quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Jaime Nogueira Pinto - Quatro autores em tempo de Páscoa

 

* Jaime Nogueira Pinto 

- Colunista do Observador


Ainda que não consigamos ouvir a voz subtil de Deus Pai, sabemos que só irmanados no Horto a Cristo e aos que sofrem, fazendo o que depende de nós e dando a Deus o que Dele depende, seremos resgatados

16 abr 2022, 00:202

Para o cristão, que tem o privilégio e a inquietação de acreditar, o tempo da Páscoa, o tempo da paixão, morte e ressurreição de Cristo, é o tempo da intensa consumação de todos os mistérios. Mistérios com dois mil anos e mistérios de sempre.

A ideia de um Deus que se faz Homem e que, como nós e connosco, caminha pela humilhação, pela dor e pela morte, de um Deus que se entrega à Terra para ser semente de vida e redenção e para que, como Ele e com Ele, possamos também ser semente de vida, não encontra senão frívolos paralelos nas incursões terrenas dos deuses pagãos, contadas por Homero, na Ilíada e na Odisseia, por Hesíodo, na Teogonia, ou por Virgílio, na Eneida.

Aí, dir-se-ia, também deuses e deusas coabitam com os mortais e com eles concebem semideuses e heróis: Zeus seduz Alcmena que dá à luz Herácles, ou Hércules, o dos Doze Trabalhos; Afrodite (a Vénus romana) gera, com Anquises, Eneias, príncipe troiano e proto-fundador de Roma; Aquiles é filho de uma ninfa do mar, Tétis, e de Peleu, rei dos Mirmidões. Mas todos esses semideuses e heróis são fruto das imaginárias excursões de um panteão de divindades quase lúdicas e com especialidades mirabolantes pelas terras dos homens e das mulheres. A semelhança com Cristo, com a irrupção de Deus na História, destes arquétipos úteis e a-históricos, destas criativas bengalas para perscrutar o enigma da contraditória natureza humana, destes lugares literários que, da Eneida aos Lusíadas, a literatura europeia também foi consagrando, é um mero exercício de hermenêutica crítica ou de semântica comparada.

Cristo e a narrativa evangélica da Sua Paixão, ou as quatro narrativas evangélicas da Sua Paixão, são outra coisa e de outra natureza: entram a fundo no Mistério, têm uma presença permanente na vida e na morte de cristãos e não-cristãos e um reflexo constante na vida icónica, literária, dramática e poética da Cristandade ao longo dos séculos.

Assim, a nossa história pessoal e colectiva, e particularmente a História da Europa, dificilmente se conta sem a meditação da Paixão de Cristo, e sem a reflexão sobre o desconcerto do Mundo, o sentido do sofrimento e da morte e a esperança numa vida plena que a meditação da Paixão traz – desde os populares mistérios medievais à Pietá de Miguel Ângelo e às muitas versões e visões do planctus Mariae e da agonia do Deus feito Homem.

“Mas porque Deus quisesse, me é oculto, a nossa redenção só deste modo”

Divina Comédia de Dante, como compêndio geral da História divina e humana mediada pelo grande poeta medieval, não podia ficar alheia ao mistério pascal da Redenção e da vitória sobre a morte. Dante concebe um homem criado à imagem de Deus (imago Dei), um homem consciente da sua liberdade de escolher entre o Bem e o Mal; e, uma vez criteriosamente arrumados os “maus” no seu Inferno, é no Paraíso que se aproxima do mistério da Redenção e do mundo dos que escolhem o Bem.

O facto de os desígnios de Deus serem um mistério e continuarem a sê-lo é ponto assente para o poeta, supremo devassador do oculto e sublime perscrutador de mistérios. Talvez por isso, depois de confessar a sua ignorância sobre a razão pela qual Deus, para resgatar os homens, decide sacrificar o Seu próprio filho, Dante entregue a Beatriz a explicação da Redenção – e do caminho de Deus-Filho pela vida e pela morte adentro. A imaginária amada do Poeta explica-a como um acto de amor e compaixão de Deus pelo Homem, a “mais nobre das suas criaturas”. Para isso, recorda a história da Criação e da Queda do Homem, enganado pelo seu Inimigo, e lembra que o ser humano, por si só, não podia já reabilitar-se das suas más escolhas para aceder à “vida em abundância”, à vida plena, à “intera vita”, para a qual Deus o criara. Assim, a reparação do pecado, a Salvação, tinha de vir do próprio Criador, “pelos Seus caminhos”, pela Sua “bontá” (bondade) e “larghezza” (generosidade).

Na visão dantesca do ciclo Paraíso-Queda-Redenção, só com o sacrifício do Seu Filho poderia Deus-Pai salvar o Homem da perdição com que o pecado original o carregara. Criado bom (“buono e a bene”), o Homem perdera-se, ao querer igualar-se a Deus, de forma vã e apressada; mas poderia salvar-se pelo sacrifício de um Deus encarnado, de um Deus feito próximo, feito Homem, capaz de carregar sobre os ombros os pecados da Humanidade, revelando a Sua verdadeira face. Tal como o pecado de Adão caíra sobre todos os seus descendentes, também, em Cristo, o Novo Adão, todos podiam ser salvos, ou devolvidos “a sua intera vita”.

Quanto aos danados que, à guarda de Satanás, habitavam os círculos das trevas que Dante imaginara e descrevera tão pormenorizada e eloquentemente, ali estavam e ali estariam por terem escolhido o mal em liberdade, ou por terem escolhido, em liberdade, a distância em relação ao Criador onde, para todo o sempre, crepitariam.

A Paixão, segundo Shakespeare

Shakespeare também não poderia ter sido indiferente ao mistério da Paixão de Cristo, tão presente nos enganos, desconcertos e calvários causados e suportados pelo Homem; e o seu teatro é o teatro de um autor cristão, instruído na cultura do cristianismo europeu dividido do tempo das guerras religiosas, numa Inglaterra marcada pela guerra das Rosas e pela reforma de Henrique Tudor.

Embora nas relativas boas graças do poder, o Bardo sabia-se sob a sua severa censura, prévia e póstuma, e ttratava de evitar quaisquer referências ou imagens que pudessem insinuar-se como manifestações de papismo – vistas com duplo horror pelas autoridades isabelinas, quer como abjecta emanação da corrupta igreja de Roma, quer como traição patriótica por conluio com os cúmplices do supremo inimigo da Inglaterra – o Áustria de Espanha. Talvez por isso, e pelas linhas tortas com que sempre se “reinventa o humano”, o tema da Paixão de Cristo, ou mais concretamente o tema da Pietá, surja inesperadamente trasvestido em Henrique VI.

Era um tempo de derrota, esse ano de 1453, o final da Guerra dos Cem Anos, com os ingleses vencidos pelos franceses. Sir John Talbot, o “Aquiles inglês”, condestável das tropas de Henrique VI em França, recebia o cadáver do filho, John Lisle, morto na batalha de Châtillon. O bravo guerreiro tomava então o cadáver do filho nos braços e chorava-o, numa reedição paternal da dor de Maria com o corpo de Jesus nos braços. E é abraçado ao filho morto que Talbot expira, em Henrique VI.

Nessa sua “peça histórica”, Shakespeare dava consideráveis voltas à História para servir os objetivos do drama. Não só reproduzia o planctus Mariae no abraço ao filho morto do terrível comandante inglês, temido pelos franceses pela sua bravura e crueldade, como punha John Talbot a enfrentar Joana d’Arc na batalha – para, no acto seguinte, matar por bruxaria a que viria a ser a santa padroeira de França. Os Talbot, pai e filho, tinham de facto morrido na batalha de Châtillon, em 1453, mas Joana d’Arc fora julgada e condenada à morte em 1431, 22 anos antes.

É, no entanto, em King Lear, a tragédia estreada em 1605-1606 (ou The True Chronicle of History of the Life and Death of King Lear and His Three Daughters na versão escrita de 1608) que Shakespeare recria com maior profundidade e subtileza a Paixão de Cristo. King Lear acaba mal, coroando com um trágico equívoco último muitos outros equívocos. Mas a peça, que pela profunda tristeza e desolação do desfecho viu a sua exibição recusada por longos anos, e que conheceu até versões alternativas com um “final feliz”, não deixa de transmitir a redenção dos que escolhem a porta estreita do Bem.

Com Lear, destronado por Regan e Goneril, as filhas más, Shakespeare torna presente, na humilhação de um rei sem reino nem poder, o Cristo humilhado pelo povo, coroado com uma coroa de espinhos e crucificado sob o dístico satírico “Rei dos Judeus”. O “Escárnio de Cristo”, que inspirou uma galeria de grandes artistas, de Fra Angelico a Tiziano e a Van Dick, reencena-se em Shakespeare na figura patética de Lear, o rei sem trono, traído pelos seus e enlouquecido de dor e humilhação. Mas é em Cordélia, a filha boa, que o Bardo reproduz a imagem do Cristo humilde, injustiçado e perseverante. Lear não vê a falsidade e a traição de Regan e Goneril nem o amor e devoção de Cordélia, que evoca o sal, o evangélico sal da Terra, para expressar o seu amor pelo pai. Habituado a um círculo de incondicionais veneradores, o Rei não vê nem ouve o que se passa, tomando as duas filhas intriguistas por boas e por má a filha que se recusa a entrar numa falaciosa competição pela sua aprovação e favor.

Como narrativa de terríveis maquinações e traições, de grandes torturas e sofrimentos, de grande desconcerto do mundo, de caos primitivo e selvagem, King Lear pode também ser o símbolo de um mundo pré-cristão ou de um mundo abandonado por Deus. E a Graça chega a esse mundo através do amor silencioso e incondicional de Cordélia, um amor inalterado perante a ingratidão e a loucura do pai, um amor capaz de ser “sal da terra” e “luz do mundo” numa terra que, mergulhada nas trevas, perdeu o sabor, um amor que, tal como o de Cristo, se mostra capaz de “redimir a natureza” (“Thou hast one daughter / Who redeems nature from the general curse”).

A peça acaba com a morte de Cordélia e a consequente morte de Lear, finalmente consciente de todos os seus loucos enganos. Shakespeare não ressuscita Cordélia, mas deixa-a como alegoria do Bem paciente e obediente que faz o seu caminho indiferente à incompreensão, à ingratidão e à traição. Cordélia atravessa todos os calvários por obediência e entrega ao pai, à verdade e à justiça; e de olhos postos num tempo outro e num bem maior, parece repetir com a vida as palavras que Jesus dirige a Pedro na última ceia: “O que Eu faço, não o entendes agora, mas hás-de compreendê-lo depois.”

O Cristo de Charles Péguy

Dante é um mestre visionário e profético, um cristão incendiário e colérico que não hesita em encerrar no Inferno os seus inimigos vivos, e até alguns Papas; Shakespeare é um reinventor da condição humana, um tratadista dos grandes limites da Terra e do Céu; Peguy, o terceiro autor cristão que me acompanha nesta Páscoa, é menos ilustre, mas não deixa de ser um grande poeta e um grande exemplo de católico empenhado no testemunho da Fé, e no amor a Deus, aos homens e à Pátria.

