, enquanto vários jovens erguem as mãos pintadas de vermelho. Noutro lugar, uma rabina levanta-se, interrompendo Biden, para apelar ao cessar-fogo.

Judeus que estão a descolar o judaísmo da barbárie. A libertar as pessoas para o protesto sem serem acusadas de anti-semitismo. E ao dizerem, enquanto judeus, que nunca mais é para todos, libertam e protegem outros judeus. Inspiram judeus em Israel a quebrar o silêncio por dentro.

Foi Israel quem colou o judaísmo à barbárie. Ao massacrar os palestinianos, Israel é o pior inimigo dos judeus, além do pior inimigo de si próprio. O sionismo, claro, é muito anterior à fundação de Israel. O seu texto-marco é de 1896. Os seus militantes recorreram muitas vezes ao terrorismo nas décadas seguintes, como tantos movimentos nacionalistas. Uma longa história que não cabe aqui. A primeira vez que fui a Telavive ainda entrevistei o ancião Uri Avnery, que fora um desses ex-sionistas armados, e caminhara até uma certa ideia de paz, usava dois pins com as bandeiras de Israel e da Palestina.

Nunca foi tão urgente distinguir judaísmo e sionismo, antisemitismo e antisionismo. O judaísmo é milhares de anos anterior e está muito para além do Estado de Israel. Os judeus de Nova Iorque que se descolam da barbárie também se descolam do sionismo em muitos casos. Não Dois Estados. Um Estado para toda a gente, sem supremacia étnica ou religiosa.

Autores da chamada Nova História de Israel, como Avi Shlaim ou Ilan Pappé, falaram de como sionismo é racismo. Como um Estado para os judeus se fez à custa de uma limpeza étnica dos palestinianos em 1947-48, a Nakba em árabe. O mundo acabara de sair da II Guerra. O horror sem precedentes do Holocausto ficou inscrito na própria Declaração de Independência de Israel. E se nos primeiros tempos o Estado judaico teve vergonha dos que se tinham deixado abater (quando não colaborado na extinção), depois foi usando o Holocausto como arma. Enquanto tirava cada vez mais direitos aos israelitas não-judeus. Racismo de Estado.

Há dias vi Netanyahu na sua performance de comandante-em-negro da guerra 2023, mais uma vez invocando o Holocausto. Qualquer pessoa que conheça Israel sabe como isso é comum. E qualquer europeu sabe como a culpa do Holocausto tem paralisado a Europa. Não me vou alongar sobre o que já escrevi. Como o argumento do Holocausto tem de ser virado do avesso. Desarmado. Em vez de motivo para não travar a morte, motivo para a travar.

Em Gaza, Israel está a bombardear o próprio argumento da sua existência: proteger um conjunto de pessoas de serem perseguidas. A autodestruição de Israel tem vindo a acontecer há décadas, e 2023 pode ser vista como uma solução final, ao mesmo tempo assassina e suicida. Ao massacrar o povo que ocupou, Israel leva-se a si mesmo para um abismo irreversível.

3. Mas a UE continua cega. “Israel é um Estado democrático guiado por princípios muito humanitários. Podemos estar certos de que o exército israelita respeitará as regras do direito internacional em tudo o que fizer, não tenho dúvidas quanto a isso.” As palavras de Olaf Scholz, líder da Alemanha, há menos de uma semana, quando 7000 corpos já tinham sido identificados em Gaza, 2000 dos quais crianças, e mais de dois milhões de pessoas continuavam bombardeadas. Li estas palavras e afinal era pior do que sermos todos maus animais. Pensei: somos a vergonha dos animais.

Toda a gente sabe que Scholz mente, a começar por ele próprio. Aquele foi o momento em que a UE decidia não apelar ao cessar-fogo (salvé Irlanda, brava). Em que a UE subscrevia como democrático um Estado que está a cometer crimes de guerra, que destratou Guterres, que cuspiu na cara do mundo, dizendo que “a ONU não tem qualquer relevância”. É em baixo disto que Scholz assina? É com isto que a UE quer construir um futuro? Quer proteger os judeus? Proteja-os de Israel.

Que credibilidade tem a Alemanha, a UE depois disto? Tal como os EUA não têm credibilidade para falar de barbárie. E tudo isto corre o risco de lhes rebentar na cara.

E quantas vezes será preciso lembrar que o Hamas é um movimento religioso nacionalista que recorre a terrorismo? É essa a fasquia da democracia? Contrapor o Hamas a Israel é dizer que as (supostas) democracias têm o direito de ser terroristas.

4. Pego no telefone e a cada minuto aumenta o abismo. Vários abismos: entre gerações, entre eleitores e eleitos, entre Ocidente/Norte e Oriente/Sul. Os mais velhos não ouvem os mais novos. Os governos não ouvem a rua. A gente sai à rua aos milhares, por exemplo em Lisboa, apanha com uma carga de água, e os media resumem a coisa a umas centenas, e aos partidos. Mais um abismo: entre os media e as redes sociais.

Os telefones são a arma de uma população que o mundo abandonou. A parte mais envelhecida da Europa — ou parada no tempo, ou só cega mesmo — não terá noção das imagens nas redes que mostram o massacre. Dos reels de um apocalipse contínuo que vêm de lá. Mas acreditem: as pessoas no Médio Oriente e pelo mundo estão de telefone nas mãos, a ver. As novas gerações estão a ver isto. E é como o afastamento das placas tectónicas, dos continentes. Não ter noção das redes agora é uma irresponsabilidade para quem tem responsabilidades políticas. Porque é lá que estão as pessoas que não têm voz. Num gueto onde não puderam entrar jornalistas desde 7 outubro.

A Europa tem uma bomba nas mãos. Um 7 de outubro multiplicado há 27 dias, entre anúncios de publicidade e a frivolidade das vidas, tudo a misturar-se como se fosse ficção. Como se fossem trailersTrailers de crianças a serem arrancados de escombros.

Mais crianças morreram agora do que em todos os conflitos do mundo em três anos. Por muito e muito tempo, elas vão assombrar-nos. Vão assombrar as crianças de agora.

5. E a barbárie do Hamas, e os reféns? É o que muita gente ainda pergunta ao fim de 27 dias, mal ouve falar das crianças em Gaza. Mesmo quando esses reféns criticam a acção de Israel. Mesmo quando é claro que Israel os está a usar na guerra. Mesmo quando os EUA, a UE, muitos poderes estão empenhados em salvar cada uma dessas vidas. Ou seja, quando elas já têm quem as proteja — felizmente. Ao contrário de 2,3 milhões em Gaza.

E quantas vezes será preciso lembrar que o Hamas é um movimento religioso nacionalista que recorre a terrorismo? É essa a fasquia da democracia? Contrapor o Hamas a Israel é dizer que as (supostas) democracias têm o direito de ser terroristas. Que um Estado a que o Ocidente/Norte chama democracia, com centenas de milhares de soldados, tanques, força aérea e poder nuclear pode ser bárbaro porque o Hamas foi bárbaro. De cada vez que se repete isto é a humanidade que se afunda.

E os milhares de trabalhadores de Gaza agora reféns de Israel? Gente de quem não sabemos os nomes, nem quantos são, sequer. Nada sabemos deles, ao contrário dos reféns do Hamas. Valem menos, estas vidas de Gaza?

E as da Cisjordânia? O terror a que três milhões estão sujeitos com 700 mil colonos que viraram milícias, e os atacam em contínuo. Além das dezenas de milhares de israelitas que se armaram desde 7 de Outubro com incentivo do governo. Desde as fronteiras de Gaza aos colonatos, Israel é um paiol, com cada vez menos espaço para a compaixão, para a morte dos outros.

