O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos.
* João Miguel
Tavares
11 de Junho de
2026
É um mal
antigo: a tradição retórica nacional é paupérrima, e ninguém seria capaz de
editar um livro com os grandes discursos da democracia portuguesa, porque eles
simplesmente não existem. A História da política americana está cheia de
discursos extraordinários, de Abraham Lincoln a Barack Obama; Winston Churchill
sustentou a resistência britânica nos anos da Blitz em cima da sua
oratória; Charles de Gaulle limpou a honra da França colaboracionista muito por
força da sua palavra; a voz de Václav Havel foi o esteio da recuperação
democrática dos países esmagados pelo comunismo soviético.
Em Portugal não
temos nada disso. As vozes de Mário Soares ou Álvaro Cunhal ficaram na História
mais pela força das suas intervenções televisivas, das entrevistas que deram e
dos livros que escreveram, do que por algum discurso particularmente arrebatador
que hoje faça parte da nossa memória colectiva. E quando nos pomos a ler os
discursos dos políticos portugueses do século XX, temo bem que os mais bem
escritos e retoricamente mais eficazes sejam os de António de Oliveira Salazar,
que é uma coisa chata de se dizer. Para compensar, Salazar tinha uma vozinha de
professor da Beira Alta enfadonho, muito nasalada, muito vagarosa, muito pouco
modelada, o que não fazia dele nem um Hitler nem um Mussolini.
Actualmente, os
nossos políticos utilizam um tom oficial nos seus discursos que os faz
cantarolar todos da mesma forma, e como nunca parecem ter nada de importante
para dizer ao país (mesmo quando têm), compensam a aparente falta de ideias com
doses cavalares de poesia, em particular quando se aproxima o 10 de Junho.
Pior: os autores citados são sempre tão óbvios que qualquer pessoa percebe que
os nossos políticos só são leitores de poesia na véspera de escreverem os seus
discursos, ou nem isso. Infelizmente, António José Seguro não escapou a esta
maldição poética na sua estreia como Presidente da República no Dia de
Portugal, que este ano se assinalou com uma cerimónia modesta em Angra do Heroísmo.
Esta carga poética cavalar, quase
sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os
nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do
Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa
Tivemos direito
a Camões, claro, e depois vieram, em ondas, Natália Correia (“Foi por línguas
de fogo que aprendi a falar”), Vergílio Ferreira (“Uma língua é o lugar de onde
se vê o mundo/ Da minha língua vê-se o mar”), Ruy Belo (“Um país aonde o puro
pássaro é possível”) e um poeta local, Emanuel Félix (“Somos herdeiros de uma
lembrança/ de tesouros afundados/ e arpoamos a esperança”). Esta carga poética
cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali
está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste
a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa que corta a
pertinência de qualquer ideia relevante que esteja a ser dita, e ainda mata de
tédio metade do auditório.
O problema
português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos
serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos. Há uma velha
piada de Hollywood, às vezes protagonizada por Richard Brooks, outras por John
Huston ou John Ford, com uma lição que supostamente teriam aprendido após a
visualização atenta de vários filmes pornográficos. A lição era esta: “Get
to the fucking point.” Os nossos políticos bem podiam aprendê-la, para
evitar que outros 10 de Junho terminem como este, nos vários canais de
televisão: “Foi o discurso do Presidente da República. Quanto a Marco Silva,
assina esta semana pelo Benfica. Seguimos em directo para o Seixal.”
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