É um cristão e católico singular, que parece estar nos antípodas dos católicos conservadores da sua geração: um socialista cristão, alinhado, no caso Dreyfus, pelo lado que, para a Direita, era o lado do “traidor”. Isto no tempo de Maurice Barrès, de Édouard Drumont, de Charles Maurras. Péguy funda a Amitié Judéo-Chrétienne e vai morrer, voluntário, nas primeiras semanas da Grande Guerra. É Tenente de reserva e é dos primeiros a morrer em combate, a 5 de Setembro de 1914, em Villeroy.

Órfão de pai, educado na fé e nos “valores da velha França” (da decência, da disciplina e do trabalho bem feito) numa família modesta e na escola primária, Péguy vai ser depois aluno de Romain Rolland e de Henri Bergson. Tem o seu baptismo de fogo político no caso Dreyfus, num tempo de “beatitude revolucionária”. Milita em causas humanitárias, como a defesa dos arménios, funda uma revista e um grupo de reflexão e discute ideias com amigos e inimigos. Mas, em Setembro de 1908, escreve a Joseph Lotte, um seu amigo escritor e católico: “Je n’ai pas tout dit… J’ai retrouvé la foi… Je suis catholique”.

Era o termo de um longo caminho, em que a leitura da Paixão segundo S. Mateus e da Imitação de Cristo tinham sido determinantes.

Péguy é um construtor de catedrais, mas é também um iconoclasta de mitos antigos e modernos. É um católico que critica o clero do seu tempo, acusando-o de desconhecer a condição humana, mas é também um crítico insistente e sem medo da ideia de progresso, “a grande lei das sociedades modernas”, e da própria modernidade, que considera um tempo fútil, um “reino de bárbaros” embrutecidos e despreocupados, que não conhecem o conceito da irreversibilidade e tem por Deus o Dinheiro. A modernidade não é laica, é anticristã; e é governada por um “Partido intelectual” que controla as universidades, as revistas, os jornais, a opinião, e que, através da opinião, condiciona a política e os decisores das políticas.

Foi há 120 anos, mas parece que foi ontem…

Péguy era um socialista cristão, um patriota francês da Terceira República que, pela leitura mística e a peregrinação interior, evoluiu para o nacionalismo e para o catolicismo.

A Paixão de Cristo é para ele, o ponto-chave da grande História de Deus e dos Homens, e a chama da fé nova parece abri-lo a fecundos atrevimentos interpretativos. Cristo é, para ele, a suprema comunhão com a miséria e o desconcerto do mundo; e o cristão está ligado ao corpo de Jesus, de um modo físico, místico, misterioso, que faz com que o sofrimento, a humilhação, a doença e a morte, o projectem para junto Dele na noite do monte das oliveiras.

Embora o tema perpasse em toda a obra poética de Péguy, é no volume Clio 1 – Dialogue de l’histoire et de l’âme païenne, (um texto póstumo publicado pela primeira vez em 1955), que encontra a sua expressão mais acabada. Recém-convertido (o texto original é de 1909), Péguy mergulha aí no “mistério central do cristianismo, na encarnação redentora”; e com o à-vontade que só a Graça da fé profunda explica, avança por cima de quase vinte séculos de teologia e exegese polémica de Doutores da Igreja e filósofos agnósticos para, como Inácio de Loyola, se meter na pele de Cristo nas horas terríveis de Getsemani. Depois, melhor que muitos teólogos, chega à razão da terrível agonia e tristeza do Deus feito Homem nas Suas horas finais, da “Tristis, tristes usque ad mortem” do Evangelho de Mateus. Diz Péguy que Cristo estava assim porque sabia que o seu sofrimento salvaria muitos, mas que não salvaria todos; e que muitas almas se perderiam, apesar daqueles últimos momentos em que, aparentemente, “o Pai o abandonara”.

Quando li Péguy pela primeira vez, há cerca de sessenta anos, foi esta a ideia que mais me tocou e impressionou. Até hoje.

Papini e a última esperança

Escreveu recentemente o Papa Francisco que o profeta Elias foi talvez o primeiro a descobrir que o nosso Deus era sempre “um Deus das surpresas, até mesmo na forma como passava e se fazia sentir” – não no vento impetuoso, não no terramoto, não no fogo, mas na brisa suave –, e que era para essa “voz subtil do silêncio” que devíamos “preparar os nossos ouvidos”.

Mas estaria a ouvir bem Giovanni Papini – um outro teólogo improvisado e também de conversão tardia, como Péguy – quando, contrariando dois mil anos de Teologia, apresentou uma possibilidade final para a História humana e divina capaz de responder à tristeza de morte do Cristo do poeta francês e de pôr fim aos suplícios dos habitantes dos infernos de Dante?

Em 1953, Papini, autor da Storia di Cristo e escritor católico consagrado, propunha, como possibilidade, o perdão ou a amnistia geral de todos os condenados ao Inferno, incluindo do próprio Lúcifer, por um acto de infinita misericórdia de Deus. O livro, Il Diavolo, foi um êxito editorial, com edições sucessivas (doze em dois meses), e levantou grande polémica, com as autoridades eclesiásticas a hesitar entre a surpresa e o choque perante a heresia do escritor católico. Papini, que nascera em Florença em 1881, “autodidata, pobre, malvestido, solitário, esquecido”, e que estava então quase cego e paralisado, aguardou disciplinadamente o veredicto eclesial, argumentando que não queria fazer doutrina ou substituir-se à doutrina da Igreja e aos seus ensinamentos, mas acrescentando que aquilo que “não era lícito ensinar como verdade certa e segura”, podia e devia ser “admitido como esperança humana e cristã”.

Um Inferno vazio e um Céu cheio? Quem sabe, talvez o aviso no início da peregrinação dantesca para que os que ali entravam abandonassem toda a esperança pudesse ser revogado e ficasse a misericórdia última, a misericórdia do “Deus das Surpresas”, movido pela infinita tristeza do seu Filho na noite de Getsemani.

Seja como for, e ainda que, por vezes, não consigamos ouvir a voz subtil de Deus Pai ou a oiçamos mal, sabemos que só irmanados no Horto a Cristo e à humanidade que sofre, só fazendo o que depende de nós e entregando a Deus o que Dele depende, podemos ser resgatados.

https://observador.pt/opiniao/quatro-autores-em-tempo-de-pascoa/

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Carlos Marques - Tanta verdade junta mereceu publicação – take XV

Carlos Marques, 27/08/2022


(Este texto resulta da resposta a um comentário a um artigo que publicámos de Eamon McKinney ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

O comentário, de Paulo Marques, era o seguinte:

“Eu gosto muito que me digam que há um lado onde os capitalistas não são abutres nem oligarcas, mas são muito preocupados com famílias e empresas. É bonito ter fé no capitalismo, uma vez que, ao contrário da pandemia, é um fenómeno natural inevitável.
Não sei o que os convence que há aliados, e não parceiros de conveniência, mas deve alimentar bem não só a convicção, mas a barriga. Afinal, estão preocupados quando é a deles, não é verdade?”

Estátua de Sal, 28/08/2022)


A propaganda começa logo nas palavras. Cá são “empresários”, lá são “oligarcas”. Cá são “democracias liberais” (mesmo quando matam tanta gente, como o apartheid de Israel), lá são pelo menos “regimes” ou “brutais ditaduras” (mesmo que garantam dos melhores níveis de desenvolvimento humano na região comparável, como Cuba). etc.

Ao entrar no debate, em que o “moderador” colocou a questão nestes termos, e o 1º interveniente os repetiu, quando chega a vez do comentador ligeiramente discordante (porque na TV comunista não entra, e quem não repetir a propaganda do regime é “populista” ou “putinista”), já não consegue usar outras palavras, é forçado a jogar no campo adversário com as chuteiras sem pitons.

Já não há trabalhadores, há “colaboradores”. Já não há patrões, há “CEO”. Os lucros são uma “virtude”, os salários (de quem fabricou o produto e criou a riqueza) são um “custo”. A soberania é “má” porque *ai ai o Orbán*, a violação da nossa Constituição e obediência a NÃO eleitos é “boa” porque *ai que bom vem de Bruxelas ou de Frankfurt*.

O gás Russo é uma “dependência”, o petróleo saudita é “verde”, bastando para isso ter uma tachinha extra ou entrar num qualquer “mercado de carbono”, que é um eufemismo para: quem acredita nisto é estúpido que nem uma porta, e se a maioria continuar a acreditar, o NeoLiberalismo continuará rei e senhor, como se tivesse sido já o fim da história.

Não é que a Rússia ou a China não sejam Capitalistas, mas há diferentes formas e níveis de Capitalismo. Há o de Capitalismo de Estado, o mais industrializado, o regulado e soberano, o (re)produtivo. Pode-se ter um SNS, uma Escola Pública, um sistema de pensões asseguradas. O Estado pode planear isto e aquilo até certo ponto. Ou pelo menos definir objectivos e promover certas áreas.

Ou então há aquilo que o Ocidente tem para impor à força, via troikas, austeridades, TINAs, sanções, e guerras. Não há plano, há cada vez menos Direitos, não há soberania nem regulação, o especulador decide, o “governador” obedece, e o povinho baixa a bolinha. Estou a descrever o Portugal de agora, ou o Portugal pré-1974? Já nem dá para distinguir bem…

Igualdade? Desenvolvimento Humano? Distribuição e redistribuição? O que é isso?! Não está no dicionário do lobby da Uber, Google, Santander, Raytheon e companhia. E se certos partidos “irresponsáveis” se atreverem a fazer frente ao estado a que isto chegou outra vez, toda a activar a maior máquina de propaganda e manipulação da história, e dar “maioria” de 41% àqueles que sabem bem obedecer à “iniciativa” certa.

Queres melhor saúde? Toma lá um sub-financiamento crónico propositado.
Queres uma carreira? Toma lá uma cativação, e 500 horas extra, e não te queixes.
Queres investimento? Toma lá um ajuste directo para a negociata do amigo/conhecido.
Queres menos impostos? Toma lá um seguro que é para pagares o dobro.
Estás com pressa? Toma lá uma lista de espera.
A coisa está preta? Toma lá uma urgência fechada.
O quê? a Esquerda tem soluções baseadas nas ideias de Arnaut? Isso é “irresponsável”! Vamos antes para eleições!

E nas eleições, o que é que o povinho faz? Junta-se em rebanho para votar no lobo com a falinha mais mansa. E não é só cá. Nunca é só cá. A ignorância em massa, e a necessidade de pertencer (votar no que pode ganhar em vez de arriscar ser diferente), falam mais alto em todo o lado. O colectivo é histérico, estúpido, e suas emoções facilmente manipuláveis. Está cansado demais depois do trabalho. Vai comer tudo o que a Manipulação Social lhe der a comer no “noticiário” das 20h.

Se for preciso, até se consegue convencer a maioria que uma invasão dos EUA é “democracia” e que uma suástica tatuada é símbolo de “liberdade”. Que um adolescente na Palestina é um “terrorista”, e que os cereais em Odessa são para “matar a fome em África”. Que entregar refugiados a quem os persegue são “valores europeus”, e que o Putin está em simultâneo a ocupar com tropas e a bombardear a mesma central nuclear.

