domingo, 30 de agosto de 2026

Gonçalo Almeida - Porque estão as gigantes da IA a contratar filósofos?

 Recurso dos privados aos filósofos provoca alguma hesitação na academia


Ilustração Gerada Por Ia

Tecnológicas alargam equipas para treinar máquinas. Nos EUA, desemprego de recém-filósofos é mais baixo que de informáticos

27 agosto 2026  

Gonçalo Almeida  Jornalista 

No século XIX, o filósofo inglês John Stuart Mill defendeu que a ação mais correta é a que produz a maior felicidade para o maior número de pessoas. Chamou-lhe utilitarismo. É uma ideia com quase dois séculos, que hoje se tenta reproduzir nos quartéis-generais das empresas de inteligência artificial (IA). Entre duas respostas possíveis, o modelo de IA tem de ser capaz de escolher a que traz um maior benefício ao maior número de utilizadores. A indústria chama a este trabalho “alinhamento de valores”. E paga salários de seis dígitos a quem o fizer.



Durante décadas, um diploma de Filosofia embatia contra um leque limitado de possibilidades de trabalho, sendo a academia o destino mais provável. Agora, os últimos dados da Reserva Federal de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América (EUA), mostram que a taxa de desemprego é menor para os recém-licenciados em Filosofia do que para os informáticos. E estão a ser contratados pelas mesmas empresas: as grandes tecnológicas.

Muitos filósofos estão a ser absorvidos pelas empresas de IA, que fazem crescer os seus departamentos de ética para treinar as máquinas. A Anthropic (dona do Claude) e a Google DeepMind empregam já dezenas de filósofos, não como consultores distantes, mas dentro das equipas que decidem como os grandes modelos de linguagem se comportam.

Robert Clowes, filósofo e investigador no Instituto de Filosofia da Universidade Nova (IFILNOVA), em Lisboa, explica que a investigação de ponta em IA “saiu das universidades há cinco anos ou mais” e agora quem quer fazer as perguntas difíceis sobre estas máquinas precisa de estar onde elas se constroem.

Anthropic e Google DeepMind empregam dezenas de filósofos, integrados nas equipas que estudam os modelos de IA

Na Anthropic, o rosto mais visível é Amanda Askell, doutorada em Ética pela Universidade de Nova Iorque. Foi a principal autora do documento que estipula os valores do modelo Claude e que bebe de fontes tão díspares como Immanuel Kant e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ao seu lado trabalha Joe Carlsmith, que fez o doutoramento em Oxford sobre o estatuto moral das entidades. Na DeepMind, Iason Gabriel, nomeado pela revista “Time” entre as 100 personalidades mais influentes da IA, conduz a investigação sobre esse “alinhamento de valores”, e em maio a empresa criou um cargo cujo título é, simplesmente, “filósofo”, entregue a Henry Shevlin, de Cambridge.

Boa parte do trabalho é decidir que regras inscrever nos modelos, e aqui a filosofia oferece dois grandes guiões, que se digladiam há séculos. De um lado, a deontologia, cara a Kant. Regras absolutas que proíbem mentir, coagir ou tratar as pessoas como meros meios, mesmo em nome de um bem maior. Do outro, o consequencialismo, de que o utilitarismo de Mill é a face mais conhecida. Pesar custos e benefícios e escolher o mal menor. A “Constituição” do Claude é sobretudo deontológica, ao passo que o ChatGPT, da OpenAI, e o Gemini, da Google, se inclinam mais para a outra abordagem, segundo os especialistas. Mas a filosofia aplicada à IA não está só nos chatbots, mas em toda a sua aplicação. Por exemplo, no software dos carros autónomos, que, perante um acidente inevitável, tem de calcular a forma menos trágica de embater, ou nos sistemas de armas, que ponderam os objetivos militares e as mortes de civis.

Há ainda lições mais antigas. O método socrático, o questionamento sucessivo que Platão atribui a Sócrates para expor contradições, tem sido explorado para tornar os modelos menos bajuladores e mais dispostos a procurar a verdade, e a “ignorância socrática”, a consciência de que não se sabe algo, para conter o excesso de confiança que leva a IA a “alucinar” e a dar respostas falsas.

