
* as-tramas-do-liberalismo
.
* fé-esperança-e-caridade
.
* os-bispos-espanhóis-e-guerra-civil, por Jorge Messias
.* ue-ponta-de-lança-do-neoliberalismo, por Bernard Cassen
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)

Por Gustavo Moreira 28/12/2007 às 21:17
publicada por Senhora_d0_Lago @ 7:33 PM
Sinto saudades do tempo em que escrevia sem receios, em que simplesmente libertava a minha necessidade de falar sobre as coisas, por mais tontas que parecessem aos olhos de quem me lia. Passei, supostamente, a ter coisas mais importantes, valores mais altos que me sujeitam a uma repressão que ninguém me pede ou exige. Coisas que perdi em troca de coisas que ganhei. Julgo que deve ser assim que as coisas devem acontecer, no entanto, hoje, talvez por não ter ainda conseguido dormir, lembrei-me do tempo em que, tal como agora, me custava a adormecer. Causas muito diferentes me tiravam o sono, mas o sentimento de angústia é semelhante. Deitada na cama, num enorme esforço por manter a mente completamente vazia, tento concentrar-me em nada e não consigo. Vejo imagens, ouço frases, penso em estratégias de acção e, num acto de quase desespero, desisto de tentar dormir. Pôr roupa a lavar é uma forma de me sentir um pouco mais útil. Há dias precisei de limpar a casa e de ir às compras, mal o dia amanheceu. Uma necessidade infinita de fazer alguma coisa que me fizesse sentir bem comigo mesma ou, pelo menos, melhor. Pena que o estímulo não se estendesse ao "passar a ferro", mas, menos mal, já não foi mau de todo..
Natal 1981 [2005/2006]
– Tempo de ilusões
BOM NATAL! BOM
ANO NOVO!
(Discurso
que sempre se repete, mas que nunca se cumpre)
Menino dormindo...
/ Silêncio profundo. / Benvindo, benvindo, / Salvador do Mundo! Noite.
Noite fria.
/ Mas que lindo que é! / De um lado Maria. / Do outro José. /
Um anjo
descerra / A ponta do véu... / E cai sobre a Terra / A imagem do Céu! 1[1]
Este poema foi escrito naquele tempo em que todos nós – crianças e adultos – sentíamos ainda o “Espírito de Natal”.
.
Nos dias de hoje, Natal não passa de uma mera “palavra”, com significado igual ao daqueles dias de "qualquer coisa" que se comemoram nos 365 dias do ano.
Em Dezembro,
as luzes coloridas dão novas cores e novos ritmos às árvores, às
varandas, aos portais e às janelas das casas. No ar paira um espírito
de festa, de pseudo-alegria e de mistério. As músicas natalícias
ouvem-se em cada canto e esquina, adormecendo a razão de quem as escuta.
Toda a gente
– rica e pobre - se acotovela diante dos escaparates e das montras
deslumbrantes... Multidões irrompem pelas lojas, subjugadas aos deuses
do consumismo, inebriadas pelas coisas inúteis que compram sem pensar
e muito menos sem precisar...
Neste mês finge-se que tudo é diferente:
— Diz-se “Bom dia”, com um sorriso no rosto, ao vizinho... – que é ignorado todo o resto do ano!
— Olha-se para os idosos com mais respeito e com um sorriso nos lábios, dá-se-lhes um pouco mais de carinho, de atenção, de amizade... – para, durante o resto do ano, continuar-se a ignorar a sua existência!
— Para os pobrezinhos, os “sem abrigo”, os marginalizados, os indigentes, os doentes... lá estão os nossos “primeiros”, “segundos” e “terceiros” a dar-lhes a anual “sopa de pedra”, entre um sorriso e um piscar de olhos ternurento (mas só para as câmaras dos média os focarem num grande primeiro plano!)... e, durante o resto do ano, continuam a ignorar que estes (pobrezinhos, “sem abrigo”, marginalizados, indigentes, doentes) existem e que continuam a precisar de comer, vestir, dormir e, sobretudo, de um trabalho que lhes permitam sobreviver com dignidade!
Por isso dei por mim a pensar:
Mas o tempo avança inexoravelmente e as pessoas continuam a caminhar, atarefadas, sem ter tempo, sequer, de olhar para o lado...
A época natalícia sucede-se ano após ano, com os mesmos gestos, os mesmos fracassos e as mesmas promessas. Fala-se de Fraternidade Universal, fala-se do Criador, fala-se de Jesus que nasceu numa manjedoura...
Porque não falar num Jesus mais adaptado a este mundo real?
Nasceu!
/ Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco, / e num caixote
velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados, / Nossa
Senhora e S. José tinham vindo pela estrada, / Os pés no asfalto negro,
onde circulam carros de luxo: / Pedir boleia, pediram, mas ninguém
viu ou quis ver, / Ou escutar o gesto...
Iam apressados
para a ceia da noite, / Desbragada como um conta-quilómetros / E cheia
de neblina e promessas.
Nasceu!
Num caixote
velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados.(...) 3[3]
Finalmente
é chegado o dia de Natal!...
"Hoje
é dia de ser bom. / É dia de passar a mão pelo rosto das crianças
/ De falar e de ouvir com mavioso tom, / de abraçar toda a gente e
de oferecer lembranças".
"É
dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, / de lhes
darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, / De
perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, / de meditar
sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria"
(...) 4[4].
Milhares de
mensagens vão atravessar o ciberespaço nas vésperas e no dia de Natal,
compondo coisas lindas nos mais de 9 milhões de telemóveis que inundam
este país de contradições e do faz de conta!... para gáudio das
operadoras que, assim, vêem os seus lucros subirem em flecha!
Este mesmo
ritual vai-se repetir na noite de 31 de Dezembro!... Desta vez regado
com espumante e ao som das 12 badaladas da meia noite, como manda a
tradição! Frases, pensamentos, mensagens (melhor ou pior elaboradas)
vão ser trocadas num desejo mútuo de tudo de Bom, muita Saúde,
Paz, Fraternidade e Amor...
Mas a velha
dúvida persegue-me!... e interrogo-me, o que como será possível desejar
em 2005 [2006]...
Tudo de
Bom... — se irão subirão as rendas de casa, a electricidade,
as portagens, os táxis, a água, os transportes públicos, o pão?!!!...
Tudo de
Bom... — se vão continuar as falências, os despedimentos, o
desemprego?!!!...
Muita Saúde...
— com o sistema de saúde que temos?!!! Com a maioria do nosso
povo auferindo um salário mínimo inferior a 400,00 euros?!!
Serão suficientes para pagar os medicamentos, os honorários dos médicos,
os tratamentos, os internamentos?!!!...
Paz...
— com tanta instabilidade e tantas guerras à nossa volta e sem
qualquer vontade política de lhes dar fim?!!!...
Fraternidade...
— se impera a lei da selva na nossa sociedade, do vale tudo, da
competitividade desenfreada e sem regras...
Amor
para 2005 [2006]... — se nem sequer há tempo para se DAR
e muito menos para se poder COMPARTILHAR?!!!...
José Gomes
Posted by saturnogomes
at dezembro 22, 2004 09:09 PM
http://movimentum.blogs.sapo .pt/arquivo/417666.html
POESIA Natalícia EM PORTUGUÊS
(antologia
de Victor Nogueira)
[da memória
ou pesquisando na WEB]
– António Gedeão
– Dia de Natal
- David Mourão-Ferreira
– Litânea para este Natal
- David Mourão-Ferreira
– Natal e não Dezembro
- David Mourão Ferreira
– Ladainha dos Póstumos Natais
- Sidónio Muralha
– Natal
- Fernando Pessoa
– Chove. É dia de Natal
- Fernando Pessoa
– Natal
- Jorge de Sena
– Natal de 1971
- Popular
– Foi na noite de Natal
- Popular
– Natal de Elvas
- Popular (Madeira)
– O Natal
- Popular (Madeira)
– O Menino Deus
- Popular (Açores)
– Terno de Reis
- Popular (Donões, Montalegre)
– Cantar dos Reis
- José Afonso
– Natal dos Simples
- Álvaro Feijó
– Natal
- Miguel Torga
– Natal [Velho Menino Deus que me vens ver]
- Miguel
Torga – Natal [Soa a palavra nos sinos]
- Miguel Torga
– Poema de Natal
- Manuel Bandeira
– Versos de Natal
- Manuel Bandeira
– Canto de Natal
– SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - CARTA DE NATAL A MURILO MENDES
- Vinicius de Morais - Natal
- Vinicius de Morais
– Poema de Natal
-
Cabral do Nascimento – Natal Africano
-
Jerónimo Baía – Ao Menino Jesus, metáfora de doce
- Fátima Maldonado
– A adoração dos Magos
- Vitorino Nemésio
– Loa
- Machado de Assis
– Soneto de Natal
- Carlos Drummond de Andrade
– Papai Noel às avessas
- Miguel Torga
– História Antiga
- Natália Correia
– Falavam-me de Amor
- Vinicius de Morais
– O Filho do Homem
- David Mourão Ferreira
– Natal à Beira-Rio
- Estela Braga e Couto e
Aníbal Raposo - Oração de Natal
- João Miguel Fernandes
Jorge – [A abstracção
não precisa de mãe nem pai]
- Geraldo Bessa Victor
– O Menino Negro não entrou na roda
- Jorge Villa -
Trilogia do Menino Negro
- Ary dos Santos
– Quando um Homem quiser
-
Amândio César – Natal (excerto)
- Alberto Caeiro
– VIII – Num Meio-Dia de Fim de Primavera
- Augusto Gil
– Balada da Neve
- Fernando Pessoa
– O Menino de sua Mãe
-
Fernando Pessoa – Esta velha angústia
Victor Nogueira
– Cenas do jardim
- Victor Nogueira -
CONTO DE NATAL
OU DE COMO NO MELHOR PANO
CAI A NÓDOA
Dia de Natal
– António Gedeão
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo
rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso
tom,
de abraçar toda a gente e
de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros—
coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para
poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos,
mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência,
tão efémera e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo
um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao
Criador.
E mal se extinguem os clamores
plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a
Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor
patético.
(Vossa Excelência verificou
a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre
imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar
nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela,
se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias
dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos
bons amigos que passam mais distante.
Nas lojas, na luxúria das
montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom
gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo
de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de
plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço
liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos
brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos
dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para
nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
A Oratória de Bach embruxa
a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana
a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer,
entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o
Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.
Mas a maior felicidade é a
da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta,
tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
Ah!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo
o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente
escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras
rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se
fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá -tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo
matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo
papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de
Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
Litania
para este Natal (1967)
–
David Mourão Ferreira
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Num sótão num porão
numa cave inundada
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Dentro de um foguetão
reduzido a sucata
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Numa casa de Hanói
ontem bombardeada
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Num presépio de lama
e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Para ter amanhã a
suspeita que existe
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil
a idade de Cristo
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois
de chicote no templo
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
E anda já um terror
no látego do vento
Vai nascer esta noite
à meia-noite em ponto
Para nos vir pedir
contas do nosso tempo
David Mourão-Ferreira, Lira de Bolso
– David Mourão Ferreira
Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio,
Num presépio, num prédio,
num presídio,
No prédio que amanhã for
demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer
sítio,
Porque esta noite chama-se
Dezembro,
Porque sofremos, porque temos
frio.
Entremos, dois a dois: somos
duzentos,
Duzentos mil, doze milhões
de nada.
Procuremos o rastro de uma
casa,
A cave, a gruta, o sulco de
uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo
nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira, Cancioneiro do Natal
– David Mourão Ferreira
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será
o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
David Mourão-Ferreira,
in “Cancioneiro de Natal“
– Sidónio Muralha
Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
Em letras grandes e pretas,
Traz versos e historietas
E desenhos bonitinhos,
E traz retratos também
Dois bodos, bodos e bodos,
Em casa de gente bem.
Hoje é dia de Natal.
Mas quando será de todos?
Sidónio Muralha, Poesias
– Fernando Pessoa
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra
quadra
Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa, Obra Poética
– Fernando Pessoa
Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa, Obra Poética
– Jorge de Sena
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
As cinzas de milhões?
Natal de paz agora
Nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
Num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
Roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
Em ser-se concebido,
Em de um ventre nascer-se,
Em por de amor sofrer-se,
Em de morte morrer-se,
E de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
Quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
Num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
Com gente que é traição,
Vil ódio, mesquinhez,
E até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Ou dos que olhando ao longe
Sonham de humana vida
Um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
E torturados são
Na crença de que os homens
Devem estender-se a mão?
Jorge de Sena, Exorcismos
Letra e música: popular
(canção de Natal)
Foi na noite de Natal
noite de santa alegria
caminhando vai José
caminhando vai Maria
Ambos vão para Belém
mais de noite que de dia
e chegaram a Belém
já toda a gente dormia
Buscou lume S.José
pois a noite estava fria
e ficou ao desamparo
sozinha a Virgem Maria
Quando S.José voltou
já viu a Virgem Maria
com o Deus Menino nos braços
que toda a gente alumia
Natal de Elvas
– Popular
Eu hei-de dar ao Menino
Uma fitinha pró chapéu
E ele também me há-de dar
Um lugarzinho no céu.
Olhei para o céu
Estava estrelado
Vi o Deus Menino
Em palhas deitado.
Em palhas deitado,
Em palhas estendido,
Filho duma rosa,
Dum cravo nascido!
.
Arre, burriquito,
Vamos a Belém,
A ver o Menino
Que a senhora tem;
Que a senhora tem,
Que a senhora adora
Arre burriquito,
Vamo-nos embora.
O Natal
- Popular (Madeira)
Em dezembro, vintecinco,
Meio da noite chegado,
Um anjo ia no ar
A dizer: « Elle é já nado..»
,
Pergunta lo boi: «Aonde? .
La mula pergunta: «Quem?
Canta lo gallo: «Jesus.»
Diz la ovelha:´ «Bethlem. »
Uns pastores, acordados,
Pra outros, que já dormiam.
- « Arrenego de vós, gente,»
Em altas vozes diziam:
« Nesta hor' em que dormis,
Um anjo aqui passou,
Que de Jesus, em Bethlem,
Lo natal annunciou. »
« O' gente, seria anjo,
Ou vinha de pau e sesta?
Algum cego. de cajado?
Algum CO\O, de muleta
iNem cajado, nem muleta,
Tão pouco de pau, nem sesta;
Vinha nos ares voando,
Por sol a nossa cabeça.»
Vamos, vamos, pastorinhos,
Vamos todos a Bethlem,
Vamos visitar Maria.
Seu bento filho tambem.»
Em dezembro, vintecinco.
A meia-noite nasceu
Um Deus que, pra nos salvar,
Seu corpo e sangue deu:
nem- n`um leito de cortinas
Foste nascer em Berthlem,
Sobre umas pobres palhinhas. »
Letra e música: popular: Trás-os-Montes
(reis, janeiras, canção de Natal)
Aqui vem as três rosinhas
quatro ou cinco ou seis
se o senhor nos dá licensa
vimos lhe cantar os reis
Os três reis do oriente
já chegaram a Belém
visitar o Deus Menino
que Nossa Senhora tem
O menino está no berço
coberto c'o cobertor
eos anjinhos estão cantando
louvado sej'o Senhor
O Senhor por ser Senhor
nasceu nos tristes palheiros
deixou cravos deixou rosas
deixou lindos travesseiros
também deixou a abelhinha
abelhinha com o seu mel
para fazer um docinho
ao divino Emanuel
Você diz que tem bom vinho
có có có
venha-nos dar de beber
rintintin
florin-tintin
traililairo
O Menino Deus
- Popular ( Madeira)
Dar parabens ti Maria.
« .Mas que lh' emos de levar,
A um Deus que tanto tem?»
Ainda que muito tenha,
Sempre gosta que lhe deem.»
- «Eu lhe lev`um cordeirinho,
Lo melhor qu' eu incontrei.»
-- « E eu lev' um requeijão.
Lo melhor qu'eu requeijei.»
-- «Pois tambem eu aqui levo,
Fofinhos, p'ra lh' off'reeer,
Bons merendeiras de leite;
Fava de mel, p'ra comer.»
- «Vamos ter c'os mais pastores,
Nã se percam no caminho;
Vamos todos, e depressa,
Adoral lo Deus Menino.»