Vejam só que até convenceram a maioria de que o €euro é uma coisa boa. Realmente, quando a palha é boa e há tanto burro, tudo é possível. Portugal não aumenta o seu PIB/capita em valor real (descontando o deflator) desde 2007. Não converge com a média da Europa desde 2000. Está endividado até ao pescoço em todas as dívidas: privada, pública, e externa. Desde os anos 80 que não havia tantos pobres: 4.4 milhões (antes de apoios sociais **). Podia ser pior, diz um propagandista rosa, olhando para os 4.9 milhões em 2013… Trabalha-se para ser pobre. Vai tudo corrido pelo valor do salário mínimo. E ainda há o descaramento de dar uma ajuda aos empresários devido ao “aumento” anual. Poder negocial? Sindicalismo? Contratos colectivos? Nem vê-los! Isso são coisas da Esquerda “sectária” e “extremista”.

**

E agora temos de empobrecer ainda mais. Dizia uma agente do Pentágono… quer dizer, uma comentadora na CIA… quer dizer, na CNN: “temos que perceber que é preciso este esforço”.
É preciso? Para quem? Para quê? É só records de lucros por todo o lado! Armas, armas, e mais armas. “Temos” que passar frio e fome, austeridade e desigualdade, tudo para que mais um tatuado com uma suástica receba o seu HIMARS que *ai ai tão bom que é, todos temos de saber que é tão bom* – sponsored by Lockeed Martin. Made in USA.

Os países inteiros são “ditaduras”. Os países destruídos são “democracias”. A resistência dos invadidos é “terrorismo”. Os crimes de guerra dos invasores são… não são nada. E ai de quem sequer falar neles. Será silenciado com dólares, ou com cassetetes. Quem faz um Assange, faz dois ou três. E se andarem onde não devem, ops, lá vai uma “bala perdida” para a cabeça da Shireen Abu Akleh.

E lá continuam eles com a propaganda que começa nas palavras: não é apartheid, é “única democracia liberal do Médio Oriente”. Não é terrorismo económico que mata crianças à fome, são “sanções para castigar os Talibã. Não é roubo colonial, é “operação militar especial de tropas da defensiva NATO para garantir o petróleo e os cereais da malvada Síria”. Não é racismo sistémico, são “forças da ordem que têm de nos salvar de terríveis criminosos colocando um joelho no seu pescoço”. Não é invasão NAZI em violação de acordos de PAZ contra civis do Donbass 9 dias antes da Rússia ter de intervir, é “defesa da democracia Ucraniana contra os separatistas pró-Russos”. E não é massacre de refugiados escuros na fronteira de Espanha, é “um sucesso do aliado Marrocos”.

Eles bem tentam, e infelizmente com elevadas taxas de sucesso, mas não é possível enganar toda a gente o tempo todo. Depois, eles comem tudo e não deixam nada, e mandam-nos comer brioches caso nos falte o pão. Se tentarmos a revolução pacífica, eles vão chamar-lhe “poder caído na rua”.

Se nos sentarmos no chão e a polícia disparar balas de borracha e nos tentar atropelar, vão-lhes chamar “forças da ordem” a nós nos chamarão “violentos arruaceiros” (aqui estou a citar a RTP em relação à Catalunha). Vão querer ainda mais para os ricos e ainda menos para os pobres, e chamar-lhe “a new era of sacrifices and the end of abundance” (agora cito Macron, o tira-olhos dos coletes amarelos). Já não dá para aguentar mais. Queriam um Great Reset, mas acho que vão é ter uma Great Guillotine. Totalmente provocada e justificada. Tal como a intervenção Russa.

https://estatuadesal.com/2022/08/28/tanta-verdade-junta-mereceu-publicacao-take-xv/

domingo, 28 de agosto de 2022

Armando Rosa - A Guerra na Ucrânia e os “Putinistas” – Uma justificação afinal necessária

* Armando Rosa, in MaisRibatejo.pt, 27/08/2021

Sempre pensei não ser necessário justificar as minhas posições gerais sobre a guerra que passa na Ucrânia. Não só por pensar ser por muitos conhecida a minha maneira de estar como elemento de uma comunidade, política e ideologicamente comprometido com a cidadania ativa, mas não afiliado a organizações partidárias ou outras igualmente castrantes do pensamento livre e autónomo. Nunca pactuando com políticas e governos de cariz autoritário ou para-fascista e sempre tendo em conta que os regimes de democracia representativa não são imunes à ditadura do capitalismo e dos mercados, bem como à corrupção desenfreada que geralmente os atola, sempre procurei balancear as minhas opções sociais e políticas, protegendo a minha vida privada, mas, ao contrário de muitos que me podem estar a ler, nunca deixando de dar a minha opinião sem olhar a possíveis consequências que, num meio pequeno e conservador, são sempre escrutinadas e, por vezes mal interpretadas.

Desde que tomei algumas posições públicas sobre o conflito, procurando relativizar o seu contexto e as suas origens,  comecei a sentir o afastamento e muita critica por parte de pessoas consideradas com opinião e conhecimentos acima da média e que faziam parte de um mesmo circulo aonde se perseguem alguns objetivos de cariz interventivo e de cidadania, cuja linha mestra de ação se pode considerar progressista. A alteração do relacionamento foi tal que cheguei a receber aconselhamentos e até intimações mais ou menos veladas, no sentido de ser mais contido ao expressar as minhas opiniões, por eles consideradas heréticas e desfasadas do senso comum, diga-se, discurso maioritário e oficial. Parece não terem conseguido superar alguns preconceitos russofóbicos, ou, então, a superficialidade dos seus conhecimentos, que apenas coletam nas doses maciças da comunicação mainstream oficial e manipulada, não lhes permite outro entendimento.

É de facto triste e preocupante ver pessoas tidas como inteligentes e com informação acima da média, enveredarem por posições que chegam a atingir extremos inquisitoriais e de censura, posições essas que alguns já teriam combatido durante os tempos remotos do anti fascismo e da luta pela liberdade de expressão, mas que presentemente parecem adotar, seguindo a onda persecutória instituída.

No que às minhas posições diz respeito, tenho apenas a dizer a alguns pseudo moralistas, cujo único critério para apoiarem um energúmeno chamado Zelensky, na condução do seu povo à miséria e do seu país à destruição, é o de haver um invadido e um invasor, digo eu que esperava muito mais deles. A falta de informação desculpa-se a quem a ela não tem acesso, mas não se pode aceitar da parte de quem tem formação e meios para aprofundar certos temas que são determinantes para o nosso futuro individual e coletivo.

Nunca relativizei qualquer massacre ou violência gratuita por parte deste invasor, como também não o fiz em relação aos inúmeros crimes praticados pelo invadido. A violência da guerra não pode ser relativizada. É sempre uma catástrofe e uma barbárie. Estranho é que, alguns moralistas do anti-imperialismo, da anti-guerra, ditos de esquerda e que se afirmam pela autodeterminação dos povos, desculpabilizem e relativizem tudo o que se passou na Ucrânia entre 2014 e fevereiro de 2022. Também há os que disso tomaram conhecimento depois de alertados e andem agora numa correria de leituras e de busca de opiniões convenientes, para poderem dizer algo de útil justificativo da sua posição e ignorância inicial.

Os “putinistas”, Zelensky e o amor à  guerra.

Em relação aos indevidamente chamados de putinistas e à denúncia que também fazem da liderança corrupta e criminosa  na Ucrânia, há que ter em atenção que:

  1. Os que apoiam incondicionalmente o poder corrupto na Ucrânia, sabem bem que quem o manipula e quem suporta toda esta guerra e o seu prolongamento, é o único interveniente que está a sair beneficiado e a fazer uma guerra por procuração, sem baixas, nem problemas políticos internos, os EUA.
  2. Criticar um estado e o seu presidente por ser um estado xenófobo, pró nazi e governado por um conjunto de agentes de oligarcas corruptos, não significa ser-se apoiante do invasor e do seu mentor, Putin. Mas é isso que os manipuladores e superficiais querem fazer crer, atirando pedras e invectivando a quem apresenta factos comprometedores para o pensamento oficial.
  3. Os que agora idolatram Zelensky, são os mesmos que aceitaram passivamente e ainda justificam todas as ações terroristas e belicistas patrocinadas por países protegidos pela bandeira da NATO e subservientes aos EUA. Essas ações já provocaram mais de um milhão de civis mortos só neste século, mas, aos seus olhos, parece serem considerados seres humanos de um nível inferior. Não são loiros de olhos azuis…
  4. Os que agora pretendem santificar o comediante corrupto (ver os Pandora Papers), nunca se questionaram sobre a ausência de iniciativas para a negociação da paz, a partir da segunda semana da guerra, quando ainda era possível. Nem questionam o efeito das medidas sancionatórias que, pretensamente seriam dirigidas ao invasor, mas que começam a chegar, lenta mas dolorosamente, às nossas portas e a casa de todos os infelizes povos que atualmente são dirigidos por uma seita manhosa e incompetente, nos gabinetes de Bruxelas.
  5. Os que justificam a necessidade desta guerra para conter os ímpetos imperialistas de Putin, não indicam aonde ou quando isso foi por ele escrito ou dito. Embarcam apenas na narrativa conveniente de quem quer manter o status unipolar da hegemonia no mundo.
  6. Tentar entender as causas desta invasão não é o mesmo que apoiá-la. Não procurar o acesso à informação dos dois lados é deixar-se manipular pela parte a que se está afiliado. A preguiça intelectual e a ignorância são, frequentemente, a origem de muitas certezas.
  7. Os que endeusam Zelensky, desconhecem que foi ele que publicou a Lei dos Povos Autóctones em 2021, lei essa que restringiu direitos de cidadania e de apoio aos russos do Donbass e da Ucrânia e que fez agravar a guerrilha independentista que provocou mais de catorze mil mortos e centenas de milhares de feridos e deslocados, desde 2014.
  8. Não procurar analisar os factos, tal como nos são apresentados dos dois lados, é presumir que só um é detentor da verdade. Endeusar uns e diabolizar outros é a maneira mais confortável de opinar. A clubite doentia dos adeptos de futebol, também reage dessa maneira.
  9. Também há quem chame de putinistas aos que denunciam como medida pró fascista, atentatória dos mais elementares direitos humanos e de cidadania, o encerramento de fronteiras para os cidadãos russos. Esquecem o artigo 13 da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
  10. Quem, indiscriminadamente chama de putinistas a quem vê a guerra pelos dois lados, é quem diz que o relatório da Amnistia Internacional sobre a utilização de civis como escudos humanos, é manipulação ao serviço dos russos, mas que o relatório da mesma entidade sobre Bucha, esse sim, é factual e credível. Como crentes que são, só as “verdades” vindas do ocidente, são credíveis e sem contraditório atendível.
  11. Acusam de putinistas os que, apesar de nunca terem alinhado com as posições russas, perseguem objetivos tendentes ao fim do conflito e denunciam a despudorada mistificação informativa controlada pelos ucranianos e pelos seus aliados mais influentes. Esses ditos putinistas, não se resignam em apenas ficar com a informação oficial publicada e acrescentam aos seus conhecimentos os que têm origem em fontes alternativas de ambos os lados. Divulgar informação proveniente de fontes pro russas ou independentes, é ser putinista?
  12. Os que apelidam de putinistas todos os que se manifestam contra a continuação da guerra e querem o seu fim, são os mesmos que apoiam incondicionalmente a continuação dos massacres de parte a parte e a completa destruição de um país. Estão ao serviço do único benificiário desta guerra, os EUA.
  13. Também há quem chame de putinista a quem considera risíveis as missas diárias do charlatão comediante e onde ele costuma imbecilizar a audiência e ameaçar com o inferno quem não der peso ao cesto das esmolas. Nas últimas eucaristias tem querido convencer os crentes de que a central de Saporija está na iminência de rebentar porque é bombardeada pelos russos que lá estão instalados desde Março. E quem não acredita é putinista…

Há solução política para esta guerra ou só terminará com uma derrota militar de um dos contendores?