E que a Europa se pergunte, também: porque a impressiona mais a morte em Israel do que a morte em Gaza?

6. Em vez disso, outra pergunta que ouço: porque é que os palestinianos não se revoltam contra o Hamas? Bom. Poderá ser porque o mundo os abandonou há décadas? Porque estão sozinhos e trancados num gueto que se tornou um campo de concentração? Porque as Nações Unidas falharam para com eles? Porque a Europa falha há décadas em defender o direito internacional e os direitos humanos? Enquanto Israel plantava 700 mil colonos, a Europa repetia o mantra dos Dois Estados. Também era o direito de Israel se defender, a colonização no século XXI? A ocupação deveria ter bastado à Europa para agir, e nunca bastou. E só ficou pior. A Europa e o mundo também armaram este paiol.

Israel é um fruto da Europa. Dos pogroms da Europa, dos acordos da Europa. E a Europa precisava de ter sido tão radicalmente fiel à democracia e aos direitos humanos que não teria contribuído para o fortalecimento do Hamas. O 7 de Outubro não aconteceu no vazio, como Guterres bem disse. O secretário-geral foi até onde podia no lugar em que está. Fez o seu trabalho, como disse Craig Mokhiber, o alto quadro da ONU que se demitiu entretanto, e ficou livre para dizer o resto, em quatro páginas que recomendo a toda a gente.

Ele chegou a morar em Gaza, conhece o terreno. Nunca conheci ninguém — uma única pessoa — que conhecesse Gaza e não a sentisse como um escândalo.

Como é possível o mundo ter pensado que aqueles milhões podiam continuar do outro lado do muro sem direito a uma vida digna?

7. Toda uma nova geração não entende. Já estamos a legar-lhes um planeta em colapso. Agora um genocídio em directo para milhões.

Anteontem, vi Bisan Wizard, uma das jovens cercadas em Gaza que comunica directamente com quem a seguir no Instagram. Ela dizia: aproveitem a vida o máximo que puderem. Como um bilhete numa garrafa, a cara dela no nosso telemóvel lembrava o que facilmente esquecemos: o quanto a vida é preciosa. Gaza a dizer-nos que nos importemos com a vida.

Que a vida do outro é a nossa vida. A nossa história comum.

Toda a poesia que li depois de Auschwitz, os filósofos, a arte, se isso serviu para alguma coisa em relação ao que é a história, ao que pode ser uma consciência comum, será para olhar isto de frente e dizer que não. Partirmos este espelho.

Se o nunca mais não é para Bisan, W., R., e todos os palestinianos, então não é para mim. Não é para quem lê este texto, nem para os seus filhos. Deixarmos isto acontecer é dizer que é ok acontecer.

Israel tem de ser isolado como Estado de 'apartheid', investigado por crimes de guerra, à luz do direito internacional e humanitário.

8. Desde domingo que não sei de W., esse amigo e tradutor de tantas reportagens neste jornal, muito tempo depois prisioneiro torturado do Hamas, como já escrevi. As palavras dele continuam a abrir-se no silêncio que passa entre elas, e de cada vez penso: como me atrevo a dizer que sou impotente?

Também já contei que a 7 de Outubro eu estava a ler “Eichmann em Jerusalém”, e é como se Hannah Arendt acompanhasse estes 27 dias. Então o carteiro toca e traz-me o livrinho de uma filósofa nascida décadas depois na Catalunha, que fala do resgate do saber, do ler, do pensar-acção, contra a impotência.

Sim. Ganhar tempo a saber o quanto não sabemos sobre Israel/Palestina. Se ainda temos cabeça, se ainda temos coração, não somos impotentes.

Entre tantos livros à minha volta, e fotografias de Jerusalém, e herbários da Palestina, está por exemplo Etty Hilesum. Ela que se sentou naquele comboio para Auschwitz e deitou aos céus o seu último bilhete. Está Etty, como Adania, como Darwish a levar com bombas, ou aquele poster de há cem anos, quando se apanhavam comboios em Gaza. Há um ano, a última vez que estive em Jerusalém, não consegui entrar em Gaza, mas R. mandou-me uma foto de um pedacinho dos carris que sobrava lá.

Que será feito deles?Quero forças internacionais em Gaza. Já. E o boicote do mundo ao governo de Israel

9. Israel tem de ser isolado como Estado de apartheid, investigado por crimes de guerra, à luz do direito internacional e humanitário. Sujeito a sanções económicas e políticas, além do boicote dos cidadãos. Não ficarmos impotentes é também questionar quem governa: António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa, a Assembleia da República, a União Europeia. As pessoas estão a protestar como podem. E quem as representa? Provem que a democracia existe, que ainda vale a pena votar, que os direitos humanos são de toda a gente. Estejam à altura da vida que chega de Gaza, e a cada  minuto não sabemos se continua.

Jornalista e escritora, ex-correspondente do PÚBLICO em Jerusalém

Jornalista

https://www.publico.pt/2023/11/03/opiniao/opiniao/quero-forcas-internacionais-gaza-ja-boicote-mundo-governo-israel-2068893

 

 



sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Joana Pereira Bastos - IA obriga faculdades a mudar avaliação de alunos

 

SOCIEDADE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Ensino superior Um ano depois de ter sido criado, o ChatGPT, ferramenta capaz de produzir textos em qualquer área, generalizou-se, gerando dúvidas sobre autoria de teses e trabalhos. Universidades já estão a mudar regras de avaliação

IA obriga faculdades a mudar avaliação de alunos, por   JOANA PEREIRA BASTOS

2023 11 03

No passado ano letivo, Rui Sousa Silva, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pediu um trabalho académico a uma turma de 50 alunos do 1º ano. Quando começou a corrigi-los, notou algo estranho: nenhum dos trabalhos continha um único erro ortográfico ou gramatical, nem sequer uma pequena gralha, coisa nunca antes vista. E as frases eram curtas e diretas, sem orações intercalares, um estilo típico do inglês mas pouco frequente na escrita portuguesa. Independentemente do conteú­do e do tema, que variava, a estrutura era praticamente igual em todos. Especialista em linguística forense, o docente rapidamente concluiu: “Estes textos não foram escritos por humanos.”

Na altura, o ChatGPT ainda era muito recente. Numa das aulas, Rui Sousa Silva tinha conversado com os alunos sobre esta ferramenta de inteligência artificial (IA) generativa que reproduz a linguagem humana na perfeição e é capaz de responder a perguntas e gerar, em poucos segundos, textos completos em qualquer área e à medida das instruções que recebe, desde poemas a ensaios ou teses académicas. Deixou claro que podiam usá-la para apoio na pesquisa, mas nunca para a realização integral dos trabalhos. Por isso estranhou que tivessem contrariado as suas indicações. Mas a análise linguística que tinha feito dos textos entregues pelos estudantes não oferecia dúvidas, assim como o facto de nenhuma das dissertações fazer referência aos autores que tinham sido abordados em aula. Quando os confrontou, a grande maioria dos alunos acabou por admitir que o verdadeiro autor dos trabalhos era o ChatGPT.

Criada há um ano, a ferramenta generalizou-se rapidamente, ultrapassando em apenas dois meses a marca dos 100 milhões de utilizadores a nível mundial e transformando-se no software com o crescimento mais rápido da História. Para as universidades, nunca nada foi tão potencialmente disruptivo. Ao acelerar a um ritmo inimaginável a capacidade de pesquisa e cruzamento de fontes, as aplicações de IA generativa, como o ChatGPT ou o Bard, por exemplo, podem ajudar a produção científica e, em última análise, fortalecer a aprendizagem; mas, ao mesmo tempo, são capazes de minar a integridade da avaliação dos alunos e até reduzir a sua capacidade de reflexão se os estudantes se limitarem a pedir à máquina que pense por si e a reproduzir acriticamente os textos gerados por esta.

