sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Oscar Niemeyer e o comunismo como valor

Leonardo Boff



Apesar dos abatimentos nacionais e internacionais deste agônico 2007, tivemos, no dia 15 de dezembro, uma discreta alegria: os cem anos de nosso maior arquiteto Oscar Niemeyer. Sua voz suave e cansada nos conclama para a solidariedade e para uma grande simplicidade de vida.

Sua visão de mundo se funda no comunismo, ao qual foi fiel durante toda a vida, em tempos em contratempos,. Mas trata-se de um comunismo como valor ético que visa a resgatar da sociabilidade humana, a capacidade de sentir o outro e de caminhar com ele como companheiro e não como competidor. "É preciso olhar o outro, ser solidário; as pessoas que só pensam em suas profissões não vêem a pobreza; só querem ser vencedores". Para ele o importante "não é ser arquiteto, ser especialista, ser mundialmente reconhecido. O importante é a vida e a amizade. A palavra mais importante da minha vida é solidariedade".

Essa solidariedade especialmente para com os pobres, o torna simples como simples são as suas formas arquitônicas. Vive a verdadeira humildade de quem comunga do mesmo húmus (donde vem humildade):"todo mundo é igual; a pessoa vem à Terra, conta a sua historinha e vai embora".

Nunca esquecerei uma longa conversa com ele durante um almoço em Petrópolis no final dos anos 70. Naquele dia acabava de retornar de Cuba. Eram ainda os tempos de relativa abundância, antes da queda da União Soviética. Contava-lhe como era universal o sistema de saúde, como o ensino era aberto a todos, independentemente de sua extração social ou racial, como não se viam favelas na ilha e como a população incorporara uma vida de austeridade compartilhada. E referi-lhe as longas conversas com Fidel, noite a dentro, sobre religião e a teologia da libertação que tentava e ainda tenta fazer do Cristianismo uma força de transformação histórica contra a pobreza e a marginalização social. Dizia-lhe citando Frei Betto: "Cuba parece uma Bahia que deu certo". Vi que Oscar ouvia tudo atentamente e seus olhos brilhavam de satisfação.

Qual não foi a minha supresa quando dias após li na Folha de São Paulo um artigo dele sobre a nossa conversa com um desenho de sua autoria: duas montanhas uma das quais encimada por uma cruz. E lá dizia: "descendo a serra de Petrópolis, eu que não creio, rezava ao Deus de Frei Boff, para que aqueles benefícios que Cuba realizou para o seu povo, chegassem também, um dia, ao povo brasileiro".

Por causa de sua solidariedade para com o povo cubano que sofre ainda um atroz embargo imposto pelos Estados Unidos, está abrindo em Cuba um posto avançado, uma escola de arquitetura, sem qualquer lucro, apenas o necessário para manter o escritório.

Pessoas assim nos fazem crer que o ser humano é resgatável, que a voracidade da acumulação privada de riqueza distorce o sentido da vida, que o ideal capitalista é profundamente perverso porque inumano, nada solidáro e alheio à qualquer comiseração para com o próximo.

Sua mensagem maior que vale mais que qualquer discurso de alguma autoridade religiosa foi expressa no Jornal do Brasil de 21 de abril deste ano:"O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vivê-la melhor".

Com estas palavras fechamos 2007 com a esperança de que 2008 comece a realizar o sonho singelo deste ancião sábio e simples que na construção da catedral de Brasília com seus braços estendidos ao céu, deu forma à sua secreta mística da solidariedade, nascida do mais puro ideal comunista.

- Leonardo Boff é Teólogo, da Comissão da Carta da Terra


http://alainet.org/active/21389

1 comentário:

Lu disse...

Você é português, certo? Então talvez não conheça a farra das igrejas neopetencostais brasileiras e sua teologia da prosperidade, que enriqueceram às custas de fiéis ingênuos e muita sonegação fiscal.

A Igreja Universal é a maior delas e comanda um império de TV, nos brindando com suas pregações e descarregos todos os dias no horário nobre.

Mas do Banco Safra, envolvido em um grande escândalo de corrupção, você deve ter ouvido falar. Também não precisa - o dia que encontrar um banqueiro bonzinho me avise.

Então, pense melhor antes de divulgar este texto do Boff exaltando a pureza de Oscar Niemeyer.

Com certeza não é uma pessoa humilde, desinteressada no dinheiro e preocupada com os explorados.

Por isso mesmo não negou os R$ 1.000.000,00 pagos pela Igreja Universal pelo projeto de reforma que assinou para um de seus luxuosos templos.


"Ateu por opção, hoje em dia está desenhando ao mesmo tempo um templo para a Igreja Universal do Reino de Deus, uma igreja Batista, uma catedral e uma capela católicas sendo que há questão de mais ou menos um mês recebeu um convite do banqueiro Joseph Safra para fazer uma sinagoga em Brasília."

Veja: http://www.virtual.epm.br/uati/corpo/cultura8_oscar_niemeyer.htm

Não leve a mal, só estou tentando esclarecer, pois mesmo aqui no Brasil muita gente não sabe disso.