Não sou um especialista em qualquer assunto de guerra, mas tenho, como todos nós, uma perceção e um entendimento sobre a evolução possível de um caminho para a paz, coisa que parece ser apenas o desejo dos acusados de putinistas. Qualquer pessoa medianamente informada, sabe que o único caminho para terminar esta guerra é o político e será o das negociações e das cedências repartidas.

O território da Ucrânia atualmente ocupado pelos russos excede significativamente a área que totalizavam, antes da invasão, as províncias do Donbass em luta pela independência/autodeterminação. As cedências terão que ser mútuas e será a altura de a Ucrânia (com ou sem Zelensky) aceitar a desanexação dessas províncias e concordar na sua autodeterminação, com a correspondente autonomia administrativa. Em contrapartida a Rússia cederia todos os restantes territórios ocupados, e que não lutavam pela independência à altura do início da invasão, inclusivamente a central nuclear de Zaporijia. Seriam criadas mais duas (?) nações autónomas e independentes, depois de sujeitas a referendos supervisionados pela ONU. Isto sou eu a sonhar.

Os belicistas alinhados do ocidente apontam a derrota incondicional da Rússia como o objetivo final e único, sabendo perfeitamente que isso nunca será possível sem que a guerra local se transforme numa guerra global, com fortes possibilidades de atingir a fase nuclear.

Pelos vistos é para isso que estão a trabalhar… os condutores do rebanho, os seus ajudantes de campo e a carneirada que os segue.

Não lhes auguro um bom futuro. A eles e a todos nós.

Santarém, Agosto de 2022


Nota: Alguns temas aqui referidos são mais desenvolvidos em dois artigos anteriores, um e Março e outro em Junho, de que seguem os respetivos links:

“A Guerra na Ucrânia e os Novos Inquisidores”: https://maisribatejo.pt/2022/03/14/a-guerra-na-ucrania-e-os-novos-inquisidores/

“A Guerra na Ucrânia e os Superficiais”: https://maisribatejo.pt/2022/06/03/a-guerra-na-ucrania-e-os-superficiais/

 in https://estatuadesal.com/2022/08/28/a-guerra-na-ucrania-e-os-putinistas-uma-justificacao-afinal-necessaria/

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

António Jorge - A língua afiada… e a filosofia de caserna

 

* António Jorge

A língua afiada… e a filosofia de caserna
- A luz nas palavras…

Existem pobres… até de espirito e economicamente tão pobres… que temem perder o que não tem… o que outros tem… a riqueza de alguns, que é sinónimo da pobreza dos muitos famintos… mas de verbo democrático… e fácil… e em vernáculo, (gíria) e que acham e acreditam ainda… que se os comunistas chegassem ao poder… lhes iriam tirar… e nacionalizar a sua miséria… o que não tem… nem nuca tiveram… e que nunca terão… e o que precisavam de ter: bom senso, juízo critico e político, lucidez, liberdade suficiente para ter capacidade de escolher e mesmo de pensarem e saberem o que de facto são… pobres movidos pela manipulação de desejos irrealizáveis e por pura ilusão!

A primeira condição para se ter… é a de ter capacidades acima da média… e até mesmo excelência… ou então ser filho de familia rica e herdar.

- Todos sabemos que já ninguém enriquece a trabalhar… pelo contrário… empobrecemos trabalhando…
Confundem o que outros tem… como seu… pelo que vêem no telemóvel… e imaginam e acreditam que vivem melhor que os seus avós… que coitados nunca tiveram telefone… e não tinham sensações de ter… apenas viam e viviam da realidade… e quando precisavam telefonar, iam à cabine… ou ao merceeiro do bairro.

Por outra... os meios para manipular ainda eram escassos… era a Rádio… e que poucos tinham… e muitos por nem sequer terem energia no lar, a luz… para iluminar a casa e o espirito. 

O “lumpemproletariado” consumido e sem meios… neste tipo de sociedade de consumo modernizada e preparados para defender a guerra… e o aumento do custo de vida para aumentar a miséria… antes que a sua seja nacionalizada… pelas falsas sensações provocadas pela realidade… de vida virtual e a moral da imoralidade cultural e social em que vegetam!

António Jorge - editor
Porto e Luanda

Emigração - um texto de Filipe Tourais

* Filipe Tourais

Filipe Tourais está 📷a sentir-se positivo. 2022 08 24  
·
Bolas, que isto agora é tudo em grande. Há pouco, como faço sempre ao pequeno-almoço, liguei a rádio. Estava a dar aquele programa da rádio pública que nasceu quando o Passos Coelho convidou a malta jovem toda a emigrar e surgiu a necessidade de dourar a pílula, uma rubrica de entrevista a casos de sucesso, sempre de sucesso, de portugueses que resolveram o seu problema de falta de oportunidades, que deixou de ser seu quando se piraram daqui.

Ali ninguém é emigrante. Relatam-se “experiências internacionais”, nada a ver com ser emigrante e  ter que emigrar porque o país ficou como ficou, que também não é tema abordado. Quem está mal que faça como os entrevistados, todos de sucesso, não há que ter medo, que seja “resiliente”, agora toda a gente é,  e parta “à aventura”. Depois é questão de esperar por um contacto para contar na rádio de viva voz as suas “experiências internacionais” de felicidade absoluta, sem nunca falar dos que ficam nem do país maravilhoso que deixaram para trás e lhes desperta saudades várias, a família, a gastronomia única que temos, o sol, as paisagens, os pasteis de nata, essas coisas que depois os avós gostam de ouvir aos netinhos que este país avançado até pôs a falar na rádio.

O programa é todo ele “pela positiva. Não se diz “mal” de nada e é muito moderno e cosmopolita até na gramática. Os entrevistados falam “desde” ou “a partir” das cidades onde estão a viver. No tempo em que havia emigrantes é que se mandavam beijos de Paris e não a partir de Paris ou desde Paris. Evoluímos tanto, caramba.

Peço desculpa. Caramba, não, agora diz-se brutal, fantástico, incrível. A expressão “caramba” tem uma genética muito negativa de inconformismo, perplexidade e, em casos extremos a evitar pelo seu potencial de perturbação da normalidade, até de protesto.   E toda a gente sabe que as coisas são como são, que vivemos na mais absoluta normalidade apesar da resiliência que às vezes as situações nos impõem.

No bloco noticioso que passou um pouco antes, falaram do caso de uma resiliente. Mais uma.  Uma grávida que foi obrigada a fazer 150 Kms em 5 horas de ambulância para dar à luz devido ao dilúvio de encerramentos de urgências obstétricas  que está a afectar a região da grande Lisboa e, como qualquer dilúvio que se dê ao respeito,  decerto estará relacionado com aquilo das alterações climáticas e assim. O episódio conta-se em duas penadas. A rapariga  fez o trajecto por duas vezes. Primeiro, foi encaminhada para o Hospital de Santarém. Azar nítido. Garantiram ao pessoal da ambulância que havia obstetra mas esqueceram-se que não havia anestesista. Enfim. Nada que não se resolva. Teve que ser reencaminhada para as Caldas da Rainha e foi aí que a Benedita finalmente nasceu.

Aqui, perdoem, mas parece-me um caso flagrante de falta de pontaria. Faziam mais uns quilómetros e a Benedita teria nascido na Benedita. Faria imensamente mais sentido uma Benedita nascer na Benedita do que ter nascido no Seixal, onde reside a mãe e onde não nasceu por mera sorte. Bom, se houvesse obstetra e se houvesse anestesista na Benedita. Há "casos pontuais" em que felizmente não há. Daí ter feito a viagem que a salvou de nascer no Seixal.

Coitadinha da Benedita. Se isto continuar a descambar ao ritmo a que está a descambar, vai ter que ser mesmo muito resiliente  e partir para onde possa enviar beijos desde ou a partir do palco da sua “experiência internacional”. Ela depois conta-nos tudo na rádio. Eu só não me conformo com aquilo de não a terem levado à Benedita para nascer Benedita. Ó pá. Não se fazia. Andavam apenas mais 19,3 Kms e a notícia "positiva" da Benedita da Benedita faria  muita gente feliz. A vida pode ser tão simples. Um gajo tem é que ser positivo e abster-se de reparar que  a filha mais pequenina da normalidade também já partiu para a sua experiência internacional. Não emigrou, atenção. A palavra acho que até já nem existe.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Filipe Chinita - este

* Filipe Chinita
15/08/2022, 13:50
 
este
.
1.
este
que
só sempre
te amou
nunca
nenhum
outro 'crime'
a.
cometendo
.
fj
12.51
15.08.2022
,
2.
este
que
tu dizias
tanto trabalhar
sem horas.horas infindáveis
.
3.
este
em quem
tu tanto! 
orgulho
tinhas
.
4.
este
que tu um dia 
disseste
tanto 
amar
5.
este
de quem
só! em campo maior.2012
disseste... enfim!
compreender
a grandeza
.
6.
este
que
amavas...
escrevesse
.
7.
este
que te levou p'lo mundo 
sempre de mão dada
transparente olhar 
frontal
.
8.
este
que só contigo
se dignou
casar
porque 
a teu pedido
.
9.
este
que só
por puro amor
paixão de ti.toda
- mui para além
de qualquer
sexo -
fez
.
10.
pois 
que (tu) eras a cara
da minha
cara
.
ó 
italiana
.
11.
este
em cujo colo
sempre choraste o abandono...
das (tuas) infantis mágoas
familiares
.
12.
este
que desde logo 
tomou as tuas filhas
como suas... sempre 
as amando
.
13.
este
que teu
e sempre 
vosso
foi
.
e
é
.
14.
este
que nunca em parte alguma 
da (sua) vida - nem
ante fascistas -
renegou
os (seus) nobres 
e mais altos 
ideais
.
comunistas
.
15.
este
que sempre
em todos! os seus escritos
te amou
.
16.
este 
a quem 
deste os anos
mais felizes da sua vida
de descida à (nossa)
pequena praia
.
contigo
.
17.
e
só contigo
.
18.
e que sem ti
não mais lá
voltará
.
19.
este 
que te deu 
e vos deu 
tudo!
de 
si
.
20.
este 
que tudo tinha!
.
e sem nada
deixaste
.
sempre
teu
fj
13.01
15.08.2022
de 
um.sò fôlego
que me seria interminável
caso... eu quisesse
15/08/2022, 19:10
Enviaste
https://www.facebook.com/groups/177516199108469/permalink/1952229444970460/
Enviaste
🌺
16/08/2022, 09:44
Filipe
Filipe Chinita
ou 
da sempre procura 
da beleza em tudo! 
no mínimo 
gesto 
de 
ti
.
fj
09.31
16.08.2022
sem isso...
não há ainda... propriamente
vida... que de humana
se possa... 
chamar
16/08/2022, 11:07
Filipe
Filipe Chinita
do 
filosófico
real.concreto
.
atentem!
.
eu 
não escrevo um só texto 
para que dele 'gostem' 
mas 
só.apenas
porque ele 
me expressa e reflecte 
concreta.mente
neste exacto 
momento
.
fj
10.42
16.08.2022
o
vosso gostar
só poderá vir
à posteriori
ou não
.
e de.pende 
só de 
vós
_____________________________
não
não vos cortejo o aplauso
mas apenas... a vida
se possível em vós
a revolução
o amor 
o eros
e
a paz

