Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 12 de julho de 2024
Tiago Franco - Morrer em Kiev ou desaparecer em Gaza
quinta-feira, 11 de julho de 2024
META vai limitar a utilização da palavra «sionismo» para esconder os crimes
11 DE JULHO DE 2024
A empresa de Zuckerberg não vai limitar, no entanto, a palavra «sionismo» se esta for elogiosa e faz uma premeditada confusão conceptual dizendo que esta está a ser usada para discriminar judeus e israelitas. Além do símbolo azul, a META adopta o lápis azul.
A partir de terça-feira, a META passou a limitar nas suas plataformas a palavra utilizada para caracterizar a doutrina racista e de limpeza étnica, o sionismo. A suposta justificação da empresa prende-se com o facto da palavra em questão perpetuar «estereótipos anti-semitas».
Segundo o comunicado do grupo de Mark Zuckerberg, a questão foi analisada no seu «Fórum Político», depois terem sido ouvidas «opiniões» e terem sido analisadas investigações «de diferentes perspectivas». Face a tal, diz o comunicado: «iremos agora remover o discurso que utiliza o termo “sionistas” em várias áreas onde o nosso processo mostrou que o discurso tende a ser utilizado para se referir a judeus e israelitas com comparações desumanizantes».
A empresa diz que a questão que surgiu durante o Fórum Político foi «como tratar as comparações entre termos de substituição para nacionalidade (incluindo sionistas) e criminosos (por exemplo, "os sionistas são criminosos de guerra")». Deste modo, consegue-se apreender que o foco da META é apagar os crimes promovidos pela Governo israelita movido pela doutrina sionista e branquea-los.
A justificação da dona do Facebook e Instagram visa, premeditadamente, criar uma confusão conceptual, já que é dito que «sionismo» é um ataque a outras pessoas «com base nas suas características protegidas, como a sua nacionalidade, raça ou religião».
De acordo com a mesma, foram supostamente consultadas «145 partes interessadas em representação da sociedade civil e do meio académico do Médio Oriente e de África, de Israel, da América do Norte, da Europa, da América Latina e da Ásia», sendo que os nomes não são revelados. As tais partes interessadas incluíram, alegadamente, «cientistas políticos, historiadores, juristas, grupos de direitos digitais e civis, defensores da liberdade de expressão e peritos em direitos humanos».
«Reconhecemos que não há nada que se aproxime de um consenso global sobre o que as pessoas querem dizer quando utilizam o termo "sionista". No entanto, com base na nossa pesquisa, envolvimento e investigação na plataforma sobre a sua utilização como termo de substituição para o povo judeu e israelita em relação a determinados tipos de ataques odiosos, iremos agora remover conteúdos que visem os "sionistas" com comparações desumanas», reitera a empresa.
Esta posição da META é um claro posicionamento num contexto de perpetuação do massacre que ocorre na Palestina. Importa relembrar que vários activistas pró-Palestina têm acusado a plataforma de censura por via do denominado «shadow ban», uma forma de limitar parcialmente um usuário ou o conteúdo de um usuário de forma a que não seja aparente a quem faz publicações. Face às acusações, a META em comunicado reconheceu que existiu limitações, mas que tal foi resultado de um «bug», ou seja, um erro involuntário e não premeditado das plataformas.
https://www.abrilabril.pt/internacional/meta-vai-limitar-utilizacao-da-palavra-sionismo-para-esconder-os-crimes
José Goulão - Aquilo era o retrato do inferno
(José Goulão, AbrilAbril, 11/07/2024)
Estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.
As palavras que encimam este
texto são do já saudoso Fausto Bordalo Dias no épico monólogo de Fernão Mendes
Pinto em «o barco vai de saída»; tiveram evocação recente não apenas pela
partida triste de tão emblemático e inconfundível cantor e autor mas também
pelo dramático, igualmente arrepiante e nada épico debate entre os dois
candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, Joseph Biden, pelo
Partido Democrático, e Donald Trump, pelo Partido Republicano; isto é, segundo
a praga dos comentadores que infesta os nossos dias, entre «a esquerda» e «a
direita».
Aquilo era o retrato do inferno,
não só porque entre os debatentes venha o diabo e escolha, mas também porque
estivemos perante a inquietante prestação dos dois putativos chefes do império
norte-americano, ou seja, do globalismo, do «mundo civilizado», os patrões dos
nossos políticos «vocacionados» para o poder, os donos das nossas vidas.
Achei prudente aguardar algum
tempo antes de abordar o tema, não pela complexidade e a profundidade do
conteúdo ideológico, intelectual, político e programático dos dois ogres;
esperei até ter uma ideia feita sobre as abordagens dominantes assumidas pela
comunidade dos comentadores, analistas, especialistas, politólogos e
cartomantes que transtornam os cérebros das populações submetidas ao «nosso
modo de vida», pelo menos dos cidadãos que ainda têm pachorra ou estômago para
se deixarem torturar por eles.
E estiveram uns para os outros,
candidatos e analistas, domésticos ou da estranja «civilizada». A indigência
pega-se, pelo menos foi o que demonstrou o tenebroso efeito em cadeia. Não
apenas porque a corporação do «comentariado» – parece que é assim que se
autodenominam – conseguiu encontrar matéria relevante no vácuo das ideias
expressadas pelos contendores, espremeu-se até para encontrar um vencedor e um
vencido, teorizou sobre as capacidades cognitivas de cada um, como se a
demência política pudesse ser aferida por uma qualquer escala científica. O
drama que tornou assustadoramente exponenciais as consequências da contenda
entre dois indivíduos sem carácter, esclerosados, irresponsáveis, ignorantes,
avatares de seres humanos degenerados, foi a maneira como este universo da
opinião única ignorou ou omitiu deliberadamente o que esteve e está
verdadeiramente e quase exclusivamente em causa nos episódios que envolvem os
candidatos e as próprias eleições presidenciais nos Estados Unidos da América.
Eles são os nossos chefes
Aquilo, o debate, era sem
qualquer dúvida o retrato do Inferno. O Inferno em que vivemos sem que muitos,
talvez a maioria, se dêem conta do risco de podermos transformar-nos em
poeiras radioactivas de um momento para o outro; o Inferno da vida que os
poderes representados por aqueles dois psicopatas nos impõem e garantem
continuar se as relações de forças internacionais e, sobretudo, a impaciência
activa dos povos do mundo não fizer desmoronar o império. Existem muitos
indícios de que ele já mal se aguenta de pé, mas não tenciona suicidar-se.
Ainda possui muitos recursos, explora sem reservas o ódio pelos seres humanos,
põe e dispõe das nossas vidas através dos métodos mais violentos e também mais
insidiosos, sem que se vislumbrem quaisquer limites para a sua sanha capazes de
o travar antes de chegar ao extremo de eliminar a vida no planeta.
Ainda há quem entenda estas
considerações como coisa de lunáticos, mas não percamos a noção de que o
simples facto de observarmos a colocação de marionetas transtornadas à cabeça
das coisas político-militares dominantes no mundo revela o grau supremo de liberdade
usufruído pelos monstros que, movendo-se silenciosamente em mundos
subterrâneos, conduzem a economia e as finanças globais. Esse poder real,
absoluto e incontestado serve-se da política e do militarismo como braços
visíveis, como centros de imposição comportamental, de manipulação e engenharia
social para transformar metodicamente os seres humanos em meros instrumentos ao
serviço de interesses que não são os seus, tornando-se até inimigos
involuntários de si próprios.
Joseph Biden e Donald Trump são
os nossos chefes visíveis. Para todos os efeitos, pensando apenas em termos da
ponta do iceberg dos poderes mundiais, são eles que mandam
na NATO, na ONU, na União Europeia, em cada um dos nossos
países que em tempos foram soberanos; que mexem os cordelinhos do terrorismo
transnacional «moderado», como a al-Qaida, o Isis e tantos outros heterónimos,
que fazem a guerra e decidem sobre a paz, que definem o que é a democracia e
como deve ser praticada, que funcionam como o alfa e o ómega do grande aparelho
transnacional de controlo mental, que impõem o mercado como a ditadura das
nossas existências, que espiam e se apropriam da nossa privacidade com métodos
e meios cada vez mais desumanos e sofisticados; que agem como arbitrários
«legisladores» e gestores da «ordem internacional baseada em regras», sistema
comportamental compulsório que subverte e impede o regular funcionamento do
direito internacional. São eles, em suma, o paradigma actual da nossa
democracia liberal, o «farol» da liberdade, dos «valores ocidentais», do
respeito pelos «direitos humanos», da «responsabilidade de proteger», através
da guerra, em cada recanto do mundo. A imagem que esses trastes alienados
transmitem aos olhos da população mundial espelha fielmente o estado em que se
encontram a política ocidental e a «nossa» democracia liberal – um retrato
do Inferno.
