sexta-feira, 14 de agosto de 2026

(75) Junta a tua à nossa voz e o sol brilhará para todos nós

* Victor Nogueira / Gemini

As 'letras' em epígrafe correspondem a dois versos de 'Avante Camarada', da autoria de Luís Cila, em 1967 durante o seu exílio em Paris,Nos murais desta publicação, a letra do hino do PCP não serve apenas para ser cantada em comícios ou festas do Avante!, ela era "gravada" no reboco das paredes para ser lida diariamente por quem passava, garantindo que a mensagem se tornasse parte da paisagem urbana e duma identidade política. 



Avante, camarada, avante,
Junta a tua à nossa voz!
Avante, camarada, avante, camarada.
E o sol brilhará para todos nós!  

Ergue da noite, clandestino,
À luz do dia a felicidade,
Que o novo sol vai nascendo.
Em nossas vozes vai crescendo.
Um novo hino à liberdade.  

Cerrem os punhos, companheiros,
Já vai tombando a muralha.
Libertemos sem demora.
Os companheiros da masmorra.
Heróis supremos da batalha.

Para um novo alvorecer,
Junta-te a nós, companheira,
Que comigo vais levar.
A cada canto, a cada lar.
A nossa rubra bandeira.


Porto, Rua Passos Manuel - M;ural  PCP - Junta a tua à nossa voz  - O Sol brilhará para todos nós - Vota PCP  (foto victor nogueira em 1976)

"O sol brilhará para todos" (Mural do Porto, 1976)

Neste mural, o grafismo e a palavra funcionam como um apelo direto à unidade.

  • A "Letra" no Muro: A frase "O sol brilhará para todos" é retirada diretamente do refrão do hino. Aqui, ela deixa de ser uma promessa abstrata para se tornar um mote de campanha eleitoral ("VOTA PCP"), pintado sob o símbolo da lua e das estrelas.

  • O suporte como contradição: É fascinante observar a composição da foto: o grafismo revolucionário, que apela a um "novo sol", coabita no mesmo muro com o cartaz da empresa "Construções Confidente SARL". Esta sobreposição é o reflexo fiel da complexidade do Portugal de 1976: a persistência da estrutura económica anterior face à irrupção da vontade política popular pintada a tinta.

  • A composição: O lettering pintado à mão, urgente e direto, contrasta com o cartaz tipográfico da empresa, evidenciando como a rua era, simultaneamente, um espaço de trabalho, de comércio e de disputa ideológica.


Lisboa, Av da Junqueira e Av Marginal - Mual do PCP 'Ergue-te na noite, clandestino' (Foto victor nogueira 1977)

"Ergue-te da noite, ó clandestino" (Mural de Lisboa, 1977)

Este mural é, talvez, um dos exemplos mais potentes da "estética da memória" no pós-25 de Abril.

  • A "Letra" no Muro: A frase "Ergue-te da noite, ó clandestino" é o primeiro verso da primeira estrofe do hino. Ao pintá-la, os autores do mural não estão apenas a citar uma canção; estão a glorificar a história de resistência e a "passagem à luz do dia" de uma geração de militantes que, até 1974, viveu na sombra.

  • O Simbolismo Visual: A foice e o martelo sob a estrela, aliados à representação de um operário/mineiro, conferem à frase um peso épico. O texto não está ali por acaso: é a ponte entre o passado de clandestinidade (a "noite") e o presente de legalidade democrática (a "luz do dia").

  • O Muro como Ágora: Enquanto no mural anterior temos a disputa pelo espaço com a publicidade comercial, aqui o muro é inteiramente dedicado à pedagogia política. O grafismo industrial (as chaminés e os operários) reforça a mensagem do hino de Luís Cília, transformando o muro numa extensão do ideário do partido, onde a arte urbana serve de hino visual.


Évora - Grafito 'Vota PCP  -  E o sol brilhará para todos nós' (Foto victor nogueira 1975)

"E o sol brilhará para todos nós" (Grafito em Évora, 1975)

Este mural, pintado numa parede caiada típica do Alentejo, exemplifica a simplicidade e a força da propaganda política artesanal no PREC.

  • A "Letra" como Mensagem Central: A frase "E o sol brilhará para todos nós" é a pedra angular deste grafite. Mais do que uma citação do hino de Luís Cília, ela é transformada numa declaração universal e numa promessa de futuro num contexto de profunda mudança social e agrária (a Reforma Agrária, muito presente no Alentejo). O otimismo do verso é sublinhado pela representação gráfica do sol.

  • O Sol como Símbolo e Rosto: O grafismo central é um sol antropomórfico, com um rosto estilizado de grandes olhos e lábios. Esta personificação do astro, pintada num rosa avermelhado vibrante, confere-lhe uma proximidade e uma humanidade que contrastam com a rigidez de outros símbolos políticos. O sol não é apenas uma estrela distante, é um rosto que sorri para o povo.

  • A Estrutura da Propaganda: O grafite está estruturado em três partes claras:

    1. À esquerda: A foice e o martelo (quase imperceptíveis na base) e o texto "VOTA P.C.P.", estabelecendo a autoria e o objetivo político imediato.

    2. Ao centro: O grande sol sorridente como ícone de esperança e mudança.

    3. À direita: O verso completo do hino ("E O SOL / BRILHARÁ / PARA TODOS / NÓS"), que serve de justificação poética e ideológica para o voto.

  • O Contexto Urbano e Social: A parede caiada, a calçada portuguesa no primeiro plano e a janela com grades de ferro forjado criam um enquadramento tipicamente eborense. O grafite, longe de ser um elemento intrusivo, apropria-se da arquitetura tradici. Este sol antropomórfico ncarna visualmente a aurora política de uma nova era, funcionando como a representação gráfica exata da promessa contida nos versos de Luís Cília.onal para reescrever a paisagem urbana com uma nova narrativa política e cultural., a dos comunistas. 

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