-«Vinde tambem pastorinhas.
Vinde, cortei a Bethlem ;
Vinde visitar Maria,
Que divino filho tem,»
-«Esta noit' é sancta noite,
Ind`assim mesma, tão fria;
Vamos todos a Bethlem
Visitar Jesus, Maria.»
- « Ai, que formoso Menino;
Ai, que tanta graça tem;
Ai, que tanto se parece
Com sua Senhora.mãe!»
- Popular
(Açores)
I
Ó
de casa nobre gente
Acordais
e ouvireis
Lá
das bandas do oriente
Ta
chegando o Santos Reis
II
O
Nosso Terno de Reis
É
uma tradição Divina
De
origem açoriana
No
folclore catarina
III
Aqui
estamos em vossa porta
De
baixo do seu beirado
Venha
nos abrir a porta
Se
tiver do seu agrado.
IV
Obrigado
Dono da casa
Pela
vossa acolhida
Pelo
vosso alimento
E
Por essa santa bebida.
V
Menino
Jesus nasceu
Viemos
anunciar
Com
o nosso terno de Reis
Pra
família se alegrar.
VI
O
nosso Terno de Reis
Agora
vai viajar
Pra
chegar em seu destino
Antes
do galo cantar
Letra e música: Zeca Afonso
(reis, janeiras, canção de Natal)
In: Cantares de Andarilho;
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
Natal
– Álvaro Feijó
Nasceu.
Foi numa cama de folhelho,
entre lençóis de estopa suja,
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe
pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos
caminhos
manadas de erva
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo
enroscado num cesto vindimeiro,
que não havia berço naquela
casa.
E ninguém conta a história
do menino
Que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroa de espinhos
mas coroa de baionetas,
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história
do menino.
Ninguém lhe vai chamar Salvador
do Mundo.
NATAL
- MIGUEL TORGA
Velho Menino-Deus que me vens
ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram...
Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder...
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer...
Vem, apesar de tudo, se queres
vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão...
Mas o brinquedo... quebra-o
no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração...
Miguel
Torga
– Miguel Torga
Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.
Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina
Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.
MIGUEL TORGA, "Diário XII"
Poema de Natal
- Miguel Torga
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que sâo ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.
Miguel Torga
Versos de
Natal
-
Manuel Bandeira
“Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
penetrarias até o fundo desse homem
triste,
Descobririas o menino que sustenta esse
homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera
de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos
atrás da porta.”
Canto de
Natal
–
Manuel Bandeira
O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.
Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.
Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.
Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.
A poesia acima foi extraída da "Antologia Poética - Manuel
Bandeira", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001, pág.
137.
Natal
– Vinícius De Moraes
De repente
o sol raiou
E o galo cocoricou:
— Cristo nasceu!
O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:
— Aonde? Aonde?
Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:
— Em Belém! Em Belém!
Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:
— Foi sim que eu estava lá!
E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: — É mentira!
Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.
O pombal todo arrulhava:
— Cruz credo! Cruz credo!
Brava
A arara a gritar começa:
— Mentira! Arara. Ora essa!
— Cristo nasceu! canta o galo.
— Aonde? pergunta o boi.
— Num estábulo! — o cavalo
Contente rincha onde foi.
Bale o cordeiro também:
— Em Belém! Mé! Em Belém!
E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.
CARTA DE NATAL A MURILO MENDES
- SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Querido Murilo: será mesmo possível
Que você este ano não chegue no Verão
Que seu telefonema não soe na manhã de Julho
Que não venha partilhar o vinho e o pão
Como eu só o via nessa quadra do ano
Não vejo a sua ausência dia-a-dia
Mas em tempo mais fundo que o quotidiano
Descubro a sua ausência devagar
Sem mesmo a ter ainda compreendido
Seria bom Murilo conversar
Neste dia confuso e dividido
Hoje escrevo porém para a Saudade
- Nome que diz permanência do perdido
Para ligar o eterno ao tempo ido
E em Murilo pensar com claridade -
E o poema vai em vez deste postal
Em que eu nesta quadra respondia
- Escrito mesmo na margem do jornal
Na baixa - entre as compras de Natal
Para ligar o eterno a este dia.
Lisboa, 22 de Dezembro de 1975
(1919-2004)
(in «Natal na Poesia Portuguesa»,
org. Luiz Forjaz Trigueiros,
Dinalivro, 1987)
-
Vinicius de Moraes
Para isso fomos
feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será
a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito
que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso
fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.
Natal Africano
– Cabral do Nascimento
Não há pinheiros nem há
neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre
igual.
Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são
velhas
E a noite é Noite de Natal.
Cabral do Nascimento
Ao
Menino Deus em metáfora de doce
– Jerónimo Baía
Romance
- Quem quer fruta doce?
- Mostre lá! Que é isso?
- É doce coberto;
É manjar divino.
- Vejamos o doce;
Compraremos todo,
Se for todo rico.
- Venha ao portal logo;
Verá que não minto,
Pois de várias sortes
É doce infinito.
- Desculpa, minha alma.
Mas ah! Que diviso?!
Envolto em mantilhas,
Um Infante lindo!
- Pois de que se admira,
Quando este Menino
É doce coberto,
É manjar divino?
- Diga o como é doce,
Que ignoro o prodígio.
- Não sabe o mistério?
Ora vá ouvindo:
Muito antes de Santa Ana,
Teve este doce princípio,
Porque já do Salvador
Se davam muitos indícios.
Mas na Anunciada dizem
Que houve mais expresso aviso,
E logo na Encarnação
Se entrou por modo divino.
Esteve pois na Esperança
Muitos tempos escondido;
Saiu da Madre de Deus,
depois às Claras foi visto.
Fazem dele estimação
As freiras com tal capricho,
Que apuram para este doce
Todos os cinco sentidos.
Afirmam que no Calvário
Terá seu termo finito,
Sendo que no Sacramento
Há-de ter novo artifício.
Que seja doce este Infante,
A razão o está pedindo,
Porque é certo que é morgado,
Sendo unigénito Filho!
Exposto ao rigor do tempo,
Quando tirita nuzinho,
Um caramelo parece
Pelo branco e pelo frio.
Tão doce é que, porque farte
Ao pecador mais faminto,
Será de pão com espécies,
Substancial doce divino.
É manjar tão soberano,
Regalo tão peregrino,
Que os espíritos levanta,
Tornando aos mortos vivos.
Tão delicioso bocado
Será de gosto infinito,
Manjar real, verdadeiro,
Manjar branco, parecido!
Que é manjar dos Anjos, dizem
Talentos mui fidedignos,
Por ser pão de ló, que aos
Anjos
Foi em figura oferecido
Jerónimo Baía
In A Poesia
Lírica Cultista e Conceptista
Lisboa, Seara Nova, 1968
A Adoração dos Magos
– Fátima Maldonado
Aquela noite a três
foi como desenhar a maçarico
numa chapa de ferro
um vento fóssil, um vítreo
monograma,
o rasto ao exceder o voo de
uma carriça
cativo flutua no vidro de uma
jarra.
Suspensos percorriam na polpa
da vertigem
léguas sobre o abismo.
Pendentes do zinco da manhã
à espera do início
do seguinte espectáculo
dispersaram o sémen
nas chaminés da noite leprosa.
Nos terraços da luta percorreram
as danças mais funestas da
ternura.
Num combinar astuto de referências
abriram-se os portais
e despediram galopes penitentes
os animais libertos
das tecidas mansões.
O unicórnio branco depôs
sua cabeça
nos braços da senhora,
compadecida dama,
e lhe tocou fiando suas lãs
entre as unhas crivadas por
metralha.
Sinto-lhes o assédio,
em cada joelho poisam
um queixo armadilhado,
a barba já cresceu desde o
jantar.
«É a adoração dos magos»
- murmuras tu –
fincando na ravina os dedos
imanados
enquanto o tronco investe
a pele percorrida por venosas
nascentes.
Olho por sobre um ombro
e surpreendo a treva
ofendida esgueirar-se
entre os dedos da porta.
O noctívago galgo
devora a escuridão às cegas
no recinto.
Em breve a luz envolve
de opalinas unções as cabeleiras.
Iminentes desenham-se as saídas,
o croissant no prato, o garoto
no copo,
o revestir a pele doutros fatos
a tragédia jazente nos horários.
Aquela noite a três foi sem
remédio.
Fátima Maldonado
Os Presságios
Lisboa, Editorial
Presença, 1983
Loa
– Vitorino Nemésio
Meu Menino Jesus dos triguinhos
no prato,
Não enxugues a tua lágrima de vidro,
Não apagues a tua estrela de prata suspensa no quarto ainda morno,
Não deixes envelhecer os velhos
tios de retábulo
Ajoelhados em torno:
Deixa estar as palhinhas urinadas no estábulo,
Que a chuva cheira bem e o pão tufa no forno.
Doira, Menino Jesus, aquele milho amarelo
Que o Joaquim Pacheco secou na escuridão do seu muro,
E manda um navio de nevoeiro
Ao poeta que embarcou à noite no Funchal
Deixando o lenço de sua Mãe molhado no último adeus.
Anda, Menino Jesus, e não me queiras mal
Se eu te disser que assim é que te sinto Deus.
Manda o navio de nevoeiro
Pela primeira vaga que vires redonda e rebentada:
Tua mão outra vez a atira contra a noite,
Como se não tivesse batido nessa grande praia parada.
E deixa as minhas faltas à missa,
Esquece os pontos fracos da minha velha teologia,
E o orgulho, a razão, o materialismo passageiro...
Mandes tu pelo mar o navio de nevoeiro!
VITORINO NEMÉSIO
Soneto de
Natal
–
Machado de Assis
Um homem, — era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, —
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,
Quis transportar ao verso doce
e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha
branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o
metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais",
1901, pág. s/nº.
Papai Noel
às Avessas
Carlos Drummond
de Andrade
Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro
que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando
outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu
aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa
do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava
os legumes.
Este poema foi publicado no livro
"Alguma Poesia", Editora Pindorama, em1930, primeiro livro
do autor. Texto extraído de "Nova Reunião", Livraria José
Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1983, pág. 24.
HISTÓRIA ANTIGA
- Miguel Torga
Era uma vez, lá na Judeia,
um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga
Antologia Poética
Coimbra, Ed. do Autor, 1981
O Filho do
Homem
-
Vinicius de Moraes
O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.
Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo.
Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.
A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.
O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.
Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.
Natal de 1947
O poema acima foi extraído do livro "Antologia Poética",
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 215.
FALAVAM-ME DE AMOR
- Natália Correia
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.
Natália
Correia
O Dilúvio e a Pomba
Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979
NATAL À BEIRA-RIO
- David Mourão Ferreira
É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho
da meta!
Cala-te, vento velho! É o
Natal que passa,
A trazer-me da água a infância
ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto
o rio.
Tão novos os meus Pais, tão
novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de
um navio
Que ficava, no cais, à noite
iluminado...
Ó noite de Natal, que travo
a maresia!
Depois fui não sei quem que
se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra
me envolvia
E quanto mais na terra fazia
o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora
conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus
nascia...
Serei dos que afinal, errando
em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar,
ou de Poesia?
David Mourão-Ferreira,
Obra Poética 1948-1988
Lisboa, Editorial
Presença,
ORAÇÃO DE NATAL
- Estela Braga e Couto e Aníbal Raposo
Oh Jesus Menino
Deus
Se me ouves
lá dos céus
Um presente
de Natal
Venho pedir-te
em segredo
Não quero
nenhum brinquedo
Metido no
sapatinho
Antes queria,
Deus menino
Se não me
levas a mal:
- Que o meu
pai que está doente
Ficasse bom
de repente
Da febre que
o tem em brasa
É que a mãe,
pobre coitada,
Anda tão
preocupada
Com a saúde
do paizinho
Porque é
ele quem, sozinho,
Ganha o pão
da nossa casa.
- Que o meu
irmão Joaquim
Deixasse a
coisa ruim
Que é andar
nas drogas duras.
A seguir por
este andar
Pouco tempo
vai durar...
Se esta oração
é ouvida
Dá-lhe um
sentido pr’á vida
Olha, vê
lá se o curas
- Que aparecesse
esta semana
A minha gata
Silvana.
Se morreu
envenenada
Um conselho
aqui te dou
Castiga quem
a matou
Tenho o quintal
tão vazio
E há já
um mês que não rio
Por não brincar
com a danada.
- Que por
obra e graça tua
Os meninos
lá da rua
Tenham sempre
que comer.
É que dizem
que os mais grados
Pagam pelos
seus pecados...
Talvez seja,
que sei eu?
Mas as crianças,
Deus meu...
Olha, não
te vais esquecer...
Se és o Deus
dos aflitos
Faz com que
os meus periquitos
Tenham uma
criaçãozinha
A fêmea bem
põe o ovo
Mas crias,
nada de novo...
Bem sei que
peço demais
Mas eu gosto
de animais
Vê se dás
uma ajudinha...
Já agora
vou mais fundo
E te peço,
Paz no mundo
Alegria e
muito Amor
É coisa que
não existe
Está toda
a gente tão triste...
Dai-nos, Deus,
conselhos sábios
Põe-nos sorrisos
nos lábios
Faz esta graça
Senhor...
Estela
Braga e Couto e Aníbal Raposo
Dezembro
de 2003
João Miguel Fernandes Jorge
A abstracção não precisa
de mãe nem pai
nem tão pouco de tão tolo
infante
mas o natal de minha mãe é
ainda o meu natal
com restos de Beira Alta
ano após ano via surgir figura
nova nesse
presépio de vaca burro banda
de música
ribeiro com patos farrapos
de algodão muito
musgo percorrido por ovelhas
e pastores
multidão de gente judaizante
estremenha pela
mão de meu pai descendo de
montes contando
moedas azenhas movendo água
levada pela estrela
de Belém
um galo bate as asas um frade
está de acordo
com a nossa circuncisão galinhas
debicam milho
de mistura com um porco a que
minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte
era preto
assim íamos todos naquela
figuração animada
até ao dia de Reis aí estão
um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado
no
camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar
de prenda no
sapato tudo tão real como
o abrir das lojas no dia
de feira
e eu ia ao Sanguinhal visitar
a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do
quarto
subindo de vales descendo de
montes
acompanhando a banda do carvalhal
com ferrinhos
e roucas trompas o meu Natal
é ainda o Natal de
minha mãe com uns restos de
canela e Beira Alta.
João Miguel Fernandes
Jorge, Actus Tragicus
Lisboa, Editorial Presença,
O Menino
Negro Não Entrou Na Roda
– Geraldo
Bessa Victor
O menino negro não entrou
na roda
das crianças brancas - as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas , gargalhadas francas...
menino negro não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças
- e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.
O menino negro não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus vôos, cantando seus hinos...
O menino negro não entrou na roda.
"Venha cá, pretinho, venha cá brincar"
- disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quiz, não quiz...
o menino negro não entrou na roda.
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar cego,
ficou só, calado com voz de morto.
Trilogia do Menino Negro
- Jorge Villa
Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos
Intérprete: Paulo de Carvalho
Tu que dormes a noite na calçada
de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo
do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos
para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua
fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Natal
–
Amândeo César
(excerto)
Nasceu!
Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco,
E num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.
Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada
Os pés no asfalto negro, onde circulavam carros de luxo:
Pedir boleia, pediram, mas ninguém os viu ou quis ver,
Ou escutar o gesto...
Iam todos apressados para a ceia da noite,
Desbragada como um conta-quilómetros
E cheia de neblina e de promessas.
Nasceu!
Num caixote velho de latas de óleo,
Entre desperdícios sujos e usados.
O clarão dos holofotes chamou lá os vadios de todas as noites:
Os quarda-noturnos, os polícias de giro,
Os que não têm cama para dormir,
Os poetas e os fugidos à lei — todos! —
Todos os que naquela e nas outras noites
Não têm para onde ir, nem têm onde comer.
Foi, porém, o clarão dos holofotes gastos que os levou lá:
E viram, sobre os desperdícios sujos, num caixote velho,
O Redentor do mundo,
Aquecido pelos dez cavalos-vapor de um velho "Ford T"
Que, trabalhando, acordava a vida no arrabalde longínquo.
S. José e Nossa Senhora choravam:
Todos pediam no mundo a ressurreição do Cristo!
