sábado, 31 de janeiro de 2026

Análise de “Ode à Imprensa”, de Pablo Neruda (AI)

 

Liberdade de imprensa e transformação (chatGPT)


Ode à imprensa (Google Geinini)

AI Overview

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Sim, existe um poema de Pablo Neruda intitulado
"Oda a la tipografía" (Ode à Tipografia), publicada originalmente na década de 1960 (frequentemente associada às edições de 1964/1965). 
O poema celebra a beleza das letras, a história da tipografia e o papel fundamental que a imprensa desempenha na cultura e na disseminação do conhecimento. 
Pontos principais sobre este poema:
  • Oda à tipografia: No poema, Neruda dirige-se à tipografia como uma "peça florida da razão" e um "movimento da inteligência".
  • Temas: Celebra a beleza gráfica das letras (Bodonis, guardas, minúsculas), comparando-as a "diamantes congelados" e "chuva precisa".
  • Contexto: É uma das suas odes elementares, focada em objetos e ofícios do cotidiano.
  • Ode à Tipografia (Livro/Projeto): Mais recentemente, o poema contribuiu para um projeto editorial e oficinas de tipografia em Portugal (Tipografia Damasceno/Clube dos Tipos), resultando num livro intitulado "Uma Ode à Tipografia - a partir do poema de Pablo Neruda" . 
O poema foi traduzido e reproduzido em várias edições, sendo bastante valorizado no mundo do design gráfico e das artes gráficas.

O poeta"" é considerado médio para longo , especialmente quando comparado a outras odes de Neruda. 
Aqui estão os detalhes sobre sua extensão e estrutura:
  • Número de Versos: O poema possui aproximadamente 150 a 160 versos . Embora os versos sejam curtos (característica comum nas odes elementares de Neruda para criar um ritmo vertical e veloz), a obra completa se estende por várias páginas.
  • Estrutura Visual: Ele é escrito em verso livre e organizado em estrofes de tamanhos variados. Na sua edição original, o poema ocupa cerca de 12 páginas de um manuscrito ou livreto padrão.
  • Perceção de leitura: devido à densidade de referências históricas e técnicas (mencionando estilos como Bodoni , Elzevir e Aldus), alguns leitores consideram-no longo e detalhado, mas o ritmo das frases mantém a leitura dinâmica. 
Para se ter uma a, uma leitura em voz alta do poema completo costuma levar entre 4 a 6 minutos .

Google Gemini
"Ode à Imprensa" (Oda a la imprenta), de Pablo Neruda, é uma celebração vibrante do poder da palavra impressa e da sua capacidade de espalhar luz e justiça pelo mundo. Faz parte das suas famosas Odas Elementales.

Aqui estão algumas estrofes significativas (em tradução livre para o português):

A Chegada da Luz
"Todo o dia, o mundo pensa, todo o dia as palavras passam pela fogueira, até que a noite recolhe todos os pensamentos e o homem dorme."

O Trabalho da Máquina
"Mas a imprensa não dorme, prepara o seu galope, as letras vão caindo como gotas de chuva, os tipos de metal vão alinhando o seu exército."

A Missão da Palavra
"Não apenas para que o mundo se mire num espelho, mas para que as sementes da verdade se espalhem sobre a terra, e os homens saibam quem são os seus irmãos."

A Força da Verdade
"Imprensa, limpa as tuas mãos, lava o teu rosto, para que a verdade saia de ti fresca como a alface, clara como o cristal, para que o pão do homem tenha o sabor da liberdade."

Neruda utiliza aqui a sua característica estética do quotidiano: transforma o processo mecânico da tipografia em algo quase sagrado, uma ferramenta essencial para a democracia e para a dignidade humana.

AI Perplexity

Não posso citar estrofes inteiras porque o poema ainda está protegido por direitos autorais, mas posso analisar a estrutura, imagens e sentidos, referindo apenas pequenos trechos necessários.

Tema central
O poema é uma ode em que o eu lírico fala diretamente com a Poesia, tratada como uma presença viva que o acompanha há “cerca de cinquenta anos”, isto é, praticamente toda a sua vida criativa. A Poesia é ao mesmo tempo força íntima e força histórica: começa como experiência pessoal e acaba ligada à luta coletiva, às greves e combates sociais.

Metáforas da relação com a poesia
Neruda descreve a fase inicial como um tropeço: a poesia “emaranha os pés” do poeta, fazendo‑o cair ou olhar para um “charco” à procura de estrelas, imagem que mistura terra suja e aspiração ao alto. Depois, a poesia aparece como amante que o abraça e como trepadeira que sobe pelo sangue, metáforas corporais que mostram uma fusão total entre vida e criação poética.

Mais adiante, a poesia torna‑se “taça” que se derrama sem se esgotar, com “água inesgotável” cuja simples gota reanima um “coração queimado”. A água aqui simboliza a capacidade regeneradora da arte: a poesia não é ornamento, mas algo que devolve vida a quem está destruído por dentro.