Em todo o mundo, as instituições de ensino superior estão ainda a tentar perceber como adaptar-se à nova realidade. Algumas universidades de referência, como a francesa Sciences Po, proibiram estas ferramentas, mas a maioria acredita que é impossível travar o seu uso. Por isso muitas optaram por permitir esta tecnologia e até incentivar a sua utilização, desde que com regras e com ajustes ao modelo de avaliação. É essa também a tendência em Portugal.

“As tecnologias de IA no ensino não podem ser proibidas. Não há como. Dessa forma, pelo contrário, devem ser utilizadas por todos, em condições controladas, para se perceber como se pode tirar partido delas para aumentar a eficiência da aprendizagem sem pôr em causa o treino e aquisição de competências”, defende Rogério Colaço, presidente do Instituto Superior Técnico, frisando que os alunos têm de perceber que “não as poderão usar de forma acrítica ou fraudulenta”. Para o evitar, devem reforçar-se as avaliações presenciais, diz.

Em alguns cursos da Universidade do Minho já foram mesmo introduzidas alterações na avaliação, “promovendo-se a substituição de trabalhos escritos por provas orais”. Também no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa, foram aprovadas pelo Conselho Pedagógico várias recomendações no sentido de privilegiar avaliações presenciais, como exames ou trabalhos elaborados nas aulas. Os que forem realizados fora das salas terão de contemplar uma apresentação oral com um peso significativo na nota — entre 50% e 60% no caso de teses de mestrado e doutoramento — para “confirmar a autoria do trabalho”. E será exigido aos alunos que declarem em que tarefas ou fases da investigação usaram estas tecnologias. “Fugimos do modelo proibicionista. A nossa ideia é mitigar os riscos da utilização da IA generativa, potenciando as suas vantagens”, explica Tiago Cruz Gonçalves, professor do ISEG e membro do grupo de trabalho que produziu estas recomendações.

ERROS, FALSIDADES E ALUCINAÇÕES

Nas suas aulas, o docente ajuda os alunos a usar o ChatGPT ou o Bing para melhorarem a pesquisa, alertando-os para os riscos: ao recorrerem a uma quantidade gigantesca de informação disponível na internet sem distinguir o que é verdadeiro ou falso, estas ferramentas podem reproduzir erros e fontes que não são fiáveis e replicar “enviesamentos cognitivos”, geográficos ou de género, por exemplo.

Na Escola de Tecnologias Aplicadas do ISCTE este tipo de formação é obrigatória para os estudantes de todas as licenciaturas. No módulo Trabalho Académico com IA os jovens aprendem a usar devidamente estas aplicações, até porque a qualidade dos textos produzidos depende da forma mais ou menos sofisticada como lhes forem dadas as instruções e for formulada a pergunta ou o pedido. E ganham consciência das limitações desta tecnologia — que não são poucas. “O ChatGPT tem grande dificuldade em apresentar os dados que sustentam as afirmações que produz e não refere as fontes em que se fundamenta. Quando pedimos as referências bibliográficas em que se baseia, muitas vezes alucina e inventa, invocando artigos científicos que não existem”, adverte o diretor da escola, Ricardo Paes Mamede.

Ainda assim, o docente considera que a ferramenta “é muito boa a organizar e sintetizar argumentos” e tem uma ótima qualidade de escrita, “melhor do que a da maioria dos alunos”. Foi isso, aliás, o que o levou a perceber que a tese de mestrado que um orientando lhe apresentou não tinha sido produzida por ele mas pela aplicação. Conhecia bem a escrita do aluno e não batia certo com o que via à sua frente. “Do ponto de vista da estrutura do texto e da redação, foi a dissertação mais bem escrita que já alguma vez vi”, diz. Mas, além de constituir uma fraude, a tese não era apresentável, por não conter quaisquer referências ou citações ao longo do texto nem fundamentar as afirmações, violando um princípio básico da ciência.

Ricardo Paes Mamede deu duas opções ao aluno: ou refazia a tese por ele próprio ou tinha de referir as fontes em que esta se baseava. Sem conseguir encontrá-las, o jovem acabou por apresentar uma dissertação efetivamente sua, usando a aprendizagem do ChatGPT apenas para melhorar a sua redação. “Pode estar menos bem escrita ou pior estruturada, mas é dele, é original, e refere as fontes que consultou. Isso é o mais importante”, salienta. Agora, o diretor do ISCTE Sintra incentiva os estudantes a recorrerem à IA generativa sobretudo para rever e aprimorar os textos que produzem, melhorando a escrita e a estrutura. Desse modo aprenderão a dominar uma tecnologia emergente respeitando princípios éticos e científicos.

HUMANO VS. MÁQUINA

Depois do surgimento do ChatGPT, muitas plataformas de deteção de plágio usadas pelas universidades receberam atualizações para abranger também a deteção de escrita gerada por inteligência artificial, indicando o grau de probabilidade de determinado texto ter sido escrito por uma máquina. Um pouco por todo o mundo, os professores têm recorrido a estes softwares para perceber se há fraude na autoria dos trabalhos, mas os resultados ainda são pouco fiáveis.

Foi o que Rui Sousa Silva comprovou. Sendo especialista em linguística forense e deteção de plágio, conseguiu perceber a fraude, depois confessada pelos alunos, mas o software foi incapaz de a detetar. E também já foram reportados casos em que aconteceu o oposto, isto é, em que o software gerou “falsos positivos”. Por exemplo, uma destas plataformas apontou como muito provável a Constituição dos EUA ter sido escrita pelo ChatGPT. Assim sendo, há a possibilidade real de alunos inocentes serem injustamente acusados e de colegas fraudulentos escaparem impunes. “Todas as ferramentas que vi até agora falham bastante na deteção da IA. E pairar um ambiente de dúvida é muito pouco saudável”, diz o docente.

André Casado, professor na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, confrontou-se este ano com o peso dessa incerteza. A tese de mestrado de um aluno seu na área de Marketing foi classificada pelo software usado pela instituição como tendo uma probabilidade superior a 50% de ter sido escrita por IA, mas o estudante não assumiu. “Não temos como provar”, assume o professor. É a palavra de um humano contra o veredicto de uma máquina sobre se a tese é, afinal, do humano ou da máquina.

Entre tantas incertezas, as universidades estão ainda a refletir sobre como devem proceder. Ninguém duvida das potencialidades desta tecnologia, mas são também muitos os re­ceios. “Pode ser bastante enriquecedora para o ensino e para a ciência. Mas se for usada sem controlo, vai acabar por condenar o pensamento e a escrita”, teme Rui Sousa Silva.

FRASES

“Não há como proibir as tecnologias de IA no ensino. Por isso, devem ser usadas por todos, em condições controladas, para se perceber como se pode tirar partido delas”

Rogério Colaço

Presidente do Instituto Superior Técnico

“O ChatGPT pode ser bastante enriquecedor para o ensino e para a ciência. Mas se for usado sem controlo, vai acabar por condenar o pensamento e a escrita”

Rui Sousa Silva

Professor da Faculdade de Letras do Porto

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2662/html/primeiro-caderno/sociedade/ia-obriga-faculdades-a-mudar-avaliacao-de-alunos-

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Robert Fisk - O Jornalismo e as palavras do poder



Journalism and ‘the words of power’ - By Robert Fisk.

