quinta-feira, 30 de julho de 2026

A América que é grande


Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma his­tória de opressão, guerra e de­si­gual­dades. Nas úl­timas muitas dé­cadas, a prin­cipal po­tência im­pe­ri­a­lista do mundo re­pre­sentou, como ainda re­pre­senta, o grande ad­ver­sário das forças da paz, da de­mo­cracia e do pro­gresso so­cial. Mas, se­jamos justos, também ali há – sempre houve! – quem tenha to­mado par­tido pelos que todos os dias lutam pela so­bre­vi­vência e a dig­ni­dade, por quem menos tem, pelos povos opri­midos e agre­didos.

Era norte-ame­ri­cano o cam­peão de boxe Muhammad Ali, que se re­cusou a matar os seus “ir­mãos” vi­et­na­mitas, pois par­ti­lhavam um ini­migo comum – e foi por isso cas­ti­gado e im­pe­dido de de­fender o tí­tulo mun­dial. Como também o era o cantor Paul Ro­beson, que con­fessou ter sido na União So­vié­tica a pri­meira vez que não se sentiu ví­tima de ra­cismo e co­locou a sua mag­ní­fica voz ao ser­viço da paz e dos di­reitos dos povos (a sua in­ter­pre­tação das can­ções da Guerra Civil de Es­panha, num Con­gresso Mun­dial da Paz, emo­ciona).

Eram na­tu­rais dos EUA os mem­bros do Ba­ta­lhão Abraham Lin­coln, que atra­ves­saram o Atlân­tico para in­te­grar as Bri­gadas In­ter­na­ci­o­nais que tra­varam ao lado dos re­pu­bli­canos es­pa­nhóis uma ba­talha de­ci­siva contra o fas­cismo – e muitos por lá fi­caram, mortos. Nas­cido em Oklahoma, Woody Guthrie exaltou os de­ser­dados da Grande De­pressão e cantou um país que de­veria ser para todos, em­pu­nhando a sua gui­tarra – essa má­quina que, avi­sava, “mata fas­cistas”. É também pro­fun­da­mente norte-ame­ri­cano Tom Joad, o per­so­nagem de “As Vi­nhas da Ira”, obra-prima de Stein­beck, que ins­pirou cada luta pelo pão e pela jus­tiça num país di­la­ce­rado pela de­si­gual­dade so­cial e ra­cial.

Era norte-ame­ri­cano o jor­na­lista John Reed, que como ne­nhum outro re­latou ao mundo as epo­peias re­vo­lu­ci­o­ná­rias do Mé­xico in­sur­recto e da Rússia bol­che­vique, com a qual se man­teve so­li­dário até ao fim pre­coce da sua vida, pe­rante a in­vasão de 14 po­tên­cias es­tran­geiras, entre as quais os EUA. Tal como o eram Har­riet Tubman e Fre­de­rick Dou­glass, an­tigos es­cravos que de­di­caram as suas vidas a com­bater a es­cra­va­tura e a apoiar os que não ti­veram as mesmas pos­si­bi­li­dades de eman­ci­pação.

Outro norte-ame­ri­cano, o ve­te­rano da Guerra Civil Henry Reeve, vi­ajou para Cuba para com­bater ao lado dos pa­tri­otas que no sé­culo XIX lu­tavam contra o do­mínio es­pa­nhol, luta essa que via como uma ex­tensão da sua pró­pria, contra a es­cra­va­tura (de origem ir­lan­desa, opunha-se também ao co­lo­ni­a­lismo). Nas fi­leiras do exér­cito re­belde cu­bano, Henry Reeve atingiu o posto de Bri­ga­deiro-Ge­neral antes de morrer em com­bate. Mais de um sé­culo pas­sado, a Re­vo­lução cu­bana honrou o herói in­ter­na­ci­o­na­lista dando o seu nome ao Con­tin­gente Mé­dico In­ter­na­ci­onal es­pe­ci­a­li­zado em si­tu­a­ções de emer­gência na­tural e sa­ni­tária.

Esta Amé­rica sim, é grande!

Avante n.º 2748 (30/07/2026)

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