E Ele viera, Ele encarnara de novo
Através do ventre puríssimo da Virgem,
Sob a custódia lirial do descendente de David.
Os donos de carros de luxo cortavam o nevoeiro
Comprometidos pelas amantes caras que ficavam para trás;
As camionetas de transporte temeram a polícia das estradas
E os outros todos também não quiseram dar boleia
Ao Filho de Deus.
(…)
Mas os humildes de todo o mundo
Vieram e compreenderam
A mensagem daquela noite sem
par.
Amândio César
VIII - Num
Meio-Dia de Fim de Primavera (O Guardador de Rebanhos)
- Alberto
Caeiro
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia
comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pelas estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
"Se é que ele as criou, do que duvido" —
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
.............................. .............................. .................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que
é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita
onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me
sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o
outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as
cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias
das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha
alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.............................. .............................. ..........
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
.............................. .............................. .........
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
BALADA DA NEVE
– Augusto Gil
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.
Luar de Janeiro
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece
Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos
Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece")
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.
Esta Velha Angústia
-
Fernando Pessoa
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.
Um internado num manicômio
é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...
Pobre velha casa da minha infância
perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma
religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro
pintado!
Cancioneiro
e Prosa de Natal
http://www.rede-nonio.min-edu .pt/1cic/agrup_ovar/natal _cancoes.htm
http://www.apropucsp.org.br /revista/rcc01_r08.htm
http://www.releituras.com /index_natal2005.asp
CENAS DO JARDIM
- Victor Nogueira
1. Era um jardim
geometricamente
desconfortável
artificial
No coreto
a banda tocava.
Além
caridosamente
alguém partilhava com os "jardineantes"
as goelas do transístor escancaradas
No banco
ao meu lado
uma matrona e uma gaiata conversam
banalmente,
"Puxa a mala um bocadinho mais para baixo.
Isso! Assim!
Para que te não vejam as pernas"
E eu sorrio-me
por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política"
Pobres e ridículas gaiatas!
Pobres e ridículas matronas!
2. Era um
miúdo esfarrapado
sujo
de rosto envelhecido,
Aproxima-se do guarda, mas o dinheiro não chega.
Mas o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar.
O miúdo envelhecido corre,
Para,
Hesita!
Os olhos sorriem no rosto sujo,
Balancé? Carrocel? Escorrega? Ou avião?
Não poder ele desdobrar-se!
Corre, sobe, escorrega
o mundo é dele
Agarra-lo.
Sobe, desliza, corre, sobe, desliza
sobe; desliza, corre, sobe, desliza
contorce-se
"MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!"
As avózinhas contorcem os lábios
num rictus de desprezo
os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios.
Ele hesita.
Baloiça, baloiça, baloiça!
Roda, roda, roda,
sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre!
contorce-se, baloiça, roda
Olhos brilhantes cheios de felicidade!
Um velho num corpo de criança
pequena para a roupa suja
esfarrapada!
As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo
Os meninos, esses apedrejam com a língua
e crucificam com os lábios
Velhas envelhecidas
Garotos moribundos
e uma criança num pequeno corpo de velho!
Évora, 1969 Fevereiro 24
RECEBE EM OEFRTA O LIVRO «UMA SOCIEDADE À DERIVA», DE CORNELIUS CASTORIADIS, NO VALOR DE 27 EUROS
Para obter todas as informações sobre as formas que tem à sua disposição para fazer a sua assinatura,
poderá consultar o sítio Internet do jornal.
Aproveite o período do Natal e ofereça assinaturas do Le Monde diplomatique – edição portuguesa.
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Desse modo, não só proporcionará um presente de qualidade às pessoas de quem mais gosta,
como beneficia ainda da oferta, para si ou para o novo assinante, do livro Uma Sociedade à Deriva, de Cornelius Castoriadis.
Ao exercer uma análise lúcida e transversal das sociedades, colocam-se todas as perguntas invariavelmente
actuais acerca do destino e da sobrevivência da Humanidade. Numa época de abandono dos terrenos colectivos,
de despolitização, de fim das crenças e de evanescência da capacidade de criar novos valores,
parece urgente ficar em alerta numa dinâmica renovada do questionamento infatigável da condição humana.
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Neste livro, publicado pela editora 90º, são reunidas entrevistas concedidas e comunicações feitas
por Cornelius Castoriadis entre 1974 e 1997, ou seja, as grandes etapas e o conjunto de temáticas
da sua reflexão ao longo deste percurso pluridisciplinar, um auto-retrato intelectual de um pensador inclassificável e universal.
* Excepto assinaturas de estudante.
Exposição Escultura e Pintura: "Aquém e Além do Símbolo"
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Dia 28 de Setembro 2007, ás 16.30H, é inaugurada uma exposição de escultura e pintura, integrada nas Jornadas Europeias do Património, no Convento de Cristo, em Tomar. Estará patente ao público visitante do Convento até 28 de Dezembro 2007.Na rota do simbólico, acordar o inconsciente, viajar para além do símbolo, ao encontro de afectos, espaços e identidades
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O símbolo é uma forma poderosa da comunicação humana, uma forma de linguagem, transversal a todas as culturas porque emerge do inconsciente. Segundo Carl Jung, os símbolos nascem do inconsciente, da sombra, assumem um poder interior do qual estamos conscientes e ultrapassam a própria palavra oral ou escrita.O simbolismo representa e desempenha um papel importante na actividade mental superior. Presente nas diversas culturas, numa espécie de “inconsciente colectivo”, integra padrões instintivos de pensamento e comportamento que reconhecemos como emoções e valores. Enquadra uma espécie de inteligência genética comum, reflecte sentimentos e imagens, materializa-se na forma na procura do significante. Os símbolos exprimem modelos ou padrões de imaginação que povoam os mitos, lendas, narrativas, ritos, rituais e cerimónias dos povos.A função intuitiva, segundo Cann e Dondieri (1986), está ligada aos arquétipos: anima (feminino), animus (masculino), mãe terra, pai sol, sombra ( expressão de desejos básicos que procuramos esconder no inconsciente),etc.
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O homem sempre usou símbolos para exprimir o quê e o porquê das forças criativas e dinâmicas, subjacentes à sua existência. Ao contemplar o universo, tenta decifrar e integrá-lo no sentir da sua existência. Usa a linguagem dos símbolos, tenta conhecer-se a si próprio, procurar luz e conhecimento, segundo uma estruturação religiosa, gnósica ou filosófica. Os símbolos estão relacionados com a descoberta de significados, na tentativa de ir além das suas necessidades básicas de sobrevivência. Estão para além da razão, procuram a realidade profunda, a verdade, na tentativa de criar uma linguagem dirigida ao íntimo, ao coração de si próprio. Os símbolos são expressões conscientes do inconsciente.
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O simbolismo aparece também na arte. Expressa-se nos arquétipos, imaginários ancestrais ou mensagens manifestas ou ocultas.
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O artista faz uso do símbolo para expressar sentimentos, emoções e preocupações do seu tempo, na procura do autoconhecimento, do rasto, da luz, na imortalidade desejada , na transcendência. O simbolismo e arte criativa têm origem comum nos processos mentais do inconsciente, sendo frequente oartista inclui-lo nas suas obras, com o seu poder de abrir o caminho da paz interior e a sabedoria espiritual.
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Uma obra de arte encerra em si uma linguagem, um tipo de conhecimento, um efeito psicológico intenso, um alimento espiritual. No fundo, a arte figurativa ou abstracta, tem uma função simbólica, distinta da linguagem dos símbolos. Enriquece o caminho da vida, a análise crítica, o gosto pela subtileza no prazer da emoção estética. A subjectividade é a sua alma, força, mistério e encantamento. Tem a capacidade de acordar e surpreender o nosso imaginário, a forma significante, aquém e além do símbolo.
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Júlio Pêgo/Setembro/2007
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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007
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Publicada por Júlio Pêgo em psicopintura
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«A blogosfera psicoarte será um espaço de encontro, opinião e crítica. Conjugando psiquiatria com artes plásticas podemos dar as mãos na criatividade, na invenção e nos afectos e descobrir dentro de nós uma estrela cintilante...Podemos formar uma cadeia de união, transversal a todos os povos, pensando e reflectindo a nossa modernidade. Seremos uma força crítica, pensante e criativa. O seu contributo reflexivo será o alimento deste blogue. »
Júlio Pêgo 20/11/06
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Ver também:
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Júlio Pêgo - Três contribuições no Ao Sabor do Olhar

GALILEU GALILEI Nascido em Pisa em fevereiro de 1564, foi responsável pela criação de inventos e aperfeiçoamento de teorias que caracterizaram as novas descobertas do Renascimento. Em 1581, Galileu matriculou-se na Escola de Artes da Universidade de Pisa para estudar medicina. Quatro anos mais tarde abandonou o curso para dedicar-se à matemática. Em 1589, tornou-se catedrático da Universidade de Pisa. Nessa época começa a fazer as primeiras investigações no campo da física, particularmente em mecânica, tentando descrever os fenômenos em linguagem matemática. .
. Dessa forma, Galileu melhorou as lunetas de modo que as imagens ficassem mais nítidas e sem deformações, com um aumento de seis vezes, isto é, duas ou tres vezes mais ao das lunetas da época. Em 1609, empolgado com os primeiros resultados, fabricou uma luneta com aumento de nove vezes, sem deformações. Em 1610, Galileu publicou suas observações celestes no "Sidereus Nuncius" com tiragem de 560 exemplares. Nesse livro falou de montanhas na Lua, dos "planetas" que giravam em torno de Júpiter e nas milhares de estrelas da Via Láctea. Estas descobertas foram muito criticadas por teóricos que não acreditavam em suas experiências.
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Em 1593, Galileu inventou uma bomba d’água. Em 1597 elaborou um compasso geométrico e militar e em 1606, construiu um termômetro. Após tomar conhecimento das lunetas holandesas, que aproximavam objetos distantes, apesar de pouco potentes e com grandes distorções da imagem, Galileu percebeu que a luneta poderia ser utilizada para explicar questões da teoria heliocêntrica, proposta por Copérnico.Galileu passou a defender a teoria do heliocentrismo, apesar de não se expor muito publicamente. Giordano Bruno já havia sido queimado vivo pela Santa Inquisição da Igreja Católica por defender as idéias de Copérnico.
Em 1611, a Igreja começou a preocupar-se com as idéias de Galileu afirmando que ele era "perigoso", pois suas idéias influenciavam muitas pessoas. Apesar de tentar se defender, foi convocado para enfrentar um tribunal do Santo Ofício. Condenado, foi obrigado a negar suas teorias sob pena de morrer queimado. Sobre este acontecimento existem muitas versões diferentes. Seja como for, Galileu continuou vivo. Nesse período, não parou de trabalhar e publicou clandestinamente, em 1638, o "discurso a respeito de duas novas ciências", onde recapitulou os resultados de suas primeiras experiências e acrescentou algumas reflexões sobre os princípios da mecânica. Essa obra seria a mais madura de todas que escreveu. No mesmo ano Galileu ficou cego. Morreu quatro anos depois, em janeiro de 1642. |
*
Figura 1
A serena morte de Santa Elisabeth da Turíngia (1207-1231)
(FR 2813) fol. 269v. Grandes Chroniques de France. France, Paris, XIV e s. (60 x 65 mm)
A morte nos faz cair em seu alçapão,
É uma mão que nos agarra
E nunca mais nos solta.
A morte para todos faz capa escura,
E faz da terra uma toalha;
Sem distinção ela nos serve,
Põe os segredos a descoberto,
A morte liberta o escravo,
A morte submete rei e papa
E paga a cada um seu salário,
E devolve ao pobre o que ele perde
E toma do rico o que ele abocanha.
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII, 1996: 50, vv. 361-372)*
Nascemos, vivemos e morremos. Esta é uma certeza, uma verdade a-histórica, universal e comum a todas as culturas ditas humanas que já existiram, existem e ainda existirão na face da Terra. Outra característica humana é que sempre pensamos e refletimos sobre a finitude da vida, sempre estivemos perplexos com a morte.
A morte. Ela iguala a todos, ricos e pobres, homens e mulheres. Para além dela, o Além: ele é um mistério, uma incerteza, um tabu (RODRIGUES, 1983: 17).
Essa herança milenar sofreu um rude golpe com a modernidade. Hoje, nossa sociedade, dita ocidental, cada vez mais tenta prolongar a vida, não envelhecer, se distanciar da morte, e principalmente não pensar nela, esquecê-la. Afinal, todos os mitos foram destruídos e pisoteados, apesar de a brevidade da existência ter sido reafirmada. Hoje afirma-se que após o “sono eterno” há o nada, o aniquilamento. Resta então viver a vida, gozar os prazeres dos sentidos corporais. Hoje há uma crise, crise de paradigmas metafísicos. Hoje, sobretudo no mundo ocidental, muitos morrem mentalmente jovens e não pensam sobre o sentido de nossa existência.
Porém, os atuais movimentos populares religiosos, também uma permanência ao longo da história humana (DELUMEAU, 1997), reciclam as preocupações com o além e com o destino das almas dos homens. Sabemos que a crença ou a descrença no Além modifica o comportamento humano. Quando não se acredita numa outra vida há um determinado tipo de atitude diante situações do cotidiano; quando se acredita também, especialmente quando o tempo em questão é a Idade Média ocidental (OEXLE, 1996: 28). Nesse período, o mundo era considerado um local de combate contra o Diabo, um combate pela salvação da alma (LE GOFF, 2002: 22). São elementos (mentais) interferindo em ações (materiais), aspectos culturais e, sobretudo, religiosos, que alteram e modificam o comportamento social.
E depois da morte? O que há? O que já pensamos a respeito? A Idade Média foi rica nesse campo subjetivo. Criou imagens que forjaram nossa cultura ocidental (ARIÈS, 1989: 65) e muitos de nossos conceitos, especialmente os espaciais. Essa geografia do além, como já foi chamada (LE GOFF, 1993), delimitou nosso imaginário, circunscreveu nossas atitudes, ocupou nossos sonhos e pesadelos (PATLAGEAN, 1993: 291-318), enfim, inundou os corações de milhares de homens, pelo menos desde que Agostinho (354-430) interpretou o sonho de sua mãe Mônica (COSTA, 1995: 21-35).
Na Idade Média a morte era o grande momento de transição. Transição fundamental, das coisas passageiras para as eternas. Praticamente ausente na iconografia medieval (LE GOFF, 1984, vol. II: 325) - como as crianças (COSTA, 2002: 13-20) - a morte era um rito de passagem. Ela era aguardada no leito de casa. O moribundo deveria ficar deitado de costas porque assim seu rosto estaria voltado para o céu (ARIÈS, 1989: 22).
A morte era uma grande cerimônia pública, um ritual compartilhado por toda a família, por todos da casa. Os medievais sabiam de sua chegada, pressentiam sua vinda, tinham visões que anunciavam sua morte (DUBY, 1986: 80-83). Premonições. Assim, tinham tempo para preparar seu ritual coletivo.
Pois ninguém morria só. A morte era uma festa, momento máximo do convívio social (DUBY, 1990: 65-66). Todos deveriam acompanhar a passagem do moribundo para o além, inclusive as crianças (ARIÈS, 1989: 24). Lágrimas e choro apenas por parte das mulheres: elas deveriam ficar perto do corpo e gritar, rasgar as vestes, arrancar os cabelos. Era sua função pública (DUBY, 1997: 20-21).
Seu gemido era um gemido ritual. Elas eram agentes essenciais do rito funerário (LE ROY LADURIE, s/d: 282), um antigo ritual que era uma fruição, uma chegada lenta e regrada. Era mesmo um prelúdio, a mudança para um estado superior (DUBY, 1987: 10), caso aquela alma fosse agraciada por Deus. Portanto, a preocupação, a angústia maior, não era com a morte e sim com a a salvação da alma (LE ROY LADURIE, s/d: 289).
I. A morte do usurário
Figura 2

A morte do Usurário e do Mendigo.
Gautier de Coincy (1177-1236). La Vie et les miracles de Notre-Dame. França (c. 1260-1270).
In: VORONOVA, Tamara e STERLIGOV, Andréï. Manuscrits enluminés ocidentaux VIII-XVI siècles à la Bibliotèque nationale de Russie de Saint-Pétersbourg. England/Russie: Edits. D’Art Aurora/Parkstone, 1996, p. 69.