12 de julho de 1946 - 30 de outubro de 2020.

O correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio, Robert Fisk, fez o seguinte discurso no quinto fórum anual da emissora árabe Al Jazeera, em 23 de maio:

Poder e mídia não são apenas relações amigáveis entre jornalistas e líderes políticos, entre editores e presidentes. Não são apenas sobre as relações parasitárias e de osmose entre repórteres supostamente honrados e o eixo do poder que existe entre a Casa Branca, o Departamento de Estado e o Pentágono, a Downing Street e os ministérios das Relações Exteriores e da Defesa [britânicos]. No contexto Ocidental, a relação entre poder e mídia diz respeito a palavras — é sobre o uso de palavras. É sobre semântica. É sobre o emprego de frases e suas origens. E é sobre o mau uso da História e sobre nossa ignorância da História. Mais e mais, hoje em dia, nós jornalistas nos tornamos prisioneiros da linguagem do poder.

Isso acontece porque não nos preocupamos com a linguística? É porque os laptops ‘corrigem’ nossa ortografia, ‘limpam’ nossa gramática de forma a que nossas sentenças frequentemente se tornem idênticas às de nossos líderes? É por isso que os editoriais de jornais hoje em dia soam como se fossem discursos políticos?

Deixem-me demonstrar o que quero dizer.

Por duas décadas as lideranças dos Estados Unidos e do Reino Unido — e dos israelenses e palestinos — tem usado as palavras “processo de paz” para definir o acordo sem futuro, inadequado e desonroso que permite aos Estados Unidos e a Israel fazerem o que bem entenderem com os pedaços de terra que deveriam ser dados a um povo sob ocupação.

Eu primeiro me perguntei sobre esta expressão e sobre a origem dela na época de Oslo [Nota do Viomundo: A capital da Noruega foi sede das negociações que resultaram num tratado entre israelenses e palestinos celebrado na Casa Branca com as presenças do presidente Bill Clinton, do líder palestino Yasser Arafat e do primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, tratado que na prática fracassou]  — embora a gente se esqueça facilmente que as rendições secretas de Oslo tenham sido, em si, uma conspiração sem qualquer base legal. Pobre e velha Oslo, sempre pensei! O que Oslo fez para merecer isso? Foi o acordo da Casa Branca que selou o tratado dúbio e absurdo — pelo qual os refugiados, as fronteiras, as colônias israelenses e mesmo o plano de metas foram adiados até que não pudessem mais ser negociados.

E como nos esquecemos facilmente do gramado da Casa Branca — embora, sim, lembremos das imagens — no qual Clinton citou o Corão e Arafat escolheu dizer: “Obrigado, obrigado, obrigado sr. presidente”. E como chamamos esse embuste depois? Sim, foi um ‘momento histórico’! Foi? Foi mesmo?

Vocês se lembram como Arafat se referia a ele?  “A paz dos bravos”. Mas não me lembro que algum de nós tenha apontado que a frase “paz dos bravos” foi usada originalmente pelo general De Gaulle no fim da guerra [de independência] da Argélia. Os franceses perderam a guerra na Argélia. Nós não nos demos conta desta ironia extraordinária.

Vemos isso de novo, hoje. Nós, jornalistas ocidentais — usados outra vez mais pelos nossos líderes — temos noticiado como os felizes generais do Afeganistão tem dito que a guerra lá só pode ser vencida como parte de uma campanha “pelos corações e mentes” [dos afegãos]. Ninguém fez aos generais a pergunta óbvia: esta mesma frase não foi usada em relação aos civis vietnamitas na guerra do Vietnã? E nós não — nós, o Ocidente —  não perdemos a guerra do Vietnã?

Ainda assim nós, jornalistas ocidentais, estamos usando — no Afeganistão — a frase “corações e mentes” em nossas reportagens, como se fosse uma frase nova no dicionário e não um símbolo de derrota usado pela segunda vez em quatro décadas, em alguns casos usada pelos mesmos soldados que venderam esta bobagem — quando eram mais novos — no Vietnam.

Olhem agora para as palavras que nós recentemente ‘adotamos’ vindas dos militares dos Estados Unidos.

Quando nós ocidentais descobrimos que “nossos” inimigos — a Al-Qaeda, por exemplo, ou o talibã — explodiram mais bombas e patrocinaram mais ataques do que o esperado, chamamos isso de “um pico de violência”. Ah, sim, um ‘pico’.

Um ‘pico’ de violência, senhoras e senhores, foi uma frase primeiro usada, de acordo com meus arquivos, por um general na Zona Verde de Bagdad em 2004 [inicialmente quartel-general da ocupação dos Estados Unidos no Iraque]. No entanto, nós usamos a frase agora, discutimos a partir dela, replicamos como se fosse nossa. Estamos usando, literalmente, uma expressão criada para nós pelo Pentágono. Um “pico”, naturalmente, significa algo que sobe rapidamente e que em seguida cai rapidamente. Um ‘pico’, assim sendo, evita o uso do terrível “aumento da violência” — já que um aumento, senhoras e senhores, pode não ser seguido por uma redução posteriormente.

De novo, quando os generais dos Estados Unidos se referem a um repentino aumento de suas forças para um ataque contra Fallujah ou o centro de Bagdá ou Kandahar — um movimento em massa de soldados trazidos para países muçulmanos aos milhares — eles chamam isso de ‘surge’. E um ‘surge’, como um tsunami ou qualquer outro fenômeno natural, pode ter efeitos devastadores. O que esses ‘surges’ são, na verdade — para usar as palavras verdadeiras do jornalismo sério — são reforços. E reforços são mandados para as guerras quando os exércitos estão perdendo essas guerras. Mas nossos meninos e meninas nos jornais e nas emissoras de TV estão falando em ‘surges’ sem atribuir isso ao Pentágono! O Pentágono ganha de novo.

Enquanto isso, o ‘processo de paz’ desabou. Assim nossos líderes — nós gostamos de chamá-los de ‘jogadores-chave’ — estão tentando de novo. Assim o processo tem de ser colocado ‘nos trilhos’. Era um trem, como vocês notaram. Os vagões tinham saído dos trilhos. E assim o trem tem de ser posto de novo ‘nos trilhos’. Foi o governo Clinton o primeiro a usar a frase, depois os israelenses, depois a BBC. Mas havia um problema quando o ‘processo de paz’  foi colocado de novo ‘nos trilhos’ — e ainda assim não andou. E então produzimos o ‘mapa do caminho’ — tocado por um quarteto liderado pelo nosso amigo de Deus, Tony Blair, ao qual — em uma obscenidade da História — agora nos referimos como ‘enviado da paz’.

Mas o ‘mapa do caminho’ não está funcionando. E agora, notem, o velho ‘processo de paz’ está de volta aos jornais e às telas de TV. Dois dias atrás, na CNN, um destes velhos chatos que os meninos e meninas da TV chamam de ‘experts’ — falarei deles em um momento — nos disse de novo que o ‘processo de paz’  está sendo colocado ‘nos trilhos’ por causa do início de ‘conversas indiretas’ entre israelenses e palestinos.

Senhoras e senhores, não são apenas clichês — isso é jornalismo absurdo. Não existe mais batalha entre o poder e a mídia. Através da linguagem, nós nos tornamos eles. Talvez o problema advenha de que a gente não pensa mais por conta própria por não ler livros. Os árabes ainda lêem livros — não estou falando aqui sobre a taxa de analfabetismo em países árabes — mas não estou certo de que no Ocidente a gente ainda leia livros. Eu geralmente mando mensagens por telefone e descubro que tenho de passar dez minutos repetindo à secretária algumas centenas de palavras. Elas não sabem soletrar.