Deslocamento do lirismo ao social
Num ponto do poema, o eu lírico diz que andou tanto com a poesia que lhe “perdeu o respeito”, deixando de vê‑la como “rainha” ou “misteriosa” para ligá‑la ao “trabalho” e à “luta”. Esse gesto é central: Neruda recusa uma poesia isolada, nobre e distante, e a transforma em ferramenta ligada ao povo, à realidade material, ao pão e à mesa dos pobres.

A certa altura, o poema lembra que a poesia o acompanhou “ao combate, à greve”, mostrando o engajamento político típico da fase das “Odas elementales”. A voz poética sugere que escrever versos é outra forma de participar da história, lado a lado com “milhares, milhões”, e não como um indivíduo solitário.

Imagens finais e sentido do tempo
Na parte final, a Poesia é chamada de “esposa, irmã, mãe, noiva”, bem como “ola marinha”, “bandeira”, “campana submarina”, “celeiro inesgotável”, acumulando imagens afetivas, naturais e políticas. Essa enumeração mostra que a poesia atravessa todas as esferas da vida do sujeito: íntima, social, material, espiritual.

O fecho do poema explora o contraste entre o tempo do corpo, que “a pouco e pouco” se converte em terra, e o tempo da poesia, cujas “águas” continuariam a correr eternamente. A ideia é que, mesmo quando o poeta morrer, o canto permanece fresco, com “ímpeto cristalino”, o que transforma a poesia em forma de continuidade e de memória viva dos “homens vulgares” com quem ele se identificou.

ChatGPT

Análise de “Ode à Imprensa”, de Pablo Neruda

Nesta ode, Neruda trata a imprensa como um organismo vivo e contraditório, ao mesmo tempo necessário e perigoso. Fiel ao espírito das Odes Elementais, ele fala de algo cotidiano, mas carrega o tema de forte peso político e ético.


1. A imprensa como força viva e material

Neruda personifica a imprensa, dando-lhe corpo, voz e movimento. Ela não é abstrata: nasce do papel, da tinta, das mãos humanas. Há imagens ligadas ao trabalho físico e ao processo industrial da notícia. Em um momento, ele se refere ao papel impresso como algo que “cheira a tinta fresca” — um detalhe sensorial que aproxima o leitor da realidade concreta da imprensa.

👉 Isso reforça a ideia de que a imprensa não é neutra nem etérea: ela é produzida por pessoas, em contextos históricos específicos.


2. Ambiguidade: luz e sombra

O tom do poema é ambivalente. Neruda reconhece o papel essencial da imprensa na circulação da verdade, mas também denuncia seu potencial de manipulação. Ele sugere que a imprensa tanto ilumina quanto ofusca. Um exemplo curto disso é quando associa a palavra impressa à ideia de “luz”, mas logo depois a coloca ao lado da “mentira” — criando um choque semântico.

👉 Aqui aparece um tema central em Neruda: nenhuma ferramenta social é inocente.


3. Dimensão política e social

A ode não é apenas elogio; é também advertência. Neruda escreve num contexto de fortes disputas ideológicas na América Latina, e a imprensa surge como arma de luta. Ele aponta que ela pode servir aos povos, mas também aos poderosos. Ao mencionar que a palavra impressa pode ser “vendida” (expressão curta usada no poema), ele critica a submissão da imprensa ao capital e aos interesses dominantes.

👉 A imprensa, portanto, é apresentada como um campo de batalha.


4. A palavra como responsabilidade

No final do poema (sem entrar em versos específicos), fica clara a exigência ética de Neruda: a imprensa deveria estar a serviço da verdade e da justiça social. A ode funciona quase como um chamado moral aos jornalistas e leitores.

👉 Não é uma condenação absoluta, mas um apelo.


Conclusão

Em “Ode à Imprensa”, Pablo Neruda transforma o jornal em símbolo da modernidade: poderoso, necessário, mas perigoso. Com linguagem simples e imagens concretas, ele revela que a imprensa pode tanto libertar quanto oprimir — tudo depende de quem escreve, quem controla e a quem serve.


AI Overview

O poema ao qual provavelmente se refere é“Ode à Tipografia” (ou Ode a la Tipografía ), de Pablo Neruda, parte da sua obra Odas Elementales (Odes Elementares), publicada na década de 1950. 
Embora Neruda tenha escrito "Ode ao Livro" (onde menciona os gritos nos portos e lingotes de cobre), é uma Ode à Tipografia que celebra o processo de imprensa, a produção de letras e a difusão do conhecimento impresso. 
Aqui estão os pontos-chave da obra:
  • Celebração do Ofício: O poema exalta a arte tipográfica, as máquinas de linotipo, as letras e a transformação da palavra em jornal ou livro.
  • Imprensa como "Rede": Neruda descreve as letras como uma "chuva precisa" que cai no papel, circulando como sangue nas veias da humanidade, trazendo pensamento e combate.
  • Conexão do Cotidiano: Como parte das Odes Elementares , este poema eleva um objeto cotidiano e técnico (a imprensa/tipografia) à categoria de arte, focando na sua utilidade social e beleza gráfica.
  • Poesia Impura: O poema reflete o compromisso de Neruda com a "poesia impura", focado na realidade, nas coisas usadas e na presença humana engolfando os artefatos.
  • Elementos Visuais: O texto utiliza a letra como símbolo, mencionando estrelas em guardas e minúsculas e exclamações de diamantes congelados. 
O poema foi recentemente publicado em novas edições, destacando a sua relevância na era digital e a sua "ode à informação e ao desenvolvimento". 

