sábado, 31 de janeiro de 2026

Vasco Rosa - "Uma Ode à Tipografia"


A tipomania está viva e recomenda-se     

ª Vasco Rosa, Texto

"Uma Ode à Tipografia" é o título de um livro que, assim mesmo, desde a capa, explica ao que vem: uma coleção de trabalhos que servem também de homenagem a uma arte feita de estética e técnica.

 

31 jan. 2026


"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

"Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda" surge como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir

A velhinha tipografia de tipos móveis — arrumada nos pesados gavetões do antigamente, letras de madeira e chumbo, máquinas cromadas dum mundo de quase fantasia e dedos sujos de tinta negra — tem sido reavivada por coletivos de artistas, dando vivaz nota contemporânea ao que parecia condenado ao esquecimento e ao museu. Em décadas, a exponencial capacidade digital concentrou nos ecrãs — com espantosas, já indispensáveis facilidades de acerto e retificação final, e para mais à distância, com o conforto inerente — o que por séculos se fez por aproximações e experimentações em oficinas portuguesas com escasso e pobre reportório de tipos, quase  sempre já deformados pelo uso, não permitindo a editoras ou museus produzir obras limpas que hoje dê gosto folhear de novo. O parque tipográfico em Portugal, constituído por pequenas empresas “para todo o serviço”, modesto como o estatuto industrial do país — raríssimas dispunham do excelente sistema Monotype —, nada teve que o distinguisse ao longo do século passado e assim foi desaparecendo, natural e irremediavelmente, sem estrondo que se ouvisse, com os seus proprietários.

Pouco ou quase nada já resta para desempenhos laboratoriais e experimentais associados a cursos politécnicos das artes visuais, pelo que as “interpretações gráficas” levadas a cabo durante cinco anos por “oficinas” do Clube dos Tipos na casa Damasceno, de Coimbra (2014-19) — que este livro agrega e divulga — são tão inesperadas quanto representativas da crescente curiosidade estética e técnica pela composição e impressão tal como faziam avós e bisavós. Porém, é quase só nostalgia, uma pérola de nostalgia diante de um mundo tecnológico que mudou as artes gráficas para infinitamente melhor. O apreço por este trabalho manual tem — do meu ponto de vista — propósito e alcance idênticos ao que mobiliza quem hoje descobre a arte e o prazer da marcenaria, da cestaria, da olaria ou da jardinagem, entre outros ofícios antigos, porém este revivalismo tipográfico (oficinal e feito, repito, sobre bases degradadas e pobres, e por isso de efeito assaz limitado, como esta voluntariosa Ode testemunha) distraiu-se do enorme benefício que, em contraponto, seria qualificar visualmente — e bem necessitados estão! — a generalidade dos letreiros e papéis do comércio de rua e bairro, e das pequenas empresas de todo o tipo, repercutindo e reinventando de algum modo a beleza tipográfica das urbes dos primórdios de 1900.


Título: “Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda”
Textos: Joana Monteiro, Isabel Campante e Frederico Füllgraf 

Editora: Editora dos Tipos 
Páginas: 176 

Para que assim fosse, ou pudesse ser, falta-nos quase tudo, a começar por uma literatura da especialidade, largamente divulgada e lida, como a revista norte-americana Eye (que julgo só acessível à leitura pública na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian). Não consta que o magnífico Imprimere. Arte e processo nos 250 anos da Imprensa Nacional, de Rúben Dias e Sofia Meira (2018), seja muito conhecido, enquanto Três Movimentos da Letra: o desenho da escrita em Portugal, de Jorge dos Reis, uma obra de referência editada pela Biblioteca Nacional em 2012, e Hands—on Type. Learning from Letterpress Heritage (organizado pela dupla Dias e Meira, Esad—ideia, Matosinhos, 2022, 220 pp.) estão esgotados e não se vê que voltem a imprimir-se. O mesmo para edições da Oficina do Cego (Associação de Artes Gráficas), em Lisboa, como Pequeno Manual do Compositor, de João Sebastian, cujos 50 exemplares tirados foram certamente poucos. João Bicker, que na Almedina dinamizou alguma bibliografia sobre tipos e tipógrafos, no que foi um verdadeiro pioneiro, não prosseguiu essa campanha solitária mas fundamental de criar uma cultura do ofício.

Uma Ode à Tipografia. A partir do poema de Pablo Neruda surge claramente neste contexto, como demonstração da atividade desenvolvida numa antiga tipografia de Coimbra e da disponibilidade do seu proprietário para acolher curiosos por velhos métodos de compor e imprimir: “artistas, ilustradores, designers, arquitetos, estudantes, professores, papeleiros, tipógrafos, editores” (p. 153), uma “comunidade” erguida naquele “ponto de encontro entre tradição e experimentação”, e como tal elogiada (“tão valiosa e rara nos tempos modernos”). Um longo, belo poema do chileno Pablo Neruda, de elogio da tipografia — à letra: a escrita em tipo —, impresso em 1956 com intervenção estética do autor, serviu de gatilho ou mote para os exercícios oficinais, e a escolha é justificada, como se comprova quer no original e tradução do poema, quer no texto do tradutor Frederico Füllgraf, germano-brasileiro de Curitiba, que nos esclarece sobre “o convívio de Neruda com o tipógrafo, ilustrador, artista gráfico e designer de origem judaico romena Maurício Amster Cats [1907-80], tido como o melhor designer de livros do Chile entre as décadas de 1940 e 1970” (p. 161), e — máxima excentricidade — com João Nascimento e seu sobrinho Carlos-George Nascimento, açorianos da ilha do Corvo transplantados para Santiago em 1866 e 1905, respetivamente, uma relação celebrada em 2017 na British Library, pelo centenário da histórica Editorial Nascimento.

Neruda refere-se a “metálicos martelos do idioma”, à tipografia como “o florido jogo da razão, o movimento do cerzir da inteligência”, ao “linotipista sua lâmpada como um piloto sobre as ondas da linguagem”, ao “húmus secreto dos séculos”, e a sua Ode está recheada de outras evocações, como “pureza de teus puros perfis”, “iniciais frescas do orvalho” ou “a letra escarlate do estio”. Para a política e a sensualidade do nobel autor, as gavetas da Damasceno e a criatividade dos coletivos do Clube dos Tipos deram certamente tudo o que tinham, porém fica-se com a impressão de que mais longe se teria ido caso os recursos oficinais fossem mais variados e de melhor qualidade. Proclamar que o importante é o processo e não o resultado convencerá decerto alguns, porém não todos.

A primeira apresentação pública de “Uma Ode à Tipografia” terá lugar no sábado, dia 31 de janeiro, às 17h, no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra – Círculo Sereia, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra. Entrada livre.

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