No Dia Internacional dos Arquivos, um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.
* José Pacheco Pereira
6 de Junho de 2026
Ao dar-se o nome ao debate de que
vou falar, oscilou-se entre “comer em tempos em crise” e eu, para o lado
excessivo, preferia “comer em tempos de fome”. De que é que estou a falar? Dum
debate que vai ocorrer no Barreiro, no Dia Internacional dos Arquivos, 9 de
Junho, integrado num dia dominado por uma exposição com o título Gastronomia
na Cidade dos Arquivos, de responsabilidade, e muito mérito, de Nuno
Teixeira.
Tudo aqui é pouco comum, a
começar por essa organização, única em Portugal, de um conjunto de arquivos
privados e públicos cobrindo desde a memória da CUF ao património industrial,
aos movimentos sociais operários de resistência ao Estado Novo, nessa terra
especial que era o Barreiro, à memória dos seguros, dos Portos de Lisboa,
Sesimbra e Setúbal, de escolas profissionais e politécnicos, e associações de
artistas, colaborando entre si sob o título Cidade dos Arquivos. Em tempos de competição pelos
escassos bens da fama, do dinheiro, pelo protagonismo do “nome”, isto é hoje
muito pouco comum.
Comer em tempos difíceis
A Cidade dos Arquivos olhou
para o Dia Internacional dos Arquivos e fez diferente, olhou para o “comer,
beber, cozinhar e temperar”. A realidade daquela que foi a maior concentração
industrial do país tornava esses actos vitais de sobrevivência uma experiência
individual, familiar e colectiva, ímpar. Tabernas, mais que restaurantes,
cantinas para os almoços, uma experiência colectiva nas fábricas, produtos
locais para o consumo de quem tinha pouco dinheiro, e uma sociabilidade
especial.
Voltando ao “comer em tempos difíceis”, vai-se falar com gente com experiências únicas e que normalmente não ascende à plataforma “intelectual” do debate. Cada uma traz uma memória especial do que era arranjar comida com pouco ou sem dinheiro. O primeiro interlocutor é um padre operário, Luís Martins Ferreira, cujo livro autobiográfico, O Trono e o Altar, é um retrato único de um grupo de padres que viveram toda a vida como operários, neste caso na Equimetal. Em 1984, com os salários em atraso, um grupo de trabalhadores da Equimetal, liderados pelo padre operário, combinaram ir ao único supermercado do Barreiro, o Pão de Açúcar, encher os seus carrinhos de alimentos e, na saída, dizerem na caixa que a conta devia ser mandada à Equimetal. A PSP e a administração barraram a saída e os trabalhadores deixaram os carros de compras e foram à rua, sendo recebidos com grande apoio. A comunicação social não se interessou pelo assunto e só depois de uma intervenção do bispo Manuel Martins é que o Governo de Mário Soares preparou um plano dedicado aos problemas sociais dos trabalhadores na península de Setúbal.
O segundo e o terceiro interlocutores que vão
participar no debate representam grupos de profissões duras e pobres que
desenvolveram estratégias de ajuda às suas famílias e aos seus companheiros/as.
Rogério Correia, pescador ligado à associação de pesca local Os Camarros, fala
sobre o “Peixe Pró Gato e Rabisco”, que era suposto ser deitado fora ou servir
para os animais, gatos neste caso. Não foram gatos, mas homens e mulheres que
dependiam desse peixe, deitado fora ou apanhado na lama das marés baixas, quando
os pescadores “rabiscavam” a lama e o peixe escondido saltava.
A gastronomia no Barreiro foi durante muito
tempo uma “gastronomia” muito especial, feita por pobres para pobres, no limiar
da subsistência. É por isso uma maneira diferente de comemorar o Dia
Internacional dos Arquivos, com a essência do que é a memória e o seu papel
social
Por fim, vão ouvir-se as operárias da indústria conserveira (Conceição Sobral,
Alice Silva, Maria Dilar Pimpão, Madalena Canas e Maria Poupinha), que vão
falar sobre as “Receitas Desviadas”, o peixe que era “desviado” para os
aventais e dos aventais para as cozinhas pobres das famílias, neste caso na sua
maioria de Setúbal. É uma realidade mais conhecida devido a um projecto de
investigação/comemoração das memórias desses anos de miséria.
Como se vê, a gastronomia no
Barreiro foi durante muito tempo uma “gastronomia” muito especial, feita por
pobres para pobres, no limiar da subsistência. É por isso uma maneira diferente
de comemorar o Dia Internacional dos Arquivos, com a essência do que é a
memória e o seu papel social. Não está na moda, mas a moda é a sucessiva
tentativa de apagamento do que é inconveniente na memória, e a resistência
dessa mesma memória a deixar-se apagar porque transporta uma matéria demasiado
humana para que possa ser esquecida porque é relevante. Um padre, pescadores e
conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.
O autor é colunista do PÚBLICO

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