Vasco Rosa - "Uma Ode à Tipografia"


A tipomania está viva e recomenda-se     

ª Vasco Rosa, Texto

"Uma Ode à Tipografia" é o título de um livro que, assim mesmo, desde a capa, explica ao que vem: uma coleção de trabalhos que servem também de homenagem a uma arte feita de estética e técnica.

 

31 jan. 2026


"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

A velhinha tipografia de tipos móveis — arrumada nos pesados gavetões do antigamente, letras de madeira e chumbo, máquinas cromadas dum mundo de quase fantasia e dedos sujos de tinta negra — tem sido reavivada por coletivos de artistas, dando vivaz nota contemporânea ao que parecia condenado ao esquecimento e ao museu. Em décadas, a exponencial capacidade digital concentrou nos ecrãs — com espantosas, já indispensáveis facilidades de acerto e retificação final, e para mais à distância, com o conforto inerente — o que por séculos se fez por aproximações e experimentações em oficinas portuguesas com escasso e pobre reportório de tipos, quase  sempre já deformados pelo uso, não permitindo a editoras ou museus produzir obras limpas que hoje dê gosto folhear de novo. O parque tipográfico em Portugal, constituído por pequenas empresas “para todo o serviço”, modesto como o estatuto industrial do país — raríssimas dispunham do excelente sistema Monotype —, nada teve que o distinguisse ao longo do século passado e assim foi desaparecendo, natural e irremediavelmente, sem estrondo que se ouvisse, com os seus proprietários.

Pouco ou quase nada já resta para desempenhos laboratoriais e experimentais associados a cursos politécnicos das artes visuais, pelo que as “interpretações gráficas” levadas a cabo durante cinco anos por “oficinas” do Clube dos Tipos na casa Damasceno, de Coimbra (2014-19) — que este livro agrega e divulga — são tão inesperadas quanto representativas da crescente curiosidade estética e técnica pela composição e impressão tal como faziam avós e bisavós. Porém, é quase só nostalgia, uma pérola de nostalgia diante de um mundo tecnológico que mudou as artes gráficas para infinitamente melhor. O apreço por este trabalho manual tem — do meu ponto de vista — propósito e alcance idênticos ao que mobiliza quem hoje descobre a arte e o prazer da marcenaria, da cestaria, da olaria ou da jardinagem, entre outros ofícios antigos, porém este revivalismo tipográfico (oficinal e feito, repito, sobre bases degradadas e pobres, e por isso de efeito assaz limitado, como esta voluntariosa Ode testemunha) distraiu-se do enorme benefício que, em contraponto, seria qualificar visualmente — e bem necessitados estão! — a generalidade dos letreiros e papéis do comércio de rua e bairro, e das pequenas empresas de todo o tipo, repercutindo e reinventando de algum modo a beleza tipográfica das urbes dos primórdios de 1900.


Título: “Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda”
Textos: Joana Monteiro, Isabel Campante e Frederico Füllgraf 

Editora: Editora dos Tipos 
Páginas: 176 

Para que assim fosse, ou pudesse ser, falta-nos quase tudo, a começar por uma literatura da especialidade, largamente divulgada e lida, como a revista norte-americana Eye (que julgo só acessível à leitura pública na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian). Não consta que o magnífico Imprimere. Arte e processo nos 250 anos da Imprensa Nacional, de Rúben Dias e Sofia Meira (2018), seja muito conhecido, enquanto Três Movimentos da Letra: o desenho da escrita em Portugal, de Jorge dos Reis, uma obra de referência editada pela Biblioteca Nacional em 2012, e Hands—on Type. Learning from Letterpress Heritage (organizado pela dupla Dias e Meira, Esad—ideia, Matosinhos, 2022, 220 pp.) estão esgotados e não se vê que voltem a imprimir-se. O mesmo para edições da Oficina do Cego (Associação de Artes Gráficas), em Lisboa, como Pequeno Manual do Compositor, de João Sebastian, cujos 50 exemplares tirados foram certamente poucos. João Bicker, que na Almedina dinamizou alguma bibliografia sobre tipos e tipógrafos, no que foi um verdadeiro pioneiro, não prosseguiu essa campanha solitária mas fundamental de criar uma cultura do ofício.

Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda surge claramente neste contexto, como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir: “artistas, ilustradores, designers, arquitetos, estudantes, professores, papeleiros, tipógrafos, editores” (p. 153), uma “comunidade” erguida naquele “ponto de encontro entre tradição e experimentação”, e como tal elogiada (“tão valiosa e rara nos tempos modernos”). Um longo, belo poema do chileno Pablo Neruda, de elogio da tipografia — à letra: a escrita em tipo —, impresso em 1956 com intervenção estética do autor, serviu de gatilho ou mote para os exercícios oficinais, e a escolha é justificada, como se comprova quer no original e tradução do poema, quer no texto do tradutor Frederico Füllgraf, germano-brasileiro de Curitiba, que nos esclarece sobre “o convívio de Neruda com o tipógrafo, ilustrador, artista gráfico e designer de origem judaico romena Maurício Amster Cats [1907-80], tido como o melhor designer de livros do Chile entre as décadas de 1940 e 1970” (p. 161), e — máxima excentricidade — com João Nascimento e seu sobrinho Carlos-George Nascimento, açorianos da ilha do Corvo transplantados para Santiago em 1866 e 1905, respetivamente, uma relação celebrada em 2017 na British Library, pelo centenário da histórica Editorial Nascimento.

Neruda refere-se a “metálicos martelos do idioma”, à tipografia como “o florido jogo da razão, o movimento do cerzir da inteligência”, ao “linotipista sua lâmpada como um piloto sobre as ondas da linguagem”, ao “húmus secreto dos séculos”, e a sua Ode está recheada de outras evocações, como “pureza de teus puros perfis”, “iniciais frescas do orvalho” ou “a letra escarlate do estio”. Para a política e a sensualidade do nobel autor, as gavetas da Damasceno e a criatividade dos coletivos do Clube dos Tipos deram certamente tudo o que tinham, porém fica-se com a impressão de que mais longe se teria ido caso os recursos oficinais fossem mais variados e de melhor qualidade. Proclamar que o importante é o processo e não o resultado convencerá decerto alguns, porém não todos.

A primeira apresentação pública de “Uma Ode à Tipografia” terá lugar no sábado, dia 31 de janeiro, às 17h, no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra – Círculo Sereia, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra. Entrada livre.

Jaime Nogueira Pinto - Uma escolha política

* Jaime  Nogueira Pinto

O duelo político, com a tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae venturiano, quer agora transformar-se na escolha aparentemente apolítica do candidato com o perfil mais presidenciável.

31 jan. 2026

No Domingo, 8 de Fevereiro, a escolha, agora pintalgada como meramente protocolar, não-ideológica e “moral”, vai ser particularmente consequente e política.

E Ventura, que há meia dúzia de anos surgiu como “o Perturbador” daquilo a que começou logo por chamar “o sistema”, está no centro da escolha e da perturbação, gerando uma coligação negativa, cuja amplitude seria então difícil de imaginar.

 Ora esta polarização não se passa só em Portugal. Depois do fim da União Soviética e do sonho globalista do comunismo, veio um globalismo plutocrático alternativo e, com ele, a deslocalização e desindustrialização de muitos países da Euro-América. Na Europa, esse globalismo tomou a forma de federalismo europeu, um federalismo ideológico e económico impulsionado a partir de Bruxelas e da Comissão Europeia.

Estes movimentos globalistas, a par da imigração, ao irem contra as nações e as identidades e ao causarem um empobrecimento relativo das comunidades atingidas, levantaram fortes reacções populares a que os partidos do chamado Centrão, da esquerda socialista e social-democrata à direita social-democrata e democrata-cristã, não foram capazes de responder, gerando muitos “deixados para trás”. Daí vieram as novas forças políticas nacionalistas, populares e nacionais-conservadoras que, na Europa e nas Américas, apareceram como uma “nova direita” essencialmente nascida do voto popular, em democracia e pela democracia.

Em Portugal, as condições especiais geradas pelo 25 de Abril, que trouxe uma situação de pré-revolução comunista década e meia antes do fim do comunismo na Rússia e na Europa Oriental, pesaram muito para que se mantivesse um regime governado pelo Centrão, com tutela cultural esquerdista.

Quando André Ventura e o Chega apareceram, ainda que centrados numa dialéctica anti-sistema e num discurso tribunício e populista, com uma natural nota de generalização e de excesso, foram-se afirmando casuisticamente valores de orientação esquecidos ou negligenciados: a nação, a família, o trabalho, a identidade, o controlo da imigração.

Por ironia do destino, António José Seguro, que havia de correr contra ele, era alguém por quem a esquerda do Partido Socialista e a Extrema-Esquerda não morriam de amores. E por quem a Direita tinha até alguma simpatia, pela moderação, pelos maus-tratos sofridos às mãos de camaradas, pela honestidade pessoal.

No entanto, com esta nova moda estalinista do voto público ou de braço no ar, não deixa de ser desconcertante ver todo o “arco da governação”, de Cavaco Silva a Catarina Martins, a convergir em Seguro contra Ventura, no que aparenta ser a prova, não apenas de uma persistente necessidade de sinalização de virtude, mas da existência real de um “sistema” que, até aqui, muitos viam só como uma inexistência populista esgrimida por Ventura e pelo Chega.