Eu estava no avião um dia destes, voando de Paris a Beirute — um vôo de cerca de 3 horas e 45 minutos — e a mulher sentada ao lado estava lendo um livro em francês sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Ela mudava de página depois de alguns segundos. Acabou o livro antes do pouso em Beirute! E de repente me dei conta de que ela não estava lendo o livro, estava surfando nas páginas! Tinha perdido a habilidade do que costumo chamar de ‘leitura profunda’. Meramente usamos as primeiras palavras que aparecem…

Deixe-me mostrar outro pedaço da covardia midiática que faz os meus dentes de 63 anos de idade rangerem depois de 34 anos comendo humus e tahina no Oriente Médio.

Somos informados, em tantas análises, que precisamos lidar no Oriente Médio com ‘narrativas que competem’. Que meigo. Não há justiça, nem injustiça, apenas algumas pessoas que nos contam histórias diferentes. ‘Narrativas que competem’ agora aparece regularmente na imprensa britânica. A frase é uma espécie — ou subespécie — da falsa linguagem da antropologia. Nega a possibilidade de que um grupo de pessoas — no Oriente Médio, por exemplo — seja ocupado, enquanto outro grupo de pessoas promove a ocupação. Novamente, não há justiça, injustiça, não-opressão ou opressão, apenas amigáveis ‘narrativas que competem’, um jogo de futebol, se quiserem, um campo neutro já que os dois lados estão — não estão? — ’em competição’. E os dois lados merecem tempo igual em todas as reportagens.

E assim uma ‘ocupação’ pode se tornar uma ‘disputa’. E assim um ‘muro’ pode se tornar uma ‘cerca’ ou uma ‘barreira de segurança’. E assim a colonização israelense de terra árabe contrária a todas as leis internacionais se torna ‘acampamentos’ ou ‘postos’ ou ‘vizinhanças judaicas’.

Vocês não vão se surpreender ao descobrir que foi Colin Powell, em seu estrelato sem poder no posto de secretário de Estado de George W. Bush, que disse a diplomatas americanos no Oriente Médio que eles deveriam se referir à terra ocupada dos palestinos como ‘terra disputada’ — o que foi bom o suficiente para a maior parte da mídia americana.

Fiquem de olho na ‘narrativa que compete’, senhoras e senhores. Não há ‘narrativas que competem’, naturalmente, entre os militares dos Estados Unidos e o talibã. Quando houver, no entanto, vocês saberão que o Ocidente perdeu. Mas vou dar um exemplo pessoal para demonstrar como as ‘narrativas que competem’ evaporam.

No ano passado, fiz uma palestra em Toronto para marcar os 95 anos do genocídio armênio de 1915, o assassinato em massa deliberado de um milhão e meio de cristãos armênios por milícias e pelo exército otomano da Turquia. Antes da minha palestra, fui entrevistado na tv canadense, a CTV, que também é dona do jornal Toronto Globe and Mail. Desde o início, notei que minha entrevistadora tinha um problema. O Canadá tem uma grande comunidade armênia. Mas Toronto também tem uma grande comunidade turca. E os turcos, como o Globe and Mail sempre diz, ‘negam calorosamente’ que tenha havido genocídio. E assim a entrevistadora chamou o genocídio de “massacres mortais”.

Naturalmente que notei este problema específico de cara. Ela não podia chamar os massacres de ‘genocídio’ porque a comunidade turca se sentiria ultrajada. Mas, igualmente, ela sentiu que ‘massacre’ sozinho — especialmente com as fotos cruéis que serviam de cenário no estúdio, de armênios mortos — não seria suficiente para definir um milhão e meio de seres humanos assassinados. Daí os ‘massacres mortais’. Que estranho!!! Se existem massacres ‘mortais’, existem massacres que não são ‘mortais’, nos quais as vítimas saem com vida? Foi tautologia ridícula.

No fim, contei este pequeno caso de covardia jornalística na palestra, para minha audiência armênia, na qual também havia executivos da CTV. Uma hora depois de minha palestra, o armênio que promoveu o encontro recebeu uma mensagem de texto de um repórter da CTV. “Cagar na CTV não tinha nada a ver”, o repórter reclamou. Duvido, pessoalmente, que a palavra ‘cagar’ seja usada na CTV. Mas ‘genocídio’ também não é. Foi assim que as ‘narrativas que competem’ explodiram.

Sim, o uso da linguagem do poder — de suas palavras e frases — é comum entre nós. Quantas vezes ouvi de repórteres ocidentais sobre ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão? Eles estão se referindo, naturalmente, a vários grupos árabes que supostamente ajudam o talibã. Ouvimos a mesma história no Iraque. Sauditas, jordanianos, palestinos, combatentes chechenos, naturalmente. Os generais os chamavam de ‘combatentes estrangeiros’. E assim, imediatamente, fizemos o mesmo. Chamá-los de ‘combatentes estrangeiros’ significava que são uma força de invasão.  Mas nunca — nunca — ouvi uma estação de TV ocidental se referir ao fato de que existem pelo menos 150 mil ‘combatentes estrangeiros’ no Afeganistão. E que a maioria deles, senhoras e senhores, veste uniformes dos Estados Unidos e da Otan!

Da mesma forma, a frase perniciosa ‘Af-Pak’ — racista e politicamente desonesta como é — é usada por repórteres quando foi originalmente uma criação do Departamento de Estado, no dia em que Richard Holbrooke foi indicado mediador dos Estados Unidos no Afeganistão e no Paquistão. Mas a frase evita o uso da palavra ‘Índia’, cuja influência no Afeganistão e cuja presença no Afeganistão é parte vital da história. Além disso, ‘Af-Pak’ — ao apagar a Índia — eficazmente apaga toda a crise de Kashmir do conflito no sudeste da Ásia. E assim o Paquistão ficou sem qualquer papel na política dos Estados Unidos para Kashmir — afinal, Holbrooke foi nomeado para o ‘Af-Pak’, especificamente proibido de discutir Kashmir. E assim a frase ‘Af-Pak’, que nega totalmente a tragédia do Kashmir — muitas ‘narrativas que competem’, quem sabe? — significa que quando nós jornalistas usamos a mesma frase, ‘Af-Pak’ — que com certeza foi criada para nós — estamos fazendo o trabalho do Departamento de Estado americano.

Agora olhemos para a História. Nossos leitores amam História. Mais que tudo, eles amam a Segunda Guerra Mundial. Em 2003, George W. Bush pensou que era Churchill e George W. Bush. Na verdade, Bush gastou a guerra do Vietnam protegendo os céus do Texas dos vietcongs [Nota do Viomundo: Durante a guerra do Vietnam, Bush filho evitou sua convocação servindo à Força Aérea americana em uma base do Texas].

Mas agora, em 2003, Bush estava enfrentando os ‘apaziguadores’ que não queriam guerra com o Saddam que era, naturalmente, o “Hitler do [rio] Tigre”. Os ‘apaziguadores’ eram os britânicos que não queriam enfrentar a Alemanha nazista em 1938. Blair, naturalmente, também experimentou a casaca de Churchill. Ele não era ‘apaziguador’. Os Estados Unidos eram os aliados mais antigos do Reino Unido — Blair proclamou — e Bush e Blair lembraram aos jornalistas que os Estados Unidos estavam ombro a ombro com o Reino Unido quando este precisou de ajuda, em 1940.

Mas nada disso era verdade.

O mais antigo aliado do Reino Unido não foram os Estados Unidos. Foi Portugal, um estado fascista que ficou neutro durante a Segunda Guerra. Somente meu jornal, o Independent, notou isso.