Dois momentos distintos: a morte do usurário e do mendigo. Inversão de papéis, subversão social que o cristianismo sugere para o Além: em seu leito de morte, com sua pobre e tosca coberta, em seu leito de morte o pobre vislumbra a Virgem e os Santos (acima à direita). A seguir, abaixo, à direita, o clérigo que o assistiu, agradece à Virgem pela graça concedida.
Por sua vez, o usurário (acima, à esquerda), coberto por uma fina estampa xadrez, com um rico travesseiro colorido a lhe amparar a cabeça e cercado pelos que aguardam sua morte para serem agraciados com seus bens, é levado por três diabos (abaixo, à esquerda), um deles negro, para as profundezas do Inferno. Os diabos causam tanto desregramento ao corpo social que o contorno de seus corpos ultrapassa as linhas do quadro. Por fim, há dois tempos distintos: enquanto o usura ainda está sendo levado pelo diabo, o mendigo já partiu para o Paraíso. A recompensa pela vida virtuosa vem mais rápida; a punição pela vida pecaminosa é sempre lenta, como deve ser o suplício.
Um dos temas mais recorrentes na iconografia medieval a respeito da morte foi a morte do usurário. Maldito entre os malditos, pecador entre os pecadores, o usurário era o exemplo dos exemplos para moralizar o cristão. Jacques de Vitry († 1240) nos conta:
Um outro usurário riquíssimo, começando a lutar contra a morte, pôs-se a afligir, a sofrer e a implorar à sua alma para que esta não o deixasse, pois ele a havia satisfeito, e lhe prometia ouro, prata e as delícias deste mundo se ainda quisesse ficar com ele. Mas que ela não lhe pedisse, em seu favor, dinheiro nem a menor esmola para os pobres. Vendo, enfim, que não a podia reter, se encoleriza e, indignado, lhe diz:
“Preparei-lhe uma boa residência com abundância de riquezas, mas você se tornou tão louca e tão miserável que não quer repousar nessa boa residência. Vá embora! Eu a entrego a todos os demônios que estão no Inferno.” Pouco depois entregou o espírito nas mãos dos demônios e foi enterrado no Inferno (Citado em LE GOFF, 1989: 13).
A morte do usurário foi sempre tema para os moralistas medievais. Os pregadores do século XIII utilizavam a usura para lembrar aos vivos o momento da morte e a existência do Inferno, como este exemplo de Ramon Llull (1232-1316):
Uma vez aconteceu que um usurário fez seu testamento e não se arrependeu de seus erros, pelo contrário, deixou tudo o que tinha a um filho que muito amava, mas que tinha grande prazer com a morte de seu pai. O filho daquele usurário viveu longamente. Um dia aconteceu que ele lembrou o quanto seu pai fora usurário, o quanto lhe havia deixado tudo o que tinha e como ele havia tido grande prazer com a morte de seu pai.
Aquele homem esteve muito tempo nesta consideração, e maravilhou-se fortemente de seu pai ter mais amado entrar no Inferno que deserdá-lo e maravilhou-se consigo mesmo por ter tido prazer com a morte de seu pai que tanto o amava. Tão longamente esteve nesta consideração que percebeu que seu pai o havia amado loucamente, e que Deus o punira, fazendo com que seu filho o odiasse e amasse mais os bens que lhe deixou do que a vida e a salvação de seu pai. (RAMON LLULL. Félix ou o Livro das Maravilhas, Livro VIII, cap. 48)
Figura 3

Hieronymus Bosch (c. 1450-1516). A Morte e o Avarento (c. 1490).
Óleo na madeira (93 x 31 cm) - National Gallery of Art, Washington
Apesar de pertencer a outro tempo, Bosch olha para trás e retrata temas medievais, embora com perspectiva distinta. Na cena, um anjo suplicante (à direita) intercede junto à luz de Cristo pela alma do avaro que, mesmo em seu leito de morte, recebe de um monstro o lucro sujo de sua usura. Repare na face macilenta da morte, vestida de branco e portando uma fina seta, e nos estranhos seis seres que espreitam a cena, desde o anjo maléfico de negro acima da capa, até o homem-rato que recebe a moeda do contador do usurário no cofre. Observe que mesmo com todo o ambiente sinistro da pintura, ainda há esperança para o avaro, coisa impensável trezentos anos antes.
*
Duas imagens significativas (figuras 2 e 3): da morte do usurário do século XIII para a do avarento do século XV há um abismo conceitual imenso, em que pese a permanência do tema. Observe: na pintura de Bosch um anjo de Deus intercede pelo usurário impenitente. Por que? O pintor quer reabilitar a riqueza? Enquanto a pobreza é elevada na iluminura do século XIII e o rico usurário não tem outro destino senão o Inferno, no século XV Bosch destaca a intervenção angélica pela alma do usura, isto é, existe a possibilidade dele ser salvo mesmo sendo impenitente, mesmo ainda recebendo seu lucro no leito de morte. Além disso, Bosch ressalta a figura macilenta da Morte, seguindo a tradição de seu tempo, fascinado pela Dança Macabra.
São atitudes diferentes diante do lucro. Por outro lado, no século XIII a morte é coletiva: usura e mendigo estão cercados - o segundo por santos e pela Virgem. Já o avaro de Bosch tem apenas seu contador. Está só. Apesar de colocá-lo cercado de figuras diabólicas, Bosch faz o espectador olhar para o alto, para o Cristo e Seu delicado feixe de luz. Portanto, na pintura de Bosch há um fio de esperança para o usurário impenitente, há espaço para seu perdão. No século XIII, século do cristianismo, isso seria inimaginável (LE GOFF, 1989).
Assim, a morte na Idade Média era uma agonia apenas para o usurário. Ela era temida porque era imprevisível, mas desejada pelo cristão quando anunciada, em sonhos ou visões. Ramon explica a seu filho o porquê do temor da morte e a necessidade (a virtude) de se temer a Deus:
Filho, sabes por que a morte é temível? Porque não podes fugir dela e não sabes quando ela te levará. Assim, se temes a morte, que não pode te matar mas somente teu corpo, temerás a Deus, filho, que pode colocar teu corpo e tua alma no fogo perdurável. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XXXVI, 9).
Naturalmente, essa era a morte no leito lenta e domesticada daquele que havia sobrevivido ao infanticídio, às intempéries da natureza, às doenças e às fomes. Mas havia também a morte na guerra, a morte antecipada, momento supremo do cavaleiro. Eles iam alegres, cantantes e ansiosos em direção à morte. Os trovadores nos contam da felicidade daqueles cavaleiros rudes quando da chegada da primavera e do momento do combate.
Bertrand de Born (1159-1197) nos fala das flores e folhas coloridas, das aves que cantavam e dos cavaleiros que gritavam “Avante”:
Digo-vos, já não encontro tanto sabor
no comer, no beber, no dormir
como quando ouço o grito “Avante!”
elevar-se dos dois lados, o relinchar dos cavalos sem cavaleiros na sombra
e os brados “Socorro! Socorro!”
quando vejo cair, para lá dos fossos, grandes e pequenos na erva;
quando vejo, enfim, os mortos que, nas entranhas,
têm ainda cravados os restos das lanças, com as suas flâmulas.
(citado em BLOCH, 1987: 307)
Assim a Idade Média tratou da morte: um rito de passagem para a morada definitiva da alma, a derradeira peregrinação do homem-viajante medieval (ZIERER, 2002). Tudo indica que o sentimento mais comum em relação à essa cerimônia é a palavra serenidade. Como o mundo dos vivos estava ligado ao dos mortos - e o papel dos mosteiros era exatamente o de interceder junto ao além pela sociedade terrestre - a morte era encarada com tranqüilidade e resignação. Paz.
A morte então foi domesticada nas consciências (ARIÈS, 1989: 19-20). Pelo menos na de cavaleiros e clérigos. A morte foi esperada e reconhecida (LAUWERS, 2002: 243), até mesmo desejada. Foi preciso a Idade Média chegar a seu fim para que novas formas (negativas) de compreensão da morte tomassem conta dos espíritos, como, por exemplo, o conceito de macabro, a Dança da Morte Macabra, que tomou conta dos afrescos e das gravuras em madeira, e exprimia a profunda angústia dos tempos da Peste Negra e da Guerra dos Cem Anos (HUIZINGA, s/d: 145-157).
Figura 4
Liber Chronicum, de Hartmann Schedel (séc. XV).
In: Représentations diverses de la mort (Patrick Pollefey)
As ordens mendicantes tiveram seu papel na difusão dessa nova espiritualidade e concepção do além no século XIII. Os pregadores franciscanos e dominicanos lembravam às massas a corruptibilidade de todas as coisas. O cadáver putrefato era a imagem preferida dos sermões. Carne associada ao pó e aos vermes (HUIZINGA, s/d: 145).
Neste aspecto, a mensagem que Ramon Llull ensina a seu filho a respeito da morte é muito próxima da espiritualidade franciscana, além de muito contundente:
Filho, cogita na morte para que não sejas orgulhoso,
pois a morte inclina o corpo a grande vileza,
tornando-o impotente, e coloca-o sob a terra,
fazendo-o comida de vermes e horrível de se ver,
tocar e cheirar, tornando-o pó e cinza.
(RAMON LULL. Doutrina para crianças, cap. LXXXVIII, 2).
II. Da Morte para o Além
O que esperava o crente após sua ressurreição? Melhor perguntar assim: o que o crente acreditava que o aguardava no Além? Nessa viagem da alma, nessa transposição de um mundo para outro (ZIERER, 2002), nessa passagem do mundo das imperfeições e das coisas corruptíveis para o mundo da perfeição e das coisas eternas e incorruptíveis, os homens imaginaram o Além de diferentes maneiras, muitos especialmente influenciados pelas leituras da Bíblia - especialmente pelo Novo Testamento (Mt 25, 31-46; Jo 5, 25-29; Lc 23, 43; 2 Co 12, 4; Ap 2, 7) (LE GOFF, 2002: 22).
Adriana Zierer analisou estas imagens e concluiu que algumas percepções construídas nos livros apócrifos dos séculos II e III ajudaram a elaborar o imaginário cristão medieval do Além (ZIERER, 2002):
Quadro 1
| (séc. II) | (séc. II) | | | (séc. II) |
| céu, pede ao anjo que o guie até o Éden | cidade num vale cheia de coisas boas; sete anjos levam-no ao inferno. Ele desce 70 degraus, vê portas ardentes e um rio de fogo com uma ponte onde caem os maus | bem-aventurados na montanha sagrada; eles vivem num lugar luzente, cheio de especiarias e plantas; há um rio de fogo com rodas de fogo para castigar os pecadores e mergulhá-los | no Paraíso terrestre, onde corre um rio de leite e mel. Há sete castigos para os condenados: sede, frio, calor, vermes, mau cheiro uma roda de fogo e um rio onde eles são afogados | |
Ao pensarem o Além, ao preocuparem-se com o pós-morte, os medievais tornaram a realidade transcendente: como o mundo dos vivos, o mundo material, era efêmero, era um mundo de aparências, era uma representação - uma imagem, uma idéia de algo (ABBAGNANO, 1998: 853) - a vida no mundo deveria voltar-se para o verdadeiro significado oculto por trás do véu da matéria. Esse sentido da vida humana era dado pelo mundo do Além.
Assim, ao invés de buscarem na natureza um conjunto de regras e princípios, os medievais pretendiam sondar os mistérios das coisas, sua simbologia (PERNOUD, s/d: 160). Faziam isso para recordarem-se que o mundo foi criado num ato de amor, que funcionava por amor - o amor que move o Sol e as outras estrelas (DANTE ALIGHIERI, 1998, canto XXXIII: 234) - e essa contemplação deveria orientar os espíritos de volta para Deus, salvando-os do Inferno.
Para muitos, especialmente os neoplatônicos, o mundo sensível era apenas uma sombra, um indício, um caminho para se passar do sensível ao inteligível, da sombra para a luz (GREGORY, 2002: 265-266). Assim, a realidade encontrava-se justamente no Além (LE GOFF, 1984, volume II: 325). A verdade era que Inferno e Paraíso existiam e eram imutáveis e eternos; o mundo não.
III. O Inferno
Figura 5
Dante. A Divina Comédia. O Inferno. Canto XVIII.
MS. Holkham misc. 48 (formerly Norfolk, Holkham Hall, MS. 514), p. 27.
À esquerda, Dante e Virgílio observam no oitavo círculo do Inferno (chamado de Malebolge - “maus bornais”') os rufiões, sedutores, aduladores, flageladores, todos golpeados por “diabos chifrudos com relhos grosseiros” e imersos em esterco.
*
Ramon Llull termina seu livro Doutrina para crianças (c. 1275), dedicado a seu filho Domingos, com uma descrição do Inferno e do Paraíso. Na pedagogia medieval, a lembrança do Além domesticava os espíritos, tornava-os mais serenos, mostrava-os que esse tempo era efêmero, que deveriam se preocupar com a salvação de suas almas. A educação pretendia oferecer uma base metafísica e moral, ocupando a mente e o coração da criança (D'HAUCOURT, 1994: 87).
Ao descrever o Inferno para seu filho, Llull dá pistas interessantes para o historiador. Sua geografia infernal é bem hierarquizada. Logo de início ele divide o Inferno em quatro espaços:
O Inferno está no meio de um lugar que fica dentro do coração da Terra. Tal lugar é trancado e fechado, e ali existe pena por todos os tempos. Esta pena acontece em quatro lugares: o Inferno, onde estão os danados que nunca sairão; o Inferno chamado Purgatório, onde o homem cumpre penitência pelas coisas que não cumpriu neste mundo; o terceiro Inferno, chamado Abraão, lugar onde entraram os profetas que viveram antes do Filho de Deus ser encarnado, e o quarto Inferno, onde entraram as crianças que não foram batizadas. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 1)
Nesta descrição geográfica mesclam-se o novo e o antigo. O Purgatório é a grande novidade: em 1254 este novo lugar do Além já havia sido objeto de definição por parte do papa Inocêncio IV (LE GOFF, 1993: 329-330). O terceiro inferno, Abraão, recebe este nome devido a uma passagem bíblica, a história do mau rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Ali encontra-se a expressão judaica “seio de Abraão”, que corresponde à locução bíblica “reunir-se a seus pais” (Jz 2, 10; Gn 15, 15; 47, 30; Dt 31, 16).
Na história contada por Jesus, o pobre morre e é levado pelos anjos ao seio de Abraão; o rico é enterrado e vai para a “mansão dos mortos”. Ali, “em meio a tormentos”, o rico vê Abraão e Lázaro, e pede água para refrescar a língua. Abraão lhe diz que ele era rico e Lázaro pobre, agora, no Além, Lázaro é consolado e ele atormentado. Além do mais, há um “grande abismo” entre o paradisíaco seio de Abraão e a mansão dos mortos (Lc 16, 23-26), e quem está do lado infernal pode ver o que perdeu, aumentando ainda mais o seu sofrimento.
Assim, na Bíblia, o seio de Abraão é um lugar próximo do Paraíso. O mesmo sucede com o cristianismo primitivo. Em sua Vida de São Martinho (séc. IV), Sulpício Severo tem duas passagens onde comenta o enterro de São Martinho de Tours (c. 316-397):
Após essas palavras, ele (Martinho) viu o diabo à suas costas. “Por que estais aí besta sangrenta?”, disse ele, “Tu não acharás nada em mim, maldito, pois o seio de Abraão me acolhe” (...) Martinho é aplaudido pelos salmos divinos; Martinho é honrado pelos hinos celestes; aqueles lá (do mundo) serão precipitados após seus triunfos (nesse mundo) dentro do cruel Tártaro; Martinho é acolhido alegremente no seio de Abraão; Martinho, pobre e modesto, penetra rico no céu. De lá, espero, ele nos protege (SULPÍCIO SEVERO, 1967, vol. 1: 343 e 345).