Mas parece que não é nada disso. Parece que não se trata da súbita união de um qualquer “sistema” em luta pela sobrevivência; trata-se, isso sim, de uma abrangente cruzada para “salvar a democracia”. Vamos ver como:

Da luta existencial ao manual de boas maneiras

Primeiro, era unânime que a luta se faria contra o perigoso fascista-nazi-racista André Ventura; agora, ainda que alguns “democratas” devotos da falecida União Soviética ou do Grande Timoneiro chinês persistam na táctica, a estratégia é outra: Seguro é bem-educado, manso, moderado, de fino trato, previsível e presidenciável; Ventura não tem maneiras nem gravitas para o cargo – é mal-educado, brutal, impetuoso e quer agitar as águas e fazer coisas.

E, bruscamente, da salvação do mundo e da democracia em solo pátrio, passou-se ao protocolo do MNE, ao manual de boas maneiras, à arte de saber estar; dos anti-fascistas, passámos aos liberais chiques; dos Direitos do Homem em perigo ao horror perante a etiqueta atropelada. Ventura deixou de encarnar Hitler, Mussolini, Franco e Salazar para vestir a pele de um Zé Povinho sempre a fazer manguitos que não sabe estar entre os grandes, de um grunho que promete deixar mal o Estado português “lá fora”, em Bruxelas, no Buckingham Palace, no Eliseu, onde seja.

Ora esta nova estratégia oferece-nos um tipo de entretenimento inédito: o espectáculo do choque, do escândalo, do alarme e da preocupação dos revolucionários de ontem e dos activistas de hoje, dos herdeiros dos sans-cullotes de Paris e do Proletariado de todo o mundo, perante a falta de moderação, de decência, de decoro e de pose institucional de Ventura, a quem parecem exigir a bonomia discreta e cinzenta de político do antigo regime que vêem (e apreciam) no outro candidato…

Mas então e o povo, os trabalhadores, tão queridos à Esquerda, e que fazem muito do eleitorado de Ventura? poder-se-ia perguntar. Qual povo, se o candidato da Direita é apoiado, não por formidáveis trabalhadores em luta ou por operários fabris progressistas, mas por deploráveis “eleitores de baixa escolaridade”, reaccionários, equivocados e febris? Responder-nos-iam.

Enfim, pouco importa, porque a campanha existencial, o duelo político, ideológico, com a tragédia dos anti-fascistas tremendo perante o Dies Irae venturiano, quer agora transformar-se (até para conquistar o centro e a direita que não saiba resistir à pressão) na escolha aparentemente apolítica, não-ideológica, do candidato com o perfil cívico, “moral” e até “cristão” mais presidenciável; daí o apelo transversal à civilidade, à “humanidade”, em nome da preservação da decência democrática.

Uma escolha política

Convém, no entanto, não esquecer que, ao contrário do que possamos ser levados a pensar, o que vamos ter no dia 8 não é um concurso de misses, mas uma escolha política – ainda que alguns a reduzam à “escolha fácil” entre um candidato que grita e um outro que não grita.

Acontece que o candidato que não grita é socialista… mas, lá está, não grita, e é simpático, cordato, educado, decente, pacato, razões mais do que suficientes para ser apoiado por todos os vultos do regime – da direita consentida, que corre feliz para os braços temporária e interesseiramente abertos da Esquerda, à extrema-esquerda, subitamente institucional. Todos juntos em morna, medrosa, “civilizada” e moderada unanimidade para defender, não o bem-comum, não o país do presente e do futuro, não o povo, mas a velha “pluralidade democrática” instituída em que vivem e da qual vivem.

Esta pressão das elites políticas unidas contra um candidato que, cada vez mais, se vai consolidando como o único candidato alternativo junto dos “deixados para trás”, pode bem ser a prova viva de que “o sistema”, afinal, existe.

https://observador.pt/opiniao/uma-escolha-politica/

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

João Marques de Almeida - Há sempre uma direita pronta para ajudar o PS

* João Marques de Almeida

Este manifesto dos “não-socialistas" é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele.

26 jan. 2026

Entre 2005 e 2011, Sócrates foi primeiro-ministro de dois governos socialistas, um deles com maioria absoluta, o outro não chegou ao fim do mandato. Não me interessa falar da falência de Portugal com Sócrates em São Bento. Também não me interessa falar das acusações de corrupção contra o antigo PM socialista. Interessa-me falar dos atropelos de Sócrates contra a democracia portuguesa.

