* Jaime Nogueira Pinto
27 dez. 2025,
00:18
Na infância,
muitas vezes a viragem para a leitura é acordada pela imagem: queremos
decifrar, entender, gravuras, representações, pinturas que captam a nossa
atenção, que nos intrigam, que nos obrigam a parar e a ficar ali, fascinados,
suspensos, com a curiosidade a roer-nos. Foi assim que, não sei com que idade,
mas ainda miúdo, acabei por ler O Inferno numa edição da Comédia,
crismada Divina Comédia por Bocaccio, ilustrada por Gustave Doré. Uma das
mais detalhadas viagens pelo Além que conheço.
E começa pelo
Inferno. Dante situou o início da sua viagem ao outro mundo no dia 25 de Março
de 1300, início do Jubileu ou Ano Santo de Bonifácio VIII, jubileu que causara
grande confusão em Roma, então uma cidade de 80.000 habitantes, invadida por
200.000 peregrinos e mergulhada num caos quase apocalíptico.
Dante estava
metido na política do tempo, alinhando com os chamados Guelfos Brancos. Na
bipolarização medieval entre partidários do Imperador e do Papa (uma deriva
polémica da “doação de Constantino” que resultou num conflito velho que se
agudizara no tempo de Frederico II de Hohenstaufen e dos papas seus inimigos a
partir da questão da primazia dos dois poderes), os Guelfos Brancos eram os
partidários moderados do Papa. Mas havia os Guelfos Negros, os partidários
radicais do Papa e que, numa boa antecipação das políticas e cisões ideológicas
do nosso tempo, abominavam com maior fervor os seus correligionários Brancos do
que os seus inimigos Gibelinos, partidários do Imperador. O Papa reinante em
Roma era Benedetto Caetani, papa Bonifácio VIII, que fora eleito no dia de
Natal de 1294.
Dante, guelfo
branco, sofrera as consequências dessa inimizade quando os Guelfos Negros
tomaram o poder em Florença; dois séculos depois, outro florentino ilustre,
Maquiavel, passará por idêntica sorte, depois do regresso dos Médici ao governo
da Cidade-Estado. E na reforma antecipada poderá escrever grandes obras de
antropologia e filosofia política, das quais a mais famosa ficou a ser Il
Principe, um manual Ad Delphini, escrito na esperança frustrada
de recuperar as graças dos Médici.
Mas Maquiavel,
depois de um curto mau bocado, pôde ficar em Florença. Dante, não. Foi mais uma
desgraça na sua vida. Tivera uma paixão por Beatrice Portinari, que vira pela
primeira vez aos nove anos. Aos quinze anos Beatrice casou-se com Simone de
Bardi, e ele, aos vinte, com Gemma Donati. Amores infelizes, que o marcaram
para sempre e que sublimou em poesia.
Neste tempo, em
Florença, tal como na China dos Mandarins e na Roma dos Césares, para aceder a
cargos políticos era preciso demonstrar e provar uma certa cultura histórica e
literária. Outros tempos, outras terras, outras gentes.
Voltando a
Dante e ao princípio da sua tragédia política. Quando Florença, sua pátria,
passou a estar sob o jugo dos Guelfos Negros, o poeta foi forçado ao exílio.
Bonifácio mandara que Charles de Valois marchasse sobre a cidade e a
reconquistasse aos Guelfos Brancos. E. com o Valois. veio, em Novembro de 1301,
Corso Donati, um guelfo negro que se encarregou da purga, do saque e das
decorrentes exclusões e macro-atentados aos direitos humanos (que os tempos não
estavam para simples faltas de inclusão ou meras declarações micro-agressivas).
Dante estava em
Roma, em missão diplomática, quando soube da sua condenação por corrupção, nos
finais de 1302. Uma condenação sob falsas acusações que o obrigava a pagar uma
multa que não podia pagar, pois já os bens herdados tinham sido objecto de
confisco.
Na amargura do
exílio, comeu o “pão alheio” e andou pelas “escadas alheias” de Verona,
Bolonha, Ravena. Tinha então 36 anos e nunca mais voltou a ver nem a sua cidade
nem a sua família, a mulher, Gemma, e os quatro filhos.