Veja as diferenças
Há quem pretenda estabelecer
distinções entre Joseph Biden e Donald Trump, como fariam em relação a qualquer
outra dupla em competição, suponhamos Hillary Clinton e a vice-presidente de
turno Kamala Harris. É uma atitude que não passa de um esforço irresponsável
para dar credibilidade a um sistema caduco, subvertido desde as proclamações
iniciais, já lá vão quase 250 anos, malévolo, desumano em nome da humanidade,
agressor em nome da paz e da democracia, expansionista e salteador dos bens e
das riquezas alheias, cobrindo e fundindo agora, sob as suas asas, o velho e o
novo colonialismo como práticas inerentes ao sistema imperial.
Diferentes e iguais, Biden e
Trump representam, apesar da pungente exibição de um grau irreversível de
decadência humana, duas faces da mesma moeda, um autêntico partido único
imperial gerindo simultaneamente os seus tentáculos que se movem através do Ocidente
colectivo como instrumentos indispensáveis da democracia liberal, a autêntica,
exclusiva e à qual temos de obedecer em rebanho e sem balir.
Nos Estados Unidos, os aparelhos
encarregados de fazer política designam-se Partido Democrático e Partido
Republicano; na Europa e no resto do Ocidente podem chamar-se, entre outras
coisas, «centro político», «bloco central», «convergência» entre socialistas,
conservadores e liberais, sistema que prevalece na composição e funcionamento
do aparelho autoritário baptizado como União Europeia.
Mecanismos de poder todos
diferentes e todos iguais, a exemplo do que sucede na cúpula do poder imperial
– quando é necessário que a política exerça o papel que lhe está reservado para
fazer cumprir as ordens do neoliberalismo e do seu deus inquestionável, o
mercado.
Analistas de «esquerda», muito
úteis para compor o ramalhete «pluralista» do comentariado doméstico, chegam a
qualificar Biden como um candidato «sério» perante um «mitómano» e outras
coisas do mesmo jaez que Donald Trump efectivamente é, além de mentiroso
contumaz, corrupto, ladrão de petróleo e outras riquezas alheias. Actividades
que, mantendo a memória em funcionamento, também não são estranhas ao
presidente e incumbente democrata.
Pela «seriedade» de Joseph Biden
falam a sua carreira política medíocre, mas, principalmente, corrupta,
manipuladora, belicista, cleptómana e sangrenta ao longo de mais de 50 anos. E
sempre afecta ao poder, fosse democrata ou republicano, como no caso do apoio
activo às invasões do Iraque cometidas por Bush pai e filho.
Biden foi fervoroso adepto dos
golpes terroristas na América Latina, África e Oriente, distinguiu-se nas
frentes de apoio ao sanguinário desmantelamento da Jugoslávia, à colonização
neoliberal e saqueadora da Rússia, às invasões do Iraque, do Afeganistão e da
Somália. Meteu e mete directamente as mãos nas permanentes carnificinas
sionistas contra o povo palestiniano – dizendo-se «sionista cristão» – e nas
invasões da Síria, através de «procuradores» terroristas, e da Líbia,
patrocinando a destruição e matança gerais, a começar pelo bárbaro assassínio
de Muammar Gaddafi. «Chegámos, vimos e ele morreu», proclamou, num arroubo
imperial, a então secretária de Estado Hillary Clinton, da administração Obama,
na qual Biden foi vice-presidente. Cargo onde desempenhou funções primordiais
no golpe nazi da Praça Maidan, na capital da Ucrânia, abrindo as portas ao
massacre de aproximadamente 14 mil pessoas no Donbass, entre 2014 e 2022, e à
perda de pelo menos 500 mil vidas no confronto militar directo entre a Ucrânia
e a Rússia que se lhe seguiu. Um currículo invejável para um político «sério».
A elite de «referência» do
garboso exército do comentariado acha que no confronto entre os Partidos
Democrático e Republicano tem o dever de assumir uma polida e até snob
inclinaçãozinha pela ala democrata, de comportamento muito mais «europeu»,
eivada de boas maneiras, capaz de fazer das guerras acontecimentos humanitários
e até ecológicos, – como se diz a propósito das manobras militares da NATO.
Exprime até sonoras condescendências e bem calibradas manifestações de afecto
pelas minorias LGBT, negras, de salvadores do planeta e tantas outras causas
ditas «fracturantes» como as questões do aborto e dos direitos da mulher. Ao
contrário do brutamontes Trump, que solta pela boca fora o que lhe passa pela
cabeça, carecendo da moderação, do cinismo e do oportunismo de discurso que
Biden foi praticando ao longo de meio século, movendo-se pelos corredores e
gabinetes de Washington.
Não esqueçamos, além disso, que o
Partido Democrático tutela até a Internacional Socialista, um ponto a seu favor
para a penetração mais profunda da Europa, com o mérito acrescido de ter
contribuído, como nenhuma instituição, para a evolução do anacrónico
«socialismo democrático» – uma aberração em tempos de extinção das ideologias –
em direcção ao «socialismo» com as cores neoliberais, que devem ser
obrigatoriamente ostentadas por todos os partidos «com vocação de poder».
Joseph Biden, um demente político
ao nível do seu rival Trump mas com um património de poder que deixa o
adversário nas divisões distritais, encaixa às mil maravilhas na encenação
cultivada pelo Partido Democrático. Fala bem (às vezes titubeia um pouco, é
certo, e quando mente é em defesa da democracia e dos direitos humanos), veste
melhor, exibe um esgar de sorriso bastante diplomático, caminha como se
estivesse numa passerelle (os esporádicos tropeções devem-se a sujidade nos
Ray-Ban de sol, imagem de marca dos expoentes securitários), cuida do corte de
cabelo e mantém o branco natural; usa boné apenas quando lhe é emprestado ou
oferecido por um craque da primeira liga de beisebol; até a sua evidente
demência cognitiva não passa de um sintoma de jet leg e de
cansaço inerente à complexa e aturada actividade no desempenho do cargo.
Donald Trump traduz melhor que
ninguém a actualidade do Partido Republicano. Fala como um trauliteiro, mente
por vício e não é para defender a democracia e os direitos humanos, veste como
um bimbo, ri-se de maneira alarve e boçal, caminha como um arruaceiro e
provavelmente até escarra no chão, tem o cabelo oxigenado e um penteado que não
lembra a ninguém, engana a Melânia, usa óculos escuros comprados nos
escaparates à porta dos armazéns Valmart numa vilória perdida do Kentucky,
prefere bonés nacionalistas e bacocos copiados dos gangs do
Metro de Nova York; e a sua demência cognitiva é de nascença, nada tem a ver
com a provecta idade.
Biden e Trump são como a água e o
azeite também quando chega o momento de produzir os cartazes e os videoclipes
de campanha, quando são chamados à televisão para debater ideias que não têm,
preocupações que não sentem, para usar e abusar dos truques ensinados pelos
assessores de imagem – e para reduzirem o confronto a ataques e insultos
pessoais, ainda que com ademanes díspares e opostos de elegância.
Porém, são gémeos na política,
igualmente eficazes quando se trata de servir como agentes administrativos e
«democráticos» do neoliberalismo; isto é, cumprem a tarefa para a qual são
indigitados pelo omnipresente e submerso «Estado profundo» e posteriormente
«escolhidos pelo povo» através de mecanismos eleitorais distorcidos,
antecedidos de peditórios milionários junto da gente que conta, concebidos em
delicadas degustações e capitosas soirées dançantes; e recorrendo também a
feiras de comércio político montadas em cenários de Hollywood, seguindo guiões
da série mais rasca onde se estipulam discursos ricos em piadas idiotas
recebidas com coros de gargalhadas a pedido, abrilhantadas por claques de cheerladies equipadas
à Barbie.
É assim a política que orienta a
prática da democracia liberal, a «nossa democracia», uma sucessão de rituais
cumpridos enquanto os verdadeiros donos disto tudo, de nós todos, senhores dos
impérios económicos e financeiros planetários decidem quanto há para decidir
nos cenáculos do mercado, deus da modernidade política, militar, social e
cultural. De vez em quando juntam-se nos conclaves conspirativos e decisórios
de Bilderberg, da Trilateral, do Fórum Económico Mundial e outros, para os
quais arrolam alguns plebeus prometedores para fazer deles os magarefes que
mantêm a política e os universos do comentariado nos eixos.
E a guerra, as guerras que
estamos vivendo e sofrendo, com as catástrofes humanitárias e as incertezas
inerentes, mais não são do que os veículos a que recorre o império em
desespero, tentando evitar que a evidente e irreversível decadência se torne
real mais dia menos dia, dando eventualmente lugar a uma ordem internacional
assente no direito internacional existente e na cooperação entre países
soberanos e iguais. Caso isto não aconteça, a loucura dos políticos «com
vocação de poder» instalados no areópago dos areópagos ocidentais, mergulhados
no seu autismo demente ao mesmo tempo que são manipulados pelos insaciáveis
senhores do dinheiro, deixar-nos-á sem apelo à mercê desses degenerados. Num
cenário assim consumado os insaciáveis monstros do mercado, que não admitem
limites ao respeito pelas suas exigências e são imunes a qualquer vínculo
emotivo com os seres humanos, usarão e abusarão do poder absoluto facultado
pelo fascismo neoliberal e, se acharem necessário, não hesitarão em
condenar-nos ao terror supremo capaz de limpar o planeta do excedente de
gentalha que os incomoda.
