* Daniel Oliveira
Montenegro está
a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa
é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo
para pouca política
11 junho 2026
Ométodo diz da
função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que
sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da
lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o
Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a
Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate,
impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o
Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão
constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco,
para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser
ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear
com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.
Quanto à
política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da
pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o
Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras
consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a
economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era,
unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização,
tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu
novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo.
Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que
a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se
pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem
carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção.
E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de
empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem
horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a
oportunidades, apenas pune quem nela está.
A política do
ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo
sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares
do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar
o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do
PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais
preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a
melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os
eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9)
e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para
descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam
termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro
está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma
ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e,
depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com
o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia
de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo:
tática, tática e mais tática.
Costa
desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente
de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma
dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs
a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo
erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável,
o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências
podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao
ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É
estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros
países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que
tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por
perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do
que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o
PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário
alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e
fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim,
Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca
política.
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