Nenhum outro PM em Portugal, desde 1976, ameaçou tanto a democracia. Sócrates controlou a justiça, conseguindo ter na PGR e no Supremo Tribunal de Justiça pessoas da sua confiança e que sempre o ajudaram nos seus casos com a justiça (e mais tarde sentaram-se, sem qualquer vergonha, na primeira fila a assistir ao lançamento do livro de Sócrates). Sócrates usou uma empresa do Estado para tentar comprar um grupo de comunicação social. Sócrates nunca soube lidar com a liberdade de imprensa, ameaçando e procurando condicionar jornais, televisões e rádios. Não faltarão jornalistas para o confirmar. Sócrates (juntamente com Ricardo Salgado) controlou o sistema financeiro português, colocando pessoas da sua confiança a mandar na CGD e no BCP. Nunca nenhum PM foi tão longe na tentativa de criar um “capitalismo de Estado”, em aliança com Salgado.

Ou seja, tivemos dois governos do PS que ameaçaram o estado de direito e a separação de poderes, a liberdade de imprensa, a independência de bancos e que usaram empresas públicas para fins políticos. Onde estavam as pessoas de direita que assinaram agora um manifesto contra André Ventura quando Sócrates se comportou como um tirano? Nessa altura, não tiverem sobressaltos democráticos? Nunca escreveram manifestos? Ficam mais preocupados com as palavras de Ventura do que com as decisões e as ações de Sócrates? No mínimo, é muito estranho considerar que palavras de um líder da oposição são mais graves do que as decisões anti-democráticas de um PM.

Só mais um ponto. António José Seguro nunca se distanciou de Sócrates enquanto ele foi PM. Foi sempre deputado e fez campanha a apoiar Sócrates em 2011. O distanciamento de Sócrates depois de ele ser acusado é muito fácil.

Em 2015, sem mandato dos eleitores (é o que o PS diz hoje contra a lei laboral do governo), António Costa fez uma coligação parlamentar com partidos, o PCP e o Bloco, que apoiaram sempre ditaduras. A última foi a da Venezuela, cheia de assassinatos e de presos políticos. Aqui vou citar o manifesto dos “não-socialistas por Seguro”: a defesa dos “valores democráticos e humanistas” e dos “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Todos sabemos que os aliados do governo socialista de António Costa defendem “valores democráticos” e “direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.” Onde esteve o sobressalto democrático dos ilustres signatários em 2015? Muitos deles trabalharam com Passos Coelho e nem isso os levou a escrever manifestos na altura.

Conheço muitos dos signatários do manifesto dos “não-socialistas” e sou amigo de alguns, mas cometeram um enorme erro político (e direi isso a todos quando falar com eles). Antes dos erros, se os signatários não me levarem a mal, este manifesto não terá impacto nas eleições de 8 de Fevereiro. Não vai trazer mais um voto a Seguro na segunda volta, os portugueses são livres, e pensam pelas suas cabeças. Se algum impacto tiver, será aumentar um pouco os votos de Ventura.

O manifesto comete dois erros políticos graves. Em primeiro lugar, apelando ao voto em Seguro estão a ajudar a reconstruir a legitimidade política do PS. É o que José Luís Carneiro está a fazer à boleia da candidatura de Seguro; e o candidato vai ajudar o líder socialista. Os signatários estão assim a contribuir para o renascimento do PS, o que me espanta porque se definem como “não-socialistas.” Também me surpreende que aqueles que conheço, e que sei bem o que me dizem do PS, dos governos socialistas que Seguro apoiou e até do próprio candidato (quando era líder do PS), assinem este manifesto. Mas ninguém está livre de cometer erros.

Este manifesto também é contra a unidade das direitas no futuro. Vamos ser realistas. O Chega e Ventura vieram para ficar e mais tarde ou mais cedo as direitas terão que lidar com ele. Há uma questão interessante quando se lê o texto do manifesto: que tipo de governo maioritário os signatários defendem? Uma maioria absoluta da AD; eu também gostava muito, mas não analiso a política com base em sonhos. Uma maioria absoluta da AD com a IL. Também gostava, mas acho muito improvável. Implicitamente, também viveriam bem com uma nova geringonça. Já viveram sem sobressaltos democráticos e apoiam o candidato apoiado pelo PCP e pelo Bloco. Essa maioria, não quero nunca mais.

Aliás, a AD na prática já beneficia da dimensão eleitoral do Chega. É isso que impede uma nova maioria parlamentar das esquerdas. No dia em que as esquerdas voltassem a ter maioria parlamentar, voltará a haver uma nova geringonça, seja quem for o líder do PS e mesmo que Seguro esteja em Belém. Algum dos signatários acha que o Presidente Seguro impediria uma coligação entre o PS a as extremas esquerdas, quando conta com os apoios dos comunistas e dos bloquistas?

Entendo perfeitamente que nenhum destes signatários seja capaz de votar em André Ventura. Há muita coisa em Ventura que me causam muito desconforto, desde as generalizações injustas até à demagogia, passando pela sua visão da economia, como mostram as suas posições sobre a privatização da TAP e o acordo comercial entre a UE e o Mercosul. Discordo da visão presidencialista de Ventura. Mas é muito diferente não ser capaz de votar em Ventura ou apelar ao voto em Seguro. Estão a apoiar um socialista que nunca se distanciou dos piores erros feitos pelos governos do seu partido, pelo contrário apoiou activamente Sócrates. Estão a apoiar um socialista que fez ataques absolutamente injustos e falsos ao governo de Passos Coelho quando liderava o PS. Estão a contribuir para a legitimidade eleitoral do PS, quando os socialistas não o merecem. Um partido que nos últimos 30 anos, esteve 22 no governo, e que tanto mal fez a Portugal.