“Não podemos ter máquinas cujas regras de comportamento ético sejam completamente distintas das nossas”, diz ao Expresso Luís Moniz Pereira, professor emérito da Nova e ex-presidente da Associação Portuguesa para a IA. O problema, nota, é que “nós próprios não temos respostas totalmente claras” e usamos uma combinação de escolas éticas incompatíveis. Alerta ainda para o risco de “criar um neocolonialismo moral se impusermos uniformidade” da moral, se o mesmo algoritmo correr de forma igual em todo o mundo, uma vez que nas sociedades ocidentais o indivíduo tende a vir primeiro e nas orientais domina a responsabilidade coletiva. Em breve, Luís Moniz Pereira publicará o livro “Máquinas Éticas: Da Moral da Máquina à Maquinaria Moral”, em coautoria com António Barata Lopes.

Um disfarce ético?

Mas contratar filósofos é escrutínio ético a sério, ou o que os críticos designam ethics-washing, uma espécie de verniz para melhorar a reputação? Moniz Pereira defende que é “sobretudo um sinal hipócrita para o exterior”, uma campanha de relações públicas, “uma vez que as promessas morais das big tech têm ficado no papel”.

E um filósofo pago por uma empresa com fins lucrativos tem independência? “É óbvio que não”, uma vez que os contratados “seguirão na direção de conservarem o seu emprego”, moldando a opinião pública às diretrizes do conselho de administração, considera Luís Moniz Pereira. No seu entender, o medo de uma superinteligência consciente que se apodera do mundo é “um mito que nos desvia a atenção do importante”: o verdadeiro risco não é a máquina virar-se contra nós, mas o uso cumulativo que os humanos farão da IA sem coordenação. E há quem “se aproveite dos receios do público” para captar atenção e financiamento.

FRASES

“Não podemos ter máquinas cujas regras de comportamento ético sejam completamente distintas das nossas”

Luís Moniz Pereira

Professor emérito da Universidade Nova de Lisboa


“Contratar um ou dois filósofos, enquanto os departamentos de humanidades são reduzidos em todo o mundo, é uma manobra para desviar a atenção”

Anna Ciaunica

Investigadora e filósofa


“O teste não é saber se o filósofo é sincero, mas se é livre para publicar algo que o seu empregador preferiria que não publicasse”

Robert Clowes

Investigador e filósofo


Anna Ciaunica, investigadora do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, é igualmente cética, mas por outra via. “Contratar filósofos, enquanto os departamentos de humanidades são reduzidos ou subfinanciados em todo o mundo, é uma manobra para desviar a atenção”, diz, alegando que as empresas terão recursos para financiar “institutos completos, com vozes diversas”, em vez de “algumas privilegiadas”. “Para mim, isto parece uma mera fachada”, acrescenta Anna Ciaunica.

Robert Clowes contrapõe que os filósofos dentro das empresas “não são decoração”. E lembra que Askell escreveu a ‘Constituição’ do Claude “com os modelos à sua frente”. O teste que propõe não é medir a sinceridade de ninguém, mas a liberdade. Saber se o filósofo é “livre para publicar algo que o seu empregador preferiria que não publicasse”.

Cursos ganham força

Lá fora, entretanto, a filosofia aplicada à IA já entrou na universidade pela porta da frente. Cambridge criou o primeiro mestrado britânico dedicado ao uso responsável da IA e tem agora um mestrado em Ética da IA, Dados e Algoritmos. Oxford oferece um mestrado em Ética Prática no seu instituto Uehiro e Edimburgo abriu mestrados de filosofia online adaptados à IA. São programas pensados de raiz para cruzar filosofia, direito e ciências da computação.

Em Portugal há alguns cursos intensivos focados na IA, como é o caso da formação que a Católica e o IST, em parceria com a Abreu Advogados, lançaram há três anos. Mas o tema vive quase todo dentro dos cursos de engenharia e informática, como módulo. Clowes, que veio de fora para Lisboa, lê a assimetria como estrutural, não como falta de interesse: “As contratações fazem-se através de departamentos, e os departamentos contratam para ensinar disciplinas reconhecidas.” Um programa genuinamente conjunto “é muito difícil de construir e ainda mais de dotar de pessoal, porque não há departamento a quem isso caiba”.

