quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Paris no século XX – Júlio Verne





É um livro pouco conhecido de Júlio Verne (1828-1905), de publicação póstuma (1989, na França), parece que escrito entre Cinco Semanas em um Balão (1863) e Viagem ao Centro da Terra (1864). Não tem, como alertam os críticos no preâmbulo e prefácio da edição que tenho em mãos, todas as qualidades deste que é um dos meus escritores favoritos, mas consegue nos alegrar com algumas frases naquele estilo espirituoso que somente os escritores franceses do século XIX conseguiram produzir.
Paris no Século XX narra a história de Michel Dufrénoy, um jovem de 19 anos que termina seus estudos laureado com o prêmio de melhor composição poética em Latim no ano de 1960 em Paris. Tutelado por um tio banqueiro, é obrigado a trabalhar numa instituição e abandonar qualquer ambição que tenha como artista: no século XX, na França, as únicas profissões concebíveis são de industriário, comerciante ou financista. Os artistas vivem à margem de uma sociedade onde o problema não é não ter dinheiro, mas o que fazer com ele. Michel, como é de se esperar, não se encaixa em nenhuma atividade que lhe encontram, nem mesmo como roteirista de teatro, pois é incapaz de produzir peças que glorifiquem a mecânica, a física, a engenharia ou a matemática financeira. Aos poucos, Michel constroi um círculo de amigos que, artistas como ele, tentam manter um trabalho para sustentar, às escondidas, sua música e sua literatura. Esses amigos aconselham Michel a trabalhar para que possa sustentar a noiva, mas é inútil. Nessa Paris, Victor Hugo mofa nos porões da biblioteca nacional, e ao artista cabe o exílio ou caminhar por uma cidade que Julio Verne não reconhece mais – apesar de ser ele mesmo quem a imagina no futuro.
Qual é a graça do romance?
A graça é lê-lo como um Fahrenheit 451 em que o narrador, ao contrário de não ver em seu horizonte nada além da opressão, tem a alternativa de se maravilhar com o desenvolvimento tecnólogico, ao mesmo tempo em que deprime pela falta de lirismo, poesia e emoção que este mesmo desenvolvimento traz. É um Julio Verne entre o ensaio e a ficção. Mas leia de todo o jeito. Se for fã, gostará. Abaixo trago citações selecionadas. O autor, como sempre, acerta um bocado sobre o futuro – tanto quanto erra. Felizmente, os acertos são muito mais fascinantes que seus erros.


Estruturas sócioeconômicas
“O monopólio, esse nec plus ultra da perfeição, mantinha o país inteiro em suas estufas; empresas multiplicavam-se, inauguravam-se, organizavam-se – seus resultados inesperados teriam deixado nossos pais profundamente surpreendidos.” (p. 31)
- Recordo uma tabela que recebi mostrando a participação dos grandes fundos nas empresas do mundo. Ele também nos deixa profundamente surpresos. Primeiro, não existem empresas nacionais, nem aqui, nem nos EUA, Europa e China. Segundo, não existe esta coisa de concorrência. Todo mundo é sócio de todo mundo. (Aliás, como na política.)
“Ora, para um empresário, construir ou instruir é tudo a mesma coisa, visto que para falar a verdade a instrução não passa de um tipo de construção um pouco menos sólida.” (p. 32-33)
- Na França do livro, toda a educação está a cargo de uma empresa que paga lucros extraordinários aos mesmos acionistas da indústria e comércio. Mas, tirada do contexto do livro, não entendo muito a frase. Ela possui uma ironia que absolutamente não é verdade nos dias de hoje, em que a classe empresarial é a que mais teme a falta de instrução de um país. E, não, não vão dizer que eles preferem uma massa incauta. Políticos preferem.
“- Quanto à orquestra – prosseguiu Quinsonnas, – essa decaiu muito desde que o instrumento deixou de ser suficiente para alimentar o instrumentista! Eis um ofício que nada tem de prático! Ah! Se pudéssemos utilizar a força desperdiçada dos pedais de um piano para escoar a água das hulheiras!” (p. 103)
- Os instrumentos continuam não alimentando a maioria, Verne,  não continuam…


