Mostrar mensagens com a etiqueta # Bocage e as 'letras'. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta # Bocage e as 'letras'. Mostrar todas as mensagens

domingo, 9 de agosto de 2026

(71) Soneto de Curvo Semedo a Bocage (Tu, que o nume divino e a mente erguida)

 

Setúbal, R. Dr Paula Birba - mural montra Bocage (Foto victor nogueira)  

Soneto de Curvo Semedo a Bocage

 (1766 / 1838)


Tu, que o nume divino e a mente erguida

Têm no Parnaso em posto tão supremo,

Ó Elmano, por quem choro e por quem temo,

Na tempestade d'esta incerta vida;

 

Se a sorte te persegue encarniçada,

E te faz experimentar o golpe extremo,

Ouve Jalmiro, que no amor que me mo,

Te dá a alma em amizade consagrada.

 

Que importa que a fortuna te combata,

Se as Musas te coroam de imortais

Louros que o tempo e a morte não desfazem?

 

Vive, ó Elmano, e em tuas rimas tais,

Mostra à turva multidão cega e ingrata

Como os génios do Sado a glória fazem!

(70) Nicolau Tolentino — A Bocage (Bocage, cujo engenho o mundo admira)

 

Setúbal Av, República Guiné Bissaus - Paibel de azulejos no antigo Cinema Bocage (Foto victor nogueira  IMG_9589) AUTORES: Louro de Almeida e Rogério Chora (1979)  

 Nicolau Tolentino — A Bocage

Tolentino (1740 / 1811) , mestre da sátira e do retrato de costumes do século XVIII, manteve um diálogo poético acutilante e bem-humorado com o jovem Bocage.


Bocage, cujo engenho o mundo admira,

Que em rimas fluídas, fáceis e sublimadas,

Vês as musas do Tejo encantadas

Ouvir o som da tua áurea lira;

 

Se a inveja contra ti seu dardo atira,

E as mentes vis, de raiva perturbadas,

Querem ver tuas glórias eclipsadas

Com a cega fúria com que o vulgo gira:

 

Despreza o ganido dessa matilha insana,

Que a fama, que os teus versos te assegura,

Não se apaga com sopro de áurea vã;

 

Segue o teu rumo, ó génio da pintura,

Que a glória do teu nome, sobre-humana,

Há-de vencer o tempo e a sepultura.


(69) Jorge Castro - Soneto a Bocage (Truculento e vivaz a pena empunha)


Setúbal Av, República Guiné Bissaus - Paibel de azulejos no antigo Cinema Bocage (Foto victro nogueira  IMG_9582) AUTIORES: Louro de Almeida e Rogério Chora (1979) 


Jorge Castro - Soneto a Bocage 

 (1930 / 2010)


Truculento e vivaz a pena empunha

Acutilante do nariz às estribeiras

Zurze agreste as lusas pepineiras

Ao poltrão ferrabrás come-o à unha 

 

Com mão direita o vate se desunha

Prosápias vergastando e caturreiras

Enquanto afaga cru pobres rameiras

À esquerda do afecto a que se impunha 

 

Debochado ordinário e vil até

Eis Bocage todo inteiro e contumaz

Desvairante num bordel ou num café 

 

E veremos pelos poemas que nos faz

Perversos ou amargos de outra fé

Quanta alma este Bocage nos traz! 

(68) 'A Morte de Bocage' (fado) (Na noite escura, no quarto calado)

 

Setúbal - estátua e Praça de Bocage (foto victor nogueira)

. Letra do Fado "A Morte de Bocage"

Na noite escura, no quarto calado,

Apaga-se a vela, fecha-se o olhar,

Morre o Poeta que viveu em fado,

Que fez do verso a forma de amar.


Já não há rimas de riso e sátira,

Cumpriu-se a hora do seu destino,

Chora Setúbal, chora a sua pátria,

A partida triste de Elmano Sadino.


A pena caindo da mão cansada,

O livro aberto no último verso,

A alma livre, da dor libertada,

Vai procurar o seu universo.


Passam os anos, passa a memória,

Mas na calçada de noites sem fim,

Fica Bocage gravado na história,

Cantado em fado e em tom menor assim.

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

Relativamente à letra do fado "A Morte de Bocage"  pertence à tradição oral do fado vadio e de fado de coimbra/lisboa.

No fado e na música popular portuguesa, a figura de Bocage surge frequentemente humanizada, boémia e trágica. O fado "A Morte de Bocage" (revisitado por vários fadistas e gravado em registos históricos do fado de Coimbra e de Lisboa) canta os seus últimos momentos e o contraste entre a sátira e a morte.

Na história do fado, muitas destas composições de tom descritivo e memorialista sobre figuras históricas não têm um autor individual registado nas plataformas modernas. São tidas como domínio público / fado tradicional (frequentemente cantadas na estrutura do Fado Menor ou Fado Cravo). (Gemini)

(65) Bocage - A frouxidão no amor é uma ofensa


Praça de Bocage



Foto victor nogueira (2020) Setúbal Bocage na portada duma montra na Praça de Bocage. editada pelo  Gemini
 

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso,
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.

