* Daniel Oliveira
Os conservadores dizem-se obrigados a transmitir, preservado, o que herdaram: a paisagem, a língua, a casa, a fé, as instituições, um modo de vida. Mas aliaram-se a quem calcula sobreviver melhor do que os outros à liquidação da própria ideia de ser humano
03 setembro 2026
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Deixando de lado a probabilidade de o conservadorismo não passar da defesa de uma hierarquia ameaçada por movimentos de emancipação vindos de baixo, sempre disposto a mudar tudo para que tudo fique na mesma, aceitemos o que os conservadores dizem sobre si mesmos. Que se sentem obrigados a transmitir, preservado, o que herdaram. A paisagem, a língua, a casa, a fé, as instituições, um modo de vida. “Move fast and break things” é a promessa contrária. E foi a esse campo que se juntaram. Assistimos à vitória de libertários que consomem as condições da sua própria existência e chamam a isso futuro. É o estertor do neoliberalismo, não a fundação de coisa alguma. E os conservadores, ou pelo menos a forma como pensam em si mesmos, estão tão derrotados como os progressistas.
Conservar tem um sentido literal antes de ter um sentido político: a terra, o rio, o lugar onde se nasceu e que se entrega aos filhos como se recebeu. Nenhum problema era tão deles como o clima: um dever para com quem ainda não nasceu, prudência diante do irreversível, desconfiança da promessa técnica que tudo resolve. A industrialização, com tudo o que destruiu, edificava. Um data center não faz cidade nem vizinhança, consome água e solo e nada deixa atrás, como os fundos que compram a terra e não a habitam. Mas o clima chegou pela mão que acham errada e recusaram-no com o mensageiro. Juntaram-se a quem despreza o cuidado.
É verdade que a chegada rápida de muitos imigrantes mexe com a vizinhança, a língua e o costume, e não é indecente que um conservador se preocupe com isso. Mas sabem, sabemos todos, que os apelos à natalidade não fecundam e as economias e as pensões do Norte não se aguentam sem quem produza e cuide. Sabendo-o, aliaram-se a quem tem a pior resposta: receber gente descartável e temporária que trabalha sem pertencer. No lugar de uma nação, um mercado de trabalho. Quem teme pela comunidade acaba a defender um modelo que a inviabiliza.
Também a revolta dos rapazes tem uma causa real. Herdaram um mundo que os pais e os avós tinham quase em exclusivo e tiveram de aprender a partilhá-lo com as mulheres. Mas não foi a antiga misoginia, opressiva, mas paternalista, que supunha a obrigação de proteger e sustentar, que se impôs. Esta, determinada pelo algoritmo, afasta-os das mulheres. Não são rapazes a caminho da família patriarcal, são rapazes formados por plataformas que descobriram que a zanga e a solidão são lucrativas. Solidão induzida e doentia que sabota a própria continuação da família.
Um conservador valoriza, antes de tudo, as instituições. Um corpo que dura mais do que quem o ocupa, com regras, carreiras e tempo próprio, que resiste ao capricho do homem. Foi para isso que se fizeram tribunais, academias, bancos centrais, corpos diplomáticos. Como pode aplaudir o insulto de juízes pelo nome, ministérios cortados à motosserra, governação por publicações escritas de madrugada nas redes, desprezo pela experiência? O poder pessoal sem mediação sempre foi inimigo do conservadorismo. E um Estado esvaziado dos seus corpos não é soberano. Quem tem a infraestrutura tem o país, e ela pertence hoje a um punhado de empresas americanas que nenhum Estado pode substituir nem obrigar a nada.
Ao contrário do que uns e outros pensam, isto já não é uma guerra entre conservadores e progressistas. Divergem em quase tudo, mas são duas formas de tratar a mesma herança, discutindo o que dela se guarda e o que dela se corrige. Quem venceu não quer nenhuma das duas coisas. Não tem projeto de civilização, tem plano de fuga: dinheiro, terra, abrigos, passaportes e a promessa de escapar em vez de habitar. Uma elite que planeia a saída já desistiu do lugar. As anteriores, mesmo as piores, tinham a riqueza presa ao território e precisavam que ele funcionasse. A fábrica não se mudava, a terra não se levava, e por interesse próprio faziam estradas, escolas, hospitais. Esta não precisa de lugar, precisa que não a incomodem, porque o dinheiro é móvel e a residência escolhe-se. Os mais megalómanos até acreditam que as mais fabulosas fortunas da história lhes permitirão fugir do planeta ou da lei da vida. Não é um mundo novo a nascer, é uma implosão, feita por quem promete substituir o trabalho, a conversa e a companhia por máquinas e calcula sobreviver melhor do que os outros à liquidação da própria ideia de ser humano. Uma civilização não acaba apenas por falta de recursos. Acaba quando ninguém a quer preservar e transmitir. Perdem os progressistas, que a queriam corrigir. Perdem os conservadores, que julgaram defendê-la e, por ódio aos velhos inimigos, ajudaram a vendê-la.