No entanto, essa tradição sofreu uma mudança geográfica com o passar do tempo. Por exemplo, no final do século XII, aquela passagem bíblica foi reinterpretada por Pedro, o Devorador (†1179), discípulo de Pedro Lombardo († 1160), chanceler da Igreja de Paris, professor de Notre-Dame de 1159 a 1179. Em sua Historia Escolástica ele nos conta:
Lázaro, diz ele, foi colocado no seio de Abraão. Estava com efeito na zona superior do lugar infernal, onde há um pouco de luz e nenhuma pena material. Era aí que estavam as almas dos predestinados, antes da descida do Cristo aos infernos. A esse lugar, por causa da tranqüilidade que nele reina, chamou-se seio de Abraão, como chamamos o seio materno. Deu-se-lhe o nome de Abraão porque ele foi a primeira via de fé (citado em LE GOFF, 1993: 190).
Pedro, o Devorador foi um dos criadores do Purgatório como lugar determinado - ao lado de Odon d'Ourscamp (†1171). Assim, Ramon Llull mantém a tradição bíblica do “seio de Abraão”, mas coloca-o como um dos lugares do Inferno ao lado do novo espaço, o Purgatório, além do limbo das crianças que não foram batizadas (ROQUER, 1960: 841). O seio de Abraão seria então o lugar das espera dos justos. Nas palavras de Le Goff, o seio de Abraão foi “primeira encarnação cristã do Purgatório.” (LE GOFF, 1993: 61), próximo do Paraíso (para o cristianismo primitivo) ou no Inferno (no século XIII). De qualquer modo, as concepções espaciais dos cristãos medievais em relação ao Além eram mesmo muito contraditórias (GURIÉVITCH, 1990: 112).
Bem, estas divisões que Llull cria para o Inferno tentavam responder a uma importante questão para os teólogos medievais: como coordenar a eternidade com o tempo? Mais precisamente: o que acontece com os profetas que viveram antes de Cristo, se Ele é a única fonte de salvação e redenção? Estariam salvos mesmo tendo vivido antes da vinda redentora de Jesus?
Se a resposta fosse afirmativa, criar-se-ia o seguinte problema: Cristo redimiu os homens no tempo; se os homens que viveram antes de Cristo estão redimidos antes de Sua encarnação, Ele então encarnou-Se no tempo desnecessariamente. Assim, os medievais, Llull inclusive, responderam não: os profetas que viveram antes da vinda de Cristo deveriam aguardá-Lo em um espaço infernal chamado Abraão. Somente após o retorno de Cristo e sua descida aos infernos para resgatá-los eles poderiam ir para o céu. Llull segue então a tradição judaico-cristã:
Amável filho saiba e creia que quando a alma de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo deixou Seu corpo morto na cruz, incontinenti desceu aos infernos e vendo Adão, Abraão e os outros profetas e santos, arrancou-os à força dos demônios e de sua prisão e colocou-os na Glória Celestial que não terá fim. No momento que Adão viu chegar seu Senhor e Seu Criador para livrá-los dos trabalhos e da dor onde estiveram cinco mil anos, disse: ‘estas são as mãos que me criaram e me formaram e este é o Senhor que Se lembrou de nós em Sua Glória.’” (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 3)
A descida de Cristo aos Infernos foi popularizada na Idade Média pelo apócrifo Evangelho de Nicodemo (LE GOFF, 1993: 63). É possível que Llull tenha conhecido essa versão. Para que seu filho imagine as penas infernais, Llull utiliza a analogia, típica forma de pensar da Teologia (ROQUER, 1960: 764) e da Idade Média - se pensava que a lei de criação fora a analogia (GURIÉVITCH, 1990: 80). Como se sabe, o raciocínio é analogante na medida em que conclui em virtude de uma semelhança entre os objetos sobre os quais raciocina, objetos que são diferentes, embora estes se assemelhem sob algum aspecto, ponto de partida da analogia. Analogia é uma síntese da semelhança e da diferença.
Mas o que é mais importante é que a analogia se refere a um conceito, de modo que se uma das coisas significadas pelo conceito está ao nosso alcance e a outra não, pode-se conhecer a segunda pela primeira, como por um espelho.
Naturalmente, no caso em questão, o filho de Llull não tinha conhecimento das representações do Inferno e do Paraíso. Assim, para demonstrar o espaço do Além, o filósofo se vale inicialmente da imagem do mar. O Inferno é como um mar borbulhante e cheio de fogo ardente, com grande peixes que devoram os homens.
Llull pede ao filho que imagine “...os gritos, as vozes e o pavor daqueles homens que não poderão se defender daqueles peixes, dragões infernais, dos quais não se poderá fugir.” (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 2). Imersos nessa água borbulhante, os danados, como os legumes no óleo fervendo, sentirão muita dor (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 4). A porta do Inferno é como a boca de um dragão, cheia de dentes: pecadores e infiéis nunca cessam de cair ali (XCIX, 5).
Do mar para o fogo. A segunda analogia relaciona as penas infernais com o fogo. A fornalha onde cozinham o pão e onde moldam o vidro, o chumbo, o ouro e a prata. A vida cotidiana do ferreiro serve de motivo para que Llull peça ao filho para imaginar o pavor dos homens no inferno:
Filho, para que tenhas temor do fogo infernal que dura todo o tempo, vê a fornalha onde fazem o vidro e o forno onde cozinham o pão, e considera estar uma hora naquele fogo (...) Quando vires fundir o chumbo, o ouro e a prata, imagina um buraco cheio de chumbo ou ouro fundido. Se tu estivesses na boca desse buraco, terias pavor quando te ligassem as mãos e os pés e o colocassem em um saco, amarrando uma grande pedra em teu colo e te jogando no buraco. Logo, tenhas pavor, filho, desse fosso cheio de ouro e prata fundida, onde estão os homens que por ouro e prata perderam a glória de Deus. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 7-8)
Os diabos devoram os homens no Inferno. Como seu filho pode imaginar isso? Llull recorre à imagem dos cães devorando a carniça:
Quando fores para fora dos muros da cidade e encontrares as bestas mortas que o homem expulsa para o vale, verás muitos cães, grandes e pequenos, que roerão aquelas bestas, as orelhas, os olhos, a cara, os braços e as pernas, e entrarão do ventre e roerão teus ossos e comerão teu coração e tuas entranhas, então é certo, filho, que cogites nos infernados, que estarão pelos campos e virão os demônios semelhantes aos cães, leões e serpentes, e morderão aqueles homens, suas cabeças, seus braços e seus membros e não poderão morrer nem escapar daquela pena. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 10)
Hoje todas essas descrições do Inferno e do sofrimento dos condenados parecem muito aterrorizantes para serem incutidas na mente de uma criança com cerca de dez anos. Mas na educação do século XIII, a lembrança das penas infernais era um bom motivo pedagógico para que as crianças aprendessem que deveria amar a Deus acima de tudo, que deveria fazer as coisas tendo Deus como primeiro motivo (SANTANACH I SUÑOL).
Pois para as mentes do século XIII, amor e temor caminhavam juntos: mesmo o bom príncipe deveria ter como primeira virtude o temor, o temor a Deus; mesmo a sabedoria estava entrelaçada com o temor (VILLALBA, 2002). Assim, era muito natural que se enfatizasse o caráter punitivo de Deus - deve-se levar em conta também o caráter moral e catequético da obra Doutrina para crianças.
IV. O Paraíso
Figura 6

Dante. A Divina Comédia. O Paraíso. Canto XXXIII.
MS. Holkham misc. 48 (formerly Norfolk, Holkham Hall, MS. 514), p. 147.
São Bernardo (à esquerda) pede à Virgem que fortaleça a visão de Dante para que ele possa ter a visão da imagem de Deus. Dante (à esquerda, abaixo) vislumbra-O por um instante como a representação da Trindade (três círculos de cores), cercado por um exército de anjos.
*
Ao iniciar e findar o último capítulo da Doutrina para crianças, sobre o Paraíso, Ramon Lull diz a seu filho que suas mãos não podem escrever toda a glória do Paraíso (C, 1) e que quanto mais fala da glória celestial, mais percebe sua incapacidade de contar e significar a glória do Céu (C, 11). Humildade. Mas além dessa virtude tipicamente cristã e medieval, ele também mostra assim a dificuldade humana de conceber o puro deleite espiritual da contemplação divina, dificuldade também encontrada por Dante - e magnificamente resolvida.
Após esse mea culpa resignado, Llull inicia o tema com as faculdades intelectivas da alma: no Paraíso, Deus demonstra-Se (em Sua Unidade, Trindade e Essência) à lembrança, ao entendimento e ao desejo da alma. Fica claro que a intelectualidade no paraíso luliano é importante para a elevação mística até Deus - a partir do século XII alguns intelectuais relacionaram os espaços celestes com o intelecto, como, por exemplo, Honório de Autun e sua terceira esfera celeste intelectual (GURIÉVITCH, 1990: 94). As almas dos bem-aventurados têm suas capacidades estendidas e plenamente realizadas na trindade operacional da alma (os atos de lembrar, entender e desejar). Há uma complementaridade simbólica perfeita do número três: a Trindade de Deus integra-se com à trindade da alma e do corpo humano:
Filho, se tu entrasses no Paraíso, teus olhos corporais veriam os corpos de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, teus olhos espirituais veriam a Sua alma, e teu entendimento veria uma semelhança de Sua natureza com a da Deidade. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 4)
Quando a alma cumpre sua finalidade - a glória de contemplar a Deus - se deslumbra encantada com o espetáculo das luzes que o rodeiam:
Filho, verás Nossa Senhora Santa Maria diante de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, e verás uma procissão e uma fileira de todos os anjos, arcanjos, mártires, profetas, virgens, confessores e abades; e ouvirás que todos, com cantos de muito grande doçura, louvam e bendizem Nosso Senhor Deus, por todos os tempos, como Deus estará no céu e durará em Sua glória, perduravelmente sem fim. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 5)
O deleite celestial da visão completa-se com o da audição. Na contemplação do Paraíso, o eleito se deliciaria com a música dos astros bem-aventurados naquela procissão ao redor do Cristo - na iluminura do Paraíso de Dante (figura 6), a procissão é composta por anjos. Imaginar a música no Paraíso tem uma explicação: no século XIII entendia-se o universo como uma harmonia musical, cada estrela tinha seu próprio som, sua própria nota, pois o amor divino no momento da criação do mundo tornara-o uma perfeita sinfonia celeste - a harmonia das esferas celestes é descrita, por exemplo, por Honório de Autun, em sua obra De imagine mundi (séc. XII) (BOEHNER & GILSON, 2000: 278).
Somado a esse resplendor, a esse espetáculo harmônico, o corpo seria glorificado com a liberdade total, liberdade de espaço, de movimento, de ausência de qualquer necessidade:
Amável filho, se entrares no Paraíso, terás teu corpo glorificado, pois nunca morrerás, e estarás onde desejares estar, e passarás por qualquer lugar que desejares; e imediatamente quando desejares estar num lugar, imediatamente lá estarás; serás mais brilhante que o sol; não terás fome, sede, calor, frio, dor ou qualquer paixão, e estarás todos os tempos nesta bem-aventurança que serás ainda muito maior (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 7).
Por fim, Llull faz uma interessantíssima analogia dessa bem-aventurança do Paraíso com o jogo de xadrez! Para que seu filho imagine a grandiosidade da felicidade de poder contemplar Deus em Sua glória, ele pede que Domingos faça uma multiplicação com as casas do jogo de xadrez:
Quando estiveres sentado diante o tabuleiro de xadrez, faça este cálculo: compara a primeira casa com toda a bem-aventurança deste mundo, na segunda coloca toda a bem-aventurança que existiria em dois séculos semelhantes a esse, e na terceira casa coloca toda a bem-aventurança de quatro mundos; e assim multiplica a bem-aventurança por todas as casas do tabuleiro; e quando as casas do tabuleiro não te bastarem, faz mais casas das estrelas do céu, das gotas de água do mar, dos grãos de areia e de todos os pontos que couberem entre o céu e a terra; e quando tudo isso não te bastares para multiplicar o número, pega todos os números que estiveram, estão e estarão no tempo pretérito, presente e futuro. Caso possas fazer isso, ainda assim não será o suficiente para comparar a glória de todos os séculos ditos acima com a glória do Paraíso, pois toda esta glória dita acima será finita, e a celestial Glória nunca terá fim. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 9)
Na Idade Média o xadrez gozou de uma popularidade jamais igualada no futuro (LAUAND, 1988: 23). Com profundo sentido alegórico, a simbologia desse jogo representava a guerra, a sociedade, a conquista amorosa (COSTA) e o drama moral do homem (LAUAND, 1988: 24).
Tomando como ponto de partida o xadrez, Llull faz com que seu filho trilhe uma viagem imaginária, das casas do tabuleiro para o céu, para o mar, e finalmente para o tempo (“todos os números que estiveram, estão e estarão no tempo pretérito, presente e futuro”). Além disso, a proposta de soma que Llull sugere a Domingos tem origem em uma antiga história indiana ligada à invenção do jogo de xadrez (por volta do século VI a.C.) - a exemplo das influências orientais já mapeadas quando da redação do Livro das Bestas (BONNER, 1989, vol. II: 13; COSTA).
Antigas lendas ligam a invenção do xadrez a números astronômicos associados às casas dos tabuleiros. A título de exemplo, uma versão que circula ainda hoje diz que Sissa, brâmane indiano, inventou o jogo de xadrez para curar o tédio do rei Kaíde. Este ficou tão satisfeito com o presente que prometeu dar ao brâmane qualquer coisa que quisesse. Sissa pediu então um grão de trigo para a primeira casa do tabuleiro, dois grãos para a segunda, quatro para a terceira, oito para a quarta, sempre dobrando, até a casa sessenta e quatro - a mesma soma que Llull sugere ao filho no trecho da Doutrina para crianças para que imagine a bem-aventurança do Paraíso.
O rei Kaíde ficou surpreso com um pedido que parecia tão humilde e concordou. No entanto, quando foram feitas as contas, o rei viu que nem todos os tesouros da Índia juntos poderiam pagar o pedido de Sissa! O resultado da soma - associar 1 à primeira casa do tabuleiro, 2 à segunda, 4 à terceira, 8 à quarta, 16 à quinta, etc. - é um exemplo dos chamados números monstruosos: 18.446.744.073.709.551.615. O tesoureiro do rei disse que seriam necessárias 16.384 cidades, cada uma com 1.024 celeiros de 174.762 medidas e 32.768 grãos em cada medida. A coroa teria que semear 65 vezes toda a terra para obter mais de dezoito quinquilhões de grãos de trigo! (MATTOS).
Dessa forma, Llull se baseia naquele antigo conto indiano para sua projeção do Além, que tem como base o raciocínio. Sua capacidade de imaginar o Paraíso tem como eixo norteador o intelecto. Pelo contrário, sua percepção do Inferno é calcada basicamente nos sentidos corporais, nas dores do corpo do danado. Há, portanto, uma clara associação simbólica invertida nos dois textos: Inferno/sentidos corporais (coisas inferiores porque ligadas ao corpo) e Paraíso/capacidades intelectuais (coisas superiores porque ligadas às faculdades da alma).
Conclusão
Na Idade Média a morte foi domesticada nos corações. Desejada pelos guerreiros, aguardada pelos religiosos, temida por ser inesperada, a morte foi sentida como um rito de passagem para um outro mundo, o Além. Os medievais percebiam o Além como uma realidade: a Idade Média foi o tempo do Além. A preocupação com o pós-morte foi uma constante em suas vidas. E de todos os homens, o usurário foi o contramodelo social escolhido para representar as opções da geografia do Além, qual a localização das vidas futuras dos crentes. Assim, o Além espelhou, em certa medida, todo o emaranhado imaginário de esperanças, de expectativas e de angústias de toda uma sociedade, daquela sociedade dita medieval.
O dilema da finitude humana sempre fez parte do âmbito religioso; as religiões lidaram com a questão da morte e do Além. Da imagem da morte e suas representações - um tema cheio de silêncios voluntários e involuntários (VOVELLE, 1996: 18-19) - o Além é um espaço-espelho da sociedade que o imagina. Espaço-reflexo perfeito (Paraíso) mas também invertido (Inferno). Curiosamente há também uma inversão no espaço perfeito, pois no caso do cristianismo, no Paraíso “os últimos serão os primeiros” (Mt 20, 16) e as crianças estarão à frente dos adultos (Mt 18, 1-4). Tratava-se de uma proposta revolucionária, subversiva, pois alterava a hierarquia social que estruturava a sociedade.