O poeta
da Vita Nuova escreveu então a Commedia, onde
também se vingou dos seus inimigos políticos, responsáveis pelo seu exílio,
arrumando-os criteriosamente no seu Inferno; assim, o papa Bonifácio VIII,
chefe espiritual dos Guelfos Negros, foi parar ao Oitavo Círculo, o dos
simoníacos e fraudulentos, como vendedor de cargos eclesiásticos. Ali ficou
enterrado de cabeça para baixo. Mas há outros guelfos negros no Inferno
dantesco: Corso Donati, o “conquistador negro” de Florença e Mosca dei
Lamberti, réus de crimes de corrupção e intriga, e Jacopo Rusticoni, condenado
por sodomia. Dante vai dispondo os inimigos nos círculos infernais, elencados
por pecados. Para ele, a justiça divina está acima da amizade e das relações
pessoais – por isso arruma o humanista Brunetto Latini, seu mestre e amigo, no
Sétimo Círculo, por sodomia.
No Inferno dantesco,
o destino das almas danadas vai piorando à medida que se aproximam do centro.
De resto, o Primeiro Círculo nem sequer é infernal, é o Limbo, onde estão
os pagãos virtuosos e as crianças que morreram sem ser baptizadas. Um lugar
aparentemente aprazível e particularmente bem frequentado, com grandes
filósofos, historiadores e poetas clássicos, como Platão, Aristóteles,
Sócrates, Homero, Tucídides, Tácito e o próprio Virgílio; um excelente
ambiente, presumo, só desafiado pelos milhões de crianças não-baptizadas (que
tudo leva a crer que façam tanto barulho como as baptizadas).
Os restantes
círculos são: o Segundo para a Luxúria, o Terceiro para a Gula, o Quarto para a
Avareza, o Quinto para a Ira e Preguiça, o Sexto para a Heresia, o Sétimo
para a Violência, o Oitava para a Fraude. O Nono e último é para a Traição,
para os traidores, e para o traidor dos traidores, Lúcifer, congelado num lago.
Em toda a
expedição, Dante é guiado por Virgílio, o poeta da Eneida, que o
vai acompanhando e esclarecendo; e que, terminada a visita ao Inferno, o
acompanha até ao Purgatório. O poeta romano é um pagão virtuoso, que reside no
Limbo; pode, por isso, entrar no Purgatório, mas não pode entrar no Paraíso
porque, segundo a teologia do tempo, não beneficiou da salvação de Cristo, que
veio depois dele morrer, em 19 AC.
No último
círculo do Inferno, no “Lago Cocito”, está então Lúcifer, uma figura de três
cabeças que agita as asas num vazio gélido.
Os
Terraços do Purgatório
Se o Inferno se
estrutura em círculos concêntricos, que vão piorando, o Purgatório consta de
sete terraços, que correspondem aos sete pecados mortais. As almas estão ali
para se redimirem, praticando as virtudes contrárias aos pecados. Contra a
Soberba, a Humildade; contra a Inveja, a Caridade; contra a Ira, a Paciência;
contra a Preguiça, a Diligência; contra a Avareza, a Generosidade; contra a
Gula, a Temperança; contra a Luxúria, a Castidade.
As
personalidades que os habitam são menos conhecidas do que as que estão no
Inferno: Marco Pórcio Catão, Catão de Utica, ou Catão, o Jovem (95-46 AC),
Manfredo da Sicília, filho natural de Frederico II de Hohenstaufen ou Forese
Donati, um nobre florentino amigo de Dante, com quem o poeta trocou um tipo de
polémica vituperativo jocosa (por sinal bastante ousada,
já que Dante acusava Forese de ser incapaz de satisfazer, física e sexualmente,
a mulher).
O Purgatório
contrasta com o Inferno pelo “clima”, pelo horizonte, pelo espírito do lugar.
No Inferno há desespero e sofrimento, no Purgatório há a esperança, a
expectativa da Salvação, a noção do que aquele tempo de sofrimento tem um
propósito e um fim: chegar ao Céu, ao Paraíso. E os que lá estão contam com as
orações dos vivos, para atingirem a redenção.
Mas há também
alguns enigmas. No Canto XIX do Purgatório, Dante vai encontrar a
tentadora Sereia (femmina balba), uma criatura demoníaca, encantadora,
insidiosa, quando já encontrara no Inferno, entre os fraudulentos, Ulisses, o
autor e artífice do ardil do cavalo de pau recheado de guerreiros com que os
gregos conquistaram Troia.
