Opinião
* Luís Pedro Nunes
A “gripe masculina”, enquanto momento horrível e quase fatal da existência
de um homem, tem sido alvo de chacota. Sim, há diferenças entre sexos. Só que...
Uma das “descobertas” do ano passado foi de que os rapazes estavam a ser vítimas de uma crise identitária e radicalizados online. A série britânica “Adolescence” serviu para criar uma narrativa que finalmente convenceu uma parte da população que estava cética quanto a uma modificação comportamental dos miúdos, mesmo quando os dados mostravam que os jovens do sexo masculino estavam a votar cada vez mais na extrema-direita, ao contrário das raparigas. Seguiram-se uns bons dois ou três meses de pânico social, com textos e peças televisivas de tom alarmista, e a coisa ficou por aí. A verdade é que pouco foi feito. Mas há dados que são impossíveis de ignorar. Há uma radicalização digital que leva a uma polarização online e que por vezes tem como consequência a violência real. E isto é verdade nos EUA, mas também na Europa e em Portugal.
Terminado o primeiro quarto do século XXI, corre livre, por entre os jovens rapazes, o ideal do homem misógino, que deve “sustentar a mulher”, que deve casar com uma mulher “com pouca rodagem”. Quanto a mim, que sou GenX, que me formei como ser humano nos anos 80/90 do século passado, este já nem era o discurso do meu pai. Era eventualmente dos meus avós, e vê-lo ressuscitado tecnologicamente não deixa de ser chocante, porque soa pura e simplesmente a absurdo, tanto mais que tentam sustentá-lo em terminologia de pseudociência da biologia evolutiva. Já os bilionários de Silicon Valley investiram milhões em antiaging e estão todos com um caparro descomunal. Mas sim: tendo um Trump como figura dominante do discurso político, tivemos um ano da “masculinidade alfa mal resolvida”.
A “gripe masculina” só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente
A meio do ano, uma notícia provocou um pequeno abalo nas fundações disto tudo — se apreciarmos ironia. E a notícia foi de que a “man flu”, a tão gozada “gripe masculina”, afinal talvez tivesse algumas bases científicas: talvez os homens sofressem de forma diferente; talvez houvesse de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres a provocar reações diversas relativamente à gripe.
2026 01 07
Aqui, há que introduzir um pouco de contexto. A “gripe masculina” — enquanto momento atroz de sofrimento dos homens — só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente por todo o mundo ocidental: a ideia de que os homens dramatizam e as mulheres aguentam, e que eles até usam essa fraqueza como troféu no palco doméstico, em que se apresentam como mártires do vírus enquanto obrigam as mulheres a continuar nas lides e a servir-lhes o chazinho. Uma misandria recreativa. Durante anos, foi alimento de sketches humorísticos e memes: uma encenação, ou uma estratégia de o homem conseguir ser atendido e servido em casa pela mulher apenas por causa de uma mera gripe. Há memes clássicos: a mulher grávida de 9 meses a cuidar dos outros filhos e do marido com gripe; o “kit de sobrevivência da gripe masculina”, que é mesmo vendido online, constituído por um termómetro, lenços, vitamina C e um sino para chamar a mulher; e uma panóplia de textos em que cronistas descrevem os estados de quase morte dos maridos durante uma gripe. A “man flu”, a gripe masculina, é um objeto cultural com inúmeras referências em séries e filmes. É algo que existe na cultura ocidental e é relativamente recente. Não há relatos de gripes “mais fortes” nos homens na Ásia ou em África, pelo que se concluiu que era uma “construção cultural”. Treta. Manha.
A tragédia incompreendida do homem engripado
Hiraman/Getty Images
Mas há pouco tempo, estudos apontaram exatamente para dar razão à existência da “gripe masculina”: as mulheres libertam mais corticosterona e suprimem melhor os sintomas de infeção; mulheres com menstruação têm melhor resposta imunitária; há uma diferença entre “dor e sofrimento”; os homens esperam mais tempo para ir buscar ajuda médica e desenvolvem mais infeções secundárias. Diferentes estudos têm vindo a dizer que há de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres e que tal interfere na reação à gripe. Os homens têm uma imunidade mais fraca; as mulheres tendem a detetar mais rápido os invasores e a produzir anticorpos. A hipótese evolutiva sugerida é que haveria aqui um trade-off em que as mulheres “ganhavam” para favorecer a proteção e o cuidado da descendência.
Mas calma: isto não prova a existência da “man flu”. Pelo contrário: ao ter um sistema imunitário mais forte, tal pode gerar uma resposta também mais forte em infeção respiratória ligeira e as mulheres podem sentir-se pior. Ou seja: o facto de os homens terem sistemas imunitários mais fracos até pode fazer com que tenham sintomas menos fortes do que as mulheres. Tudo aponta afinal para que a horrível, pavorosa, mortífera “gripe masculina” seja mesmo treta. Uma narrativa de sofrimento que exige sopinha na cama, uma coreografia doméstica em volta de um supervírus imaginário que escolhe por sexo. Uma doença que quer validação por serviço de quartos. Ou de sofá.
No ano em que os homens, alguns homens, decidiram que era a altura de dar um murro na mesa e exigir de volta a sua masculinidade expurgada — via comunicados drásticos online e ameaças no TikTok —, quase que ficou a saber-se que tinham razão e que a gripe, quando os atacava, era muito mais perniciosa. Mas não. Afinal, é o mesmo, apenas o de sempre. Por detrás de um machão bad boy, está um menino que quer uma mãezinha para lhe levar a sopinha quando tem dói-dói na garganta. O triste é ser tudo tão antigo. A “man flu”. A misoginia. Querer as mulheres de volta para casa. E cá estamos em 2026. Para onde retrocederemos?
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