As representações do Além que Ramon Llull apresentou a seu filho têm dois importantes acréscimos ao imaginário medieval: as influências dos contos orientais e o tema da intelectualidade ligado à contemplação divina. Ao ressaltar as faculdades intelectivas da alma, o beato maiorquino dá um passo em direção ao racionalismo, sem, no entanto, deixar de lado a espiritualidade mística de tons franciscanos tão característica da síntese realizada pelo seu tempo, o século XIII. Pensar o mundo dos mortos era a melhor forma de melhorar o dos vivos, de torná-lo mais semelhante aos desejos de Deus.
*
Este artigo é dedicado a cinco queridos amigos: Esteve Jaulent, presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, que carinhosamente lê criticamente meus textos, Edmar Checon de Freitas, sempre solícito em discutir as recepções medievais dos temas do cristianismo primitivo - especialmente o século IV e “seu” Martinho de Tours -, Alexander Fidora (J. W. Goethe-Universität, Frankfurt am Main, Alemanha), teólogo e filósofo que sempre me auxilia a compreender a mente dos medievais, Jean Lauand (USP), que, além de ter sempre palavras de incentivo e estímulo, desvendou maravilhosamente a conta proposta por Ramon Llull em seu jogo de xadrez, e Sidney Silveira, meu estimado irmão filósofo, que sempre ilumina minhas idéias com suas reflexões metafísicas.
*
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INTRODUCCIÓN (*)
La victoria de los partidos de izquierda unidos en el Frente Popular en febrero de 1936 y el retorno a los principios de la primera etapa republicana, movilizaron a las derechas, el ejército y la iglesia para acabar con la República, con la democracia y el parlamentarismo. El levantamiento militar del 18 de julio derivó en la Guerra Civil, durante la cual las democracias europeas abandonaron a la República a su suerte. La República sólo recibió la ayuda de la URSS y de los voluntarios de las Brigadas Internacionales, mientras que los sublevados, con el soporte de la Italia fascista y de la Alemania nazi, consiguieron la victoria que dio paso a la larga etapa franquista y a la inserción de España en la política del Eje.
Las autoridades francesas desbordadas por la situación e incómodas por la presencia de miles de antifascistas, en un momento en que algunos países comenzaban a reconocer el régimen de Franco, forzaban a los exiliados a volver a España aunque sin demasiado éxito. Finalmente, sin embargo, el estallido de la Segunda Guerra Mundial acabó por imponerles tres destinos: el ingreso en la Legión Extranjera, la integración en Batallones de Marcha o en las Compañías de Trabajadores Extranjeros (CTE). Después de la invasión alemana y la posterior firma del armisticio por el mariscal Petain, muchos republicanos fueron detenidos e internados en stalags («campos de origen»), el gobierno de Vichy se desentendió de su destino e incluso facilitó información a los alemanes para identificarlos, hecho que junto con la postura de Franco de negarles la condición de Españoles, los convirtió en «apátridas indeseables», marcados con el triángulo azul. Entre agosto de 1940 y junio de 1941 unos 6.000 prisioneros fueron enviados a los campos de exterminio del Reich, adonde también llegaron en transportes posteriores, otros hombres y mujeres detenidos por haber participado en actividades de la Resistencia.![]() |
| Cargos de la SS | Cargos de los prisioneros |
| Lagercomandant: Oficial superior del campo Verwaltungsführer: Resposable de la administración económica Lagerführer: Ayudante del oficial superior o jefe de los comandos Arbeitstatistik: Jefe de comando Lagerpolizei: Guardia del campo | Lagerältester: Responsable del campo, detenido encargado de la gestión interna del campo ante los SS Blockältester-Blockowa: Hombre o mujer responsable de un block Schreiber: Secretario del responsable del block Stubendieste: Auxiliar del responsable del block Kapo (KAmeraden y POlizei): Responsable de un comando de trabajo o de un servicio Prominenten: Barberos, cocineros,... |
| ¡Viva la solidaridad internacional! ¡Viva la libertad!» |
O Horror no Campo de Concentração nazi-fascista de Mauthausen
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Entradas para um Dicionário de Estética
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VANITAS VANITAS ET VANITATEM VANITAS VANITATUM VANITAS VANITATIS ET OMNIA VANITAS |
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O que são as VANITAS?
As VANITAS (vaidades) são as expressões artísticas que traduzem, de maneira simbólica e num registo eloquente, sibilino, a nossa relação conflituosa com a morte. São formas artísticas históricas, datadas no tempo (e no entanto de sentido intemporal), que nos confrontam com a maior doença colectiva da humanidade, que é a angústia que resulta da consciência aguda da mortalidade.
São uma espécie particular, muito específica e típica, emblemática, de natureza-morta. São pinturas de genere peculiares, com uma temática de grande efeito e afirmação de diferença. Género singular de natureza-morta intensamente expressiva e de complexa significação, de óbvia alusão filosófica (acentuada muitas vezes pelas legendas eruditas) e de comentário a um tempo sarcástico e cínico, macabro, pretendendo expressar edificante sabedoria moral e imperativo aviso para reflexão radical, em que é feita a comparação por contraste total, entre a precaridade efémera dos prazeres mundanos, o vazio das ostentações vaidosas do Homem, o engano pelo apego excessivo pelas riquezas materiais de que se rodeia; e a realidade ameaçadora do triunfo final da morte tudo nivelando num nada fáctico, sendo representada a "mofina" em evidência perturbadora, pelo seu emblema mais imediato e certeiro - a caveira - o crânio humano.
Modelo paradigmático muito recorrente e prolixo, particular forma de encenação retórico-alegórica, foi tema "na moda" pelos fins do século XVI e por todo o século XVII, e mesmo ainda glosado tardiamente no início do século XVIII, por toda a Europa. Teve o género uma enorme divulgação, enquanto "ilustração intelectual" em voga, nos países-baixos pelos idos de 1620 e seguintes, interpretado de maneira muito singular pelos artistas da Escola de Leyden.
As mais remotas vanitas, ou melhor o seu "antepassado directo", os memento mori (recorda a morte), a representação solitária da caveira, são ainda do século XV, flamengos, executadas em geral no verso dos volantes dos trípticos, sendo depois acrescentadas com os objectos mundanais em sugestivas composições (já verdadeiras vanitas), com a sua grande divulgação posterior ao Concílio de Trento e às convulsões reformistas/contra-reformistas, meados e finais do século XVI, correspondendo também ao ambiente da terribilitá nascido do exemplo edificante que foi o monumental Juízo Final, de Miguel Ângelo Buonarroti Simoni, da Capela Sistina, do Vaticano, tendo-se desenvolvido o seu gosto estranho, que atravessa os vários estilos (o tenebrismo, o maneirismo e finalmente os primórdios do barroco) por toda a Europa - Alemanha, França, Espanha, Itália, Flandres, Países-Baixos.
O seu período áureo foi o do século XVII, aliás o grande século das naturezas-mortas como género de excelência nos repertórios pictóricos. Essas naturezas-mortas, veristas e ilusórias, em minuciosa técnica de trompe-l'oeil, são mesmo justificadas nos textos críticos legitimadores, os tratados, como um alegado regresso desejado às lendas miméticas dos antigos pintores da Grécia Clássica - Apeles, Zêuxis e Parrácios - citados expressamente, inúmeras vezes.
O significado directo e último das vanitas, explícitas que são na sua referencialidade óbvia, é sobretudo o de uma advertência séria, severa, um verdadeiro aviso, uma repreensão lapidar sobre a ignorante leviandade das vaidades mundanas, a inconsciência alheada dos excessos e finitudes várias do Homem - os seus vícios e horrores, as suas paixões desonestas, desvairadas de cegas, funestas, os seus apetites venais insaciáveis, as suas perigosas irracionalidades, as suas pulsões inconfessáveis -; e, em geral, uma distância circunspecta por tudo o que se aprecia, sem freio e pudor, com desbragado hedonismo, neste mundo de carnalidades e materialismos primários, doentiamente consumista e fetichista, inundado pelos prazeres mais desatinados. Que têm um fim! - é esse o aviso.
A eficácia da advertência e aviso é conseguida pelo efeito de contraste violento estabelecido entre o crânio humano, a caveira, às vezes também as tíbias, mesmo o inteiro esqueleto, sinais escatológicos manifestos do ameaçador fim dos fins, colocados em evidência de primeiro plano, em recorte contrastante com os objectos que os rodeiam, de ostentação e aparato, de erudição e estudo, de pompa e fausto, dispostos em minuciosa e verista composição formal, de apurado sentido lumínico-cénico e forte carga dramática.
Temas apocalípticos milenaristas, dramaticamente ameaçadores, mais escatológicos que teleológicos (mostrando mais o fim do que eventual redenção), são alegorias terríveis de eficácia significativa, composições muito elaboradas, mas com explícito artifício de citação retórico-moralista, que conseguem invulgar eloquência ao expressar, de modo artístico simbólico, pela pintura, gémea da poesia (dizia Horácio), um comentário categórico sobre a sabedoria irónica do "trabalho" da morte, finando cerce a ilusão posta nas vaidades terrenas. Um apelo ao instante arrependimendo que tarda, pela vacuidade da vida guiada pela mais leviana ilusão, ao aproximar-se, com o triunfo derradeiro da morte, o severo fim para as frivolidades mundanas.
São histórias contadas visualmente, narrativas exemplares, com um recorte moral fortíssimo, um registo severo de recriminação ética, com um alcance filosófico que poderemos chamar mesmo de proto-existencialista.
Pretende-se com estas naturezas-mortas de particularíssimo sentido patético, traduzir o discurso melancólico-ascético, contemplativo, estóico, puritano, saído das convulsões ideológicas e religiosas do século XVI, um discurso condenador das materialidades mais apelativas do viver mundano, e ainda das actividades predadoras e hieraquizadoras do viver social com todo um rol de evidentes iniquidades, a injustiça revelada na desigualíssima distribuição dos bens e riquezas, a roda da fortuna separando implacavelmente os poderosos, que tudo possuem, dos expoliados que nada têm de seu, morrendo igualmente todos e tudo deixando, muito uns, outros pouco, (justiça final, ironia última do fim dos tempos!), das satisfações cegas dos prazeres mais primários e sórdidos, dum hedonismo fetichista cada vez mais generalizado - sinal dos tempos - a modernidade do capitalismo emergente.
Mórbidos, fúnebres, macabros, tétricos, são bodegones intemporais, porque anunciam a verdade mais radical de todos os tempos, de sempre - a Morte - o fim súbito e derradeiro do epicurismo instante de todos os tempos, que aproveita com sofreguidão a precaridade escassa dos momentos agradáveis e felizes da existência, as raras oportunidades de gozo, e deleite, dos chamados "pecados veniais" (os cabalísticos sete vícios). Para os "pecadores" a honesta volúpia dos prazeres (infelizmente) demasiado efémeros.
Os elementos mais constantes do repertório habitual das vanitas são de três ordens:
1 - Objectos aludindo à vida terrestre espiritual e contemplativa (as ciências, as letras e humanidades, as artes, citadas ao modo alegórico por meio dos seus objectos/signos: livros, quadros, esculturas, máscaras, instrumentos musicais, máquinas e mecanismos científicos), ou, por outro lado, figurando a vida terrestre mais materialista e de prosaico hedonismo, mais voluptuosa e sensual (a citação canónica dos cinco sentidos, ou objectos de amor profano como espelhos de dama, colares, pérolas, jóias e outros adornos femininos, e ainda flautas e charamelas, símbolos fálicos e rotundos, que representam os prazeres libidinais e a luxúria), a citação directa da fortuna (moedas de ouro e prata, objectos preciosos, coisas de grande aparato, de ostentação e fausto, ricos panos de armar com as suas borlas de ouro fino, panejamentos drapeados dos mais requintados tecidos, veludos, sedas e brocados, desdobrando os seus bordados de ornato rico) e do poder (a coluna de ordem clássica, o trono de potestade, os símbolos das hierarquias seculares, coroas, tiaras, mitras, medalhas e outros adereços de honra, ou ainda armas, armaduras, elmos, escudos, emblemas heráldicos, e toda a panóplia de instrumentos bélicos e sinais de subida hierarquia). O que se perde. A glória e a fortuna, os prazeres que são deixados para trás com a derrota que a morte impõe, provando que sobre os maiores poderes do mundo, um poder maior, cósmico, sobre tudo impera e comanda.
2 - Objectos evocando a brevidade da vida física dos prazeres mundanos finados pela velocidade fágica do tempo que tudo traga e envelhece de maneira implacavelmente vil (ampulhetas e diversificados relógios, cronómetros, clepsidras), explicitando enfaticamente a degradação da matéria (flores, elas próprias símbolos imediatos da efemeridade e finitude, perdendo as pétalas e definhando, frutos apodrecendo, folhas secando e murchando, pedras desgastadas e rachadas, gretadas, velas apagando-se, cachimbos pousados, ainda e fumegar, taças de vinho tombadas). Aquilo em que as coisas se tornam. A efemeridade da vida que mal se mostra exuberante de beleza e cor e de excelência de aroma logo murcha e se fina.
3 - Os objectos de maior protagonismo simbólico no todo das composições - a caveira, as tíbias, às vezes o esqueleto completo, erguendo este muitas vezes um gadanho, uma arrepiante foice segadora. E inscrições de aviso cruel sobre o fim dos fins, quase todas retiradas do livro Eclesiastes. A morte representando-se como derradeira vencedora. Tudo acabando com o passamento que provoca.
A carga simbólica de grande impacto das vanitas, muitas vezes com expressas legendas escritas, têm como referência erudita segura as escrituras sagradas, o Antigo Testamento. São citações literais das sentenças de recorte edificante, sarcásticas e destemperadas, do mais radicalmente crítico dos textos bíblicos - um dos Livros Sapienciais - o Eclesiastes.
O nome genérico vanitas vem portanto directamente do espírito da máxima bíblica VANITAS VANITATUM ET OMNIA VANITAS (Ecc.1:2) - vaidade das vaidades, tudo é vaidade.
Julian Gallego sugeriu que o género vanitas poderia nomear-se, de maneira mais precisa e certeira como "desengano", palavra chave para os grandes pensadores do pessimismo espanhol, Quevedo e Gracian.
O termo hebraico que traduz a palavra vaidade, Qohelet, significa etimológica e literalmente "vapor de água". Faz parte com água, sombra, fumo, aragem, brisa, nuvem, do repertório inefável dos vocábulos que nomeiam imagens de substância efémera, que ilustram eficazmente a ideia de "fragilidade humana", patente nos múltiplos momentos do pensamento hebraico antigo.
O tema "vaidades" é, por excelência, o de Eclesiastes, o texto bíblico que mais claramente acentua o vazio das coisas humanas. Nele se afirma: "Assim como saiu nu do ventre da sua mãe, do mesmo modo sairá desta vida, sem levar consigo nada do que adquiriu" (Ecc. 5:15), ou "onde estão agora as brilhante insígnias do consulado? Onde estão os aplausos, os coros, os banquetes, os festins? Todas estas coisas passaram, foram noite e sonho". (Ecc. 10:17), nele se faz alusão ao entorpecimento pelos prazeres mundanais, um embriagamento que anula a reflexão serena, a lucidez, a clarividência, e se avisa que o tempo na terra é limitado - "todas as coisas têm o seu tempo" (Ecc. 3:1).
A origem iconográfica mais remota das vanitas na arte da pintura encontra-se, seguramente, na eleição como tema nobre do ambiente frugal e mitigado de clausura anacoreta, do retrato de S. Jerónimo eremita, os livros e folhas volantes, símbolos da especulação intelectual de Doutor da Igreja, o crânio humano e a ampulheta, lembrando ao homem de carne e osso que ele não é nada face ao poder aniquilador do tempo.
E um desses memento mori/vanitas primeiros, exuberante indício dessa futura moda, foi o original desaparecido do retrato de "S. Jerónimo", do flamengo Jan Van Eyck, obra datável da terceira década do século XV (de que o "S. Jerónimo" do Institute of Arts of Detroit seria cópia mais ou menos fiel, ou variante). Essa obra foi o modelo fundador de uma iconografia prolixa, interpretada nos diversos estilos dos séculos XV, XVI, XVII, por numerosos artistas (Colantonio, Antonelo de Messina, Carpaccio, Lourenzo Lotto, Petrus Christus entre muitos outros). Excelente variante é o "S. Jerónimo" meditando melancolicamente sobre a caveira, da autoria do mestre alemão Albrecht Dürer (1521), oferecido que foi a Rui ou Rodrigo Fernandes de Almeida, o fidalgo português que foi Embaixador do nosso Rei D. João III, e que nas suas viagens pelo norte-europeu terá conhecido pessoalmente aquele grande artista. Está hoje, como uma das preciosidades do acervo, no Museu Nacional de Arte Antiga, vulgo - Museu das Janelas Verdes -, em Lisboa.