O debate patético, incongruente,
surreal na verdadeira acepção do conceito entre os dois homúnculos que lutam
pela gestão formal e a rogo de um império agónico revelou que a «nossa
civilização», o orgulhoso e arrogante «mundo ocidental» atingiu o grau zero e
mais rasteiro da política. Os políticos a quem o mercado entrega o poder por
via «eleitoral» e «liberal» não passam hoje de burocratas serviçais que, a bem
dizer, já quase nem tentam convencer-nos de que representam os nossos
interesses e a nossa vontade manifestada em papelinhos inúteis depositados num
caixotinho sem fundo. Eles são, afinal, juntamente com os acólitos da
propaganda e os salteadores do jornalismo, da academia e da cultura, os
autênticos idiotas úteis de um sistema infernal e incontrolável de poder do
qual só nos apercebemos (e já não é pouco) por via dos afloramentos que
infernizam a vida de cada um.
Aquele debate entre a fina-flor
demente dos idiotas deste «Ocidente» – e que terá pelo menos uma sequela,
segundo se diz – foi um retrato do inferno.
Desejamos, e para isso temos uma
tarefa tão urgente como gigantesca nas nossas mãos, que tal retrato não se
transforme num facto da vida – ou talvez aqui deva escrever-se morte – real.
segunda-feira, 8 de julho de 2024
Carlos Matos Gomes - Em que caixa está a extrema direita?
* Carlos Matos Gomes
Na cozinha da casa dos meus pais
existiam umas caixas de lata com rótulos Arroz, Massa, Açúcar, Café… O que se
encontrava no interior nunca correspondia ao rótulo. A lata que anunciava café
de umas vezes tinha biscoitos, de outras nozes, a do açúcar podia ter massa ou
farinha, havia uma que habitualmente servia de mealheiro e guardava moedas.
Habituei-me a não confiar nos rótulos. Também passei mais de dois terços da
minha vida a comer em refeitórios de instituições. Sou um consumidor de rancho
geral, não espero maravilhas gastronómicas, mas procuro saber o que os
cozinheiros lá colocam para evitar diarreias.
Com estas habilitações, fruto das
circunstâncias, tendo a apreciar a “nobre arte da política” como um cozinhado
de rancho geral elaborado com os produtos das latas que se encontram na
dispensa. Hoje a política é um rancho geral produzido com uma receita de
politicamente correto. As recentes eleições em Inglaterra e em França e as
sondagens sobre as intenções de voto na Alemanha fornecem pistas para os
clientes-consumidores que nós somos entenderem o que lhes estão a colocar no
prato. O que devemos comer e o que devem rejeitar para não ficarmos doentes.
Pelo menos isso: haja saúde!
Na Europa estão em hasta pública dois
produtos políticos. O dos situacionistas e o dos anti situacionistas. As
grandes máquinas promocionais, aquelas que nos convencem que uma bebida
xaropada, escura como um esgoto, que desentope canos e desoxida moedas é a
melhor bebida do mundo, impuseram o bom e o mau para a nossa saúde. As fontes
produtoras de opinião etiquetaram os primeiros de moderados e os segundos de
radicais. Mas a caixa com o rótulo moderados contem mesmo moderados? E a do
rótulo: radicais, extremistas e outros que tais, conterá de facto ingredientes
alternativos? A França é um bom tubo de ensaio para análise, mas os reagentes
são os mesmos do Reino Unido e da Alemanha.
Qual é o produto político que os
situacionistas propõem em França e cuja vitória saúdam como se os sans
culottes tivessem tomado de novo a Bastilha (uma história muito
adulterada)?
O situacionismo em França tem como
ponto de partida o fim do mandato de Jacques Chirac e com ele o conceito
gaulista de uma política autónoma da França e da Europa, de uma Europa com um
núcleo formado pelo antigo império de Carlos Magno, a França, a Alemanha e o
Norte de Itália (a lotaríngia). Chirac foi substituído por Sarkozy e este por
Hollande e este por Macron. Este trio de PP ( petits presidents)
corresponde em Portugal a Durão Barroso, Passos Coelho e Paulo Portas, em
Espanha a Aznar e a Zapatero, em Inglaterra a Blair, Gordon Brown, Cameron,
Theresa May, Boris Johnson.
Em termos de latas de cozinha temos
uma prateleira de produtos que metidos em panela e deixando a cozer em lume
brando produz uma papa que é o neoliberalismo. Uma ranchada que ilude a fome a
curto prazo, mas mata a médio, porque lhe foram retirados, em nome do lucro, os
elementos essenciais de vitaminas e proteínas.
Com que produtos se cozinha o
“Ensemble” de Macron que ficou em segundo lugar nas eleições francesas e que
tem sido celebrado pela caldeirada reunida sob o ressuscitado lema de “Nova
Frente Popular”, que nem é nova, nem é uma frente, menos ainda é popular como a
salvação da democracia tricolor da Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Uff!
Titulou o progressista moderado Liberation. Mas uff a propósito de
quê? Os franceses vão ressuscitar o sistema europeu Galileo de geolocalização
para substituir o GPS americano? Vão impor uma administração europeia para o
BCE, que faça do euro uma moeda de troca universal e ao serviço de uma política
europeia?
E o que se encontra na caixa da Nova
Frente Popular? O sereno desespero dos coletes amarelos que colocaram a França
a ferro e fogo para depois permanecer tudo na mesma? Com a atual política da
França (e da Europa) de crispação contra meio mundo: Rússia, China, Índia,
África e até a América latina a quem vai a França da Nova Frente Popular vender
produtos de luxo? Se a NFP mantiver a politica de Macron, dita moderada, de
guerra aos BRICS, passará a submissa sem nunca ter sido insubmissa. Mélenchon e
os seus aliados ficam com as malas, os perfume, os vinhos à porta dos clientes.
Mas se quiser ser a França Insubmissa, os Estados Unidos tiram-lhe o tapete,
passam-lhes uma rasteira, como fizeram no negócio dos submarinos para a
Austrália (que vai entrar para a NATO, com a Nova Zelândia e com o apoio da
França!) A NFP de Jean-Luc Mélenchon tem boas hipóteses de ficar isolada entre
Putin, Xi Jiping e Trump. Deve ter sido essa possibilidade de quadratura do
circulo, de comer o bolo e ficar com o bolo, que celebraram ontem! Dentro de
dias saberemos novas dos extremistas moderados que salvaram a República!
Um dos maiores sucessos da propaganda
política é ter conseguido “vender” o neoliberalismo como um produto saudável,
moderado, equilibrado depois da sua apresentação pública como religião de
salvação no golpe de Pinochet no Chile em 1973. O “Ensemble” de Macron é uma
mixórdia neoliberal metida numa embalagem que tem sido impingida como sendo
genuinamente democrata e que, como os meios de propaganda nos matraquearam
ontem, contribuiu para a derrota do que os taxionomistas políticos
classificaram como extrema-direita, que passou de Frente Nacional a União
(Rassemblement) Nacional e da direção de Marine Le Pen para um seu meio genro
(casado com uma sobrinha), Jordan Bardela.
A lata dos produtos que compõem o
“Ensemble” são conhecidos desde que a escola de economistas de Chicago
patrocinada por Milton Friedman os utilizou para cozinhar a ditadura de
Pinochet, no Chile: um deus — o mercado; um princípio - homem é o lobo do homem
— sobrevivem os mais aptos, sucesso é estar acima dos outros. Um programa de
vida: que cada ser humano viva e morra segundo as suas possibilidades.
Obediência aos Trés Mandamentos de Margareth Tatcher: não há sociedade, há
indivíduos; não há cidadãos, há consumidores, não há eleitos, há predadores de
votos. Um sacrário: a Reserva Federal dos Estados Unidos.
O situacionismo assenta em duas
bases, no neoliberalismo económico e social e no alinhamento estratégico pelos
Estados Unidos.
As eleições no Reino Unido e em
França revelam o beco sem saída do situacionismo e a alienação que os meios de
comunicação conseguiram ao colocar as massas de futuros desempregados, de
futuros SDF, os sem abrigo na sigla francesa e em homenagem aos franceses tão
aparentemente felizes por manterem Macron no Eliseu, Mélenchon na animação
popular e Marine Le Pen a esperar por ele para as próximas eleições
presidenciais, onde lhe perguntará o que o distingue de Macron quanto ao euro,
quanto à relação com o BCE, quanto à relação com os Estados Unidos, a Rússia, a
China e a África, o que o distingue de Macron quanto à caótica política
ambiental, quanto às fontes de abastecimento de energia, quanto à política
aeroespacial da Europa, quanto às guerras com que os Estados Unidos cercaram a
Europa desde os anos 80 do século passado — Irão, Iraque, Afeganistão,
Jugoslávia, Síria, Palestina, Líbano, Líbia, produtoras das vagas de migrantes.