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

António Guerreiro - Crimes de guerra

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA - Crimes de guerra, por António Guerreiro 12 de Agosto de 2022

O que são “crimes de guerra” — como os que têm sido apontados à Rússia, mas também à Ucrânia — no tempo da guerra técnica, da massificação e mecanização do combate conduzido a uma distância cada vez maior (que as aproximações não anulam) e em que a aniquilação e a destruição se tornaram eminentemente impessoais? A resposta é simples e dolorosa: a actual categorização de “crimes de guerra” não é mais do que um vestígio piedoso de uma ética que os mecanismos gigantescos da guerra actual tornaram completamente anacrónica: a ética guerreira fundada em regras que podiam ser as do ódio pelo inimigo, mas sem que, pelo menos num nível superestrutural, deixasse de haver a afirmação de outros valores.
Não começou agora esta experiência da guerra em que tudo é reduzido à categoria de material, numa guerra de materiais e, num grau crescente, de armas imateriais. A Primeira Guerra Mundial foi muito traumática exactamente porque inaugurou esta nova forma de belicismo. E, num fragmento de Minima Moralia, Adorno sintetiza assim a lição da Segunda Guerra Mundial: “Se a filosofia da história de Hegel tivesse abrangido a nossa época, as bombas-robots que eram os V2 de Hitler teriam o seu lugar entre os factos empíricos que ele [Hegel] considerou que exprimem o estado alcançado pelo Espírito do mundo”. E, ampliando esta ideia de que o “espírito do mundo” pôde ser visto montado nas asas de um foguete sem cabeça, e não num cavalo (como o viu Hegel), Adorno tira a “satânica” conclusão de que o “sujeito” desapareceu — já não há piloto no avião, já não há uma pessoa detentora da arma. Muita energia foi gasta pelos sujeitos “para que já não exista o sujeito”, diz Adorno.
Não há exemplo mais eloquente deste desaparecimento do sujeito (e, sem sujeito, onde está a o crime e o criminoso de guerra?) do que a execução de um inimigo, sem protocolos judiciários e reduzido à condição de simples alvo vulnerável, mesmo que se esconda nos antípodas. Foi o que aconteceu recentemente ao líder da Al-Qaeda, o egípcio Ayman al-Zawahiri, morto por um drone, no Afeganistão. Um drone, na definição técnica que podemos ler em Théorie du drone, de 2013, um livro essencial para percebermos as características das guerras actuais, da autoria de um investigador em filosofia no Centre National de la Recherce Scientifique chamado Grégoire Chamayou, é uma câmara voadora de alta resolução, telecomandada e equipada com um míssil. Chamayou também o designa como um OVNI, isto é, um objecto violento não identificado que pulveriza completamente as categorias clássicas que definiam a guerra, incluindo as próprias categorias de acção e lugar. O que é um lugar onde decorre a guerra e onde é que uma acção se realiza (a acção de matar, por exemplo) quando essa acção se estende entre pontos tão distantes como uma sede da CIA, em Washington, ou uma base militar no Nevada e uma aldeia do Afeganistão? O drone predador, que substitui a guerra por uma caça ao homem, fica evidentemente fora da equação dos “crimes de guerra”. É a arma da impunidade absoluta: mata sem que se cometa crime e sem que chegue a haver guerra. Do ponto de vista de um tradicional ethos militar, o drone é a arma dos cobardes: não requer bravura nem espírito de sacrifício e erradica totalmente a exposição à violência por parte de quem o comanda. Quem o usa é completamente invulnerável.
O livro de Chamayou encerra com um capítulo que avança com uma hipótese sinistra: a de que os drones passarão a ser telecomandados nos laboratórios de investigação militar por robots. Esta “robótica letal autónoma” não é ficção científica, é o resultado de todo o conhecimento e energia despendidos para que “já não exista o sujeito”, como previu Adorno. Os drones accionados e telecomandados por robots não requerem a presença do humano em nenhum momento da operação, nem acima dela. São as máquinas que tomam a decisão de matar, já não há ninguém a carregar no botão. Uma das vantagens desta robotização que expulsa o humano é que se tira o tapete a quem tem contestado a utilização dos drones. E os mais veementes nessa contestação, diz-nos Chamayou, nem sequer foram os pacifistas, foram os pilotos da aviação militar, os “cavaleiros do céu”, essa casta superior que de repente se viu desapossada da sua nobreza, baseada no ethos guerreiro, isto é, no heroísmo, na gravidade e na virilidade de que ele sempre se serviu.
“Crimes de guerra”? Que conversa tão antiga, tão mole, tão destituída de sentido quando percebemos o que é a guerra actual.

https://www.publico.pt/2022/08/12/culturaipsilon/cronica/crimes-guerra-2016694

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Filipe Chinita - humilhação


*  Filipe Chinita
08/08/2022, 09:23

humilhação
.
reduziram-me 
a sempre! 'humana' vida
à humilhação suprema 
de me deixarem 
sem casa
.
sem 
a minha única casa 
.
sem
um único centimo!
.
- e até! 
sem os meus 
velhos carros -
de uma
'inteira' 
vida
casa
(e vida)
cheia... de tudo! 
de 
mim.e de nós!
.
isto...
na 'coragem'!
- nunca 
em mim pensada possível 
depois de 20 anos! -
.
de 
já depois 
do abensonhado 
'estado democrático' 
e(m) seu sistema. de sem 
pesos.nem balanças 
de uma 'justiça' 
cega
me haver 
deixado 
viver 
desde 
o novembro de 2015
como 
prenda de aniversário
dos meus 60 anos
reduzido...
de à liberdade!
de a 300 euros 
mês
.
que 
outra humilhação... maior 
me quereis 
(pois) 
dar
?! 
.
senão... 
própria 
vida e morte
de cão
de rua
.
mijando 
pelas esquinas
e defecando 
por onde
calha
______________________
ainda me falam
de abril...
.
mas 
de qual abril?!
.
sem corar.em
de vergonha
_________________
que se foda!
tal estado
dito
democrático
.
que eu (apenas)
pelo in.comum
de tudo! 
sou
.
como sempre
fui
.
dando tudo!
ao manifesto
.
fj
08.41
08.08.2022
de que mais 
me quereis e podeis (pois) humilhar
na minha sempre.... 
cabeça! levantada... 
mesmo que... 
de corpo d.espojado
pelo inaudito... chão
dos dias
.
ó 
sacanas! 
sem nome
sem cara
e sem 
lei
.
que 
a matilha 
dos cães de rua - como eu -
desprotegidos de tudo!
vos volte... a morder 
os calcanhares 
quando 
deles fugir.des
cagados de 
'divino'
medo
.
de 
abocanhados 
- pelo 
desconhecido 
da vida e da morte -
ser.des
.
cobardes! que sois
10/08/2022, 11:42
Filipe
Filipe Chinita
claro 
que amo 
estas minhas cousas 

amados objectos de escrita.s

mas... 
amo-te mui mais
a ti.ó humana
ó humano

onde 

até
sob.re 
o (teu) corpo
poderia escrever

o desejo
o amor
ou
o eros 

que 
sob.re 
ti

humano

vai 
em  mim

humano
10/08/2022, 13:03
Filipe
Filipe Chinita
eu 
vermelho.
que sou contra 
todo.s o.s poder.es
- excepto o dos sovietes -
não posso 
deixar 
de 
amar 
todos 
os marginais
toda 
a marginalidade
dos 
revoltados
humildes  
orgulhosos
pobres
humilhados
desde que 
não façam
pessoal 
mal
algum 
ninguém
nem 
a cousa alguma
.
e
sejam
por dentro
todos bons
e cheios...
de paz
.
fj
12.47
10.08.2022
10/08/2022, 15:26
Filipe
Filipe Chinita
eu
vermelho
.
sabes...
não sei... quando 
voltaremos a ver 
os sovietes
.
sabes... 
qual o nosso 
endógeno.histórico
- e não dialéctico -
mal
?!
é 
que 
toda a gente 
nos deve! 
nós...
nunca.nada 
devemos 
ninguém
.
nem 
mesmo... aos nossos
que tudo de si 
nos deram
e se
doaram
.
pior ainda...
(nem) nunca erramos
.
mesmo quando
repetindo 
sempre
os 
sempre
mesmos
erros 
de sempre
.
abraço
deste vosso
.
fj
15.12
10.08.2022
ah!
não aprendemos! com os erros
como sempre dizemos 
dever aprender
mesmo quando repetindo sempre
- como quem bate no peito -
o aprender.aprender
sempre
.
ou
como 
de há muito digo:
precisamos de uma cura de peso
e de humildade (material
histórico/dialéctica)

Carlos Esperança O soldado Moura e o desastre de Mopeia – Crónica

*  Carlos Esperança - 

Naquele sábado, 21 de junho de 1969, o Batelão Chupanga fazia mais uma travessia do baixo Zambeze entre a localidade que lhe deu o nome e Mopeia.

Ficou registado que eram 17H30 quando o Chupanga, apinhado de tropas e viaturas que vinham de Lourenço Marques para a província do Niassa, atravessava o rio Zambeze, começou a meter água e se virou rapidamente.

Arrastou no naufrágio centena e meia de homens que faziam a travessia e seguiram para as águas revoltas com as 30 viaturas que traziam.

Mais de meio século depois, o maior desastre da guerra colonial está esquecido e apenas vive na memória dorida dos que aí perderam amigos e de raros familiares dos que então pereceram. Hoje, já nem a guerra se condena e, muito menos, se referem as vítimas que provocou.

Por amarga coincidência, dois soldados eram, como eu, do Bcaç. 1936, exportados para Moçambique “na defesa da civilização cristã e ocidental”, na linguagem pia do cardeal Cerejeira, ou na “defesa do nosso Ultramar infelizmente perdido” na definição profana dos nostálgicos do Império.

O Alcino Moura, da Companhia de Malapísia, tinha ido buscar o Unimog 411, de que era condutor, e que se afundou enquanto se agarrou à guitarra emprestada que o ajudou a chegar à margem. Foi um dos 54 náufragos que se salvaram e voltou a Malapísia.

O Moura não teve a mesma sorte. Eu esperava-o. Era um dos meus camaradas, um dos que no jargão militar era meu soldado. O nome de batismo era António Manuel Moura de Almeida, conhecido apenas por Moura.

Sempre gostei dele, talvez por lhe reconhecer uma estranha capacidade para desaparecer quando era preciso. Era divertido, fazia truques de ilusionismo e era capaz de hipnotizar alguns soldados. Nasceu para o espetáculo e não para a guerra.

Já não me recordo do pretexto que usou ‘para prestar serviço’, durante curto espaço de tempo na Companhia de Massangulo e ignoro o motivo que lhe permitiu o internamento no hospital, logo transferido de Vila Cabral para Nampula e, três meses depois, para Lourenço Marques. Chegaram-me ecos da vida agitada, do envolvimento com a mulher de um major, de outras aventuras, de peripécias dignas do ilusionista, de alguma que lhe antecipou a alta médica e o regresso.

O Moura voltava ao Catur quando desapareceu nas águas do Zambeze. Deixou viúva a jovem que ficou na aldeia com uma filha sua. Era o único casado. Não tinha mais de 23 anos e já tinha mais vidas vividas do que muitos durante uma vida longa.