Nem os Estados Unidos lutaram ao lado do Reino Unido na hora que os britânicos precisaram, em 1940, quando Hitler ameaçou invasão e a força aérea alemã bombardeou Londres. Não, em 1940 os Estados Unidos aproveitavam um período lucrativo de neutralidade — e não se juntaram à guerra do Reino Unido a não ser depois que o Japão atacou a base de Pearl Harbor em dezembro de 1941. Doeu!

Em 1956, li outro dia, Eden chamou Nasser de ‘Mussolini do Nilo’. Um erro. Nasser era amado pelos árabes, não odiado como Mussolini era pela maioria dos africanos, especialmente os líbios árabes. O paralelo com Mussolini não foi questionado pela mídia britânica. E todos sabemos o que aconteceu em Suez em 1956.

[Nota do Viomundo: Anthony Eden foi ministro britânico das Relações Exteriores mas, como notou o leitor Bico, era primeiro-ministro britânico durante a crise de Suez; Gamal Abdel Nasser, líder nacionalista do Egito; em 1956 Nasser nacionalizou o canal de Suez, ao que se seguiu um ataque militar de Reino Unido, França e Israel, que só fracassou politicamente por pressão de Estados Unidos e União Soviética]

Sim, quando se trata de História, nós jornalistas simplesmente deixamos que presidentes e primeiros-ministros nos dêem um balão.

Hoje, no momento em que estrangeiros tentam levar comida e combustível pelo mar a palestinos famintos em Gaza, nós jornalistas deveríamos relembrar nossos telespectadores e leitores de um dia faz-tempo quando os Estados Unidos e o Reino Unido saíram em socorro de um povo cercado, levando comida e combustível — foi assim que alguns de nossos próprios militares morreram — para uma população faminta.

Aquela população tinha sido cercada por uma cerca construída por um exército brutal que queria torná-los submissos pela fome. O exército era o russo. A cidade era Berlim. O muro viria mais tarde. O povo ajudado tinha sido nosso inimigo há apenas três anos. Ainda assim fizemos uma ponte-aérea para salvá-los. Agora olhem para Gaza. Que jornalista ocidental — e amamos paralelos históricos — já mencionou Berlim de 1948 no contexto de Gaza?

Olhem para exemplos mais recentes. Saddam tinha ‘armas de destruição em massa’ — dá para encaixar ‘WMD’ numa manchete — mas naturalmente, ele não tinha e a imprensa americana passou por momentos embaraçosos de auto-condenação. Como pudemos ser enganados, o New York Times se perguntou? O jornal concluiu que não tinha desafiado suficientemente o governo Bush.

E agora o mesmo jornal está suavemente — muito suavemente — batendo os bumbos de guerra no Irã. O Irã está trabalhando com ‘WMD’. E depois da guerra, se houver guerra, haverá de novo a auto-condenação, se não houver projetos de armas nucleares no Irã.

Ainda assim o lado mais perigoso de nosso uso da semântica de guerra, nosso uso das palavras do poder — embora não seja uma guerra, já que nós nos rendemos — é que isso nos isola de nossos telespectadores e leitores. Eles não são estúpidos. Eles entendem as palavras e, em muitos casos — temo — melhor que nós. Eles sabem que estamos afogando nosso vocabulário na linguagem dos generais e presidentes, das assim-chamadas elites, na arrogância dos experts do Brookings Institute, ou daqueles da Rand Corporation ou o que eu chamo de ‘tink thanks’. Então nós nos tornamos parte desta linguagem. Aqui estão, por exemplo, algumas palavras perigosas:

– power players
– ativismo
– atores não-estatais
– jogadores-chave
– jogadores geoestratégicos
– narrativas
– jogadores externos
– processo de paz
– soluções significativas
– Af-Pak
– agentes de mudanças (quem quer que sejam estas criaturas sinistras)

Não sou um convidado regular da Al Jazeera. Isso me dá liberdade para falar. Alguns anos atrás, quando Wadah Khanfar (agora diretor-geral da Al Jazeera) era o homem da emissora em Bagdá, os militares dos Estados Unidos  começaram uma campanha de boatos contra o escritório de Wadah, alegando — mentirosamente — que a Al Jazeera fazia o jogo da Al Qaeda porque estava recebendo vídeos de ataques contra forças dos Estados Unidos. Fui a Fallujah para checar isso. Wadah estava 100% correto. A Al Qaeda estava entregando os vídeos de suas emboscadas sem qualquer aviso, colocando nas caixas de correio. Os americanos estavam mentindo. O Wadah, naturalmente, está pensando o que virá em seguida…

Bem, devo dizer a vocês, senhoras e senhores, que todas as ‘palavras perigosas’ que acabei de ler para vocês — de jogadores-chave a narrativas a processo de paz a Af-Pak — estão no programa de nove páginas da Al Jazeera para este forum.  Não estou condenando a Al Jazeera por isso, senhoras e senhores. Porque este vocabulário não é adotado como resultado de aliança política. É uma infecção da qual todos sofremos. Eu mesmo usei ‘processo de paz’ algumas vezes, embora entre aspas, o que não dá para fazer na TV, mas sim, é um contágio.

E quando usamos estas palavras nós nos tornamos aliados do poder e das elites que mandam no mundo sem medo de serem desafiadas pela mídia. A Al Jazeera fez mais que qualquer rede de televisão que conheço para desafiar a autoridade, tanto no Oriente Médio quanto no Ocidente. (Não estou usando ‘desafio’ como ‘problema’, mas como ‘enfrento muitos desafios’, dito pelo general McCrystal).

Como escapamos desta doença? Fiquem de olho nos corretores de ortografia de seus laptops, nos sonhos dos subeditores com palavras de uma sílaba, parem de usar a Wikipedia. E leiam livros, com páginas de papel, que significam leitura profunda. Livros de História, especialmente.

A Al Jazeera está fazendo uma boa cobertura da frota — o comboio de barcos — que vai a Gaza. Não acredito que sejam um bando de anti-israelenses. Penso que este comboio internacional está a caminho porque as pessoas a bordo dos navios — de todo o mundo — estão tentando fazer o que líderes supostamente humanitários deixaram de fazer. Estão levando comida e combustível e equipamento hospitalar para aqueles que sofrem. Em qualquer outro contexto, os Obamas e os Sarkozys e os Camerons estariam competindo para mandar fuzileiros navais, marinheiros reais ou forças francesas com ajuda humanitária — como Clinton fez na Somália. O divino Blair não acreditava em ‘intervenção’ humanitária em Kosovo e Serra Leoa?

Em circunstâncias normais, o Blair colocaria o pé sobre a fronteira. Mas não. Não ousamos ofender Israel. E assim pessoas comuns estão tentando fazer o que os líderes não fizeram. Os líderes fracassaram. E a mídia? Estamos mostrando imagens de documentários da ponte aérea que salvou Berlim? Ou das tentativas de Clinton de resgatar pessoas que morriam de fome na Somália ou da ‘intervenção’humanitária de Blair nos Balcãs, simplesmente para relembrar nossos leitores e telespectadores — e aqueles pessoas naqueles barcos — que isso é hipocrisia em escala maciça?

O diabo que estamos! Nós preferimos ‘narrativas que competem’. Poucos políticos querem que a viagem até Gaza seja completada — seja o seu fim bem sucedido, uma farsa ou trágico. Nós acreditamos no ‘processo de paz’, no ‘mapa do caminho’. Mantenham a ‘cerca’ em torno dos palestinos. Deixem os ‘jogadores-chave’ encontrar uma solução. Senhoras e senhores, não sou seu ‘key-speaker’ nesta manhã. Sou seu convidado e agradeço pela paciência que tiveram em me ouvir.