As eleições na Alemanha produzirão
com elevada probabilidade o mesmo tipo de vitória dos situacionistas com mais
ou menos sociais democratas ou conservadores no grande bolo. O situacionismo
europeu, o grande grupo dos democratas moderados, que inclui conservadores e
sociais democratas, constitui a religião oficial na Europa. O situacionismo
teve a arte e os meios financeiros para vender o seu extremismo (são os
defensores de que eles representam o Fim da História) como um produto de
moderação e que todos os que lhes expõem os punhais que trazem escondido são
extremistas. Extremistas são os outros.
O extremismo que se esconde na lata
com o rótulo de moderados, juntos, unidos, conservadores, nas também democratas
cristãos, trabalhistas e socialistas está no poder. É o poder e há largos anos!
Em Inglaterra Boris Johnson não era mais nem menos moderado, ou extremista que
Toni Blair! Ursula Von Der Leyen não é mais ou menos extremista ou, à
francesa va-t-en guerre contra a Rússia e a China, que Macron
desde que Putin o colocou na ponta da quilométrica mesa do Kremlin. A warmonger Kellie
Kallas a estoniana que vai entrar de representante da política externa da União
Europeia é mais moderada ou extremista que Marine Le Pen? Em quê? E a madame
Lagarde do BCE é uma moderada que ajuda pobres e remediados a pagar os juros
exorbitantes aos bancos para terem um teto? E o trabalhista Keir Starmer recém
eleito primeiro ministro do Reino Unido tem uma politica mais moderada para
deportar migrantes para o Uganda ou os deixar afogar no Canal da Mancha dos
seus moderados antecessores conservadores? E o que distingue as políticas
migratórias do Reino Unido, dos Países Baixos, da Alemanha (que é a maior
financiadora dos campos de concentração de migrantes na Turquia) das de Marine
Le Pen, ou da primeira ministra italiana?
Falecido em 2019, após uma vida bem
gozada, Jacques Chirac foi o último gaulista no poder. Com a sua morte morreu
qualquer laivo de desalinhamento da Europa e da França com a política de
domínio económico, financeiro e militar por parte dos Estados Unidos. Sendo
assim, o que estão a celebrar os situacionistas europeus e os franceses em
particular e, mais aberrante ainda, os que se afirmam gaulistas? O que defendem
aqueles que o pensamento dominante classifica como extremistas e colocou numa
lata com um autocolante: Perigo!
Se o perigo para a Europa é, em
primeiro lugar, o do alastramento e subida de patamar das guerras na Ucrânia e
no Médio Oriente. Se, em segundo lugar o perigo é a da conjugação de inflação e
depressão económica na Europa (a França dos moderados vitoriosos já está na
categoria penalizadora de défice excessivo); e se, em terceiro lugar, o perigo
para a Europa é o da irrelevância política e económica, transformada como está
um mero apêndice dos Estados Unidos foram os extremistas que trouxeram a Europa
até aqui. E estão a celebrar a vitória. Celebram o quê?
https://cmatosgomes46.medium.com/em-que-caixa-est%C3%A1-a-extrema-direita-0acc164f4c1e
sábado, 6 de julho de 2024
A perspetiva de um comunista sobre as eleições gerais na Grã-Bretanha
Uma viagem através do projecto Corbyn até ás fileiras da classe trabalhadora revolucionária
Sexta-feira, 5 de julho de 2024
A perspetiva
de um comunista sobre as eleições gerais na Grã-Bretanha
Muita coisa mudou desde as eleições gerais de 2019 e, do
ponto de vista da classe trabalhadora britânica, nada disso foi positivo. Da
perspetiva pessoal deste escritor, o facto de eu ser agora um comunista
comprometido foi transformador.
É importante
explicar um pouco do meu percurso até este momento, porque tem relevância para
a minha compreensão das eleições de 2024. Dá algum contexto à minha
compreensão da natureza e composição do nosso mundo, e como isso influencia a
minha abordagem ao espetáculo e farsa a que chamamos democracia. Mais importante ainda, espero que tenha
repercussões para si, o leitor ...
Os meus pais
eram comunistas e, por isso, toda a minha infância foi marcada pela linguagem
do socialismo e pela busca da justiça, da liberdade e da derrota do
capitalismo. Uma criança que cresce num lar assim, não pode deixar de ser
imbuída de uma compreensão da verdadeira natureza das coisas: a forma como o
mundo funciona verdadeiramente, o poder e as forças destrutivas do
imperialismo, as insidiosas mentiras
dos meios de comunicação social, o papel da polícia, não como
protetora da paz, mas como executora do poder do Estado, as contínuas batalhas
contra a injustiça e a luta pelo direito das pessoas a viverem em segurança,
sem o stress constante da privação de alimentos, abrigo ou acesso a cuidados de
saúde.
Quando era
jovem adulto, deixei a minha casa em busca das minhas próprias paixões e,
durante os 25 anos seguintes, concentrei-me na construção de uma carreira
empresarial de sucesso. Nunca perdi a noção da verdadeira natureza do mundo
capitalista e as minhas decisões na vida e no trabalho foram sempre orientadas
por valores socialistas. Mantive-me politicamente consciente, mas não ativo.
Para ser
justo, embora acreditasse nos princípios socialistas, depois de ver os meus
pais dedicarem a maior parte do seu tempo e das suas vidas à sua prossecução,
obtendo o que pareciam ser ganhos infinitesimais contra um poder e uma oposição
aparentemente esmagadores, imaginei que o socialismo não passava de uma
quimera, e nunca na minha vida.
Então, um dia,
em 2015, estava a ler as notícias e ouvi dizer que, contra todas as
probabilidades, um deputado de esquerda chamado Jeremy Corbyn tinha conseguido entrar na
votação para ser líder do Partido Trabalhista. Ele estava a fazer uma série
de roadshows pelo país para espalhar a sua mensagem e, intrigado, fui ouvir o
que ele tinha para dizer.
O meu
interesse foi despertado. Ele proferia palavras como socialismo, falava da
renacionalização dos nossos activos e da igualdade para os trabalhadores: uma
linguagem que eu não ouvia há muitos anos na Grã-Bretanha e muito menos nos
principais círculos políticos. Nunca tinha sido apoiante do Partido
Trabalhista, orgulhosamente nunca votei nele, mas um desejo latente tinha sido
despertado e vi Jeremy Corbyn como uma enorme oportunidade estratégica.
Ele estava a
atrair um verdadeiro número de seguidores ao utilizar a linguagem em que eu
acreditava - justiça, igualdade e socialismo. Isso significava que não era só
eu que queria essas coisas, havia centenas de milhares, talvez até milhões de
pessoas que eram atraídas por essa retórica e possibilidade.
Eu sabia o
suficiente para saber que o socialismo não poderia ser alcançado através do
processo parlamentar; compreendia que o establishment nunca permitiria que isso
acontecesse. Mas perguntava-me se este inesperado episódio de um candidato de
esquerda a liderar um grande partido político poderia ser usado como um meio
para atingir um fim - uma forma de abrir os olhos da classe trabalhadora
britânica para a mentira de que tinham qualquer poder ou controlo sobre as suas
vidas ou sobre a sociedade em geral.
Certamente, o
que estava para vir ilustraria claramente que a democracia parlamentar era uma
fachada; ajudá-los-ia a ver que o fim da sua exploração e o caminho para o
socialismo nunca seriam alcançados através do voto.
Então, fiz
algo que nunca imaginei fazer: Filiei-me no Partido Trabalhista e envolvi-me na
política partidária. Na minha primeira reunião, tornei-me secretário da secção
do meu círculo eleitoral (CLP) e, durante os quatro anos seguintes, trabalhei
com algumas boas pessoas, contra todas as probabilidades, em busca de uma
vitória do Partido Trabalhista.
Digo contra
todas as probabilidades porque, desde o início, era perfeitamente claro que
Corbyn nunca seria eleito. Mas que grande oportunidade para provar isso aos
trabalhadores - particularmente aos trabalhadores mais avançados que foram
motivados pelo seu estilo de política "mais gentil" e pela sua
retórica socialista.
As lições da história
Governar não é
apenas ser eleito, é preciso a cooperação da máquina estatal e corporativa:
o serviço civil, a liderança militar, os governadores
do Banco de Inglaterra, as empresas e as instituições de comércio
internacional, as agências de notação, as organizações de tratados, os
poderosos actores económicos chamados monopólios e, em última análise, os nossos mestres imperiais americanos. O Parlamento não tem
autoridade soberana real; está cercado e escravizado por aqueles que detêm e
exercem o poder real.
Os partidos
eleitos e os líderes políticos cujos mandatos são contrários aos ditames do
establishment descobrem, a seu custo, que tomar posse não é o mesmo que tomar o
poder. Isto não é novidade. Em 1975, Gough Whitlam, então democraticamente
eleito primeiro-ministro do Partido Trabalhista da Austrália, foi demitido pelo
governador-geral pelos seus planos de introduzir uma política externa
independente dos Estados Unidos, e a CIA não
estava a ter nada disso!