Literatura na Paris de 1960 de Julio Verne
“Se ninguém mais lia, pelo menos todo mundo sabia ler, escrever até (…).” (p. 32)
- Julio Verne deve ter pensado que seria um grande avanço que, em cem anos a partir de sua época, todos soubessem ler. Mas ele sabia que não seria, pois saber ler é diferente de ler. Ele foi o criador avant la lettre do termo analfabetismo funcional.
“ – Primeiro prêmio de versos latinos: Dufrénoy (Michel Jerôme), de Vannes (Morbihan).
A hilaridade foi geral, em meio a observações do seguinte tipo:
- Prêmio de versos latinos!
- Ele era o único que escrevia!
- Vejam só esse acionista do Pinda!
- Esse frequentdor do Helicônio!
- Essa pilastra do Parnaso!
- Ele vai! Ele não vai!” (p. 40)
- Silvio Santos não teria escrito melhor a última frase! O lado sombrio da cena é saber que ela poderia se passar hoje exatamente como imaginada há 150 anos por Verne.
“E, entre outras, as Harmonias elétricas, de Martillac, obra laureada pela Academia de Ciências, asMeditações sobre o oxigênio, do Sr. de Pulfasse, o Paralelograma poético, as Odes descarbonatadas…” (p. 62)
- Não consigo nem imaginar o que poderiam ser essas obras se houvessem sido escritas numa época em que a arte tivesse perdido a importância. E que criatividade para nomes, não?
“ (…) Ah, meu rapaz, com suas ideias, com seus talentos, você nasceu muito tarde (…)” (p. 66)
- No livro, o artista não é incompreendido por ser de vanguarda, mas por ser anacrônico. Aparece a mesma coisa mais pra frente, leia:
“(…) respirou o perfume literário que lhe subia ao cérebro como uma cálida emanação dos séculos transcorridos, apertou a mão de todos aqueles amigos do passado que teria conhecido e amado se tivesse tido a capacidade de nascer mais cedo!” (p. 128)

“ – A literatura morreu, meu rapaz – respondeu o tio. – Veja estas salas desertas e estes livros sepultados na própria poeira; não se lê mais; eu sou, aqui, o zelador deste cemitério, e é proibido fazer exumações.” (p. 67-68)
- Que imagem, não?
“ – Venha por aqui – disse ele a Michel – e vamos começar pelo começo; hoje não se trata de ler, mas de olhar e conversar. Estamos passando em revista, não travando uma batalha; imagine Napoleão nas Tulherias, não no campo de Austerlitz. Ponha as mãos atrás das costas. Vamos passar entre as fileiras.” (p. 117)
- E advinhe quais são as fileiras? As fileiras  de uma extensa prateleira cheia de livros. Na ânsia de ler os romances que considerava perdidos, o protagonista quer logo pôr as mãos neles. Mas o tio o adverte “mãos atrás das costas” e eles começam a percorrer com os olhos séculos de literatura francesa numa das passagens mais bacanas do livro, em que Verne compará cada famoso autor francês a algum posto no exército.
“ Balzac é o primeiro romancista do mundo (…)” (p. 124)
- Dito por volta de 1863. Eu não poderia deixar de falar de Balzac, um de meus heróis.
"Pois bem, toda essa grande mania de jornal em pouco tempo provocou  a morte do jornalismo, pela inquestionável razão de que os escritores haviam ficado mais numerosos do que os leitores" (p. 165)
- Oxalá o vaticínio não se aplique ao mercado de ficção com todas estas obras autopublicadas!