Assisti à morte do Melo Dias, ao seu último suspiro da vida que deixou sob o rodado da Berliet, ao estertor nos meus braços, depois de ter antecipado a saída da messe para a escolta que o aguardava, mas vi-lhe o corpo rasgado pelo peso da camionete, ali dentro do quartel, o rosto afogueado, a vida apagada na incúria de quem exigiu ir sentado no para-lamas, e adivinhei-lhe os órgãos esmagados quando vi um testículo projetado, preso ao corpo pelo cordão espermático. Foi duro, mas vi o corpo sem vida.

Do Moura nunca digeri a morte ou fiz o luto. Imaginei durante anos a aflição da asfixia, o corpo frágil a lutar para se manter à tona, o macabro truque de esconder a jangada, a luta contra a água e crocodilos, a respiração suspensa, a agonia, a morte sem corpo que a certificasse. Ficou apenas nome numa folha de passageiros, uma guia de marcha que levou, memórias dissolvidas na água.

Pensei durante anos na mulher e na órfã que não conheci e ele nunca mais viu, no rio caudaloso e nos crocodilos que o habitavam, na falta do corpo e nos instantes breves do sofrimento. Acabaram-se os truques com cartas e sessões de hipnotismo para gáudio da malta, as perguntas sobre onde estaria o Moura e o Braga a dizer, já se desenfiou.

O Moura foi um dos 101 desaparecidos no naufrágio, mas era o amigo e camarada que devia regressar em dezembro com os que sobrámos dos que fomos em outubro de 1967, embarcados no cais de Alcântara e aí descarregados 26 meses depois.

Guardei para os pesadelos a memória dolorosa do camarada perdido, em silêncio como soe suceder para o que mais dói. Foram mais de quatro décadas a querer teimosamente esquecer até ao dia em que falei nele ao Pinto e me queixei da mágoa. Que raio de ideia!

O Daniel Pinto era um homem bom, sensível e discreto, uma espécie de telefonista do Batalhão. Era o alferes de Transmissões, o chefe dos alcoviteiros que sabiam primeiro as mortes e escondiam segredos das operações militares de que todos íamos sabendo.

Quando lhe referi a mágoa que persistia da memória que a ambos há de acompanhar, a idealização da viúva e da órfã que não conheceu o pai, ouvi este inesperado desabafo:

- Tu recordas o Moura, mas não imaginas que, no regresso, procurei a família, que era próxima da minha zona, para lhe dar os pêsames. Encontrei a sogra e a mulher dele com a filha ao colo.

Sei como o abalou a cena e não lhe fiz mais perguntas sobre o quadro cuja moldura nos fez regressar à savana do Niassa e rever a guerra que deixámos e não saiu de nós.


Coimbra, agosto 11, 2022

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terça-feira, 9 de agosto de 2022

Angola | CRIME E TRAIÇÃO NA ALTERNÂNCIA POLÍTICA – Artur Queiroz

 terça-feira, 9 de agosto de 2022

Artur Queiroz*, Luanda

No ano de 2014 tive a oportunidade de entrevistar, algures em Portugal, o antigo inspector da PIDE/DGS Óscar Cardoso, fundador dos Flechas e profundo conhecedor da UNITA de Jonas Savimbi. Um dia inesquecível. Saí de Luanda no voo da noite e à chegada a Lisboa liguei o telefone. Encontrei uma mensagem de minha irmã: “Vem que a Mamã faleceu”.  Minha querida Mãe tinha falecido ao fim da tarde do dia em que parti. 

No aeroporto de Lisboa estava à nossa espera alguém da confiança de Óscar Cardoso, que nos levaria ao local da entrevista. Face à tragédia, o José Ribeiro quis abortar o trabalho. Recusei. Fomos ao encontro do entrevistado. Já com tudo concluído (texto mais gravação de som e imagens) ainda tive tempo de me recolher uns minutos ante o caixão da Mamã. Não houve tempo para mais, porque tive de seguir logo para o aeroporto e regressar a Luanda.

Hoje mando o texto da entrevista que nunca foi para o ar na RNA e na TPA, por razões que desconheço. Mas saiu no Jornal de Angola. Leiam que vale a pena. Para que todos saibam qual é a alternância que a UNITA oferece às angolanas e aos angolanos.

O 25 de Abril em Portugal pôs fim à tenebrosa PIDE que perseguiu e assassinou milhares de lutadores pela liberdade, mas pouco se sabe para onde foram muitos dos chefes e agentes da polícia política fascista e colonial portuguesa. Numa quinta algures em Portugal o Jornal de Angola entrevistou aquele que foi o segundo homem da hierarquia da PIDE em Angola e que fundou os “Flechas”, Óscar Cardoso.

Diamantes e Marfim Fizeram Muitos Amigos à UNITA

Óscar Cardoso foi inspector-adjunto da PIDE/DGS. Era o número dois da organização em Angola. Nas savanas do Cuando Cubango fundou os Flechas para lutarem contra os guerrilheiros do MPLA, que ameaçavam levar a guerrilha ao Planalto Central. Em 1976, Óscar Cardoso foi para a Rodésia de Ian Smith onde criou forças especiais para enfrentar os guerrilheiros da ZANU, comandados por Robert Mugabe. Um ano depois foi para a África do Sul organizar as forças de Savimbi na guerra contra Angola. Pela primeira vez, depois da “Revolução dos Cravos” em Portugal e a extinção formal da polícia política portuguesa, um alto responsável da PIDE fala do percurso de Savimbi ao serviço de Portugal e do apartheid.

Jornal de Angola - Foi para Angola como militar ou já ao serviço da PIDE?

Óscar Cardoso - Eu era um homem de confiança do regime e a PIDE soube que o director da polícia em Angola, São José Lopes, estava metido numa conspiração com a Rodésia e a África do Sul para proclamarem a independência do território. Com São José Lopes estavam pessoas com grande poder económico na província. Era preciso travar aquilo. Fui para Luanda com essa missão. Nessa altura já era inspector.

JA - Conseguiu travar essa conspiração?

OC - A minha missão era secreta, mas São José Lopes soube tudo ainda eu não tinha desembarcado em Luanda. Por isso, quando cheguei, mandou-me para o Cuando Cubango alegando que havia movimentos subversivos na região que era preciso travar. Quis ver-se livre de mim, rapidamente. Na verdade, as forças do MPLA usavam o norte do Cuando Cubango para se infiltrarem no planalto central. Eu estudei antropologia na Escola Colonial e interessei-me pelos khoisan, os chamados bosquímanos. Conheci-os ao vivo. Quanto à conspiração, eles pararam na altura, mas nunca abandonaram o projecto. Logo a seguir ao 25 de Abril, retomaram-no.

JA - O que concluiu com os seus estudos?

OC - Os bosquímanos foram empurrados para os locais mais inóspitos e por isso odiavam todos os que não eram da tribo. Verifiquei que eram pisteiros espantosos. Liam os rastos como nós lemos um livro. Sabiam se as pegadas eram de homem ou mulher, se iam carregados ou não. Um dia até me disseram que a pista era de uma mulher grávida. O administrador Amaral Pontes tinha uma grande paixão pelos bosquímanos. Chamavam-lhe Tata Kun. Um dia decidimos fazer deles uma força armada no Cuando Cubango. Como as suas armas eram os arcos e flechas, pus-lhes o nome de “Flechas”.

JA - Como conseguiam enfrentar forças armadas só com arcos e flechas?

OC - As flechas eram armas terríveis. Eles conhecem um tubérculo altamente venenoso que fica uns dias em infusão. Depois embebem as pontas das flechas naquele líquido e quando acertam nas presas, elas ficam paralisadas. Nem os elefantes resistem ao veneno. Os bosquímanos conhecem a noite tão bem como o dia e atacavam o inimigo quando estava a dormir. Seguiam o lema do general chinês Sun Tse Wu, que existiu há mais de 3500 anos: sejam mais rápidos que o vento e tão misteriosos como a mata. Sejam destruidores como o fogo e silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como o trovão.

JA - Os Flechas no Leste também eram bosquímanos?

OC – Não. Dado o êxito dos Flechas no Cuando Cubango, decidimos criar unidades em todos os postos situados no teatro de guerra. Em Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) foram recrutados os antigos guerrilheiros que se entregaram ou foram feitos prisioneiros. Depois também recebemos um grande reforço dos guerrilheiros da UNITA comandados pelo major Sachilombo, formado na academia militar de Nankin e que na época era o número dois da UNITA.

JA - A UNITA foi criada pela PIDE?

OC - Não, a UNITA foi criada pelo Savimbi e mais alguns companheiros, que receberam treino político e militar na China. Nós conhecíamos o perfil de todos e quando se instalaram na Frente Leste fomos estabelecendo contactos. Eles estavam a ser muito úteis, porque combatiam as forças do MPLA. Mas depois infiltraram-se na zona do Munhango e começaram a incomodar a actividade dos madeireiros. Nessa altura fizemos o que qualquer força de inteligência militar faz: estabelecemos contactos com Savimbi e os seus oficiais.

JA - Está a falar da “Operação Madeira”?

OC- Exactamente. O pessoal da PIDE e do comando da Frente Militar Leste começou a estabelecer contactos com Savimbi e os seus oficiais. Conseguimos resolver o problema dos madeireiros. Logo nos primeiros contactos verificámos que o Savimbi tinha muito gosto em trabalhar connosco. O general Bettencourt Rodrigues, um militar extraordinário, deu luz verde e a UNITA passou a combater ao lado das tropas portuguesas.

JA - Quem fez os contactos com a UNITA no Munhango?

OC - Alguns nomes são públicos, mas eu não vou repeti-los. Por uma questão de ética só dou eu a cara. E refiro o senhor general Bettencourt Rodrigues porque ele nunca escondeu o seu papel na Operação Madeira. O Savimbi estava cheio de vontade para combater as forças do MPLA e nós fizemos-lhe a vontade.

JA - Savimbi fez alguma exigência para lutar ao lado das tropas portuguesas e dos Flechas da PIDE?

OC - Fizemos um acordo, ele combatia os guerrilheiros do MPLA e nós dávamos em troca armas, apoio logístico e médico. O Savimbi esteve várias vezes internado no Hospital do Luso (Luena). Ele tinha problemas de saúde que se agravaram mais tarde. Recebeu tratamento várias vezes num hospital da África do Sul que tinha uma área secreta, destinada exclusivamente ao pessoal da UNITA.

JA - Depois da “Operação Madeira” a UNITA fez operações contra a tropa portuguesa?

OC - Fez algumas, para limpar a imagem. Quando se soube que Savimbi estava do nosso lado, perdeu prestígio em África. E ele queria mostrar que eram mentiras para o prejudicar. Fez uma operação que quase me custou a vida. Mas Deus salvou-me.

JA - Não me diga que Deus estava ao lado da PIDE?

OC - Pensem o que quiserem, mas eu fui salvo por Deus. Quando os comandantes Sachilombo e Pedro foram para Gago Coutinho, algum tempo depois começaram a circular notícias que davam a UNITA como uma organização ao serviço da PIDE. Então o Savimbi, que era muito traiçoeiro, resolveu fazer uma operação para limpar a imagem negativa. Armou-me uma cilada. Queria matar-me, matar um coronel da Força Aérea da África do Sul e o major Sachilombo.

JA - O que aconteceu?