O partido
Syriza da Grécia foi sumariamente derrotado quando tentou resistir ao poder do
capital financeiro, recusando-se a pagar a dívida do país. Jeremy Corbyn e Liz
Truss foram ambos derrotados politicamente e desacreditados pessoalmente por
forças imperialistas determinadas a seguir um caminho diferente.
A lição mais
fundamental informada pela economia simples é que não existe uma fórmula para
manter o capitalismo lucrativo e, ao mesmo tempo, transferir qualquer parte
significativa da riqueza e do poder para os trabalhadores e os pobres. Não há
nem nunca poderá haver "trickle down" no capitalismo e, por isso,
esperar que um partido parlamentar, o Partido Trabalhista ou qualquer outro,
independentemente da liderança, dê prioridade aos interesses dos trabalhadores
é uma ilusão.
Quando, em
2019, o fim finalmente chegou com a derrota eleitoral de Corbyn contra Boris Johnson, deixei o Partido Trabalhista e me
juntei ao CPGB-ML, antecipando uma onda de trabalhadores
avançados a reboque em direção a um caminho iluminado. Afinal de contas, era
agora flagrantemente óbvio para aqueles que alimentavam tais ilusões que a
mudança necessária através da social-democracia não era possível.
A
social-democracia nunca teve nada a ver com o socialismo - uma ordem de mudança
de magnitude completamente diferente. Chegou o momento de lutar pelo verdadeiro
socialismo, a via revolucionária.
Estratégia e táctica em tempo de eleições
Aqui estamos
nós em 2024, em vésperas de novas eleições gerais, e eu abordo este evento do
ponto de vista de um comunista activo em busca de mais do que uma mudança de
partido político, mas de uma mudança completa de sistema.
Numa altura em
que a redistribuição radical do poder político e económico é a única solução
para a crise do capitalismo, a escolha oferecida ao povo
britânico continua a ser um duopólio bipartidário que não oferece outra
alternativa senão a continuação das mentiras, da exploração e da condução à guerra na cauda de um império
americano em implosão.
Quando grande
parte do eleitorado acredita que nenhum dos partidos políticos representa os
seus interesses e sabe que os meios de comunicação os manipulam com mentiras, a
nossa chamada "ordem democrática baseada em regras" está a sofrer a
pior crise de legitimidade da história.
No entanto,
enquanto somos arrastados para a guerra e para crises económicas e sociais,
estão a acontecer saltos importantes noutras partes do mundo. O desafio ao
poderio militar ocidental e ao domínio neocolonial está a ocorrer em todos os
continentes e a instilar um sentimento crescente de esperança, otimismo e
espírito de luta entre as pessoas do Ocidente, em especial os jovens.
O imperialismo
norte-americano e os seus vassalos ocidentais, os velhos imperialistas,
incluindo a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha, estão a perder o seu factor de
intimidação a nível interno e internacional. Os povos de todo o mundo estão a
recuar e a desafiar o status quo, e nós, comunistas britânicos, deveríamos
estar na vanguarda das expressões de frustração e irritação dos trabalhadores,
articulando e aperfeiçoando as suas ideias e construindo uma frente unida na
sua prossecução.
Nunca na minha
vida a oportunidade e a possibilidade de mudança socialista foram tão
tangíveis. As peças de dominó da fortaleza capitalista estão a começar a cair e
este é o momento para todos os comunistas rejeitarem liminarmente o status quo
e iluminarem o caminho para o socialismo.
Foi então com
profunda decepção que li o anúncio feito por Robert Griffiths, secretário-geral
do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPB)
de que: "O Partido Comunista vai disputar o seu maior número de lugares em
Westminster desde há 40 anos, com um grito de guerra: "Fora Conservadores
- uni-vos pelos direitos dos trabalhadores, pela propriedade pública e pela
paz!""
Tories fora? E
que tal "Não votem nesse outro partido imperialista, viscoso e conivente
de pretendentes, o Partido Trabalhista! O Partido Trabalhista não é o
"menor de dois males". Já passámos da fase de acreditar nessa
dicotomia sem sentido.
Sir Keir
Starmer tem sido exemplar em expor a verdadeira natureza do
Labour como um partido anti-trabalhador nas suas declarações sobre
"proteger as nossas fronteiras", sobre "segurança
nacional", no seu apoio à Nato na
Ucrânia e ao genocídio na Palestina, e nas suas próprias garantias e nas do seu
chanceler-sombra de que pretendem ser "simpáticos para as empresas".
Os
trabalhistas são a mais desprezível das criaturas: um lobo em pele de cordeiro
- ou seja, os Tories disfarçados. Como diz o ditado: "Trabalhistas,
conservadores, a mesma história de sempre".
Tudo indica
que os trabalhistas vão obter uma vitória esmagadora e é evidente que o partido
tem o apoio do establishment, com os meios de comunicação social ocidentais a
darem incessantemente a volta às notícias em sua direção. Mas porquê os
trabalhistas e porquê agora?
Trata-se de
uma táctica frequentemente utilizada quando as condições económicas e/ou
sociais exigem que se sufoque a hostilidade crescente entre as massas. O
pretenso "partido da classe trabalhadora" é apresentado como o
campeão da esperança para acalmar a indignação e a insatisfação crescentes de
um número cada vez maior de pessoas.
Ainda mais
terrível é o facto de a história ter demonstrado que um governo trabalhista,
com a fachada de ser o partido dos trabalhadores e com o apoio dos lacaios dos
líderes sindicais, pode fazer passar condições ainda mais coercivas e
exploradoras do que o seu homólogo conservador alguma vez poderia imaginar. É
este o verdadeiro objetivo do Partido Trabalhista. (Leitura recomendada: Britain's Perfidious Labour Party, disponível na
nossa livraria).
Estará o PCB a
abordar esta pantomima farsesca de pompa, as eleições gerais, a partir de uma
posição dialéctica? Para aqueles de nós que perseguem o socialismo, a nossa
política deve certamente ser a de agitar e minar o poder do Estado e emascular
as intenções estratégicas da burguesia em todas as oportunidades. No entanto, o
CPB está a apoiar uma vitória esmagadora dos trabalhistas como a melhor maneira
de "tirar os conservadores".
E está a
fazê-lo mesmo quando a crise palestiniana está a levar vagas de
candidatos independentes a apresentarem-se, algo que a Grã-Bretanha não via
há décadas, se é que alguma vez viu. Esses candidatos podem causar danos a uma
crise cada vez mais profunda do capitalismo, criando e aprofundando a
instabilidade no sistema político britânico. Podem ser incómodos e perturbadores
a nível individual a partir do Parlamento e, se um número suficiente de
candidatos obtiver votos suficientes, podem interferir com a previsão de
derrocada dos trabalhistas, mesmo sem serem eles próprios eleitos.
A nossa tarefa
imediata deve ser a de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para perturbar
o funcionamento rotineiro do imperialismo britânico. Perseguir um parlamento
suspenso, que forçaria os trabalhistas a ter que fazer um acordo, é uma táctica
que poderia ajudar a frustrar as maquinações imperiais.
Como o projeto Corbyn nos ensinou, os problemas da
classe trabalhadora britânica não podem ser resolvidos através da participação
no circo parlamentar. Temos de agravar a crise política da classe dominante,
interrompendo a sua intenção de dar uma vitória aos trabalhistas e, ao mesmo
tempo, construir as nossas próprias forças.
UM CAMINHO BRITÂNICO PARA O
SOCIALISMO EM 2024
No sistema de
produção com fins lucrativos chamado capitalismo (também conhecido como
"escravatura assalariada"), gerido pela classe dominante capitalista
através da charada da democracia parlamentar, a riqueza concentra-se cada vez
mais em cada vez menos mãos. Vivemos numa época em que os extremos entre os
ridiculamente ricos e o resto dos pobres são mais amplos do que nunca.
As injustiças
da nossa sociedade - salários que não cobrem o nível de vida básico, um serviço
de saúde falido, facturas de energia exorbitantes, o custo dos cuidados
infantis... tudo isto resulta da forma como os meios de produção são utilizados
para gerar cada vez mais lucros para alguns. Só mudando a base económica da
nossa sociedade de uma produção capitalista orientada para o lucro para uma
abordagem socialista de produção planeada - planeada para satisfazer as
necessidades de todas as pessoas - poderemos finalmente viver em paz e em
segurança. É a única forma de resolver os nossos problemas.
Sabemos que
uma mudança de sistema nunca poderá ser conseguida através de uma via
parlamentar. Já vivemos essa experiência demasiadas vezes para acreditarmos
nela. Sabemos que, independentemente de qual dos dois grandes partidos esteja
no poder, as nossas necessidades básicas continuarão a não ser satisfeitas.
Este sistema
chamado capitalismo representa muito dinheiro, muito poder, muita exploração: a
sua crise é generalizada e vai agravar-se. Nas palavras do grande Karl Marx:
"O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, só vive sugando o
trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho suga."