O Chega apareceu, em grande medida, por causa de todo o mal que os governos socialistas fizeram a Portugal. Os eleitores do Chega e de Ventura são aqueles que mais perderam com os governos socialistas. Não acho nada estranho que não se goste do resultado do socialismo. Eu também não gosto. Mas, por isso mesmo, acho muito estranho que se apoie um socialista. E Seguro nem sequer precisava destes apoios para ganhar as eleições no dia 8 de Fevereiro. O manifesto foi um erro inútil.

https://observador.pt/opiniao/ha-sempre-uma-direita-pronta-para-ajudar-o-ps/

José Manuel Fernandes - Quanto mais chamarem fascista a Ventura, mais ele agradece

José Manuel Fernandes 

Se continuam a dizer que é preciso votar Seguro para salvar a democracia não só não ajudam a sua campanha como degradam o prestígio da democracia, pois não há nada de antidemocrático em votar Ventura.

26 jan. 2026

Há inúmeras boas razões para não se votar em André Ventura na segunda volta destas eleições presidenciais – razões que em muitos casos partilho –, mas defender que é preciso fazê-lo para salvar a democracia é um insulto à inteligência e a repetição de uma estratégia que já deu muito maus resultados noutros países – precisamente o tipo de resultados que estes “gladiadores antifascistas” dizem querer evitar.

Devo dizer que logo na noite da primeira volta, ao ouvir o discurso de António José Seguro, receei que na sua campanha se fosse por aí pois ouvi-o afirmar, se bem que de passagem, que na segunda volta estaria em causa a democracia. A verdade é que, nas poucas vezes que falou ao longo desta última semana, me pareceu sempre mais moderado. O mesmo não pode ser dito de muitas outras intervenções nestes últimos dias, nalguns casos protagonizadas por pessoas com um trajecto de moderação.

Tomo dois exemplos, por os considerar significativos. O primeiro é a capa da revista Visão, que graficamente parece fazer um paralelo entre a segunda volta das eleições de 1986 mas depois acrescenta, sob o título “Democracia em jogo”, que, ao contrário do que sucedeu há 40 anos, “agora o que está em causa é o futuro do regime democrático”. O segundo é o podcast do Observador com Sérgio Sousa Pinto, Realpolitik, onde no mais recente episódio o antigo deputado sugere que quem for votar em Ventura sem perceber que a democracia está em jogo é porque é “atrasado mental”. Pelo que percebi esta passagem tornou-se viral nas redes sociais, ainda julguei que correspondia a um lapso passageiro, mas ao ouvir todo o episódio percebe-se que a convicção de Sérgio Sousa Pinto é que o que está em causa é mesmo a democracia, fazendo até comparações com o que se passou na Europa na década de 1930.

Esta retórica é factualmente errada e politicamente perigosa. No limite é ela que é antidemocrática por só admitir pensamentos e propostas políticas conformes ao socialmente estabelecido. Mas vamos por partes.

Esta eleição é assim tão diferente da de 1986? É, até porque os tempos são outros. A política vivia-se com muito maior intensidade há 40 anos, a clivagem esquerda-direita estava muito mais marcada na cabeça dos eleitores e os dois candidatos eram aquilo que podemos classificar como “figuras respeitáveis”, ambos vindos da elite lisboeta, ambos tendo passado por governos, numa ocasião tendo até estado juntos numa coligação governativa.

Dito isto, a verdade é que mesmo assim boa parte dos argumentos usados contra Freitas do Amaral, o candidato da direita, eram também “anti-fascistas”. Era considerado “irrecusável que o maior perigo no actual momento decorre da dinâmica ultra-reaccionária, fascizante e agressiva da candidatura de Freitas do Amaral” (Resolução Política do XI Congresso do PCP). Comparativamente os termos do apelo ao voto em Seguro pelo actual PCP até é feito em modos menos dramáticos.

Mais: eu acompanhei como jornalista essa campanha eleitoral (fui destacado para fazer a cobertura da candidatura de Freitas do Amaral do princípio ao fim) e por isso tenho memória de como o debate, vivíssimo na altura, era mesmo sobre se a sua vitória representaria ou não um regresso ao passado. O próprio Mário Soares, no famoso debate na segunda volta, insistiu por mais de uma vez na tecla de que Freitas “se tinha convertido tarde à democracia” e acusou-o várias vezes de radicalismo.

Em resumo: a campanha de 1986 foi muito diferente da que estamos a viver, mas infelizmente nessa altura como agora repetem-se argumentos e ressuscitam-se os fantasmas do “fascismo” e do “regresso ao passado”. Há hábitos que nunca mudam.