O Simpósio Português sobre Filosofia e Inteligência Artificial terá uma terceira edição no próximo ano

O diálogo existe à margem da sala de aula. Houve um Simpósio Português sobre Filosofia e IA, em Alcochete, em 2022, e de novo em 2024 e prepara-se uma terceira edição, para 2027. Mas, nota Clowes, faltou consolidação: “Aquilo aconteceu porque pessoas concretas o organizaram, não porque uma instituição decidiu que isto importava.” “Não conheço nada que junte a filosofia da mente e a ciência cognitiva à investigação em IA da forma que estas perguntas exigem. A ética e o direito estão representados. As perguntas prévias, o que são estes sistemas e o que nos estão a fazer, não têm casa”, lamenta.

No fim, analisar o valor de um filósofo na folha de pagamentos de uma empresa de IA talvez se reduza a uma pergunta: se cabe a um punhado de empresas conduzir uma tecnologia desta dimensão, preferimos, ou não, que haja um filósofo na sala? Edward Harcourt, diretor do Instituto de Ética na IA, da Universidade de Oxford, responde que sim, “desde que haja também filósofos fora dessa sala”. A ética das grandes empresas, avisa, “tende a refletir uma corrente filosófica e cultural dominante”.

Mas para Clowes, o que mais importa é aquilo a que chama o “problema mente-tecnologia”. Os nossos conceitos, de mente, memória, criatividade, até de amizade, formaram-se quando conversávamos com outros humanos. Hoje, milhões de pessoas interagem com sistemas de IA, e a alguns chamam amigos.

Ciaunica devolve outra imagem. Sem o velho carpinteiro Geppetto, lembra, não há Pinóquio, e sem mentes humanas não há IA. O que a preocupa é “o que é que a tecnologia nos faz a nós e aos nossos filhos”, sobretudo se substituirmos as interações humanas por artificiais. O foco tem estado todo no que as máquinas podem tornar-se e quase nenhum em quem as está a criar, e porquê, alerta. Talvez a pergunta mais filosófica que a IA nos devolve não seja se as máquinas vão um dia pensar como nós. Mas sim se nós, à força de conviver com elas, ainda vamos pensar como humanos.


 

TRÊS PERGUNTAS A

Edward Harcourt

Diretor do Instituto de Ética na IA da Universidade de Oxford

 

Já alertou para o ethics-washing. Em concreto, como pode o público distinguir o trabalho genuíno sobre ética da mera construção de reputação?

Não há fórmula para o distinguir. Temos apenas de nos apoiar nas coisas do costume: que interesses estão em jogo e, por isso, que razões temos para pensar que o eticista está a falar de forma desinteressada? E, também, qual é a qualidade do comentário que nos é oferecido? Um material que não passe de mero ethics-washing dificilmente será muito perscrutador.

Pode um filósofo de uma empresa fazer ainda verdadeira filosofia?

Não se deve saltar para a conclusão de que quem é pago por empresas, quer seja para fazer filosofia, quer seja para fazer qualquer outra coisa, não pode estar a dizer aquilo que teria querido dizer de qualquer maneira. E há uma versão específica deste mal-entendido que surge em relação à inteligência artificial (IA). Social e culturalmente, a IA não brotou do nada. Pelo contrário, reflete algumas tendências profundas que já estavam presentes na nossa cultura antes de a IA entrar em cena. Um bom exemplo disto é a ideia de que as máquinas podem ser “conscientes”, podem ser entidades dotadas de mente. Esta noção tem sido debatida na filosofia há décadas, com uma corrente dominante poderosa a defender uma resposta “sim”. Os filósofos que trabalham sobre “IA aparentemente consciente” e que são contratados por empresas de IA limitam-se a continuar a dizer aquilo que já andavam a dizer antes.

Mas esse foco na consciência e superinteligência é intelectualmente sério?

Na minha opinião, a ideia de que a IA possa ser “consciente” é uma das piores orientações intelectuais da história da humanidade, mas creio que talvez esteja em minoria dentro da profissão. Penso que a superinteligência é uma questão diferente. Não estou convencido de que a IA poderosa seja superinteligente, ainda que as suas capacidades em algumas áreas, como a capacidade de digerir e sintetizar informação complexa, ultrapassem a capacidade dos humanos. Isto porque a inteligência — pelo menos a inteligência tal como é encarada pelos humanos — envolve muito mais do que estas capacidades. Desde logo, envolve sabedoria prática: o poder de julgar o que vale a pena fazer e em função de quê. A “superinteligência” de Nick Bostrom, que destrói o mundo para fabricar mais clipes de papel, decididamente não tinha isso.

 

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