Ulisses fora
pintado por Platão e pelos Estóicos como um modelo moral, um exemplo de homem
virtuoso, capaz de resistir às tentações sedutoras e maldosas encarnadas por
criaturas demoníacas, como Circe e as Sereias. Confesso que aqui partilho o
choque que Claudia Roth Pierpont regista em “This side of Paradise”, um artigo
publicado no New Yorker de 1 de Dezembro: como é que
Dante arrumou Ulisses no Inferno, no Círculo Oitavo, entre os fraudulentos? É
um lugar extremamente desagradável e para muitos de nós Ulisses é
um herói. O próprio Dante também parece chocado ao ver que Deus Todo-Poderoso
condenou Ulisses ao castigo eterno (também para sua surpresa, ou melhor, para
seu desgosto, lá estão, no Segundo Círculo, os amantes adúlteros de Rimini,
Paolo e Francesca).
A explicação da
condenação de Ulisses, encontramo-la na conversa que Ulisses tem com Dante e
Virgílio no Canto XXVI do Inferno. Ulisses não reporta as errâncias
do seu regresso a Ítaca, antes confessa, que apesar do amor pelo filho, pelo
pai e por Penélope, decidiu “satisfazer a sede de saber todos os segredos do
mundo, todos os vícios e virtudes dos homens”, partindo, depois de Circe, à
aventura por mares nunca dantes navegados, com um barco e uma pequena
equipagem, passando as “colunas de Hércules”.
O Voo
Louco de Ulisses
Assim, Dante
altera a narrativa homérica e entra na polémica clássica de saber se Ulisses
foi virtuoso ou fraudulento.
Na Comédia,
Ulisses exorta os companheiros “fatti non foste a vivere come bruti, ma per
seguir virtute e connoscenza”, o que quer mais ou menos dizer “não fostes
feitos para viver como bestas, mas para seguir a virtude e o saber”. Assim, o
conhecimento, independentemente dos interditos, parece ser o objectivo final da
sua nova viagem, para lá das colunas de Hércules: uma viagem de cinco meses no
Hemisfério Austral, em que vê a montanha do Purgatório, quando um grande
turbilhão engole barco e equipagem. É com este “folle volo”, com este voo
louco, que Ulisses, desrespeitando os limites impostos por Deus, leva à morte
os companheiros e se precipita na Geena. Ou seja, escapado, depois de
satisfeito, da perfeição dos braços da feiticeira Circe, é recapturado pela
tentação de tudo saber, que o leva em voo louco à perdição. No fundo, repete o
pecado de Adão. Adão esse que, entretanto, está no Paraíso …
Com
Beatriz no Paraíso
Ulisses
perde-se, mas Dante salva-se, ou melhor, é salvo. Por quem? Aqui reaparece, ou
aparece, Beatriz, a sua eterna paixão, que é quem o vai guiar na terceira
instância da sua viagem pelo Além.
O Paraíso
dantesco é, evidentemente, um lugar que contrasta com o Inferno. Mas há céus,
céus variados, ou muitas moradas,no Paraíso, porque há graus diferentes de
beatitude, de santidade. Dante começa pelo céu mais baixo, onde Piccarda Donati
(as famílias florentinas estão sempre presentes) lhe explica o espírito do
lugar. Depois, num céu mais alto, está Santa Clara de Assis, fundadora da ordem
das Clarissas; e também Constança de Altavilla, mulher de Henrique VI e mãe de
Frederico de Hohenstaufen, o imperador que fez a cruzada excomungado e negociou
a devolução de Jerusalém com al Kamil, sobrinho e sucessor de Saladino. Com
isto, Dante, homiziado, mostra não ter medo se se aproximar dos gibelinos,
absolvendo a mãe do mais ilustre representante da facção imperial.
Tal como o
Inferno, o Paraíso não é igual para todos os que acolhe nas suas nove esferas
concêntricas (Dante segue aqui a cosmologia ptolomaica).
Há dúvidas
sobre o tempo de redacção da Commedia. Mas foi com certeza escrita
no exílio, ou seja num tempo sempre posterior a 1302. Pensa-se que
o Inferno seja de 1309 e o Purgatório de 1313
ou 1314; e sabe-se que, em 1316, Dante dedicou a primeira parte de O
Paraíso a Cangrande della Scala, o gibelino seu protector em Verona
desde 1311-1312.