Desta retórica também faz sempre parte a ideia de que só a vitória de Seguro garante a defesa da Constituição e dos seus valores. Mais uma vez é uma retórica com vários problemas, a começar pelo se assumir que a nossa Constituição está escrita na pedra e nunca pode ser revista ou modificada. Não estou de acordo, como não estiveram de acordo as maiorias parlamentares de 1982 e 1989 que reviram substancialmente o texto constitucional apesar de também então haver quem garantisse que isso seria o fim do mundo, ou pelo menos o fim da democracia. Não foi, foi até o que permitiu tornarmo-nos numa democracia plena e não tutelada ou limitada.

Todos os partidos têm o direito de propor, no tempo certo, alterações à Constituição e a verdade é que o partido de André Ventura até já o fez em 2022. Será que essas propostas corresponderiam ao fim do regime constitucional? Sinceramente não creio, mesmo discordando de muitas delas. Na altura a que levantou mais controvérsia foi a criação da possibilidade de haver penas de prisão perpétua. Pessoalmente discordo, mas quando 25 dos actuais 27 países membros da União Europeia prevêem a possibilidade da prisão perpétua será que posso considerar que esse é um sinal do “fim dos direitos, liberdades e garantias” assegurados pelo actual texto constitucional?

Parece-me óbvio que não e também me parece óbvia outra coisa: há temas que hoje estão na discussão pública – nomeadamente os relativos à imigração e à nacionalidade – que até há bem pouco tempo eram considerados temas tabu. Quem quisesse debatê-los tinha logo de enfrentar uma chuva de insultos e de acusações. Era assim porque se queria impor uma determinada ortodoxia e calar, pela intimidação e pelo ostracismo social, quer discordasse. Formalmente não existia nem existe censura prévia, na prática havia e há um clima censório que poucos se atreviam e ainda atrevem a desafiar.

Mas há ou não há um risco para a democracia? É ou não verdade que a direita populista cria regimes autoritários, pelo que é melhor não correr qualquer risco e manter a política de “linhas vermelhas”?

A resposta a esta pergunta exige que olhemos para o que se tem passado noutros países europeus, sobretudo para aqueles onde partidos parecidos com o Chega já foram ou são governo. E a resposta é que apenas na Hungria nos deparamos com uma situação em que existe uma clara deriva autoritária e uma real eternização no poder, acontecendo porém que na Hungria tudo começou quando o partido de Viktor Orban ainda integrava a mesma família política europeia do nosso PSD, o PPE (Orban chegou pela segunda vez ao governo em 2010 e o seu Fidesz só saiu do PPE em 2021).

Temos depois situações onde partidos parecidos com o Chega já estiveram várias vezes em governos – a Áustria, a Finlândia, a Holanda, a Suécia, por exemplo –, tendo entrado e saído sem que a democracia acabasse. Na Polónia lideraram o governo durante muitos anos, governaram mal e por isso estão hoje na oposição, mesmo tendo eleito o Presidente da República. E quanto aos prognósticos de que a Itália regressaria ao fascismo quando Giorgia Meloni chegasse a primeira-ministra, estes revelaram-se não só errados como mistificadoras.

Por outras palavras: por mais que seja tentador fazer comparações com a Europa dos anos 30 do século passado, nem a Europa de hoje tem qualquer semelhança com a Europa desses anos negros, nem a maioria dos nossos actuais partidos populistas tem matrizes ideológicas sequer vagamente comparáveis (a não ser nalgumas franjas limite).

Vamos por isso ver se nos entendemos: esta segunda volta pode ser para escolher entre civilidade e alarvidade, entre europeísmo e nativismo, entre continuidade e ruptura, entre estatismo de esquerda e estatismo de direita, entre boa educação e má educação, entre serenidade e excitação, entre cordialidade e demagogia, entre institucionalismo e subversão das normas, pode ser sobre estes temas e muitos mais mas não é nem deve ser apresentada como uma escolha entre democracia e regresso ao autoritarismo. Até por ser um discurso perigoso para a própria saúde da democracia pois, para sectores importantes do eleitorado, sobretudo do eleitorado mais jovem e que já nasceu muitos anos depois do 25 de Abril, acaba-se a associar democracia a um estado do país que os deixa profundamente descontentes e insatisfeitos.

Infelizmente este risco existe – basta olhar para os estudos de opinião que revelam a degradação da ideia democrática entre as gerações mais novas. Essas gerações exigem mudanças porque são quem está, em termos relativos, a perder nas sociedades mais desenvolvidas. Em Portugal, por enquanto, ainda preferem candidatos mais institucionais, mas que propõem mudanças (o candidato mais votado pelos jovens foi Cotrim Figueiredo), mas se lhes disser que tudo é intocável a começar pela Constituição e a continuar nos políticos de sempre, um dia destes temos uma surpresa.

Ou melhor, já tivemos essa surpresa: André Ventura está na segunda volta.

https://observador.pt/opiniao/quanto-mais-chamarem-fascista-a-ventura-mais-ele-agradece/