Só o
socialismo, um sistema produtivo planeado, baseado na satisfação das
necessidades da massa do povo, pode funcionar a nosso favor. E como comunista
convicto, tal como os meus pais antes de mim, lutarei por um sistema desse
género.
Publicada por el comunista à(s) 11:47
https://achispavermelha.blogspot.com/2024/07/a-perspetiva-de-um-comunista-sobre-as.html
Ali Rebas - O direito de se defender” ou como fazer com que o genocídio seja aceite
* Ali Rebas
6 DE JULHO DE 2024
Se a impunidade de que Israel
beneficia, nomeadamente em desafio às decisões das instituições do direito
internacional, é hoje flagrante, a destruição de Gaza foi implementada pela
primeira vez em nome do “direito de se defender”. Esta fórmula também surge
frequentemente na boca de muitos líderes ocidentais para dar a Tel Aviv um
cheque em branco nas operações que realiza contra os palestinianos. Uma lógica
colonial e exterminadora que vem de longa data.
* “Sem luz, sem
água, sem gás, sem comida, está tudo fechado (…) Lutamos contra os animais
humanos, agimos em conformidade. » *
"É uma nação inteira que
é responsável. Esta retórica sobre civis que não estão conscientes, que não
estão envolvidos, é absolutamente falsa. Eles poderiam ter-se levantado,
poderiam ter lutado contra este regime maligno que assumiu o controlo de Gaza
num golpe de Estado. Mas estamos em guerra, estamos a defender as nossas casas.
Esta é a verdade, e quando uma nação protege a sua pátria, ela luta para que
lhe quebremos a espinha dorsal.
Um discurso
civilizador e erradicador, blindado na sua inocência democrática, foi utilizado
para justificar a destruição de Gaza. É principalmente com base neste “direito
de defender-se” que o Ocidente mobiliza em cada uma das suas ações genocidas.
Hoje o Estado de Israel serve de paradigma nesta área. É importante compreender
a função desse discurso e seus modos de operar. A violência ilimitada
apresenta-se como contra-violência: este diagrama define uma disposição e uma
certa lógica que consegue alistar ou enfeitiçar, desarmar e até paralisar uma
parte daqueles que perceberam a mentira e afirmaram resistir-lhe.
COLOQUE UMA IMAGINAÇÃO
De certa forma, nada de novo sob o
sol sujo do pôr do sol3. Para além do próprio extermínio,
todos os estereótipos, os eufemismos, os processos de legitimação utilizados
para fazer aceitar o genocídio em Gaza são antigos. A erradicação dos nativos
americanos foi justificada depois de retratá-los como hordas selvagens,
estupradoras e assassinas, atacando periodicamente comunidades pioneiras
anglo-saxônicas inocentes. Assim foi construída a maior democracia do mundo,
principal suporte e condição de existência da “única democracia do Médio
Oriente” e do genocídio em curso. Mais tarde, nos Estados Unidos, pessoas
negras linchadas e enforcadas foram frequentemente acusadas de violação (de
pessoas brancas, obviamente), como no caso de Thomas Shipp e Abram Smith, que
inspiraram a famosa canção de Billie Holliday, “Strange Fruit”. Os
fatos e sua veracidade pouco importavam. Nada precisava ser provado ou apoiado.
Tudo o que importava era o horror da acusação, o lugar e a força daqueles que a
lançaram, o lugar e a fraqueza daqueles que ela designou e o terreno seguro em que
foi implantada, apesar da sua forma vaga, até claramente enganosa e rapidamente
negada. Tratava-se sobretudo de despertar uma imaginação já enraizada, de
despertar certezas que os civilizados já tinham sobre os subumanos e de
confirmá-las, para que todo o resto pudesse ser esquecido, para que nos
sentíssemos autorizados a libertar o. última crueldade em sã consciência4.
A revolta dos Hereros contra
a ocupação alemã, a dos Argelinos em 8 de Maio de 1945 ou a dos Malgaxes em
1947 contra os Franceses, dão exemplos de acontecimentos que têm vários pontos
em comum com o 7 de Outubro. Em cada caso, a insurreição deixou mais de uma
centena de mortos, por vezes várias centenas, entre os colonos que exterminaram
dezenas de milhares de pessoas colonizadas – obviamente garantindo que estavam
apenas a defender-se.
É surpreendente ver quão pouco
variou o estilo de acusações e inversões de vitimização que a ordem colonial
emprega contra aqueles que massacra. Em relação ao 7 de Outubro, os israelitas
e os seus poderosos representantes políticos e mediáticos falaram de um
“pogrom” ou mesmo de um “Holocausto à bala”.5 — uma frase normalmente usada
para se referir ao massacre de mais de um milhão de judeus da Europa Oriental
por esquadrões móveis nazistas. Até mesmo jornais como o
Médiapart seguiram a propaganda israelita neste ponto, retomando
alguns dos seus termos, como o “maior massacre de judeus desde a
Shoah”6.
O colonialismo francês não hesitou
em atribuir as revoltas de Sétif, Guelma e Kherrata ao ódio racial ou aos
“agentes provocadores”. Nos dias que se seguiram à revolta, o comunicado de
imprensa do governador da Argélia chegou a mencionar “elementos e
métodos de inspiração hitleriana”.7. Esta expressão foi usada muitas vezes na
época, inclusive pelo L'Humanité. Assim que a
Alemanha nazi capitulou, o Ocidente vitorioso usou esta figura do Mal absoluto
para insultar a revolta daqueles que esmagou e justificar o seu extermínio. Não
há muito a acrescentar, a não ser repetir, adaptando, uma famosa frase de
Michel Audiard: os colonos ousam tudo, é mesmo assim que os reconhecemos.
SALVANDO A GRANDE NARRATIVA OCIDENTAL
O genocídio em curso em Gaza
funciona para o Ocidente tanto como um lembrete como como uma grande
experiência. Serve para definir as condições sob as quais o racismo mais
desinibido e mais assumido ainda pode ser desencadeado livremente, beneficiar de amplo apoio e
não apenas de indiferença cúmplice, mesmo nas suas fases de erradicação. Mas
também permite organizar esse desencadeamento, ajustar os seus limites e
modalidades, explorar as possibilidades e oportunidades que
oferece, a nível
tecnológico, militar e governamental. Contribui para definir os eixos e a
intensidade ao longo dos quais um colonialismo anacrónico ainda pode impor-se
direta, explicitamente, sem disfarce, naquelas que até recentemente ainda eram
chamadas de “sociedades abertas”. Mostra como um extermínio constantemente
filmado, transmitido, retransmitido e “compartilhado” durante meses nas redes
sociais pode ser amplamente aceito; e até que ponto a oposição pode ser
controlada, reprimida, marginalizada, reduzida ao espanto ou a protestos
impotentes.
Israel não é apenas o baluarte da
Europa, o seu escudo simbólico, o emblema da sua inocência invencível. É também
a sua grande janela Overton8. Ou melhor, Israel é o meio para
abrir e pôr em movimento todas as janelas de Overton. Desde a queda do nazismo
e o fim dos impérios coloniais, a sua função tem sido salvar a grande narrativa
ocidental. Permite ao Ocidente continuar a perceber-se através das ideias de
democracia, civilização, progresso, inocência, ao mesmo tempo que salva parte
da herança racista que sustenta o mundo compartimentado que ele encarna.
Perpetua esta ficção de sobrevivência que assombra toda a história do Ocidente
moderno. A da certeza de ser o último refúgio civilizado, legítimo para acabar
com aqueles que esmaga e coloniza sob pena de ser submerso por marés subumanas.
A culpa é referida ao passado (nazismo) ou ao exterior (muçulmanos, russos,
chineses, os vilões dos filmes de Hollywood, todos potenciais novos nazis).
A conquista da modernidade nunca deixou de invocar o “direito à defesa” para legitimar as suas devastações. O extermínio marca a história das sucessivas ordens coloniais. Foi desencadeada durante séculos sem colocar muitos problemas filosóficos, legais ou morais à consciência ocidental. E então houve uma anomalia durante a Segunda Guerra Mundial. Um acontecimento que aparece a esta consciência como um erro terrível da pessoa. Um grande erro – um erro policial.
Os nazis tiveram a singular loucura
de importar processos coloniais e o imperialismo para a Europa, com o horizonte
de extermínio que implicavam quando se tratava de “defender-se”. Hoje em dia,
tal afirmação parece provocativa. Contudo, foi formulada por Aimé Césaire, no
rescaldo da guerra, poeta hoje sepultado no Panteão, repleto de homenagens,
monumentos, nomes de ruas e edifícios; nem sequer a impediu de permanecer
prefeita e deputada, na Martinica, é verdade, por mais de meio século:
Sim,
valeria a pena estudar, clinicamente, em detalhe, as abordagens de Hitler e do
hitlerismo e revelar ao muito distinto, muito humanista, muito cristão burguês
do século XX
que ele carrega dentro de si um Hitler que se ignora, que
Hitler habita nele, que Hitler é o seu demônio, que
se ele o repreende é por falta de lógica, e que no fundo, o que ele não perdoa
Hitler, não é o crime em si, o crime
contra o homem, é não a humilhação do homem em si, é
o crime contra o homem branco, é a humilhação do homem branco, e de ter
aplicado à Europa procedimentos colonialistas aos quais até agora apenas os
árabes da Argélia, os coolies da Índia e os negros da África [...].9
Estas palavras ainda soam
verdadeiras hoje para a maioria dos que ouviram falar de Hitler, excepto
estranhamente nas nações que participaram no Judeocídio. É provavelmente por
isso que estes últimos persistem em tratar outras populações, que não participaram
direta ou indiretamente, como anti-semitas incuráveis.