Claramente inspirado neste S. Jerónimo que lhe serve de modelo, é outro retrato do santo, da oficina dos discípulos de Quentin Massys, que acrescenta uma visão nostálgica do mundo com belíssima paisagem a que o eremita volta ostensivamente as costas, e com um letreiro numa cartela sobre a sua cabeça melancólica, com o dito latino COGITA MORI (Reflecte Sobre a Morte).
O género nasce da dupla filiação ideológica. Por um lado dos círculos humanistas centro-europeus e italianos dos séculos XV e XVI, revisitadores das antigas alegorias memento mori dos latinos clássicos (sendo a mais conhecida o mosaico de Pompeia), e por outro lado, da atmosfera intelectual e religiosa de Leyden, bastião calvinista, que condena com severidade puritana tudo o que é considerado excessivamente hedonista e mundano.
As vanitas são a expressão de uma curiosa identificação epocal, do diverso sincrónico, pois cruza transversalmente o universo contraditório das mentalidades, num século de grande cisma religioso, o cinquecento, reforma e contra-reforma subitamente irmanando-se numa severa atitude moral condenadora dos excessos de ostentação material da mundanidade mais despudorada.
A influência do teólogo reformista J. Rivet, Professor de Filosofia e Ética de 1620 a 1632 em Leyden, é detectada nas obras de pintores como David Bailly. Aquela cidade dos países baixos é, por esses idos, um centro importante de estudos filosóficos, emblemáticos/alegóricos, e também anatómicos.
Na mesma altura, o fervor religioso da contra-reforma foi também favorável à extensão e recorrência desse género que explicitava a imediata meditação sobre a inevitabilidade fatal da morte.
A reflexão sensata sobre a vaidade das coisas terrenas é uma constante do pensamento humano, mas podemos balizar etapas, a partir da representação da tête de mort, o crânio humano, a caveira.
O exemplo conhecido mais remoto é o já citado mosaico pompeiano, que é do século I da nossa era.
Na história da pintura, isto é, na exacta passagem da pintura anónima (dos primitivos) para a pintura de autoria (pintura dos grandes mestres, os protagonistas), um dos primeiros exemplos de memento mori/vanitas é o verso dum volante do "Tríptico Braque", de Roger Van Der Weyden (de 1450).
Do início do século XVI é o memento mori de Jan Gossaert, dito Mabuse, no verso do volante esquerdo do "Díptico de Carondelet" (de 1517), uma nature morte à la tête de mort, com uma tarja com os dizeres latinos atribuídos a S. Jerónimo: FACILE CONTEMNIT OMNIA QUI SE SEMPER COGITAT MORITURUM (Aquele que considera sempre a proximidade da morte aceita facilmente tudo), algo próximo do lema que mais tarde, com algum cepticismo metafísico, tomou o pintor Caravaggio, Miguel Ângelo Merisi ou Amerighi: "Perdida a Esperança, Perde-se o Medo":
Do primeiro quartel do mesmo século é também um belíssimo memento mori de Albrecht Dürer, (de cerca de 1528, ano da morte do pintor), também com legenda, em alemão arcaico de belos caracteres góticos que ameaça: "Não existe nenhum escudo que vos possa defender da morte; quando chegar a vossa vez morrereis, crede em mim".
Mas só a partir do segundo quartel do século XVII o género mais particularmente se tipifica e se consagra. David Bailly pintará em 1651 uma grande composição reunindo o seu auto-retrato, com o pitoresco do seu (outro) retrato (no retrato) "envelhecido" e uma exuberante vanitas, com todos os tradicionais objectos constantes.
Contemporaneamente aderem ao género os irmãos Harmen e Pieter Steenwyck, e ainda Pieter Claez, que fixam o estilo: tom geral de paleta fechada, de ocres e terras queimadas, luz razante de forte contraste, desordem complexa (mas muito estudada) de livros, cachimbos, búzios vazios, velas, relógios, vasilhas com flores, taças vertidas, e os crânios salientando-se, segundo um esquema de composição com predominância de leitura diagonal.
Muitos pintores flamengos e dos países-baixos irão produzir variadas vanitas, em que irão aparecer outros diversos elementos, outros objectos figurando o poder, a guerra ou o conhecimento erudito, a saber: armaduras, couraças, espadas, elmos, estandartes, livros e aparelhos científicos, globos terrestres, etc.
Exemplos excelentes são também as vanitas de J.D. de Heem, de Anvers (1621), as de W. de Poorter e de G. Dou, e mais tardiamente, num estilo de grande pompa, ostentação e aparato, anunciando já a grandiosidade do século XVIII, as de M. Withoos.
A vanitas foi introduzida em França pela importante comunidade flamenga de Saint-Germain de Prés. Philippe de Champaigne chegou a pintar uma vanitas, hoje de paradeiro incerto, que se conhece por uma gravura. O género irá desenvolver-se concorrentemente com o tema dos cinco sentidos. Entre os grandes pintores franceses, ou trabalhando na França, podem citar-se os nomes de J. Linard, Baugin, Sébastian Stoskopff (Grand vanitas, 1641), os pintores de Anvers, N. Peschier e S. Bonnecroy, ou ainda Simon Renard de Saint André e Nichollas de Largillierre (com uma vanitas da 1677, obra de juventude).
O tema é mais raro em Itália. Aparece, contudo, na obra de Salvatore Rosa, que pintará mesmo uma verdadeira natureza-morta em vanitas, ou ainda em Giuseppe Recco.
Em Espanha, António Pereda pintará várias vanitas. A mais conhecida é "o sonho do cavaleiro" (cerca de 1670) que apresenta um jovem gentil-homem adormecido nos braços de um cadeirão, a cabeça apoiada na mão. O resto da composição representa uma verdadeira vanitas, (conjunto caótico, e contudo de bem ordenada composição formal), de objectos variados, símbolos do orgulho mundano, tudo envolvido pelo tom carregado de trevas. Livros, partituras, uma pistola, um globo, uma couraça e braçais de armadura, flores, jóias, cartas de jogar, moedas, uma máscara, um livro aberto, uma vela apagada, um relógio e dois crânios, (um frontal, muito iluminado, o outro rolado e visto por baixo, da mesma forma que vem representado nas gravuras do tratado do anatomista Andrea Vesallius, De Humani Corporis Fabrica, 1568). Por fim um anjo estende uma legenda que diz: ÆTERNE PUNGIT
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CITO VOLA ET ACCIDIT (a glória eterna esvai-se como um sonho). O motivo é um paralelo pictórico próximo na iconografia de uma passagem do drama de Calderón de la Barca, "La Vida es Sueño".
É ainda conhecida a "Alegoria da Caducidade", outra vanitas com os mesmos elementos, o anjo apontando o globo terrestre, e segurando um camafeu com o perfil de Carlos V, e todos os outros elementos; e quatro crânios em destaque de composição e luz. Pintado em 1640, é um comentário ácido ao "começo do fim" do Império dos Habsburgos, o Reino de Espanha de Filipe IV perdendo e posição hegemónica no mundo, após a separação de Portugal e da Catalunha, e ameaçado pelas guerras independentistas da Flandres e dos Países Baixos, com a adivinhada degradação económica que se aproxima.
Igualmente cultor das vanitas, Juan de Valdés Leal fará grandes composições, as famosas "Alegorias", obras de grande impacto e sentido de monumentalidade, para o Hospital de la Caridad, de Sevilha. Já Francisco de Zurbaran tinha citado o género, como pormenor no todo, do retrato de "Frei Gonçalo de las Illescas" (1639).
O tema, agora tratado como redundância da morte no tema da natureza morta, ressurge apenas na modernidade, com Paul Cézanne ("três crânios"), Georges Braque ("Crânio, colar e crucifico", 1938) e Pablo Picasso ("Crânio com alho francês e vasilhas de cozinha", 1942). Este último pertencendo ao acervo do Museu do Caramulo, Portugal.
A última grande exposição antológica sobre as vanitas foi apresentada em 1990, no Museu de Caen, e também no Museu do Petit Palais, em Paris.
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Harmen Stennwyck (c.1580-1649) Escola Flamenga, Séc. XVII, Vanitas, (as Vaidades da Vida Humana), cerca de 1645, 39x51 cm, óleo s/madeira de carvº, National Gallery, Londres.
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Pieter Claesz (1590-1661), Vanitas, óleo s/madeira, 1645, 39x61 cm. Colecção Particular.
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David Bailly (1584-1657), Auto-retrato com símbolos de Vanitas, 1651, 89,5x122 cm, óleo s/madeira de carvalho, Stedelijk Museum De Lakenhal, Leyden.
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António de Pereda (1608-1678) "O Sonho do Cavaleiro", (1638), 152x217cm, óleo s/madeira de carvalho, Real Academia de S. Fernando, Madrid.
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António de Pereda (1608-1678) Alegoria da caducidade, cerca de 1640, 139,5x174, óleo s/madeira de carvalho, Kunsthistorisches Museum, Viena.
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Jacques Linard (1600-1645) Vanitas (vaidades) 1645, óleo s/tela, 31x39 cm, Museu do Prado, Madrid.
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Juan de Valdés Leal (1622-1690), Finis Gloriae Mundi, 1671, óleo s/tela, 216x220 cm, Hospital de la Caridad. Sevilha.
Géneros iconográficos afins
(A arte representando a Morte como fatalidade irremediável dos homens).
Foram géneros iconográficos afins, pertencentes à mesma família simbólica que poderemos nomear de "Iconografia Escatológica", além dos mais próximos, os memento mori, os "Apocalipses" e os "Juízos Finais", e sobretudo as "Danças Macabras" e os "Triunfos da Morte", as "Procissões de Esqueletos e Condenados", as "Mascaradas da Morte", as "Três idades e a Morte", as "Degradações dos últimos tempos", que foram temas que marcaram a Alta Idade Média e os primórdios do Renascimento.
Foram formas de representar a morte, realidade omnipresente por esses idos, devastados por pestes e insuficiências médicas e sanitárias, subnutrição, promiscuidade e falta de higiene, tudo potenciando o "trabalho" eficaz do espectro final. Os quatro Cavaleiros do Apocalipse – a Guerra, a Fome, a Peste... e a Morte.
Tempos que despertam para a realidade quotidiana da "grande mofina" que vai ceifando vidas metodicamente, dizimando multidões de "almas" de todas as classes e idades, sem excepções nem contemplações, aceitando no seu seio maldito, a igual dignidade de mortais que existe na mais desvairada diversidade da espécie humana, que nos une a todos, para lá de todas as diferenças - credo, ideal, tradição cultural, nação, etnia, tribo, clã, casta, linhagem, classe (condição social), raça, sexo, idade, idiossincrasias, loucuras, excessivas normalidades...
São tempos que despertam, com uma lúcida melancolia, para o sentimento trágico da vida, para a amarga pena que é o viver diário, e também, pela primeira vez, para o problema da individualidade irrepetível de cada alma, para o sujeito humano uno e diferente, só consigo e com a sua incontornável circunstância, em que toda a consciência de "si" é uma forma extrema de solidão, lucidez acrescida da separação do eu individual do inteiro solidário da colectividade. Forma de consciência última de que o ser (único) é a ausência do outro-connosco.
São tempos de uma grande reflexão sobre a finitude humana e os mundos desconhecidos, os físico-geográficos que vão sendo desbravados com as recentes descobertas, os metafísicos efabulados - o nascimento do Purgatório - Inferno e Paraíso, últimas comarcas, Hades redescoberto, Thanatos triunfante... e mil e uma panaceias repetidas pela enésima vez do nosso medo, o constante recomeço dos discursos de redenção confortante, aberturas ao espiritual, apelos à reflexão metafísica e ontológica, existencial... salvações desejadas, danações temidas, visão receosa do desconhecido, ... medo do nada!
As alegorias da morte abundam, tanto no brumoso norte europeu como no soalheiro sul mediterrânico.
Na Bretanha armoricana levanta-se o Ankon, condutor dos mortos das danças macabras, que vemos desfilar nas tábuas terríveis de Hieronymus Bosch Van Acken ou Pieter Brueghel Van Breda, o Velho, o seu grandioso "Triunfo da Morte" uma obra-prima do género.
Aparecem amiúde também nas obras dos grandes mestres da velha escola alemã: Mathias Grünewald, Lucas Cranach, Nicholas Manoel Deutsch, Hans Baldung Grien ou Joaquim Patinir; revisitados pela modernidade expressionista, por autores como James Ensor, Félicien Rops, Edward Munch, Egon Schielle, Gustav Klimt, Oscar Kokoschka, Georges Grosz, Emil Nolde, Max Beckmann, ou ainda pelos pintores tenebristas novecentistas da Espanha Negra, José Gutierres Solana e Ignácio Zoluaga. Impressionante é o "Casal de insepultos - os amantes trespassados" - dois velhos amortalhados, trespassados por serpentes e cobertos de vermes, da autoria de Mathias Grünewald. Requintadas são as gravuras da série Dança Macabra, de Hans Holbein, o moço.
A par destas expressões da pintura erudita, a escatologia iconográfica perpetua-se também nas Alminhas ("espanta diabos" lhe chama o povo), tábuas votivas com temática post-mortem, com representação das penas do purgatório, diabos e morte representadas em evidência, dominando as chamas purificadoras (?!) onde vão penando as almas dos mais díspares pecadores, representadas que são, invariavelmente, todas as classes sociais, os "estados seculares" (Papa, Imperador, Rei, nobres, burgueses, plebeus, monges, freiras...). Forma muito característica de hagiografia popular, pequenas pinturas de grande tradição cultural folclórica, apareceram também nos idos do século XVII, as mais antigas ainda do século XVI, denunciando o mesmo discurso crítico social cáustico que se conhece do teatro vicentino - a passagem de todas as personagens da comédia humana para as barcas de Caronte - do célebre "Auto das Barcas", de Gil Vicente.
São ainda exemplares iconográficos da mesma família os retratos com o registo doloroso e de reflexão ascética de santos anacoretas, eremitas, mártires ou monges contemplativos, todos identificados com a "maligna", pela presença macabra da caveira: o já citado S. Jerónimo, sapientíssimo Doutor da Igreja, eremita do deserto; Stª Maria Magdalena, Maria de Magdala, pecadora arrependida; S. Francisco de Assis, o herói cristão do despojamento; Stº Antão, abade do deserto; ou ainda S. Bruno, Stª Margarida de Cortona ou S. Francisco de Borja.
Ainda semelhantes na composição simbólica são inúmeros túmulos de Papas, cardeais e príncipes da Igreja, que vemos em templos italianos, de que o magnífico túmulo do Bispo D. Manuel de Moura Manoel da Igreja de Nª Srª da Penha de França, da Vista Alegre, em ílhavo, será o melhor exemplo aplicado no nosso país.
Por fim, as "capelas de reflexão contemplativa penitente" feitas com ossos de mortos - tíbias e caveiras - as "capelas dos ossos" dos mosteiros franciscanos (magnífica a do Convento de S. Francisco, de Évora) com os seus letreiros de ameaça cruel: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos" ou "Tu és o que nós já fomos e serás o que nós somos".
Esta última legenda é uma citação seguramente copiada do dito lapidar, anunciador de inevitabilidade ameaçadora da morte, adornando o túmulo com esqueleto, que faz a pedrela do fresco "A Santíssima Trindade" com figuras de "pé da cruz" e doadores (Lourenço Leni e sua mulher) da Capela Brancacci (de cerca de 1425) de Florença, pintada por Giovanni Guidi de Mone, dito Masaccio - IO. FV. GA. QUEL. CHE. VO: E. TE. EQUEL. CHISON. VOI. ACC. SARETE (Sentença em italiano arcaico que diz algo como: eu fui o que vós sois; e igual ao que sou também vós sereis).
