domingo, 16 de agosto de 2026

(79) - A raposa através das efabulações



Caixa EDP , em Setúbal - As galinhas não comem raposas (Foto  victor nogueira IMG_2770)
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* Victor Nogueira  / Gemini

A frase "Galinhas não comem raposas" joga de forma irónica com a ordem natural e moral das fábulas clássicas (Esopo e Jean de La Fontaine). Nas fábulas — como A Raposa e as Uvas ou as histórias do galinheiro —, a raposa é sempre o predador perspicaz e a galinha/galo a presa (ou a vítima que tenta ser mais esperta, como no Galo e a Raposa). A frase na caixa da EDP lembra, com humor sarcástico, que por mais que as presas tentem ou se iludam, a hierarquia da natureza não se inverte.

A Noutra perspectiva, raposa é também o personagem central em "O Romance da Raposa", de Aquilino Ribeiro: A personagem da raposa Salpico (ou Salgada) de Aquilino Ribeiro é o arquétipo perfeito para esta ilustração. O olhar meio sorrateiro e calmo da raposa desenhada reflete a astúcia e a amoralidade simpática da personagem de Aquilino: uma raposa que conhece as regras do jogo urbano e rural, sabendo exatamente quem manda e quem é comido.

Não existe uma única fábula clássica intitulada universalmente "A Raposa no Galinheiro", mas sim várias variações de Esopo e La Fontaine em que a raposa tenta enganar as aves de capoeira através da falsidade (como no conto A Raposa e o Galo).

1. Fábula de Esopo / La Fontaine: "O Galo e a Raposa"

Uma raposa velhaca aproximou-se de um galinheiro e, vendo um galo empoleirado num ramo alto, disse-lhe com voz melíflua:

— Meu querido amigo, venho trazer-te a maior das notícias! Foi assinada uma paz universal entre todos os animais. Já não há caçadores nem presas, cães e lobos abraçam-se, e nós, as raposas, jurámos nunca mais tocar numa ave. Desce daí para celebrarmos este dia glorioso com um abraço irmão!

O galo, que conhecia bem a manha do bicho, esticou o pescoço e olhou para o horizonte, fingindo ver algo ao longe.

— Que olhas tu com tanta atenção?, perguntou a raposa, intrigada.

— Oh, nada... Apenas vejo uma matilha de cães de caça a correr a toda a velocidade para este lado. Devem vir trazer a mesma notícia da paz!

Ao ouvir falar em cães, a raposa deu um salto e pôs-se em fuga a toda a pressa.

— Espera!, gritou o galo. Não dizes que agora há paz entre todos?

— Sim!, respondeu a raposa sem parar de correr. Mas temo que esses cães ainda não tenham lido o decreto!

Moral: É uma dupla vitória enganar quem nos tenta enganar.

2. Excerto de "O Romance da Raposa" (Aquilino Ribeiro)

Neste excerto do Capítulo II, a raposa Salpico (Salgada) usa da sua astúcia habitual para enganar ovelhas e pastores, demonstrando a vivacidade do texto de Aquilino:

«A raposa é o bicho mais manhoso que Deus deitou ao mundo. Não há trampa que não invente, nem velhacaria que lhe não lembre para se encher à custa alheia.

Pois a Salgada, vendo-se com a barriga a dar ao dente e sem tutano nas canelas, pós-se a filosofar à porta da toca:

— Se eu for pela força, apanho na cabeça; se for pela astúcia, almoço frango assado e ainda me rio do cozinheiro. O mundo é dos espertos, e os parvos estão cá para nos dar de comer.

E lá foi ela, pé ante pé, encolhendo as orelhas, com olhos de virgem tonta e modos de quem não parte um prato, direitinha ao plano onde sabia que o perigo e o farto repasto andavam de braço dado

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