* Gustavo Carneiro
Esteve patente até à semana passada, no Teatro Avenidas, em Lisboa, a exposição “As janelas que Abril abriu”, que incluía trabalhos de estudantes do 9.º ano da Escola Básica 2, 3 Professor Delfim Santos e identificava as casas clandestinas do PCP no Bairro do Rego, onde hoje está situada a sede nacional do Partido. Foram oito as casas, só neste bairro popular da capital.
Numa delas viveu Álvaro Cunhal em 1937, quando era dirigente da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas. Outras duas, uma tipografia e uma habitação de militantes clandestinos, foram assaltadas pela polícia política no mesmo dia: 10 de Janeiro de 1938. Neste final de década, o fascismo parecia imparável, em Portugal e em grande parte da Europa. A repressão desferia rudes golpes nas organizações do Partido e na sua imprensa, e no Tarrafal morriam já muitos antifascistas.
Mas a história não acabou aí, como demonstra a existência de outras casas identificadas na exposição: uma serviu de ponto de apoio a Pedro Soares e talvez a Joaquim Pires Jorge, que nesse ano de 1942 se empenhavam na reorganização do Partido, que haveria de lhe conferir uma dimensão nacional e torná-lo na vanguarda da resistência e da unidade antifascistas. Naquele bairro viveu também Octávio Pato em 1946, ano do IV Congresso do Partido, realizado num momento de forte expansão das lutas operárias e da organização partidária: em apenas três anos, o número de militantes aumentou seis vezes e a tiragem do Avante! multiplicara-se por quatro. Este mesmo dirigente voltaria mais tarde ao Bairro do Rego, onde em 1959 tinha um ponto de apoio, juntamente com António Dias Lourenço. Nesses tempos em que o fascismo encontrava nos EUA e na NATO o apoio de que precisava para sobreviver, a luta sofria reveses, era menos ampla do que noutros momentos – mas não cessava. Quem sabe se naquela casa da Rua Tomás Cabreira não se ajudou a planear a fuga de Peniche, que no início de 1960 devolveu à luta antifascista activa Álvaro Cunhal e outros nove destacados dirigentes comunistas?
Certo é que em 1963, uma casa clandestina naquele bairro fora abandonada por razões de segurança. Vivia-se já uma nova fase, de ascenso revolucionário: o 1.º de Maio de 1962 fora uma jornada extraordinária; nos campos do sul os operários agrícolas conquistaram a jornada de oito horas, pondo fim ao escravizante trabalho de sol a sol; o início da guerra colonial abrira uma nova frente de luta antifascista. A última casa identificada albergou um casal de funcionários do Partido em 1968, quando a ditadura fingia mudar para deixar tudo na mesma e a luta crescia, alargava-se e agregava gente nova e nova gente.
Centrada num bairro, e em tantos outros foi também assim, esta é a história da luta de um povo, que continua nos exigentes tempos em que vivemos. Com avanços e recuos – e onde sempre, mas sempre, se encontram os comunistas.
https://www.avante.pt/pt/2740/opiniao/183927/Num-bairro-a-Hist%C3%B3ria.htm
Foto em
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avenidas.umteatroemcadabairro
// EXPOSIÇÃO
As janelas que abril abriu, ou não!
15 A 30 MAI
INAUGURAÇÃO
🗓 15 MAI | SEX | 17h
📍Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro
A exposição “As Janelas que Abril abriu, ou não!”, apresenta trabalhos realizados pelos alunos da turma A, do 9.º ano da Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos – Agrupamento de Escolas das Laranjeiras.
Partindo de passeios pelo Bairro do Rego, em Lisboa, visitámos a Coletividade “Os Económicos” e observámos janelas de casas que outrora acolheram opositores ao regime. Tomámos essas janelas como testemunhos de tempos de vigilância, mas também de esperança e como símbolos de transição da abertura que abril tornou possível.
Parceria: Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos - Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. Alunos 9.º A, Professores Dilar Pereira e João Pedro Martins; Biblioteca Escolar e Projeto Descolar Com.
https://www.instagram.com/p/DYMZmJogsLw/

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