(64) António Feliciano de Castilho - 'A Bocage' (Génio que em fogo e luz te desataste)

 

Setúbal  Travessa do Ximenes . azulejos Bocage (Foto victor nogueira IMG_8702)


. "A Bocage", de António Feliciano de Castilho

(1800 / 1875)


Génio que em fogo e luz te desataste,

Rindo e gemendo em versos d’harmonia,

Que a dor das paixões todas provaste,

E em tudo quanto tocaste puseste poesia!

Na pátria onde o talento por desgraça

Tantas vezes encontra a sepultura,

Tu passaste a sorrir, como quem passa

Por entre as sombras de uma noite escura.

Curvaste a fronte ao peso da injustiça,

Mas na memória viva te quedaste;

A boca que escarnece e que cobiça

Não calou o cantar que nos deixaste.

Dorme em paz, ó Poeta! A tua glória

Não no-la rouba o tempo nem a sorte;

Ficou teu nome impresso na História,

Triunfante da vida e também da morte

(63) Filinto Elísio: 'A Bocage' (Grato às Musas, de Elmano a mente ufana)

 

Setúbal  - Rua Francisco José Mota azulejo Bocage (Foto victor noguiea GEDC0778)

 "A Bocage", de Filinto Elísio

(1734 / 1819)


Grato às Musas, de Elmano a mente ufana

Voo toma aos espaços do Infinito;

Não curva o colo ao cego e torpe rito,

Nem a cerviz ao jugo que o desmana.


Na Lira acorda a voz, que a alma humana

Desperta do torpor em que tem jazito;

E em notas de ouro, em número prescrito,

A virtude celebra e o vício dana.


Se a inveja o morde, se a calúnia o assalta,

Canta mais alto, e no seu canto puro

A pátria ilustra, a língua Lusa exalta.


Vive, ó Mago do verso, e no futuro

Teu nome ressoe em cima do altar

Onde a Glória te vem coroar!

(62) Ary dos Santos - AO MEU FALECIDO IRMÃO MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE

 

 

Setúbal Rua General Daniel de Sousa, 136  - Mural Bocage (Foto victor nogueira, editada pelo Gemini)

Este mural, com a sua estética e enquadramento urbano, faz o contraste entre a tradição e a subversão pela modernidade, tendo como elo de ligação a '(re)vivência', não reverencial, da(s) memória(s),   mesmo que Ary mantenha a norma sonetística.

* Ary  dos Santos
(1937 ( 1984)


Meu sacana de versos! Meu vadio.
Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola.
Lisboa é uma sarjeta. É um vazio.
E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.
São uns merdosos que nos pedem esmola.
Aos vinte anos cheiram a bafio
têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões nosso padrinho
ou o Primo Fernando que acarinho
como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho
ainda se encontram alguns pés de linho
crescendo não sei como na estrumeira!


José Carlos Ary dos Santos. VIII Sonetos, 1984
http://nestahora.blogspot.com/2019/09/bocage-254-anos-hoje.html 

(61) De 'Já Bocage não sou!' a 'Era eu Bocage!«





Setúbal - Fotos victor nogueira

* Gemini

Numa caixa de eletricidade decorada nas ruas de Setúbal, a figura do poeta surge acompanhada pelas datas do seu falecimento (1805) e da intervenção (2014), juntamente com a afirmação: «ERA EU BOCAGE!».

Esta inscrição na rua contradiz frontalmente o tom da célebre trilogia de sonetos da agonia, escrita pelo poeta no leito de morte, onde ele renegava a sua faceta libertina e pedia para esquecerem a sua persona satírica.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

(36) Bocage - Auto-retrato [Magro, de olhos azuis, carão moreno]

* Victor Nogueira

Em Setúbal o  'Auto-retrato', de Bocage, figura num painel de azulejos e numa exposição efêmera ' Bocage na Rua - 30 + 1 Poemas' 

 

Auto-retrato - Palácio do Salema (Praça de Bocage) (foto victor nogueira editafa pelo chatGPT IMG_0524) 

Auto-retrato

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
 Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

(35) Bocage - Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado

* Victor Nogueira

Em Setúbal, o soneto  de Bocage, ' Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado ' é tema num viaduto ferroviário, num conjjunto excujtórico e numa exposição efêmera ' Bocage na Rua - 30 + 1 Poemas' 


Foto victor nogueira - Setúbal EN 10 (CC Allegro) viaduto ferroviário (IMG_9831) . "Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado" (Bocage)



Setúbal, Av. Luísa Todi - Escultura com soneto de Bocage Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado (fotos victor nogueira IMG_6531 / IMG_1629)

Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado,
Mansa corrente deleitos, amena,
Em cuja praia o nome de Filena
Mil vezes tenho escrito, e mil beijado:

Nunca mais me verás entre o meu gado
Soprando a namorada e branda avena,
A cujo som descias mais serena,
Mais vagarosa para o mar salgado:

Devo enfim manejar por lei da sorte
Cajados não, mortíferos alfanges
Nos campos do colérico Mavorte;

E talvez entre impávidas falanges
Testemunhas farei da minha morte
Remotas margens, que humedece o Ganjes.



5. - Postigo da Ribeira (Avenida Luísa Todi)
intervenção plástica de Wagner Borges

(fotos victor nogueira editadas pelo chatGPT  (IMG_2966 e IMG_2494 )