sexta-feira, 5 de junho de 2026

Gustavo Carneiro - Num bairro, a História



* Gustavo Carneiro

Es­teve pa­tente até à se­mana pas­sada, no Te­atro Ave­nidas, em Lisboa, a ex­po­sição “As ja­nelas que Abril abriu”, que in­cluía tra­ba­lhos de es­tu­dantes do 9.º ano da Es­cola Bá­sica 2, 3 Pro­fessor Delfim Santos e iden­ti­fi­cava as casas clan­des­tinas do PCP no Bairro do Rego, onde hoje está si­tuada a sede na­ci­onal do Par­tido. Foram oito as casas, só neste bairro po­pular da ca­pital.

Numa delas viveu Álvaro Cu­nhal em 1937, quando era di­ri­gente da Fe­de­ração das Ju­ven­tudes Co­mu­nistas Por­tu­guesas. Ou­tras duas, uma ti­po­grafia e uma ha­bi­tação de mi­li­tantes clan­des­tinos, foram as­sal­tadas pela po­lícia po­lí­tica no mesmo dia: 10 de Ja­neiro de 1938. Neste final de dé­cada, o fas­cismo pa­recia im­pa­rável, em Por­tugal e em grande parte da Eu­ropa. A re­pressão des­feria rudes golpes nas or­ga­ni­za­ções do Par­tido e na sua im­prensa, e no Tar­rafal mor­riam já muitos an­ti­fas­cistas.

Mas a his­tória não acabou aí, como de­monstra a exis­tência de ou­tras casas iden­ti­fi­cadas na ex­po­sição: uma serviu de ponto de apoio a Pedro So­ares e talvez a Jo­a­quim Pires Jorge, que nesse ano de 1942 se em­pe­nhavam na re­or­ga­ni­zação do Par­tido, que ha­veria de lhe con­ferir uma di­mensão na­ci­onal e torná-lo na van­guarda da re­sis­tência e da uni­dade an­ti­fas­cistas. Na­quele bairro viveu também Oc­távio Pato em 1946, ano do IV Con­gresso do Par­tido, re­a­li­zado num mo­mento de forte ex­pansão das lutas ope­rá­rias e da or­ga­ni­zação par­ti­dária: em apenas três anos, o nú­mero de mi­li­tantes au­mentou seis vezes e a ti­ragem do Avante! mul­ti­pli­cara-se por quatro. Este mesmo di­ri­gente vol­taria mais tarde ao Bairro do Rego, onde em 1959 tinha um ponto de apoio, jun­ta­mente com An­tónio Dias Lou­renço. Nesses tempos em que o fas­cismo en­con­trava nos EUA e na NATO o apoio de que pre­ci­sava para so­bre­viver, a luta so­fria re­veses, era menos ampla do que nou­tros mo­mentos – mas não ces­sava. Quem sabe se na­quela casa da Rua Tomás Ca­breira não se ajudou a pla­near a fuga de Pe­niche, que no início de 1960 de­volveu à luta an­ti­fas­cista ac­tiva Álvaro Cu­nhal e ou­tros nove des­ta­cados di­ri­gentes co­mu­nistas?

Certo é que em 1963, uma casa clan­des­tina na­quele bairro fora aban­do­nada por ra­zões de se­gu­rança. Vivia-se já uma nova fase, de as­censo re­vo­lu­ci­o­nário: o 1.º de Maio de 1962 fora uma jor­nada ex­tra­or­di­nária; nos campos do sul os ope­rá­rios agrí­colas con­quis­taram a jor­nada de oito horas, pondo fim ao es­cra­vi­zante tra­balho de sol a sol; o início da guerra co­lo­nial abrira uma nova frente de luta an­ti­fas­cista. A úl­tima casa iden­ti­fi­cada al­bergou um casal de fun­ci­o­ná­rios do Par­tido em 1968, quando a di­ta­dura fingia mudar para deixar tudo na mesma e a luta crescia, alar­gava-se e agre­gava gente nova e nova gente.

Cen­trada num bairro, e em tantos ou­tros foi também assim, esta é a his­tória da luta de um povo, que con­tinua nos exi­gentes tempos em que vi­vemos. Com avanços e re­cuos – e onde sempre, mas sempre, se en­con­tram os co­mu­nistas.

https://www.avante.pt/pt/2740/opiniao/183927/Num-bairro-a-Hist%C3%B3ria.htm

Foto em
https://www.instagram.com/p/DYXpSZVCOjj/?img_index=4

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avenidas.umteatroemcadabairro
 
// EXPOSIÇÃO 
As janelas que abril abriu, ou não!
15 A 30 MAI

INAUGURAÇÃO 
🗓 15 MAI | SEX | 17h 
📍Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro 

A exposição “As Janelas que Abril abriu, ou não!”, apresenta trabalhos realizados pelos alunos da turma A, do 9.º ano da Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos – Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. 

Partindo de passeios pelo Bairro do Rego, em Lisboa, visitámos a Coletividade “Os Económicos” e observámos janelas de casas que outrora acolheram opositores ao regime. Tomámos essas janelas como testemunhos de tempos de vigilância, mas também de esperança e como símbolos de transição da abertura que abril tornou possível.

Parceria: Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos - Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. Alunos 9.º A, Professores Dilar Pereira e João Pedro Martins; Biblioteca Escolar e Projeto Descolar Com.

https://www.instagram.com/p/DYMZmJogsLw/

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