OC – O Savimbi mandou dizer que queria enviar um grupo grande de guerrilheiros para nos ajudar na III e na IV Região do MPLA. Disse que o comandante Nzau Puna ia comandar esses grupos. Montámos a Operação Viragem e tratámos de todos os pormenores. O ponto de encontro era perto de Cangamba. Nós mandámos Flechas por terra em direcção ao local. Eu e o major Sachilombo fomos num helicóptero sul-africano, pilotado por um coronel. Aterrámos a cinco quilómetros do objectivo, num pequeno planalto, como estava previamente combinado. Veio ao nosso encontro um homem andrajoso, mas com as mãos e as unhas bem tratadas. Fiquei desconfiado com isso.

JA - Retiraram da zona?

OC - Desconfiei e manifestei as minhas desconfianças ao major Sachilombo. Mas decidimos acompanhar aquela figura estranha. Dois quilómetros à frente, encontrámos os nossos Flechas. Estavam todos sem armas. Disseram que os oficiais da UNITA lhes pediram para guardarem as armas porque estávamos numa operação de amizade e não fazia sentido andarem armados. Fiquei ainda mais desconfiado. O guia indicou-nos um morro a cerca de dez quilómetros. Era lá que estavam os homens da UNITA e o Savimbi. Nesse momento o major Sachilonmbo chamou-me à parte e disse para sairmos imediatamente dali. Dissemos aos homens para se dispersarem e esperarem a chegada do helicóptero.

JA - Como escaparam?

OC - Partimos apressadamente para o helicóptero e quando levantámos voo pedi ao piloto para sobrevoar o morro onde estava Savimbi e os seus homens. Mas o piloto disse que tinha pouco combustível e era melhor regressar a Cangamba para abastecer. Chegámos a uma hora que já não dava para regressar. No dia seguinte, ao nascer do sol, partimos para o local. Estava tudo limpo, mas sobre o morro caía uma chuva torrencial. Não se via nada. Demos algumas voltas até que o nosso radiotelegrafista em terra nos disse que quase todos os Flechas tinham sido mortos pela UNITA. Disse-lhe para desligar o rádio e esconder-se. Montámos uma operação de resgate. Os Flechas em terra tinham sido esquartejados. Foi horrível. Se não fosse aquela chuva hoje não estava aqui.

JA - Acabaram aí as relações com a UNITA?

OC - Continuaram, mas quisemos saber o que tinha acontecido. Os seus homens disseram que o Savimbi decidiu montar a Operação Baile para limpar a imagem da UNITA. Queria apresentar a minha cabeça, as do major Sachilombo e do coronel sul-africano. Além disso ficava com o helicóptero como troféu. Assim provava que nada tinha a ver com a PIDE e ainda acusava os portugueses de estarem aliados à África do Sul. Dizer ao mundo que tinha morto em combate o fundador dos Flechas era um grande trunfo. E fazia o papel de justiceiro em relação ao major Sachilombo.

JA - Essa foi a única operação contra as forças portuguesas?

OC - Ainda fizeram mais uma ou duas operações contra as forças armadas portuguesas, sempre para mostrar que a UNITA lutava contra nós. Eu alertei para este comportamento, mas nada pude fazer quando, depois do 25 de Abril, a inteligência apresentou Savimbi como o “muata da paz” e a UNITA como o “movimento dos brancos”.

JA - Ninguém o quis ouvir?

OC - Não, eu estava de licença graciosa em Portugal e apanhei lá os acontecimentos do 25 de Abril. Perdi os contactos e não pude agir. Aquela ideia de fazer do Savimbi o grande dirigente angolano da paz foi um erro trágico. Perderam os angolanos e os portugueses. Depois fui preso no Forte de Peniche. Estive lá dois anos. Comandei o forte e depois fui prisioneiro. Mas nunca ninguém me tocou com um dedo. Só quiseram destruir-me psicologicamente. Resisti.

JA - O senhor era considerado da linha dura da PIDE?

OC – O que é isso da linha dura? Nunca torturei ninguém. Nunca toquei com um dedo num preso. Havia um dirigente estudantil que andava a fazer asneiras. Foi preso. Quando o interroguei percebi que ele não valia nada. Telefonei à mãe para ir buscá-lo à sede da PIDE. No dia seguinte todos os estudantes souberam o que aconteceu e ele perdeu o prestígio. Depois do 25 de Abril reapareceu e hoje é um grande político. Mas confesso que, por vezes, era preciso dar uns calores.

JA - A PIDE tinha infiltrados nos movimentos de libertação?

OC - Sim, nós tínhamos e eles também tinham pessoas infiltradas nos nossos serviços.

JA - Depois do 25 de Abril foi julgado em Tribunal Militar?

OC - Fui julgado e no meu processo pessoal constavam relevantes serviços prestados à pátria, no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Apanhei dois meses de prisão por não me ter apresentado semanalmente no posto da GNR, como tinha sido determinado pelo Tribunal civil. Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril soube que a UNITA tinha torturado e assassinado o Soba Matias no Cuando Cubango. Fiquei em choque. Ele era um valioso combatente ao serviço de Portugal.

JA - Quem era o Soba Matias?

OC - Um grande homem. Um dia foi ter comigo ao posto da PIDE em Serpa Pinto (Menongue) e disse que andavam homens da UNITA a fazer mal ao povo. Pediu-me oito armas para ir apanhá-los. Confiei nele e entreguei-lhe as armas. Apanhou os guerrilheiros da UNITA. Desde então, foi um combatente extraordinário. Depois do 25 de Abril os homens da UNITA foram à sua aldeia e mandaram-no arriar a bandeira portuguesa. Ele recusou. Torturaram-no até à morte e esquartejaram-no para servir de exemplo ao povo. Foi terrível.

JA - Mesmo sabendo disso, foi trabalhar com Savimbi na África do Sul?

OC - Eu tive de fugir de Portugal. Passei 730 dias preso em Peniche e quando saí em liberdade condicional, participei em algumas operações do ELP e do MDLP. Fui denunciado e os revolucionários queriam prender-me outra vez. Quando o autocarro se atrasa 15 minutos ficamos logo nervosos. Eu passei 730 dias da minha vida no Forte de Peniche. Não queria ficar preso nem mais um minuto. Contactei os meus amigos da Rodésia e fui para lá. Saí de Portugal clandestinamente e em Madrid os meus amigos do MDLP arranjaram-me um passaporte. Eles tinham muitos passaportes, em branco. Tive que arranjar um nome falso.

JA - Como passou a chamar-se?

OC - Rogério Ramon Pinto de Castro. Cada nome destes correspondia ao meu pseudónimo nas organizações a que pertencia: Exército de Libertação de Portugal (ELP), Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), Frente de Libertação dos Açores (FLA) e Frente de Libertação da Madeira (FLAMA). Preenchemos o passaporte e um amigo fez um carimbo com uma batata para parecer verdadeiro. Assim embarquei para Salisbúria (actual Harare, capital do Zimbabwe).

JA - Em Portugal participou nos atentados do MDLP e do ELP?

OC - Ajudei a fazer atentados. Mas só atacámos as sedes do Partido Comunista. Ainda tentámos salvar Portugal, mas quando precisámos de um presidente, o general Spínola fugiu para Espanha. Percebi logo que aquilo não ia dar nada.

JA - António Spínola não era o vosso chefe?

OC - Nunca foi. O ELP foi fundado pelo coronel Santos e Castro. O MDLP foi criado pelo comandante Alpoim Calvão. A FLAMA tinha pouco peso e a FLA não ia a lado nenhum. A CIA pediu-me para ir aos Açores ver se havia possibilidades da independência do arquipélago. Mas isso só era possível se derrotássemos os comunistas. Moscovo estava por trás do 25 de Abril. Eles queriam Portugal na órbita comunista por causa das colónias. Mas percebi logo que não íamos a lado nenhum. Então decidi oferecer os meus préstimos à Rodésia.

JA - Trabalhou com a CIA?

OC - Sim, trabalhei, mas só depois do 25 de Abril. Fui aos Açores ver se havia possibilidade de declarar a independência do arquipélago. Os meus contactos foram muito importantes, mais tarde. O meu amigo Daniel Chipenda foi abandonado pelos americanos depois da independência de Angola e eu meti-o na CIA.

JA - Antes de irmos à Rodésia: qual foi o papel de Mário Soares no Verão Quente?

OC - Serviu-se de nós. Ele queria poder a todo o custo. Apoiou os operacionais do ELP e do MDLP, trabalhou com a CIA, fez tudo o que Carlucci lhe mandou fazer. Quando conseguiu o que queria, abandonou os amigos. É muito parecido com o Savimbi. Por isso, sou capaz de me sentar à mesa com todos, menos com os socialistas.

JA - Qual foi o seu papel na Rodésia de Ian Smith?

OC - Organizei as forças especiais, para enfrentarem os guerrilheiros da ZANU. Eu ganhei muita experiência em Angola e acabei por criar “Flechas” na Rodésia. Um ano depois, fui-me embora. Eles tratavam-me como se fosse um criado. Nunca fui tão maltratado. Meti-me num avião e aterrei em Joanesburgo. Viram o apelido Castro no meu passaporte, o meu rosto barbudo e disseram que era um espião cubano. Pedi um rand para telefonar ao brigadeiro Ben Roos. Recusaram. Ofereci dez dólares rodesianos por um rand. Nada. Depois veio um oficial, ouviu a minha história e deu-me um rand para telefonar. Falei com o brigadeiro e ele mandou logo os seus homens tirar-me do aeroporto.

JA - Foi assim que ficou a trabalhar com os sul-africanos?

OC - A minha ideia era essa. Ben Roos disse-me que a África do Sul estava a preparar a batalha final contra Angola e que iam ganhar. Convidou-me para ser o oficial superior de ligação com os homens da UNITA e do Batalhão Búfalo. Aceitei. Mas alertei imediatamente o brigadeiro para a personalidade do Savimbi. Ele já sabia tudo. Foi assim que fui parar a Oshakati, onde montei o comando. E comecei a trabalhar com o pessoal da UNITA.

JA - Quem era o seu contacto?

OC - Era o senhor Isaías Samakuva, um homem muito apagado e extremamente limitado. Tinha pouco rasgo. Não é fácil trabalhar com pessoas que não percebem nada do que lhes dizemos. Expliquei-lhe que a África do Sul queria que a UNITA servisse de tampão aos avanços da SWAPO. Mas o Savimbi tinha-lhe dito que a UNITA estava a lutar contra os cubanos e os russos e ele repetia esse discurso por tudo e por nada. Mas não tomava qualquer decisão. 

JA - Nessa altura falou com Jonas Savimbi?

OC - Muitas vezes. Mas ele nada tinha a ver com as operações, os sul-africanos não lhe davam confiança para isso. Em Oshakati e no Rundu só tratávamos de inteligência, de operações militares e de sabotagens. O Savimbi era o político, nada tinha a ver com estas coisas. A base militar principal era na Jamba. Os sul-africanos e os americanos criaram ali aquela estrutura, grande em qualquer parte do mundo. Lá nada faltava. Mas eu estava mais ligado à inteligência e às operações. No início, o objectivo era travar a SWAPO. O Savimbi aceitou as regras, mas cedo mostrou que o seu único pensamento estava no combate ao MPLA para um dia chegar ao poder em Angola. Além de traiçoeiro, ele era de uma ambição sem limites.

JA - Qual era a sua missão?

