Manuel Cardoso, Humorista
Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo
Pedro Passos Coelho concluiu que precisava de se focar no seu bem-estar. Nesse sentido, decidiu agendar sessões recorrentes em que pode falar à vontade dos seus ressentimentos durante uma hora. Infelizmente para o país, não quis gastar dinheiro em terapia e optou pelas apresentações de livros. Há autores que, quando decidem escrever um livro, põem-se a pensar em quem é que poderia apresentá-lo. Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo. Os novos aliados de Passos Coelho estão a ficar seriamente preocupados: o ex-Primeiro-Ministro tem passado muito tempo em livrarias. Por estar permanentemente rodeado de estantes com livros, temem que possa considerar adquirir um.
Nunca marquei presença nestes eventos, mas consigo imaginar a dinâmica: primeiro, o autor do livro confessa que é uma honra ter sido convidado para escrever um livro a propósito do lançamento da apresentação de Passos Coelho; depois, faz uma breve biografia do apresentador, percorrendo o longo percurso apresentadorístico do massamense; a seguir, oferece o livro aos presentes para lhes despertar interesse na apresentação. Entretanto, Pedro Passos Coelho pega no microfone e apresenta o livro. Por fim, o autor do livro vai arrumando as cadeiras enquanto Passos Coelho distribui autógrafos.
Como sempre se soube, Portugal é demasiado pequeno para Pedro Passos Coelho. O mercado editorial português não faz lançamentos suficientes para acompanhar a prolificidade das apresentações de Passos Coelho. Até agora, o ex-presidente do PSD ainda tem conseguido encontrar, para participarem nas suas apresentações, autores de ciência política ou direito constitucional. Em breve, Pedro Passos Coelho vai ser forçado a apresentar "As 100 Receitas Mais Virais do TikTok", a biografia de um agente imobiliário ou a nova sensação do soft-porn "Tudo O Que Aprendi No Pilates". Em princípio, isso beneficiará os autores. Até porque, ao contrário do que acontecia quando Passos era PM, os "livros não-educativos" já não são taxados a 23%.
2026 Maio 27
https://expresso.pt/opiniao/2026-05-27-passos-coelho-nao-se-aposenta-apresenta-4c980ba7
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