A partir de agora, o colonialismo e
o racismo pretendem defender os judeus, falaciosamente assimilados ao sionismo
que vem a monopolizar a herança de vítima do crime absoluto. Assim se realiza a
síntese, muito coerente com uma certa disposição cristã, entre a culpa e a
expiação, por um lado, e a manutenção da inocência intacta, por outro.
Queremos, diz a voz vinda desta liga, expiar em pensamento os crimes cometidos
durante a Segunda Guerra Mundial, mas são os outros que devem pagar em termos
concretos. A culpa e a expiação, tal como as indústrias poluentes, podem ser
convenientemente realocadas. Esta realocação do
Holocausto foi chamada de Estado de Israel.
Uma das grandes fábulas que
acompanharam esta série de deslocamentos e mentiras históricas é resumida na
fórmula “civilização judaico-cristã”. Se chegou a este ponto nos últimos tempos
é porque cumpriu diversas funções decisivas, além de dar aos europeus a
impressão de se exonerarem de um passado muito condenável. De forma artificial
e desafiando séculos de história comum, permite que o Islão e os muçulmanos se
instalem numa alteridade hostil e irredutível, onde acabam por encarnar a
grande figura da ameaça face à muito nova e muito estranha aliança . Esta
expressão marca também a integração dos judeus no Ocidente, mas apenas na
condição, na maioria das vezes, de os assimilar ao Estado que afirma
representá-los.10. Ao reprimir as exclusões e
perseguições a que os judeus foram sujeitos durante séculos, ao obscurecer a
lógica de que procediam, ao fazer-nos esquecer as formas que poderiam assumir e
os pretextos que invocavam, a “civilização judaico-cristã” fornece também a
narrativa que permite que esta exclusão se repita em sã consciência e de forma
inadequada, contra os novos alvos. Como resume o poeta e romancista israelense
Yitzhak Laor em The New European Philosemitism:
Esta
identificação com “nós” funciona ainda melhor com a cultura do Holocausto, ao
oferecer ao novo europeu, no contexto do “fim da História”, uma versão melhor
da sua própria identidade face ao passado colonial e ao presente.
pós-colonial”. Preocupado com a massa de imigrantes muçulmanos legais e
ilegais, este europeu adoptou o novo judeu como um Outro moderno e
tranquilizador, amigo do progresso, sem barba, sem babados, com uma mulher que
não usa roupas tradicionais e que não esconde o cabelo dele – felizmente, esses
novos judeus não têm nada a ver com os avós.11
Poderíamos dizer que fórmulas como
“civilização judaico-cristã” ou “direito de se defender” são apenas técnicas
publicitárias imaginárias, ideológicas ou grosseiras... Futilidades dos manuais
de propaganda, descobertas de think tanks neoconservadores
, psicologia americana, eficaz apenas porque eles são servidos pelos
sistemas certos, pelas redes de poder certas e por uma relação militar com a
informação. Acrescentaremos que o direito, tal como a legitimidade, só chega depois
do facto, que é apenas um resultado ou um reflexo das relações de poder. Que a
História é obviamente escrita pelos e para os vencedores, uma vez vencidos - é
mesmo assim que os reconhecemos e que aprendemos a pensar contra a História,
que é sempre a sua história. Que a verdadeira
guerra e as verdadeiras questões residem noutro lado, nos interesses militares,
geopolíticos, económicos... Tudo isto é parcialmente verdade, mas também
redutor. Nada mais militar, geopolítico, material e concreto hoje do que a
guerra de informação, que esconde e recodifica uma guerra de percepções e
histórias. Isto, por sua vez, condiciona e modifica o equilíbrio de poder mais
concreto e massivo.
TODOS OS GENOCIDÁRIOS TÊM SEU “7 DE OUTUBRO”
Como escreve o filólogo alemão
Viktor Klemperer em LTI, The Language of the Third Reich:
E
tudo o que empreendemos nesta guerra imposta, nesta guerra judaica, desde o
primeiro minuto, é sempre uma medida de reacção. “Imposta” tem
sido o epíteto constante da guerra desde 1º de setembro de 1939 e,
em última análise, este 1º de setembro não traz absolutamente nada de novo além de
uma continuação dos ataques judaicos contra a Alemanha de Hitler, e nós, somos
nazistas pacíficos, não vamos fazer outra coisa. do que antes, defendemo-nos:
desde esta manhã “estamos a responder ao fogo inimigo”, diz o primeiro boletim
de guerra. Mas no fundo esta sede de assassinato dos judeus não nasceu de
reflexões ou interesses, nem mesmo de uma sede de poder, mas de um instinto, de
um “ódio insondável” da raça judaica para com a raça germano-nórdica. O “ódio
insondável” aos judeus é um clichê que esteve presente ao longo destes doze
anos. Contra o ódio fundamental, não há outra garantia senão a supressão de
quem odeia: assim, passamos logicamente da estabilização do anti-semitismo
racial para a necessidade do extermínio dos judeus.12
Aqueles que hoje continuam a evocar
o extermínio dos judeus da Europa para alistar a sua memória a favor do
sionismo, retomando inescrupulosamente, contra outros alvos, a maior parte dos
tropos que foram usados para justificá-lo, estão a fingir ignorar que foi só foi possível graças a um longo processo ideológico, jurídico, societal, linguístico e policial, que hoje é lembrado. Esquecem também que os
anti-semitas e os nazis também nunca deixaram de invocar a
natureza defensiva da sua guerra - ou melhor, da guerra que lhes foi, disseram,
imposta.
Nem sempre o exterminador começa
declarando que vai exterminar. Muitas vezes acontece que ele diga que a outra
pessoa à sua frente quer exterminá-lo, e que não tem escolha, que está em jogo
a “própria existência” da entidade genocida, como repete Benjamin Netanyahu
desde outubro de 2023. o extermínio planejado, temido, fantasiado sempre
encobre e justifica o extermínio real. E mesmo que isso signifique recordar um
facto triste, que parece constantemente evitado: hoje, são os palestinianos que
estão a ser exterminados.
Até os nazistas repetiam: o Reich
tem o direito de se defender. E tal como os israelitas hoje, alternaram entre
este discurso defensivo e outro que assumia a necessidade de lhe pôr fim, de
livrar o mundo destes “animais humanos” que os
ameaçam. Não há contradição entre os dois, sempre funcionou em conjunto. Em
1943, a assessoria de imprensa do Reich denunciou o “plano de extermínio dos
judeus” dos povos da Europa. Goebbels escreveu: “Se as Potências
do Eixo perdessem a luta, não haveria mais barragens que pudessem salvar a
Europa da onda judaico-bolchevique. »13
A invocação continuada do 7 de
Outubro e o ataque ao Hamas por parte dos israelitas e dos seus aliados, longe
de atenuar ou qualificar o carácter genocida da destruição de Gaza, confirma-o
e complementa-o em grande parte. Não há genocídio que não seja assim
justificado e apresentado como uma necessidade. Todos os genocidas têm o seu “7
de Outubro”, que sacrificaram para usá-lo, muitas vezes a
posteriori, como um cheque em branco, uma autorização para
exterminar – até mesmo um dever de exterminar para não ser por sua vez. Nos
Estados Unidos, a derrota esmagadora infligida aos brancos em Little Big Horn
pelas tribos do oeste americano ainda representa um trauma. Este acontecimento
teve um impacto muito maior sobre os americanos do que o quase completo
extermínio dos nativos, que ajudou a justificar e a transformar
numa guerra defensiva na
consciência ianque . O tenente-coronel Custer, grande figura das “Guerras
Indígenas” morto durante esta batalha, é a personalidade sobre quem mais livros
foram publicados nos Estados Unidos, logo depois de Abraham Lincoln. Como
escreve Gershon Legman, citado por Fanon em Black Skin, White
Masks:
Os
americanos são o único povo moderno, com excepção dos bôeres, que, até onde há
memória, exterminaram completamente a população indígena do solo onde se
estabeleceram. Somente a América poderia, portanto, ter uma má consciência
nacional para acalmar, forjando o mito do “Bad Injun”14, para então
poder reintroduzir a figura histórica do honorável Redskin defendendo sem
sucesso seu solo contra invasores armados com bíblias e rifles. O castigo que
merecemos só pode ser evitado negando a responsabilidade pelo mal, colocando a
culpa na vítima; provando - pelo menos aos nossos próprios olhos - que ao
desferir o primeiro e único golpe estamos simplesmente agindo em legítima
defesa...