OC - Fazia tudo. Vezes sem conta fui levar armas e munições à fronteira. Transportei dezenas de feridos. Eles eram retirados de Angola em bicicletas e chegavam à fronteira num estado lastimável. Quase sempre tinham que ser mandados para o Rundu. Quando o Hospital de Ondângua não respondia à gravidade dos feridos, iam para Pretória, para o Hospital Voortekerhoogte. Ali os serviços secretos criaram uma área só para o pessoal da UNITA. Ninguém tinha acesso a essa zona. Médicos, enfermeiros, técnicos e pessoal de apoio eram todos credenciados pelos serviços secretos.

JA - A UNITA usava armas sul-africanas?

OC - Nem pensar. A África do Sul não podia arriscar tanto. Montámos um esquema perfeito. Comprávamos armas de origem soviética à Hungria e a UNITA dizia que aquele material era apreendido às FAPLA nos combates. Todas as armas eram soviéticas. Entregávamos o material em Omungwelume, no Marco 14. Ali era o centro logístico. No Rundu tínhamos o grande aeroporto onde chegavam os aviões carregados de material. Nesta altura, também estava activo o Batalhão Búfalo, treinado pelo meu amigo Jan Breytenbach, um grande militar sul-africano. E tínhamos Flechas do Cuando Cubango. Hoje vivem algures na África do Sul, abandonados por todos.

JA - Na Jamba encontrou aqueles políticos portugueses que iam ver Savimbi?

OC - A Jamba era mais para mostrar a organização da UNITA e eu trabalhava como operacional. Ali estavam todos seguros, os aviões da Força Aérea Angolana não tinham capacidade de ir lá bombardear e regressar às suas bases. Os portugueses iam mais para tratar de negócios. Os diamantes e o marfim fizeram muitos amigos à UNITA.

JA - Sabe o que aconteceu com o avião de João Soares?

OC - Claro que sei. O avião era de um grande amigo meu, Joaquim Silva Augusto, comerciante no Rundu. Ele como piloto não era grande coisa. Carregaram os porões com pontas de marfim e com diamantes. Levantaram voo, mas o Augusto não conseguiu aguentar o aparelho no ar. Foi terrível, ficaram todos em mau estado. Foram transportados para o Hospital Verwoerd, onde a minha mulher era enfermeira. Só sabíamos que o Augusto estava gravemente ferido. A minha mulher foi imediatamente para o hospital, mas não encontrou o Augusto, estava a fazer exames de Raios X. Os outros tinham os olhos negros, estavam irreconhecíveis.

JA - Como soube que um dos feridos era João Soares?

OC - A minha mulher soube que os feridos eram todos portugueses. No dia seguinte já encontrou no hospital a mãe e a esposa de João Soares. Ele estava gravemente ferido. O nosso amigo Augusto, também. O tráfico de diamantes e de marfim daquela vez correu mal.

JA - João Soares diz que isso é invenção do Jornal de Angola.

OC - O avião estava cheio de marfim e diamantes. Perguntem ao nosso amigo Augusto, que ele confirma tudo. A UNITA roubava os diamantes em Angola e matava os elefantes. Depois os amigos iam à Jamba buscar o material.

JA - É verdade que os sul-africanos pediram a Mário Soares apoio à UNITA, em troca de lhe salvarem o filho?

OC - Desconheço. O Mário Soares não foi à África do Sul ver o filho ao hospital. Maria Barroso esteve lá muitos dias. A esposa de João Soares também. É uma situação interessante. Eu trabalhava com os sul-africanos na ligação com a UNITA. E Mário Soares apoiava a UNITA em Portugal. Estávamos unidos no mesmo objectivo. Mas para mim, esse homem foi o que de pior aconteceu à minha querida pátria.

JA - Pertencia às Forças Armadas Sul-Africanas?

OC - Trabalhei sempre com a inteligência militar. E sou coronel na reforma da Força Aérea da África do Sul. Fui condecorado. Quando chegou a altura de ir para casa perguntaram-me se queria uma pensão mensal ou se queria receber tudo de uma vez. Preferi o dinheiro todo. Deram-me 100.000 euros. Fui muito bem tratado na África do Sul. Participei nas negociações que conduziram à retirada das nossas tropas de Angola.

JA - Como oficial das forças sul-africanas?

OC - Sim, nessa condição. Era perito em inteligência militar. Reuni-me com os oficiais angolanos e tratámo-nos todos com respeito. Do lado angolano estava gente com muito valor. Retirámos as nossas forças para além do paralelo determinado. Mas a guerra através da UNITA continuou até à Batalha do Cuito Cuanavale. Foi a batalha final. Os angolanos saíram vitoriosos. Tenho de reconhecer que foram heroicos, bateram-se pela pátria deles, como ninguém. São os vencedores.

JA - Tem alguma pensão do Estado Português?

OC - Tenho uma pensão, porque servi Portugal no Exército, na GNR e na PIDE/DGS. Fui condecorado e louvado. Mas agora andam a cortar-me a pensão. Estou muito triste com o presente de Portugal e apreensivo quanto ao futuro. Há demasiada corrupção. Deve ser o país mais corrupto do mundo. Depois as manobras do super capitalismo estão a lançar as pessoas na pobreza.

*Jornalista

à(s) agosto 09, 2022 

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sexta-feira, 1 de julho de 2022

Carlos Coutinho - Biografando

* Carlos Coutinho
  

   TIVE nos tempos de antanho um amigo chamado Mário-Henrique Leiria que conheci no “Montecarlo”, um antigo café de Lisboa, ali ao Saldanha, onde ele às vezes também aparecia, acompanhado por uma jovem meio esgalgada de quem nunca cheguei a saber o nome e que não foi capaz de pronunciar qualquer palavra ao pé de mim. Depois de dar “duas voltas ao mundo”, demorando-se no Brasil, em Macau, em Xangai, por “ligações” que ele definia como “astrológicas”, instalou-se em Carcavelos com “o Tejo inteiro à frente dos olhos”. 

   Já trazia acabado o seu livro mais famoso, “Contos do Gin-Tonic” e, antes de morrer em 1980, com 57 anos, ainda publicou “Novos Contos do Gin”. Se eu quisesse agora escrever a sua biografia em modo surrealista, bastava-me seguir com rigor absoluto os passos tergiversantes da sua vida pluricontinental. 

   Passou pela Escola Superior de Belas Artes, mesmo ao lado do Chiado, donde foi expulso em 1942 “por motivos políticos inconfessáveis”. Participou nas atividades do Grupo Surrealista de Lisboa, entre 1949 e 1951. Em 1962 foi preso, por participação na "Operação Papagaio”, uma intervenção surrealista contra o fascismo que a PIDE facilmente gorou. 

   Na Primavera de 1962, um ano após o início da Guerra Colonial, um grupo de surrealistas do qual faziam parte Virgílio Martinho, António José Forte, Manuel de Castro, Mário-Henrique Leiria e outros, concebeu um plano estapafúrdio: atacar o Rádio Clube Português, prender e amarrar o contínuo de serviço e substituir a bobina com o programa noturno “Companheiros da Alegria” por uma outra contendo o hino nacional, marchas militares e, a cada cinco minutos, notícias sobre movimentações militares para derrubar o Governo. Terminava convocando a população a deslocar-se à Baixa de Lisboa para saudar os militares vitoriosos e o advento da democracia. 

   Durante os interrogatórios na PIDE, aconteceu por diversas vezes os beleguins saírem dos “gabinetes de investigação» e virem rir às gargalhadas para o corredor. Não houve torturas nem se formou processo e foram confiscadas as armas reunidas para a execução do golpe. No seu livro “Prazo de Validade” (1998), Luiz Pacheco dá-nos a sua versão destes acontecimentos, não diferindo muito nos pormenores.

   Seguidamente, Mário-Henrique Leiria partiu para o Brasil onde desenvolveu várias atividades, como a de encenador e a de diretor literário da Editora Samambaia, regressando a Portugal em 1970, depois das tais “duas voltas ao mundo” que nunca me foi possível confirmar. Cá, colaborou com pequenos contos no suplemento “Fim-de-Semana” do jornal “República” e no semanário humorístico "Pé de Cabra". Também chefiou a redação de “O Coiso”, um semanário impresso nas oficinas do “República”, durante 13 semanas, em 1975. 

   Em 1976, “cheio de um certo fervor brasileiro”, aderiu de alma e coração ao PRP, talvez porque “já tinham passado uns bons 15 anos” sobre a entrega, em 1961, de um punhado de textos seus, alguns já publicados e outros ainda inéditos, para serem incluídos na “Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito”, organizada por outro Mário e ex-surrealista, o Cesariny de Vasconcelos. 

Os dificílimos últimos anos da sua vida, tolhido pela sua degenerescência óssea e caído na pobreza, foram decisivos na opção pelo clandestinidade da vida. Embora contrariado, viveu finalmente na casa materna, com a mãe e uma tia, ambas muito idosas, mas solícitas 

2022 07 01

Ricardo Araújo Pereira - Agasalhe-te, cidadão


*  Ricardo Araújo Pereira


cartoon de João Fazenda - rap bru

«Quando o Presidente da República disse que, nos próximos meses, “cada qual fará o esforço para não estar doente”, fui obrigado a reflectir e concluí, com vergonha, que nunca antes fiz esse esforço. Tenho vivido de forma inconsciente, sem me empenhar para não adoecer — e por isso tenho tido, como é evidente, algumas doenças. A culpa não é só minha. A ciência, estranhamente, tem dirigido a sua atenção para a cura de doenças, quando seria mais fácil e barato lembrar às pessoas que devem fazer um esforço diário para não adoecer. Se todos fizessem esse esforço, o SNS funcionaria muito melhor, ocupado apenas com os preguiçosos que não se esforçam o suficiente. Alguns levam o desleixo tão longe que até acabam por morrer, o que não deixa de ser justo. Eu tenho padecido de algumas maleitas, e até já fui submetido a operações cirúrgicas mais de uma vez, só para se ter uma ideia do meu desmazelo. Talvez não seja justo, aliás, usar o verbo padecer. Provoquei algumas maleitas, assim é que é. Quando era pequeno, não me esforcei o suficiente para evitar o sarampo, a papeira e a escarlatina. Mas a idade adulta, curiosamente, não dá a ninguém a maturidade suficiente para aperfeiçoar o esforço para evitar doenças. Tenho reparado que os idosos, uma faixa da população com idade para ter juízo, são dos que menos esforço fazem para não adoecer.

Algumas pessoas ficaram exaltadas com as declarações do Presidente, em clara desobediência a essas mesmas declarações. Marcelo pede a todos um esforço para evitar adoecer e imediatamente há gente que fica apopléctica. Mania de contrariar. Para mim, as declarações do Presidente pecam por defeito. Os cidadãos, querendo, podem contribuir para não sobrecarregar outros serviços do Estado. Além de se esforçarem para não adoecer, os portugueses podem fazer outros esforços úteis. Por exemplo, se as crianças fizerem um esforço para se instruir, precisaremos de menos escolas. E se os cidadãos fizerem um esforço para não litigar, acabam-se os atrasos na justiça. O português ideal não precisa de ir à escola, nem ao hospital, nem ao tribunal. Na verdade, o português ideal é um português defunto. Quando pomos os nossos compatriotas no Panteão, não estamos bem a homenageá-los pelo que fizeram quando 

1.7.22