* canal #moritz
2026 05 26
·
Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa. Não importa se a conversa começa sobre salários, guerra, imigração ou o preço da electricidade. Ao fim de dez minutos aparecem sempre os mesmos arquétipos políticos, carregados de certezas absolutas, contradições épicas e uma impressionante capacidade para dizer tudo e o seu contrário sem pestanejar.
A primeira a entrar costuma ser a , socialista de televisão, europeísta de ocasião e anti-comunista preventivamente nervosa. É daquelas pessoas que conseguem, na mesma frase, elogiar o Estado Social, defender o PS, citar valores de Abril e terminar a pedir “responsabilidade dos mercados”. Para ela, o capitalismo americano é profundamente injusto, mas ao mesmo tempo representa “a democracia liberal que nos protege”. A União Soviética acabou há décadas, mas a dona Matilde continua a falar dos soviéticos como quem espera uma invasão anfibia em Peniche.
Depois aparece o inevitável , representante da esquerda domesticada, higienizada e compatível com painéis televisivos patrocinados por bancos. O Luís apresenta-se como homem do Bloco de Esquerda, progressista, defensor de causas sociais e especialista em indignação selectiva. Revolta-se contra tudo o que não coloque verdadeiramente em causa o sistema económico. Fala muito de linguagem inclusiva, diversidade e empatia, mas quando a conversa chega a imperialismo, NATO, grandes grupos económicos ou concentração de riqueza, entra imediatamente em modo nevoeiro ideológico:
“A questão é complexa.”
Complexa, neste caso, significa:
“Tenho medo de dizer algo que me retire convites para debates televisivos.”
O curioso é que esta pseudo-esquerda vive obcecada em parecer “responsável” perante o mesmo sistema que diz combater. Quer fazer revolução, mas sem incomodar acionistas. Quer combater desigualdades, mas sem tocar nos lucros. Quer defender trabalhadores, mas sem assustar comentadores da SIC Notícias.
E claro, nenhuma reunião estaria completa sem a lendária , patriota profissional do sofá, inimiga mortal dos imigrantes — excepto daqueles que lhe fazem os trabalhos todos que ela nunca quis fazer. A dona Rebola Caixotes passa a vida a repetir que “os estrangeiros vêm roubar empregos aos portugueses”, embora ela própria nunca tenha mostrado grande interesse em trabalhar. Defende valores tradicionais, acha que a mulher deve ficar em casa e acredita que o país está a ser destruído por gente de fora. No entanto, o jardineiro é imigrante, o estafeta é imigrante, o homem das obras é imigrante e provavelmente até o técnico da internet que lhe permite espalhar teorias absurdas no Facebook também é imigrante.
Mas esses não contam.
Porque no imaginário dela existem sempre dois tipos de estrangeiros:
* os “bons”, que trabalham barato e em silêncio;
* e os “maus”, inventados diariamente por páginas de propaganda e vídeos alarmistas.
No meio deste circo ideológico sobra apenas o , que apesar das minis e da linguagem caótica, por vezes é o único que percebe o absurdo geral da conversa. É ele quem pergunta como é possível um partido dizer-se socialista enquanto governa para grandes interesses económicos. É ele quem se ri de uma esquerda que evita certos temas para não parecer “radical”. E é ele quem nota que muitos dos que gritam contra pobres, imigrantes ou subsídios normalmente nunca criticam os verdadeiros centros de poder económico.
No fundo, aquela reunião online não era apenas uma conversa caricata. Era um retrato bastante fiel da confusão política moderna: uma direita agressiva alimentada pelo medo, uma pseudo-esquerda preocupada em parecer aceitável para o sistema, um centrismo disfarçado de socialismo e um povo perdido no meio de propaganda, redes sociais e slogans vazios.
https://www.facebook.com/canalmoritzptnet
Sem comentários:
Enviar um comentário