* Tiago Franco
Sentei-me à mesa e fui falando com quem estava à minha frente. Ela, a companhia de cada dia. O restaurante era familiar, tradicional, bem decorado, perdido ali por uma das aldeias do Douro vinhateiro cujo nome não me consigo recordar.
ao tamanho que trouxe fama ao Norte mas a comida era óptima. O vinho, curiosamente, nem tanto. O Alentejo enche-me as veias, aparentemente.
Posso ter andado distraído nestes últimos anos, é capaz, mas Portugal tornou-se um destino turistico pouco dado a "faça férias cá dentro". Qualquer tasca perdida na serra é gourmet, nos preços sobretudo, qualquer casa da tia é pousada de charme a 200 eur a noite.
Não tenho por hábito fazer férias em Portugal, desde logo porque tenho poucos períodos a que posso chamar férias e depois, mais importante, porque vivo num sítio que já é um destino de ferias por si só. A ilha preenche-me quase todas as necessidades de viajar em Portugal. Quando é para torrar algum, tento mesmo ver coisas novas.
Ainda assim, e isto é apenas uma curiosidade de observador, uma vez que não percebo nada da poda, não será arriscado meter as fichas todas no turismo e, em simultâneo, praticar preços que 80% dos portugueses não conseguem pagar? Quando os estrangeiros de bolso mais fundo desaparecem, o que acontece? Pedem apoios? E até lá? Os portugueses fazem de porteiros da Disneyland em que nos tornámos?
Enquanto falava via uma cena na mesa do lado que me ia incomodando. É um dos meus problemas, não me consigo focar numa coisa só e fechar o cérebro a sinais exteriores.
Um casal muito novo, com jeitos de andar nos primeiros encontros, senta-se, faz a encomenda e volta para os telefones. Durante 10 minutos não trocaram uma palavra enquanto davam seguimento às suas vidas virtuais. Levantaram a cabeça quando a comida chegou.
Eu faço parte daquela geração que cresceu à volta da mesa. Sem televisão, logicamente sem telefones e com conversas que se arrastavam para lá do café. Convivo, por isso, muito mal com o silêncio e seria incapaz de estar, numa mesa, calado, com alguém à minha frente.
A angústia era tal que, a dada altura, apeteceu-me sentar na mesa do lado e arranjar-lhes um tema de conversa para que falassem. Vejo muitas cenas destas em Portugal. Até com famílias inteiras que escolhem sair de casa, ir para um restaurante largar uma pipa, para fazerem o que fazem em no sofá da sala, ou seja, olhar para o telefone.
Será talvez conversa de velho do Restelo mas a fraca aptidão social desta geração estará, em parte, na mudança que aconteceu na forma de comunicar. Trocou-se o olhar em frente, na direção de uma cara, para o olhar para baixo, mirando um ecrã.
A minha geração também tem uma dose de culpa, quando desistimos de ser pais e mães e entregámos os putos ao silêncio e tranquilidade de um ecrã. Quem é que quer estar a correr atrás deles na rua, num dia frio, quando os pode largar no quentinho hipnótico de um iPad? Ah pois...
Ouço um puto no concerto dizer a outro: "fui lá pedir o insta dela para lhe escrever " e pensei com os meus botões, porque é que não falaste só com ela, ali, mesmo à tua frente?
Teremos provavelmente a geração mais incapaz socialmente mas, aposto, nascerão poetas, escritores e guionistas como nunca antes
2026 Maio 09
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