Por último a morte é representada pelo canónico esqueleto munido com a foice gadanha com que ceifa a vida, e acompanhado da ampulheta que lhe marca o tempo do "trabalho", no tema do arcano ligado ao número 13 (número do azar) do Baralho de Tarôt. Representa a fatalidade do Destino. Apela a uma reflexão questionadora dos vícios e defeitos, propõe o arrependimento, o desprendimento, o aperfeiçoamento e a transformação radical e superação de tudo o que está ultrapassado, obsoleto e decadente.
E todas estas são expressivas representações simbólicas iconográficas do Mórbido, do Tétrico, do Macabro.
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Alegoria da morte num mosaico encontrado em Pompeia,
memento mori, Séc. I D.C.
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Albrecht Dürer(1471-1528), memento mori (Pensa na Morte), óleo s/tela, 37x29 Cm, assinado com o monograma, não datado, Museu do Ermitage, S. Petesburgo. Russia
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Albrecht Dürer (1471-1528), S. Jerónimo, óleo s/tela, 59,5x48,5 cm, não datado.
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Oficina dos discípulos de Quetin Massys, "S.Jerónimo", 1520, 77x105 cm, óleo s/madeira, Kunsmuseum, Düsseldorf
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Pieter Brueghel, o Velho (1525-1568), "Triunfo da Morte", óleo s/madeira, não datado,117x162 cm, Museu do Prado, Madrid.
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Michael Wolgemut, "Dança Macabra", ilustração da Weltchronik (crónica mundial), de Hartmann Schedel, Nuremberg, 1493.
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Hans Holbein, o Moço, (1497-1543), Série de Gravuras "A Dança Macabra". |
VANITAS... (a sua razão!)
comentário final, talvez oportuno.
O Homem, apregoada maravilha suprema da natureza, não passa, afinal, de um ser finito e limitado, efémero e passageiro, incompleto. Acabado paradoxo.
O ser mais capaz de gozar plenamente o prazer de viver é, também, (talvez por isso mesmo), o mais carente de vida. Escassa e curta que ela é, manifestamente curta!
O Homem é o único animal de toda a criação que se descobre absolutamente infeliz. E a sua infelicidade resulta, precisamente, da mais-valia da sua condição- a razão, a consciência de si. Fado insuportável!
Criatura Superior(?!), não vive naturalmente só, alegremente apenas, numa felicidade inconsciente, como todos os animais, no seio livre e generoso da natureza, da sua mãe geradora. Não vive feliz, simplesmente, ... como todas as demais criaturas. Os seus raros momentos de felicidade plena duram pouco, são fugazes, breves instantes... momentâneas iluminações numa penumbra continuada.
Vive, ... mas vive "acompanhado" da consciência cabal da frágil condição da sua existência... macaco nu e desamparado!
Vive, ... mas vive revoltado, amargurado, inconformado, perante a impotência de não comandar o seu devir, e, sobretudo, perante a lucidez de visão desolada da (sem) razão última da vida... que vive uma única vez.
Vive, ... mas vive dolorosamente o sem-sentido absurdo que retira, pesados todos os momentos, do estranho drama, trágico-cómico, que é a sua vida entre a dos outros, seus iguais em condição.
O homem vive em constante estado de insatisfação existencial, angustiado pela clarividência da sua breve perenidade, amedrontado e inquieto pela consciência do breve fim. É o único animal, do diverso da criação conhecida, com a visão cruel da sua finitude - os seus curtos limites. É a única criatura, depois do big-bang (e antes de outro qualquer cataclismo) com a consciência lúcida, desencantada, desesperada, de que não é mais do que a mera sombra de um sonho alheio... (de alguma ficção suprema, quimera desconhecida!). Ao arrepio da sua grande ambição feita ganância desonesta, vã glória de mandar, ... ao arrepio dos seus desvarios de grandezas, impérios a ganhar... puro engano!
O Homem é uma ilusão feita de carne e osso, pequeno formato.
Frágil marioneta de deuses loucos, dramaturgos de uma qualquer peça dum grand-gignol cósmico.
O Homem é uma criatura precária, demasiado precária! Um ser provisório, com termo súbito (mas esperado!). Com apertado prazo de validade!
A sua existência é parca, transitória, pouco duradoura, uma passagem, leve brisa, pelo vale lacrimoso do mundo terreno.
Em direcção certa ao não-ser.
Os seus passado, presente e futuro são a véspera, o hoje e o amanhã duma récita de curta duração: Uma novela biográfica da qual conhece antecipadamente o desenlace... a última página. Escusado desprazer.
O presente passa tão veloz que não parece dar nítida certeza que exista. Os prestes dias que passam a galope no pouco que vive, breve estadia terrena de superfície, fazem dele o louco perdido de sentido, um tonto alienado condenado ao absurdo de um drama que não comanda. Porque o destino imprevisível vence a vontade mais indómita. As contingências da vida não dependem dele, ultrapassam-no.
O seu último destino, futuro fatal, brutal, derradeiro, conclusivo, e anunciado como uma maldição desde o berço, é a morte, voraz predadora. Só ela é definitiva e irreversível - uma ameaçadora entrada no mistério insondável da eternidade.
A morte é a comarca final, enigma ameaçador, porque imensamente desconhecido e inteiramente indecifrável, e por isso efabulado por uma filosofia meta-humana, e ainda assim demasiado humana, melancólica de esperança. A morte provoca uma ontologia amargurada pelo desespero e a mágoa.
Perante a morte, como perante a vida, e o amor, é impossível, imperdoável, incontornável, ficar indiferente. É difícil permanecer incólume ao abeirar desse território terrível de medonho.
A morte marca-nos irremediavelmente, com o trago amargo do desencanto mais lúcido e da revolta mais impotente.
A morte é feita de sucessivas perdas que fazem a enorme angústia omnipresente dos homens, tristes mortais.
Porque o que fica, fica indelevelmente marcado como um lugar incompleto, ... magoado de falta, onde a única verdade imediata é o pesado e pungente silêncio do vazio, da perda, da ausência..., do "nunca mais", lamento irreparável pela saudade "dos que vão indo" (à nossa frente!). Porque o que fica é o lugar onde ficamos "mesmo" a sós connosco, e com essa imensa dor humana, indizível de tamanha! E nada temos que nos conforte, nada temos que anule esta angústia que nos fina e nos consome. Nada temos que nos subtraia do mecânico trabalho da ceifeira maldita que nos vai levando uns após os outros.
E a morte é o único e irrepetível momento da existência que é feito de absoluta individualidade. Nascemos acompanhados (pelo menos pela mãe), vivemos sempre com os outros... (mesmo se excluídos os eremitas, ... mesmo esses seguiram a vocação solitária depois da experiência do "outro", a mais das vezes por causa dessa própria experiência!)... mas morremos sozinhos. Irremediavelmente!
A morte é também, finalmente, o momento das certezas últimas, ou melhor, da grande e cabal certeza que responde inteiramente ao nosso eterno questionar: quem somos, donde vimos, para onde vamos. O elucidativo momento em que as duas hipóteses absolutamente antagónicas e excluidoras do nosso devir existencial se transformam numa só resposta: - ou matéria que se transforma em matéria (e já não haverá disso consciência, pois ela se irá fundir no todo!); ou um puro espírito que animará um "além", que agora apenas pode ser sonhado pela esperança efabuladora, e nunca afirmado racionalmente, isto é pela vivência esclarecedora e confirmadora da experiência. Tudo ou nada! Deus ou um escuro sem fim! Um paraíso eterno de luz junto de um pai divino que nos abraça no fim... reconfortante quimera, (que bom que fosse verdade!) ...ou pó juntando-se ao pó maior da terra.
Certo é haver morte depois da vida, como incerto é haver vida depois da morte.
Certa é a morte de cada homem. Ninguém escapa!
"Animal transcendental" acossado pela revelação de que é pródigo apenas na imensa solidão cósmica e no confirmado abandono da providência (exista ela ou não!), o Homem é um ser condenado "a caminhar a sua vida", pena irreversível, a caminhar sempre para o fim - a morte certa... a hora incerta!
O Homem é pequeno e efémero. De uma pequenez insignificante. De excessiva finitude. É tudo menos eterno. De ciência certa se sabe que tudo o que é humano e terreno se fina e acaba.. num instante! Na terra nada é eterno, tudo é fogo-fátuo, extinção súbita... ou reconversão, reciclagem! Sucessivos eternos-retornos do nada ao nada! IN TERRIS NIHIL ÆTERNUS EST foi o escrito lapidar, sentença irrefutável, mas também tradução de estado de alma melancólico, patético, pois foi encontrado numa parede de uma casa de Pompeia, grafito nervoso e contudo sereno, talvez escrito por um romano lúcido, iluminado pela hora amarga, em derradeiro instante de verdade, imediatamente anterior à morte intempestiva nas lavas vulcânicas do Vesúvio.
"O Homem não passa de barro, pó, cinza". Eis o juízo edificante que encontramos em todos os textos mais antigos e sagrados das mais diversas comunidades humanas.
Mas a filosofia, a poesia, a arte, virtuosas gnoses, quando veículos da reflexão serena e dasapaixonada sobre a finitude do Homem, ensinam-lhe a sabedoria do desapego sensato das coisas e dos bens de que se rodeia - a elevação moral do despojamento -, e também, lucidez acrescida, a bondade do coração na generosa disposição para a fraternidade. "Estamos todos no mesmo barco, ... a mesma sorte; somos iguais marinheiros, ... irmãos de navegação!"
A filosofia, a poesia, a arte, ensinam-no a substrair-se da continuada condição de escravo cego do cansativo existir sobrio de todos os dias, do rotineiro e constante recomeço de guerras e escaramuças que movemos uns contra os outros, ... como se de obrigatória Tarefa de Sísifo se tratasse... outros Caim e Abel danados e amaldiçoados, mil gerações após.
Ensinam-no a escolher entre a idolatria interesseira, de primário hedonismo, que comanda o generalizado fetichismo triunfante, as ganâncias avulsas por mesquinhas colecções de pertences privados, que na essência nada valem, prescindíveis que são, caprichosamente egoístas; e a autêntica e genuína alegria, a inegável satisfação, que se retira da partilha de tudo com todos, do gozo irmanado de todos os bens postos em comum com todos os outros, "terra da cocanha" feita paraíso terreal. "Saudades do futuro" é a feliz expressão que traduz a constante nostalgia do paradigma perdido, a "terra prometida", comarca da abundância final, lenda, ficção, utopia.
Mais de trezentos e cinquenta anos após, mas ainda (e cada vez mais) actualíssima, é a sentença condenatória a esse apego cego pelas materialidades - o monetarismo sacralizado, a prostituta universal que é o dinheiro travestido de supremo bem - feita pela Padre António Vieira: "Os antigos adoravam o bezerro de ouro, os modernos adoram o ouro do bezerro".
Diziam os estóicos latinos, na esteira dos cínicos gregos, de Diógenes: QUI DIVES? - QUI NIHIL CUPIT! QUI PAUPER? - AVARUS! (Quem é rico? - aquele que nada cobiça! Quem é pobre? - o avarento, o ganacioso insatisfeito!)
A contemplação de horizonte poético-filosófico sobre a existência física do Homem, aponta para o desprendimento parcimónico, circunspecto, das coisas de que se rodeia, por mais tentadoras e preciosas que pareçam, tão precárias quanto ele! No extremo, a sabedoria ascética do total despojamento de si! Outra vez mais os estóicos: "Mais vale salvar a alma, mesmo perdendo-se os bens. O mais importante é salvaguardar a integridade do nosso ser mais genuíno, a nossa serenidade do espírito e a dignidade última que a nós próprios devemos".
A fama, vaidade máxima do Homem dura um "ai". Andy Warhol dixit: "15 minutos de fama"... quinze parcos minutos!
É precário tudo o que é humano.
E a filosofia aponta essa precaridade, essa escassez, que nos tabela e iguala inteiramente no fim do caminho. Fama, Glória, Fortuna são deixadas cá... ao pó dos tempos vindouros. (Sótãos desolados... memórias desbotadas, esmaecidas!... ou antigalhas para ostentação dos filhos e dos filhos dos filhos... novos enganos!).
Bens e riquezas são banalidades terrenas, trivialidades, vaidades, apenas! tudo acaba um dia!
Tudo passa... SIC TRANSIT GLORIÆ MUNDI.
Porque um pó, apenas pó, barro, terra, nos volvemos, todos iguais, no fim dos fins!
Acrescente-se, agora, algum alento que ameniza a dureza azeda e cruel destas irrefutáveis verdades, mórbidas e escatológicas que são, a reflexão naturante, panteísta, réstia de moderada satisfação cósmica-de Baruch Spinoza: "Os Homens são os modos finitos da Substância Infinita".
Remate final, andante presto deste retrato da tragédia humana, visto ao modo optimista prudente. Siga-se à letra o lema horaciano: CARPE DIEM (aproveita o dia). Vive o teu dia intensamente! Como se fora o primeiro, ou o último, ... o único!
Dá assim um passado vivido ao teu futuro!
Ou como diz o povo, na sua sabedoria inata ancestral: "Goza o teu dia, goza-o bem, que esta vida são dois dias! Goza a vida enquanto és vivo, pois vais ter muito tempo para estar morto!"
L.C. 1/1999
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* Pintor, Professor e Investigador de Teoria da Arte. cal@esev.ipv.pt
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josé dias coelho - morte de Catarina Eufémia -José Dias Coelho, militante do PCP, foi assasinado pela PIDE em 1961.12,19
GNR dispersando manifestantes no tempo de Salazar (*)
e veja a poesia em -> menino_do_bairro_negro
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escolha das ilustrações gráficas da responsabilidade de Victor Nogueira
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Se tiver oportunidade clique nas hiperligações da xilogravura de Catarina Eufémia e de
Dias Coelho e passe pela Galeria & Photomaton


Segundo a Wikipedia ...
«A celebração do Natal de Jesus foi instituída oficialmente pelo Papa Libério, no ano 354 d.c..
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Segundo estudos, a data de 25 de dezembro não é a data real do nascimento de Jesus. A Igreja entendeu que devia cristianizar as festividades pagãs que os vários povos celebravam por altura do solstício de Inverno.
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Portanto, segundo certos eruditos, o dia 25 de dezembro foi adotado para que a data coincidisse com a festividade romana dedicada ao "nascimento do deus sol invencível", que comemorava o solstício do Inverno. No mundo romano, a Saturnália, festividade em honra ao deus Saturno, era comemorada de 17 a 22 de dezembro; era um período de alegria e troca de presentes. O dia 25 de dezembro era tido também como o do nascimento do misterioso deus persa Mitra, o Sol da Virtude.
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Assim, em vez de proibir as festividades pagãs, forneceu-lhes um novo significado, e uma linguagem cristã. As alusões dos padres da igreja ao simbolismo de Cristo como "o sol de justiça" (Malaquias 4:2) e a "luz do mundo" (João 8:12) revelam a fé da Igreja n'Aquele que é Deus feito homem para nossa salvação.
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As evidências confirmam que, num esforço de converter pagãos, os líderes religiosos adotaram a festa que era celebrada pelos romanos, o "nascimento do deus sol invencível" (Natalis Invistis Solis), e tentaram fazê-la parecer “cristã”. Para certas correntes místicas como o Gnosticismo, a data é perfeitamente adequada para simbolizar o Natal, por considerarem que o sol é a morada do Cristo Cósmico. Segundo esse princípio, em tese, o Natal do hemisfério sul deveria ser celebrado em junho.
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Há muito tempo se sabe que o Natal tem raízes pagãs. Por causa de sua origem não-bíblica, no século 17 essa festividade foi proibida na Inglaterra e em algumas colônias americanas. Quem ficasse em casa e não fosse trabalhar no dia de Natal era multado. Mas os velhos costumes logo voltaram, e alguns novos foram acrescentados. O Natal voltou a ser um grande feriado religioso, e ainda é em muitos países.»

O papa Nicolau V em 1454 autorizou o mercado escravo de africanos, dizia que o negro não era gente, não tinha alma, como tal, era legítima sua escravização. Mais ainda, desde que o batizasse, escravizar o africano era um ato de benevolência, pois o batismo tiraria os negros da escuridão e das trevas do inferno. Esse argumento foi possível em razão do poder político da Igreja e da relevância de seu posicionamento no destino da humanidade. De modo que a primeira formulação sistematizada do racismo envolveu interesses econômicos vivos e os principais atores sociais e políticos que compunham a elite mundial.