sexta-feira, 31 de julho de 2026

(42) - Henri Estienne - Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait (Les Prémices)

 

Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Se gioventù sapesse, se vecchiaia potesse'


* Victor Nogueira / Gemini

Este provérbio — originalmente formulado em francês como «Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait» por Henri Estienne nas suas Premices (1594) — resume de forma brilhante uma das maiores contradições e paradoxos da vida humana.


Ele reflete a trágica assincronia entre o conhecimento e a capacidade física:

  • A Juventude ("Se soubesse..."): Possui energia, vigor, tempo, ousadia e saúde, mas carece de maturidade, perspetiva, experiência de vida e sabedoria para fazer as melhores escolhas.

  • A Velhice ("Se pudesse..."): Acumulou a experiência, a clareza mental, o discernimento e a sabedoria necessárias para tomar as decisões certas, mas já não dispõe da vitalidade física, do tempo ou das oportunidades para as concretizar.

Por que razão este tema é tão forte na cultura sarda (e em Orgosolo)?

A inclusão deste provérbio no mural que analisámos não é por acaso:

  1. Sociedade Gerontocrática e de Respeito: Nas comunidades tradicionais da Sardenha — conhecidas mundialmente por albergarem uma das maiores concentrações de centenários do planeta (uma das chamadas Blue Zones) —, os idosos (sos mannos) não são vistos como um fardo, mas sim como os guardiões da memória, do conhecimento do território e da identidade da comunidade.

  2. Ponte entre Gerações: A frase funciona como um aviso/conselho aos mais jovens para que escutem quem tem mais vivência, aproveitando a força da juventude orientada pela sabedoria dos mais velhos antes que seja tarde demais.

No livro Les Prémices (1594), a famosa expressão não aparece isolada como uma simples frase em prosa, mas sim integrada num pequeno poema de dois versos (um dístico), no Livro IV, Epigrama 4:

«O si jeunesse scavoit!

O si vieillesse pouvoit!»

Na literatura clássica e renascentista, era muito comum os autores pegarem em dizeres populares e dar-lhes uma métrica poética para que fossem mais fáceis de memorizar e recitar.

Com o passar dos séculos, a rima e a estrutura poética original acabaram por se condensar no provérbio que hoje conhecemos em quase todas as línguas românicas: "Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse".

A versão completa do Epigrama IV em Les Prémices (1594) é a seguinte:

«O si jeunesse scavoit,

O si vieillesse pouvoit,

Jamais le monde ne periroit,

Ni rien de mal ne si feroit.»

Tradução livre:

«Oh se a juventude soubesse,

Oh se a velhice pudesse,

Nunca o mundo pereceria,

Nem nada de mal nele se faria.»

Estienne acrescentou os dois últimos versos para concluir a ideia moral: se fosse possível juntar no mesmo instante o conhecimento da velhice e a capacidade física da juventude, a humanidade alcançaria uma espécie de utopia perfeita.

Les Prémices (cujo título completo é Les Prémices, ou Le I. livre des Proverbes epigrammatizez) é um livro de ditos e epigramas morais publicado em 1594 pelo impressor, erudito e humanista francês Henri Estienne.

A palavra francesa prémices significa literalmente "primeiras colheitas" ou "primeiros frutos".

O Conteúdo da Obra

  • Coletânea de Provérbios: Estienne reuniu e organizou uma vasta coleção de provérbios franceses (assim como alguns gregos, latinos e noutras línguas do quotidiano), transformando-os em pequenos poemas ou epigramas para lhes dar uma forma literária, instrutiva e fácil de memorizar.

  • A Famosa Citação: É precisamente no Livro IV, Epigrama 4 desta obra de 1594 que ficou registado pela primeira vez o célebre verso:

    «O si jeunesse scavoit, O si vieillesse pouvoit.»

    («Oh se a juventude soubesse, oh se a velhice pudesse.»)

A Sua Importância Histórica

Na época do Renascimento, obras como esta eram populares porque serviam tanto como manuais pedagógicos e morais como uma forma de valorização das línguas vernáculas (neste caso, o francês) face ao latim clássico dominante. Henri Estienne dedicou grande parte da sua vida a provar a riqueza, dignidade e sabedoria expressiva da língua francesa através do seu vasto património cultural e popular.

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