A tipomania
está viva e recomenda-se ★ ★ ★ ★ ★
ª Vasco Rosa, Texto
"Uma Ode à Tipografia" é o título de um livro que, assim mesmo, desde a capa, explica ao que vem: uma coleção de trabalhos que servem também de homenagem a uma arte feita de estética e técnica.
31 jan. 2026
"Uma Ode à
Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da
atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade
do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e
imprimir
"Uma Ode à
Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da
atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade
do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e
imprimir
A velhinha
tipografia de tipos móveis — arrumada nos pesados gavetões do antigamente,
letras de madeira e chumbo, máquinas cromadas dum mundo de quase fantasia e
dedos sujos de tinta negra — tem sido reavivada por coletivos de artistas,
dando vivaz nota contemporânea ao que parecia condenado ao esquecimento e ao
museu. Em décadas, a exponencial capacidade digital concentrou nos ecrãs — com
espantosas, já indispensáveis facilidades de acerto e retificação final, e para
mais à distância, com o conforto inerente — o que por séculos se fez por
aproximações e experimentações em oficinas portuguesas com escasso e pobre
reportório de tipos, quase sempre já deformados pelo uso, não permitindo
a editoras ou museus produzir obras limpas que hoje dê gosto folhear de novo. O
parque tipográfico em Portugal, constituído por pequenas empresas “para todo o
serviço”, modesto como o estatuto industrial do país — raríssimas dispunham do
excelente sistema Monotype —, nada teve que o distinguisse ao longo do século
passado e assim foi desaparecendo, natural e irremediavelmente, sem estrondo
que se ouvisse, com os seus proprietários.
Pouco ou quase nada já resta para desempenhos laboratoriais e experimentais associados a cursos politécnicos das artes visuais, pelo que as “interpretações gráficas” levadas a cabo durante cinco anos por “oficinas” do Clube dos Tipos na casa Damasceno, de Coimbra (2014-19) — que este livro agrega e divulga — são tão inesperadas quanto representativas da crescente curiosidade estética e técnica pela composição e impressão tal como faziam avós e bisavós. Porém, é quase só nostalgia, uma pérola de nostalgia diante de um mundo tecnológico que mudou as artes gráficas para infinitamente melhor. O apreço por este trabalho manual tem — do meu ponto de vista — propósito e alcance idênticos ao que mobiliza quem hoje descobre a arte e o prazer da marcenaria, da cestaria, da olaria ou da jardinagem, entre outros ofícios antigos, porém este revivalismo tipográfico (oficinal e feito, repito, sobre bases degradadas e pobres, e por isso de efeito assaz limitado, como esta voluntariosa Ode testemunha) distraiu-se do enorme benefício que, em contraponto, seria qualificar visualmente — e bem necessitados estão! — a generalidade dos letreiros e papéis do comércio de rua e bairro, e das pequenas empresas de todo o tipo, repercutindo e reinventando de algum modo a beleza tipográfica das urbes dos primórdios de 1900.
Título: “Uma
Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda”
Textos: Joana Monteiro, Isabel Campante e Frederico Füllgraf
Editora: Editora dos Tipos
Páginas: 176
Para que assim
fosse, ou pudesse ser, falta-nos quase tudo, a começar por uma literatura da
especialidade, largamente divulgada e lida, como a revista
norte-americana Eye (que julgo só acessível à leitura pública
na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian). Não consta que o
magnífico Imprimere. Arte e processo nos 250 anos da Imprensa Nacional,
de Rúben Dias e Sofia Meira (2018), seja muito conhecido, enquanto Três
Movimentos da Letra: o desenho da escrita em Portugal, de Jorge dos Reis,
uma obra de referência editada pela Biblioteca Nacional em 2012, e Hands—on
Type. Learning from Letterpress Heritage (organizado pela dupla Dias e
Meira, Esad—ideia, Matosinhos, 2022, 220 pp.) estão esgotados e não se vê que
voltem a imprimir-se. O mesmo para edições da Oficina do Cego (Associação de
Artes Gráficas), em Lisboa, como Pequeno Manual do Compositor, de
João Sebastian, cujos 50 exemplares tirados foram certamente poucos. João
Bicker, que na Almedina dinamizou alguma bibliografia sobre tipos e tipógrafos,
no que foi um verdadeiro pioneiro, não prosseguiu essa campanha solitária mas
fundamental de criar uma cultura do ofício.
Uma Ode à
Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda surge claramente neste
contexto, como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de
Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por
velhos métodos de compor e imprimir: “artistas, ilustradores, designers,
arquitetos, estudantes, professores, papeleiros, tipógrafos, editores” (p.
153), uma “comunidade” erguida naquele “ponto de encontro entre tradição e
experimentação”, e como tal elogiada (“tão valiosa e rara nos tempos
modernos”). Um longo, belo poema do chileno Pablo Neruda, de elogio da
tipografia — à letra: a escrita em tipo —, impresso em 1956 com intervenção
estética do autor, serviu de gatilho ou mote para os exercícios oficinais, e a
escolha é justificada, como se comprova quer no original e tradução do poema,
quer no texto do tradutor Frederico Füllgraf, germano-brasileiro de Curitiba,
que nos esclarece sobre “o convívio de Neruda com o tipógrafo, ilustrador,
artista gráfico e designer de origem judaico romena Maurício Amster Cats
[1907-80], tido como o melhor designer de livros do Chile entre as décadas de
1940 e 1970” (p. 161), e — máxima excentricidade — com João Nascimento e seu
sobrinho Carlos-George Nascimento, açorianos da ilha do Corvo transplantados
para Santiago em 1866 e 1905, respetivamente, uma relação celebrada em 2017 na
British Library, pelo centenário da histórica Editorial Nascimento.
Neruda
refere-se a “metálicos martelos do idioma”, à tipografia como “o florido jogo
da razão, o movimento do cerzir da inteligência”, ao “linotipista sua lâmpada
como um piloto sobre as ondas da linguagem”, ao “húmus secreto dos séculos”, e
a sua Ode está recheada de outras evocações, como “pureza de
teus puros perfis”, “iniciais frescas do orvalho” ou “a letra escarlate do
estio”. Para a política e a sensualidade do nobel autor, as gavetas da
Damasceno e a criatividade dos coletivos do Clube dos Tipos deram certamente
tudo o que tinham, porém fica-se com a impressão de que mais longe se teria ido
caso os recursos oficinais fossem mais variados e de melhor qualidade.
Proclamar que o importante é o processo e não o resultado convencerá decerto alguns,
porém não todos.
A primeira apresentação pública de “Uma Ode à Tipografia”
terá lugar no sábado, dia 31 de janeiro, às 17h, no Círculo de Artes Plásticas
de Coimbra – Círculo Sereia, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra. Entrada
livre.


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