quinta-feira, 28 de maio de 2026

Carlos Coutinho - Homenagem a Manso Pinheiro

Carlos Coutinho
6 h
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Em tempos que já lá vão, não me passava pela cabeça que a simples troca de posição de duas palavras que estavam juntas para designarem algo singular podia equivaler à mais insólita das transformações na ordem do mais curial estatuto semântico. 

   Admito que existam outros casos tão ou mais obscenos do que aquele que agora entrega as pontas dos meus dedos a um teclado indefeso como este, o do meu resiliente computador: o de uma árvore revirada para cidadão – pinheiro manso e Manso Pinheiro. 

   Corria o ano de 1974 quando conheci um capitão miliciano coproprietário de uma editora decisiva com o irmão. Chamava-se Manso Pinheiro, era de esquerda e atuava em conformidade com essa mundividência, merecendo-me um respeito crescente que ainda perdura, esteja ele vivo ou não.

   O mesmo ocorre com um árvore benemérita de Portugal, o pinheiro manso, que, apesar de ser resinosa, respirar por agulhas e ter séculos de régia e rígida inibição imposta aos resineiros, está há séculos a zelar por Portugal, começando por fornecer a salvífica anatomia das caravelas e a inconfundível fisionomia do mobiliário de alta qualidade.

   Dir-se-á que terei de estender tal apreço à oliveira, ao carvalho, ao sobreiro, à figueira, à macieira, ao castanheiro e até à parreira que se desdobra em milagres geradores de fé, esperança e caridade, como é timbre, sagrado timbre e altivez dos vinhos que conheço desde que nasci no Alto Douro. 

   Claro que um figo seco, um cacho de moscatel ou de mourisca, assim como uma castanha assada, por exemplo, já para não falar de um cálice de vinho fino, podem justificar a existência de uma pessoa, mesmo que já tenha de se esforçar muito para continuar viva e atuante, mas ninguém deve tanto a uma árvore como os navegadores, os seus patrões e as gentes que ainda hoje não prescindem dos frutos do mar. 

   É o meu caso, como está bom de ver.

2026 Maio 28

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