O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
8 de Dezembro de 2022
“O problema não é só o de que a maioria de nós
luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho
incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente
dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês
A inteligência da desigualdade
É o furor da semana no domínio
dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que
consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das
sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços
demonstrados pelo ChatGPT
deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por
máquinas num futuro não muito distante.
O entusiasmo infantil com que
olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do
divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências
do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais
à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados
com a mortalidade.
Tem mais que ver com o impacto da
máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos
Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão
autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas
por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São
despedidos? Reciclados? Rejeitados?
Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S.
Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um
todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas
também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos
valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais
especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da
desigualdade nos países mais desenvolvidos.
O Peru aboliu a escravatura há
168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda
existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y
Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru
anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.
Esta informalidade económica, em
que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo
pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o
conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de
quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano
com a cumplicidade do Estado.
Mais de 3,4 milhões de
trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados,
mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa
as vítimas por não denunciarem os crimes.
Mesmo que o próprio ministro do
Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um
encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss
Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho
forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram
peso às palavras.
“Aqui temos um assunto de dignidade do ser
humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de
fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro,
que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo,
de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua
manutenção.
Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário
El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100
metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de
nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com
o ouro que eventualmente encontrarem.
Oito horas
Quase 140 anos passados desde que
o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há
maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução
tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais
horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria
ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.
As 35 horas semanais em França
ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos
para a semana das 32
horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.
Quando as oito horas laborais,
oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta,
defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços
com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos
que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho”
americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa
da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do
trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.
Como refere
Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com
segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir
trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu
horrivelmente mal”.
E a pandemia, que acentuou o
teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o
trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a
(auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da
sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou
ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e
mental.
Amanhã, tenho 15 minutos para
ti
As aplicações para gerir a nossa
vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil
milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à
frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser
humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia
para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E
mesmo assim queda curto.
“A gestão do tempo não é a solução, na verdade
é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy:
How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua
inglesa.
ocupação dos minutos, não visa
ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva,
fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas
para arranjar tempo para encaixar outras.
E o mais incrível é que, se
calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na
mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de
trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos,
o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível
burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são
tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.
A auto-ajuda, o empreendedorismo,
“o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando
transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal
do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex
machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos
para ti.
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