A viagem ao
Além foi relativamente rápida – uma semana entre a noite de 7 para 8 de Abril
de 1300 e o dia 14 do mesmo mês. Dante passou dois dias no Inferno, três
no Purgatório e 24 horas no Céu.
A breve
passagem pelo Céu, ou melhor, pelos céus, tem como guia a sua grande paixão
perdida – Beatriz. Se o Inferno tem nove círculos e o Purgatório sete terraços,
o Céu tem nove esferas; e enquanto o Inferno e o Purgatório se elencam por
diferentes categorias de pecados, o Paraíso, coerentemente, organiza-se em
função das virtudes. Já as esferas são a Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte,
Júpiter, Saturno, as Estrelas Fixas e o “Primum Mobile”, ligado directamente a
Deus-Pai.
Dante tem, nas
várias esferas, encontros e conversas. No Canto IX do Paraíso, um trovador,
Folquet de Marselha, fala criticamente da corrupção na Igreja, do amor dos
clérigos pelo dinheiro; este trovador fez mea culpa e foi
depois bispo de Toulouse. Já no Sol, onde ficam os sábios, Dante encontra
teólogos como Alberto Magno, Tomás de Aquino e Santo Isidoro de Sevilha. E até
o rei Salomão, que poderia ter ido parar ao Limbo, mas que, no entanto, ali
está. E santos medievais como Francisco de Assis e São Boaventura, que lhe
conta a história de São Domingos. Logo a seguir, na Quinta Esfera, a de Marte,
estão os “guerreiros da fé”, entre eles o próprio trisavô do poeta, Cacciaguida
degli Elisei, que esteve na Segunda Cruzada, onde foi armado cavaleiro por
Conrado III.
Na conversa com
o trineto, Cacciaguida revela-lhe profeticamente o futuro: a perseguição pelos
Guelfos Negros na corrupta Florença e o exílio que fará dele um grande poeta e
um viajante privilegiado pelas rotas do Além.
Dante e a
Igreja
Além de
Bonifácio VIII e Nicolau III, Dante põe outros papas no Inferno, e não hesita
em condenar os vícios do clero a propósito de bispos e sacerdotes que vai
encontrando no Inferno ou nos diálogos que vai mantendo com os mortos, ao longo
da Commedia.
No entanto, a
Igreja acabou por considerar a sua obra “uma formulação poética da Teologia
Moral medieval, conforme definida por teólogos e santos, como Alberto Magno e
São Tomás de Aquino”, ou seja, por integrá-lo num humanismo cristão.
Foi Leão XIII,
o primeiro papa de uma Igreja privada de qualquer réstia de poder temporal que,
confrontado com os excessos e desequilíbrios da Modernidade, do Capitalismo e
do Socialismo definiu na Rerum, Novarum uma ética cristã para
a “questão social”, foi também o primeiro papa que se referiu a Dante como “il
nostro Dante”, celebrando a sua pertença à Igreja. E no século XX, os
seus sucessores, não pararam de referir e louvar o poeta florentino.
Assim o fez
Bento XV, nos seiscentos anos da morte de Dante, na encíclica In
Praeclara Summorum, toda dedicada ao autor da Commedia.
exaltando-o como “guia moral e religioso da Europa”; e voltou a ele Paulo VI,
na carta apostólica Altissimi Cantus, nos 700 anos do nascimento de Dante e na
véspera do encerramento do Concílio Vaticano II. Mais recentemente, o Papa
Francisco tornava a recordar o itinerário dantesco da “selva escura” à luz:
“Relendo a sua
vida à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhes foram
confiadas de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e
desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta da esperança”. E
isso porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade e em todos, mesmo
nas figuras mais abjectas”, descobre “o desejo de alcançar alguma felicidade,
uma plenitude de vida”.
Seguir Dante na
sua fascinante viagem pelo Além nunca vem a despropósito. Sobretudo neste tempo
de Natal, em que Céu e Terra tão concreta e surpreendentemente se misturam.
Um Santo Natal.
https://observador.pt/opiniao/uma-topografia-do-alem-a-commedia-em-tempo-de-natal/
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