Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma história de opressão, guerra e desigualdades. Nas últimas muitas décadas, a principal potência imperialista do mundo representou, como ainda representa, o grande adversário das forças da paz, da democracia e do progresso social. Mas, sejamos justos, também ali há – sempre houve! – quem tenha tomado partido pelos que todos os dias lutam pela sobrevivência e a dignidade, por quem menos tem, pelos povos oprimidos e agredidos.
Era norte-americano o campeão de boxe Muhammad Ali, que se recusou a matar os seus “irmãos” vietnamitas, pois partilhavam um inimigo comum – e foi por isso castigado e impedido de defender o título mundial. Como também o era o cantor Paul Robeson, que confessou ter sido na União Soviética a primeira vez que não se sentiu vítima de racismo e colocou a sua magnífica voz ao serviço da paz e dos direitos dos povos (a sua interpretação das canções da Guerra Civil de Espanha, num Congresso Mundial da Paz, emociona).
Eram naturais dos EUA os membros do Batalhão Abraham Lincoln, que atravessaram o Atlântico para integrar as Brigadas Internacionais que travaram ao lado dos republicanos espanhóis uma batalha decisiva contra o fascismo – e muitos por lá ficaram, mortos. Nascido em Oklahoma, Woody Guthrie exaltou os deserdados da Grande Depressão e cantou um país que deveria ser para todos, empunhando a sua guitarra – essa máquina que, avisava, “mata fascistas”. É também profundamente norte-americano Tom Joad, o personagem de “As Vinhas da Ira”, obra-prima de Steinbeck, que inspirou cada luta pelo pão e pela justiça num país dilacerado pela desigualdade social e racial.
Era norte-americano o jornalista John Reed, que como nenhum outro relatou ao mundo as epopeias revolucionárias do México insurrecto e da Rússia bolchevique, com a qual se manteve solidário até ao fim precoce da sua vida, perante a invasão de 14 potências estrangeiras, entre as quais os EUA. Tal como o eram Harriet Tubman e Frederick Douglass, antigos escravos que dedicaram as suas vidas a combater a escravatura e a apoiar os que não tiveram as mesmas possibilidades de emancipação.
Outro norte-americano, o veterano da Guerra Civil Henry Reeve, viajou para Cuba para combater ao lado dos patriotas que no século XIX lutavam contra o domínio espanhol, luta essa que via como uma extensão da sua própria, contra a escravatura (de origem irlandesa, opunha-se também ao colonialismo). Nas fileiras do exército rebelde cubano, Henry Reeve atingiu o posto de Brigadeiro-General antes de morrer em combate. Mais de um século passado, a Revolução cubana honrou o herói internacionalista dando o seu nome ao Contingente Médico Internacional especializado em situações de emergência natural e sanitária.
Esta América sim, é grande!
Avante n.º 2748 (30/07/2026)
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