26/05/2010 - 03h40

(PS: Esta tradução é continuamente aperfeiçoada a partir dos comentários dos internautas, a quem agradecemos pela ajuda.)

Fonte: https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/robert-fisk-o-jornalismo-e-as-palavras-do-poder.html

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/robert-fisk-o-jornalismo-e-as-palavras-128866

Hugo Dionísio - A JUSTIFICAÇÃO DA OPRESSÃO

 


*  Hugo Dionísio 

Porque é que alguém, por se sentir tão zangado com a política, admite que se justifica tornar-se fascista, racista e reaccionário; mas esse mesmo alguém, que adere à cultura do ódio e da demagogia, não percebe que, alguém que tudo perde, até a sua dignidade e a esperança, por se encontrar do outro lado do mundo, tem direito e enveredar pela resposta violenta! Como se justifica tão desproporcional e contraditória consideração?

500 anos de imperialismo, pilhagem, exploração desenfreada e escravatura deixam marcas indeléveis no carácter das populações, nas suas crenças, moral e costumes. Não era possível, de qualquer modo, sucessivas gerações estarem sujeitas a toda uma ideologia justificadora do expansionismo, mercantilismo e imperialismo e, no final, permanecerem com as suas almas intocadas pelos valores – ou falta deles – que motivaram tal ideologia apropriadora.

Daí que, a exposição à ideologia expansionista do capitalismo ocidental na sua fase imperialista, resulte num misto de crenças – quando não crendices – próprias de uma sociedade em transição para uma identidade mais conforme com os valores que diz promover.

Uma das características que mais define o actual estado de espírito de uma parte importante – quiçá maioritária – das populações ocidentais, dominadas pela ideologia anglo-saxónica, a que se convencionou apelidar “liberal”, consiste na incapacidade total para compreender o lugar do outro, nomeadamente daquele que se encontra do outro lado de uma barricada ideológica, comunicacional e semiótica, criada pelos poderes de facto para dividir.

Não admira que tal suceda. Afinal, já em tenra idade, os poderes capitalistas emergentes foram tão rápidos a apropriar para si o ideário religioso que justificava a evangelização. Quem nunca leu, nos livros de História, as justificações dadas pelos Estados que, saídos do feudalismo, já se encontravam numa fase de expansionismo das suas respectivas burguesias? Era por demais evidente o espírito de cruzada que justificava, em grande parte, a decisão de conquistar de Ceuta. É claro que, dizem-nos historiadores como António Sérgio e o próprio materialismo histórico, que a razão fundamental foi a económica. Contudo, não podendo, simplesmente, dizer-se ao povo que “vamos a Ceuta para tomarmos o que é do outro”, até porque roubar era feio e pecado, havia que desumanizar o inimigo e, à data, qual o melhor pretexto que o religioso? “Inimigos da verdadeira fé”, “infiéis”, “hereges”, tudo serviu para justificar o processo de expansão.

Quando já não se tratava dos sarracenos, mas de povos pagãos, como sucedeu em África ou nas Américas, nada que fosse mais simples: “evangelizar” ou “salvar as almas” constituíram os mais comuns pretextos em matéria de propaganda. À medida que avançava o Renascimento, o iluminismo, se desenvolvia a era mercantil e, com ela, o surgimento de uma certa sofisticação ocidental, cultural e tecnológica, resultante do imenso capital apropriado à força, o pretexto religioso foi sendo abandonado em prol de motivações mais consentâneas com os novos tempos.

Neste quadro assistimos ao surgimento dos pretextos civilizatórios, chamando “selvagens” a todos os que se visava explorar. Já em África, os alemães diziam para si próprios que estavam ali para “civilizar” os negros. O mesmo disseram os portugueses, holandeses, belgas e outros. Todos queram as imensas riquezas africanas ou americanas, mas o objectivo mesmo era o de “civilizar”. Tratava-se de um imenso ímpeto “altruísta”, mas que resultou sempre em tráfico negreiro, genocídio, subdesenvolvimento e guerra com fartura. Nesta matéria, até essa data, nenhum Império foi tão longe como o britânico.

Este imenso “altruísmo” vivia muito do racismo. O racismo e o supremacismo branco, que foi sendo utilizado para desumanizar os inimigos e tornar aceitáveis as violências contra eles praticadas. Não nos admiremos, pois, que, após quase 8 séculos de tentativas frustradas de conquista da Rússia, por parte dos impérios ocidentais – que acontecem ao ritmo de 1 a 2 vezes por século -, o que não falte para aí seja russofobia e racismo anti eslavo. Os próprios nazis ucranianos, hoje tão brindados no Ocidente, são os primeiros a dizer que têm estudos que “confirmam que os ucranianos têm sangue europeu e os russos não”. Sintomático.

A esta crescente russofobia não serão alheias as declarações de Pistorius, o Ministro Alemão da Defesa. Alemão que é como quem diz, que sabemos bem a quem ele responde de facto. E o que diz Pistorius? Disse: «temos de nos habituar novamente à ideia de que o perigo de guerra pode estar a pairar na Europa. E isso significa: temos de nos tornar aptos para a guerra. Temos de estar aptos para a defesa. E posicionar a Bundeswehr e a sociedade para isso», disse esta corajosa salsicha ao programa da pública ZDF «Berlin direkt». Que morram os filhos dos outros!

Este tipo de tiradas já vem, como cereja no topo do bolo, de uma preparação ideológica mais típica do imperialismo estado-unidense do que de qualquer outro. Afinal, todo o desmoronamento para o precipício a que hoje assistimos, acontece no quadro de uma substituição do ímpeto justificador “civilizatório” dos séculos XVIII, XIX e inícios do XX, pelo ímpeto “democrático” ou “humanista”, ao abrigo do qual se justificam guerras, sanções, embargos e todo o tipo de agressões, porque “eles são uma autocracia”, “uma ditadura” ou “violam direitos humanos”. Como se, alguma vez, fosse aceitável fazer o mal, em nome do bem.

No caso do Médio Oriente, assistimos a uma escalada no mesmo tipo de ideologia: o “eles são terroristas”, ou seja, já no quadro de uma lógica securitária. Seja o religioso, o civilizatório, o humanista ou o securitário, todos estes pretextos visam o mesmo tipo de objectivo: desumanizar quem se ataca, para que se torne aceitável fazê-lo. E o facto é que funciona.

E funciona tão bem que o cidadão europeu e americano, em geral, surge tão moralmente condicionado e tão cognitivamente desarmado, por séculos de propaganda desumanizadora (95% dos filmes de Hollywood representam os árabes como terroristas, bandidos, ignorantes ou desorganizados)  e estigmatizadora dos povos que se querem dominar, que deixa de possuir qualquer defesa contra estes processos, sendo facilmente presa de justificações falaciosas e sem fundamento material, moral, democrático, civilizacional ou religioso.

Este bloqueio emocional, que horas a fio de TV produzem no carácter de um indivíduo acrítico, produz uma total incapacidade deste se colocar no lugar das vítimas. Veja-se só esta contradição: uma parte crescente da população ocidental acha justificável votar na extrema-direita reacionária, fascista, racista, apenas porque se sentem zangados com o estado das coisas. Incapazes de perceber – em função da muralha cognitiva que construíram – de onde vem o tal “estado das coisas”, justificam a adesão a ideologias extremistas, ao ódio, à ignorância e também à violência porque “nada muda”, “os políticos são todos corruptos”, “cada vez isto está pior”. 

