quarta-feira, 27 de maio de 2026

João L. Maio - Talvez: Bad Bunny, as mensagens de plástico e as palavras que se perdem



Fotografia: CARLOTA BARRENTO


* João L. Maio  
27/05/2026 

Começo por dizer que sou fã de Bad Bunny e que adoraria ter ido ao concerto (caso este não fosse no Estádio da Luz, uma vez que me recuso a entrar nesse estádio, com a única excepção a ser uma deslocação do FC Porto a Lisboa). Não vá dar-se o caso de sub ou sobre-interpretarem este texto.

Hoje temos sempre de fazer este género de avisos; que não somos anti-semitas por criticar o governo de Israel, que não somos comunistas por defender impostos progressivos ou que não somos homofóbicos por contarmos ou nos rirmos de uma piada que envolva homossexuais. Depois do aviso, aqui vai.

Muitos artistas atingem o estrelato e cimentam-se no mainstream com mensagens de amor, de paz e de solidariedade. No início, tal voragem humanista é o que os eleva. E parece-me sempre genuíno. Depois, o tempo passa e, estando no mainstream, a mensagem perde-se e o artista volta a ser o que estava planeado: um bem de consumo que passa de boca em boca até se perder na viragem do novo álbum, do single mais recente ou de outro artista que aparece… com outra mensagem. E o ciclo repete-se.

Benito, como é conhecido Bad Bunny, começou na música com o reggaeton mais convencional, com toques de hiphop. Depois, criou a sua imagem, aproveitando o crescimento do ódio, usando a sua posição como cidadão porto-riquenho para chamar a atenção para os problemas que assolam o seu território e que, directa e indirectamente, atingem toda a economia mundial: desregulação económica selvagem, especulação imobiliária, gentrificação ou a capitalização das cidades como grandes Disneylands, foram os temas que catapultaram o artista de Porto Rico para o mainstream definitivamente. O álbum DtMF explodiu e músicas como a que dá nome ao álbum, Baile Inolvidable, NuevaYol ou Café con Ron tornaram-se verdadeiros hinos de 2025, passaram na mente e ecoaram pelos lábios de quase toda a gente durante o Verão do ano passado e atravessaram o ano de 2026 com uma tour internacional anunciada, para delírio de muitos.

O problema é que com a proliferação das canções, a mensagem principal perdeu-se e deu lugar, como em quase tudo o que nasce organicamente hoje em dia, à venda de bilhetes e merchandising, aos outfits e ao poder visual das luzes. Os fãs, seguiram a mesma lógica: partilham as frases feitas, imitam o guarda-roupa e atendem aos concertos de câmera de plástico na mão com a inscrição “DtMF”, enquanto seguram milhares de telemóveis para, mais tarde, reverem o concerto que viram… exactamente através do telemóvel.

E a mensagem? A consciencialização das massas para o problema da habitação, da gentrificação e do capitalismo tardio? Já era. Perdeu-se na espuma que a onda de entusiasmo trouxe, como chapada na barra num dia de tempestade. Abre-se o Super Bowl, proliferam-se mais meia dúzia de frases amorosas que colam o público ao álbum e vendem-se mais bilhetes. E a prova de que a mensagem não importa nada, no final de contas, é ver o presidente da CM de Lisboa, que representa tudo aquilo que, no princípio, era o alvo das críticas de Bad Bunny, a promover um seu concerto na cidade que preside, como se nada fosse; como se a música não fosse, desde sempre, a condutora das ideologias, daquilo que se pensa, do que se sente e de tudo o que se defende. É um espelho de cada um de nós, em tudo aquilo que representamos.

Ou talvez não. Talvez as coisas tenham mudado e os hinos de ontem, que chegam até hoje, sejam já só mera arte imobilizada, que não se mexe por já não vender. Talvez o importante hoje seja o supérfluo e não o âmago de cada questão. Talvez o que importe seja o “eu estive lá” com uma fotografia que o comprove. Talvez a mensagem seja passageira. Talvez a música seja já só barulho. Talvez esteja a romantizar demasiado a arte. Talvez um dia a gente mude… talvez.

Aproveitem os concertos, divirtam-se muito, mas não deixem que mensagens revolucionárias se percam na estrada, pelo caminho, quando a mensagem é açambarcada pelo artista das mil e uma views, como um Deus que carrega uma verdade, porque esses deuses somos todos os nós, os que realmente carregam o papiro mensageiro que é vendido, usado e abusado, até já não significar nada mais do que uma canção num álbum de 2025.

https://aventar.eu/2026/05/27/talvez-bad-bunny-as-mensagens-de-plastico-e-as-palavras-que-se-perdem/

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