Até os nazistas tiveram os
massacres de Katyń, sobre os quais Goebbels escreveu logo após sua descoberta,
no meio da “solução final”:
Perto
de Smolensk, foram encontradas valas comuns polonesas. Os bolcheviques
simplesmente atiraram e empilharam ali cerca de 10.000 prisioneiros polacos
[...] Convido jornalistas neutros de Berlim a visitarem as valas comuns
polacas. […] No local, eles terão que se convencer com os próprios olhos do que
os espera se realmente acontecer o que tanto desejam, ou seja, que os alemães
sejam derrotados pelos bolcheviques.
Este é um convite de jornalistas
que devem ter estado imbuídos das mesmas intenções do governo israelita nos
dias que se seguiram ao 7 de Outubro, e que deu origem a tantas mentiras
espalhadas pelo mundo.15.
Segundo o historiador Peter
Longerich, Katyń tornou-se o slogan que cobre "a pior
campanha anti-semita que o regime já viu". Para os
nazistas, este massacre foi um "massacre judeu", sendo as distinções
entre "judeu" e "bolchevique" na época tão incertas quanto
a distinção que os israelenses e seus aliados fazem hoje entre "Hamas",
"palestinos", "árabes". ”, “Estado Islâmico” e
“terrorista”… Longerich insiste neste ponto importante: a ideia da
necessidade “da aniquilação dos judeus para não serem aniquilados
por eles […] constituiu o cerne da propaganda sobre Katyn »16.
REVERSÃO DE VÍTIMAS
Os genocidas sempre acusaram
aqueles que massacraram de pretenderem fazer a mesma coisa. Por mais vis e
ultrajantes que pareçam, estes tipos de projecções e vitimizações paranóicas
não devem apenas ser rejeitados e desprezados como loucura, propaganda grosseira
ou mentiras sem sentido. Quando ressoam, dentro de uma época, com outros
dispositivos e outras forças históricas, materiais e ideológicas, tornam-se
características essenciais da lógica genocida, participam nela como operadores
eficazes.
Contudo, os israelitas e os seus
apoiantes ocidentais são especialistas em inversão de vítimas. Eles acusam os
seus inimigos de quererem “varrer Israel do mapa”, nomeando precisamente o que
fizeram, literal e figurativamente, pela Palestina.17. Eles constantemente agitam a
ideia de que os árabes querem jogá-los ao mar, enquanto o contrário aconteceu
literalmente em Jaffa em 1948.18. Yitzhak Rabin também disse que
seu maior sonho era ver Gaza engolida pelo mar...
Hoje, a propaganda sionista
predominante invoca a detenção de 200 israelitas pelo Hamas para justificar a
engenharia de horror que metodicamente implanta em Gaza.19. Há mais de 9.000 prisioneiros
palestinianos detidos por Israel, dos quais mais de 3.400 estão sujeitos
a “detenção administrativa” ,
uma medida que permite ao tribunal israelita encarcerá-los sem qualquer
acusação ou julgamento, por um período de seis meses renovável indefinidamente.
. Tudo isto permitiria um novo olhar sobre a famosa questão dos reféns... Em
2011, mais de 1.000 prisioneiros palestinianos, cujos nomes ninguém em França
sabia, foram libertados em troca de um único soldado israelita, cujos nomes
todos sabiam que o seu nome era Gilad Shalit. Salah Hammouri , um
advogado franco-palestiniano detido várias vezes sob detenção administrativa
(incluindo uma última vez em 2022), nunca beneficiou de tal visibilidade em
França. Desde 1967, um em cada cinco palestinianos passou pelas prisões dos
ocupantes. Faça as contas.
Inversion encore l’histoire des
« boucliers humains ». Cette accusation régulièrement portée contre
la résistance armée palestinienne ne sert pas seulement à justifier les
massacres des civils. Elle élude le fait que l’État d’Israël n’a jamais été
autre chose qu’un immense bouclier humain. Le fondateur du sionisme l’assumait
nettement : « Pour l’Europe, nous constituerions là-bas un
morceau du rempart contre l’Asie, nous serions la sentinelle avancée de la
civilisation contre la barbarie. »20 Par ailleurs, comme
l’explique l’historien Amnon Raz Krakotzkin, le sionisme fut guidé, presque dès
ses débuts, par un « principe directeur selon lequel le peuplement
de la Palestine est plus important que le sauvetage des juifs »21. Dans cette perspective, « sauver
des juifs n’a d’intérêt que si cela sert à peupler la Palestine. De même les
manifestations dans la colonie juive de Palestine à l’époque ne réclamaient pas
le sauvetage des juifs, mais la libre émigration en Palestine et la création
d’un État hébreu »22.
À la fin des années 1930,
alors qu’aux lois raciales, aux expropriations et à la ségrégation que
subissaient les juifs d’Allemagne commençaient à s’ajouter des persécutions
plus féroces, David Ben Gourion affirmait publiquement :
Si
je savais qu’on pouvait sauver tous les enfants [juifs] d’Allemagne en les
envoyant en Angleterre mais seulement la moitié d’entre eux en les envoyant en
Palestine, je choisirais cette dernière option parce qu’il ne s’agit pas
seulement de prendre en compte le nombre d’enfants mais de tenir également
compte de l’histoire du peuple juif.23
Dès avant la création de l’État
d’Israël et de manière déclarée, les sionistes n’envisageaient les populations
juives, en Palestine comme ailleurs, que comme un matériel humain ou des
boucliers humains.
Dernière inversion qui résulte des
autres et les englobe : à l’idée d’une Palestine libre, les sionistes
opposent le danger d’un possible massacre ou d’une expulsion des Juifs
israéliens, pour faire oublier le génocide en cours, les massacres et les
expulsions réels qu’Israël a perpétrés depuis des décennies et sur lesquels
s’est fondée toute son existence.
ISRAËL COMME PARADIGME
L’État d’Israël inspire les
méthodes les plus efficaces sur les plans militaires, policiers, discursifs,
idéologiques ou architecturaux pour désarmer les résistances, pour faire en
sorte que toute opposition soit rendue marginale ou défensive, qu’elle voit ses
alliances entravées, son langage réduit, ses cadres prescrits, ses actions
prohibées, ses prises de positions intimidées ou réprimées par
l’anti-terrorisme — même les plus modérées, même celles qui viennent de
secrétaires syndicaux ou de députées de la France insoumise.
Tudo isto não leva a ver Israel
como uma espécie de defensor do racismo e do colonialismo – ou mesmo do racismo
e do colonialismo ocidentais. Durante muito tempo não acreditámos mais no campo
do Bem ou em figuras do Mal absoluto, exceto como instrumentos de propaganda e
ficções governamentais. O próprio Estado de Israel depende, entre outras
coisas, de um mito desastroso do Mal absoluto, que é precisamente uma questão
de desfazer. Mas o Ocidente certamente não esperou que o sionismo escravizasse,
expulsasse, colonizasse, exterminasse. A história da Argélia Francesa é
suficiente para provar isso. Além disso, esta sequência é uma das principais
razões para o apoio particular da França a Israel (que só é rivalizado pela
Alemanha no que diz respeito à sufocação de vozes dissidentes), muito mais do
que as lágrimas hipocritamente derramadas pela deportação de judeus - muitas
vezes pelo retorno anti-. Semitas.
Se dizemos que o Estado de Israel
deve ser considerado um paradigma, é porque se tornou um dos meios mais seguros
de legitimar, normalizar ou glorificar estas práticas governamentais. Por um
lado, ele incorpora as suas formas plenamente aceites, as únicas no Ocidente
onde o colonialismo e o racismo ainda podem ser plenamente justificados como
tais. Por outro lado, é como o grande laboratório, o centro experimental. O seu
papel de vanguarda na contra-insurgência, no controlo populacional, nas
tecnologias de vigilância e morte, na repressão e na gestão de supranumerários,
tudo isto é perfeitamente assumido pelos israelitas e seus aliados. Não são
apenas vozes anticoloniais, recusados ou opositores que se referem a ela.
Muitos militares e políticos israelitas, bem como líderes empresariais, continuaram a elogiar este
know-how, não só na Europa ou
nos Estados Unidos, mas na Índia, no Egipto, na Arábia Saudita e até nas favelas do Brasil. Em França, este aspecto é transmitido por muitos actores
económicos, políticos, industriais e académicos, que não perdem nenhuma oportunidade de
expressar a admiração que este país lhes inspira e o desejo de tomá-lo como modelo.25. São apenas os sionistas de
esquerda que fingem perguntar-se por que é que os apoiantes da Palestina se
concentram tanto no Estado de Israel. Os pró-israelenses declarados há muito
que deixaram de fazer esta pergunta, achando muito mais vantajoso aprofundar e
confirmar as razões para este foco.
Pesquisador
itinerante e interdependente.
https://foicebook.blogspot.com/2024/07/direito-de-se-defender-ou-como-fazer.html#more
Publicada por Pena Preta à(s) sábado, julho 06, 2024