Mas são estes mesmos, ao quais justificam o seu comportamento incivilizado com as “dificuldades”, os que mais atacam a adesão do povo de Gaza a organizações mais ou menos apologistas da ação violenta e militar. Quer dizer, um tipo chega sem dinheiro ao final do mês, mas não passa fome nem vive na rua, acha que tem direito a estar tão zangado que pode tornar-se fascista, racista e reacionário; mas um árabe que perde a sua casa, a sua família, a sua liberdade, a sua pátria e a sua dignidade, todos os dias, várias vezes ao longo de mais de 75 anos, já não tem direito de optar por soluções mais extremas e violentas!

É preciso ter uma incapacidade para a fraternidade, para a compaixão, para a compreensão e para a solidariedade, capaz de destruir todos os laços sociais. Eis a razão, pelaxual, também as sociedades ocidentais se estão a desagregar, vítimas deste individualismo narcisista atroz.

Fechados nas suas bolhas, acham tudo aceitável, se não os afectar; quando são afectados, tudo passa a ser aceitável. Eis também, por que razão consideram que um qualquer direito de defesa justifica tão elevado nível de atrocidade e tão desproporcionada resposta.

Não admira que andem atrás de políticos que dizem que acabam com os subsídios, que muitos deles recebem, com os serviços públicos, que todos usufruem, ou, com os direitos laborais que lhes permitem gozar férias e feriados. Para tudo olham como sendo distante e apenas afectando os outros.

Mas não, e a prova é, uma vez mais, o que se passa aqui. A mesma “democracia” que diz que um país é democrata, mas que pode, mesmo assim, descarregar o equivalente a duas bombas de Hiroxima em cima de um campo de concentração com 40 km de cumprimento por 10 de largura, é a mesma “democracia” que assiste a uma administração – Biden – deslocar a maior mobilização militar para o Médio Oriente desde 2003, o ano da infame – e, porém, “aceitável – invasão do Iraque. E tal mobilização que indicia intenções que vão muito para além da simples “defesa” do Estado sionista, para que “se defenda” até tudo matar, denunciando, sim, perspetivas belicistas que podem resultar na terceira guerra mundial e, tudo isto, sem qualquer respaldo parlamentar.

Tal como nos vassalos europeus quando, por ordem de uma burocracia europeia não eleita, os respectivos governos aceitaram intrometer-se numa cruzada contra a Rússia sem qualquer discussão ou escrutínio na casa da democracia, que é o parlamento.

O mesmo “estado de direito” que dizem ser Israel – que convive com dezenas de anos de ocupações violentas, extorsão e prisões arbitrárias de todos os que se opõem permitindo o mais evidente abuso de direito, e que transforma a legitima defesa (defesa de quê?) num direito a exterminar -, é o mesmo “estado de direito” que, já no Ocidente, permite que a burocracia de Bruxelas censure a informação em Portugal e que empresas americanas de comunicação (redes sociais) nos persigam a liberdade de opinião com as suas “regras da comunidade”.

É que, se pensam que o que se faz aos outros não tem influência em nós… vejam bem a História, porque o que permitimos aos outros, é o que permitimos a nós próprios, quando a justificação aparecer. E por isso é que, cada vez mais, se comprova a verdade universal a que Che Guevara aludia: enquanto não formos todos livres, ninguém é livre!

Porque podemos sempre ser alvos da mesma opressão que hoje justificamos contra os outros!

Hugo Dionísio  2023 11 01 

https://canalfactual.wordpress.com/2023/11/01/a-justificacao-da-opressaoporque-e-que-alguem-por-se-sentir-tao-zangado-com-a-politica-admite-que-se-justifica-tornar-se-fascista-racista-e-reaccionario-mas-esse-mesmo-alguem-que-adere-a-cultur/

Pedro Tadeu - Um pacifista é um energúmeno?

 OPINIÃO

*  Pedro Tadeu
 
Se comentarmos que o Hamas cometeu um crime contra a Humanidade com os ataques de 7 de outubro passado, somos humanistas.

Se enunciarmos que o Governo de Israel não tem o direito de matar indiscriminadamente civis palestinianos na Faixa de Gaza, somos nazis.

Se nos indignarmos pelos 1400 mortos assassinados pelo Hamas, estamos do lado do bem.

Se nos revoltarmos com as 6500 pessoas mortas pelas Forças de Defesa de Israel, estamos do lado do mal.


Se afirmarmos que o povo judeu foi vítima do Holocausto, somos elogiados por não esquecermos a História.

Se dissermos que os palestinianos são vítimas de opressão e liquidação sistemática há 75 anos, estamos a justificar o terrorismo.


Se chorarmos a morte das crianças israelitas mortas, somos boas pessoas.

Se nos indignarmos com o muito maior número de crianças palestinianas liquidadas, somos uns selvagens.


Se referirmos que a Faixa de Gaza está sob bloqueio terrestre, aéreo e marítimo desde 2005, perguntam-nos qual a relevância disso.

Se aludirmos ao ataque suicida de 2001 à discoteca Dolphinarium em Telavive, que matou 21 pessoas, somos pertinentes.

Se condenarmos a invasão russa da Ucrânia por violar a Carta das Nações Unidas, somos uns democratas.

Se indicarmos as múltiplas violações da Carta das Nações Unidas cometidas por Israel, somos extremistas.

Se apoiarmos a acusação do Tribunal Internacional Penal a Vladimir Putin, somos pela Justiça.

Se sugerirmos uma investigação do mesmo tribunal a Benjamin Netanyahu, somos maluquinhos.

Se condenarmos o bombardeamento russo de um centro comercial numa cidade ucraniana, somos pela civilização.

Se apontarmos o dedo à morteirada mortal de um hospital na Faixa de Gaza, estamos a fazer o jogo do inimigo.

Se qualificarmos o corte de água, eletricidade e combustíveis a dois milhões de pessoas em Gaza como um crime de guerra, não compreendemos, burros, a complexidade da situação.

Se citarmos a lista de ataques armados e as centenas ou milhares de mortos que desde 2014 o Governo Ucraniano cometeu sobre as populações civis das regiões russófonas do seu país, estamos, na melhor das hipóteses, a complicar aquilo que é simples ou, alternativamente, a mentir descaradamente.

Se exigirmos a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia, estamos do lado certo da História.

Se apelarmos a um cessar-fogo em Gaza para permitir a entrada de ajuda humanitária, levamos com a suspeita de cumplicidade com o fundamentalismo islâmico.

Se reivindicarmos a libertação imediata dos reféns capturados pelo Hamas, somos bestiais.

Se pedirmos a libertação do jornalista Pablo González, preso há 20 meses na Polónia sem acusação formal, somos umas bestas.

Se salientarmos o voto a favor de 120 países, contra de 14 e mais 41 abstenções de uma resolução da Assembleia-Geral da ONU a pedir um cessar-fogo em Gaza, temos a visão geopolítica errada.

Se sublinharmos que a mesma Assembleia-Geral da ONU aprovou, com 141 votos a favor, 7 contra e 32 abstenções a exigência de retirada russa da Ucrânia, temos a visão geopolítica certa.

Se aceitarmos acriticamente aquilo que o poder norte-americano entende dever ser a organização do mundo, somos inteligentes.

Se criticarmos toda esta esquizofrenia bipolar que nos está a levar para uma guerra mundial, somos estúpidos - aliás, quem hoje em dia defende a paz é mesmo crismado de coisas piores... mas podem pôr-me nessa lista de energúmenos.

Jornalista

https://www.dn.pt/opiniao/um-pacifista-e-um-energumeno-17263531.html