A Paris de 1960 de Julio Verne
“Foi em 1937, durante o reinado de Napoleão V, que ele lançou o empreendimento.” (p. 33)
- Ninguém escapava aos encantos do Império. Quinta geração de Napoleão?!
“Não obstante, malgrado a afluência do público, tudo decorria dentro da ordem (…) haviam sido necessários cento e cinquenta anos para que se reconhecesse a verdade de que em dia de multidão mais valia multiplicar as saídas que restringi-las.” (p. 36-37)
- Não tenho certeza a que evento Julio Verne alude. Mas bem pode ser o 18 Brumário. Paris era notória pela vielas estreitas que facilitavam os massacres. Verne teve chance de ver a modificações que Hausmann estava fazendo na paisagem parisiense e, por certo, a aprovava, diferentemente de alguns contemporâneos.
“ (…) as maravilhas do século XX já estavam presentes nos projetos do século XIX.” (p. 39)
- A razão da imaginação de Verne não é imaginação: é pesquisa de campo. Hoje, futurologia é profissão das mais bem remuneradas.
“Além disso, a telegrafia fotográfica (…) (p. 72)
- Verne antecipou o fax.
“ – Ora, ora! E a indústria, essa boa mãe, e a mecânica, essa boa filha? (…) (p. 91)
- No livro, é o comentário irônico de um músico que vê seu piano se transformar em mesa de refeições, depois em cama, graças aos avanços da indústria moveleira. Hahaha!
“ (…) já se disse, sei lá, com Montaigne, talvez com Rabelais, no século XIX: que diferença isso faz para mim? Hoje em dia se diz: quanto isso me rende? Pois bem, no dia em que uma guerra render alguma coisa, à maneira de um negócio industrial, haverá guerra.” (p. 97)
- No mundo imaginado por Verne, não havia mais guerras porque tudo tinha virado comércio. Que ideia será que ele fazia das guerras?! Sempre foi apenas um comércio.
“Eis como essa grande arte era compreendida durante a primeira metade do século XIX! Não se andava atrás das fórmulas novas; assim como no amor, não há nada de novo a encontrar na música, prerrogativa encantadora das artes sensuais, a de serem eternamente jovens.” (p. 106)
- Não lembro que escritora comentou que, sim, voltava ao velho tema do amor, pois, se não há nada de novo para falar sobre ele, há novas pessoas que amam.
“ (…) A francesa virou americana; fala gravemente de negócios graves, encara a vida com rigidez, cavalga sobre o lombo magro dos costumes, veste-se mal, sem gosto, e enverga coletes de tecido galvanizado capazes de resistir às pressões mais intensas. Meus filho, a França perdeu sua verdadeira superioridade; suas mulheres, no delicioso século de Luiz XV, haviam afeminado os homens; de lá para cá passaram para o gênero masculino e já não vale o olhar de um artista nem a  atenção de um amante!” (p. 145)
- Passagem absolutamente deliciosa do livro, fala sobre a extinção, no novo século, da mais perfeita mulher “dentre elas todas, a Parisiense”. Verne, não culpe os norte-americanos, será uma conterrânea que terá vestido as mulheres no mundo todo de preto.
"Não é na França que se constroem as reputações francesas; aqui se importam produtos estrangeiros. Vou fazer-me importar."
- Aplica-se ao Brasil do século XXI. As pessoas saem pra aprender inglês e voltam artistas e empreendedores consagrados.


Personagens do livro
“O Sr. Stanislas Boutardin (…) exprimia-se por gramas e centímetros e andava com uma bengala métrica fosse qual fosse o clima, o que lhe dava um grande conhecimento das coisas deste mundo; desprezava solenamente as artes, principalmente os artistas, para dar a entender que os conhecia; para ele, pintura não ia além da água forte, o desenho da cópia, a escultura da fôrma, a música do apito das locomotivas, a literatura dos boletins da Bolsa.” (p. 53)
- Não é uma descrição formidável! Muito engraçada! Imagine o sujeito ler boletins da Bolsa e achar aquilo o máximo?! Hahaha.
“Era um homem desagradável, sem juventude, sem coração, sem amigos. Seu pai o admirava muito.” (p. 56)
- Não fosse o estilo em duas as frases e a gente acreditaria menos. Aliás, o pai em questão é o tal que lê boletins da Bolsa.
“(...) uma família rica bem provida das qualidades que o dinheiro faz emergirem, com um coração na medida justa para fazer o sangue circular nas artérias.” (p. 56)
- Ninguém escreveu com tanta diplomacia a falta de coração.
“Aquele trabalho mecânico foi uma grande dificuldade para ele; não tinha o fogo sagrado e sob seus dedos o aparelho funcionava bastante mal (…)” (p. 73)
- Olha a inversão que Verne fez: no futuro, as musas não habitariam artistas, mas os operários!
“ – Ora, ora! Não é nada disso! Conte-me o que tem feito, seus planos! Naquele estabelecimento bancário! Por acaso suas ideias…?
- Sempre as mesmas, meu tio.
- Diabo! Vamos para a mesa, então! Mas tenho a impressão de você não me deu um abraço!
- Dei sim, tio!
- Pois bem! Abrace outra vez, sobrinho! Não há de me fazer mal, ainda não almocei; aliás, um abraço vai me abrir o apetite.” (p. 112)
- Deve ser o tio mais querido e simpático da literatura francesa! Quem tem tios assim deve estar sorrindo agora, né? Você está?
“ (…) A Srta. Lucy tinha quinze anos de idade, era deslumbrante com seus longos cabelos louros abandonados sobre os ombros, de acordo com a moda do momento, fresca e toda viçosa, se é que essa expressão consegue transmitir tudo o que nela havia de novo, de puro, de recém-surgido (…)” (p. 131)
- Júlio Verne não tinha como imaginar que as mulheres estariam queimando sutiãs em 1960 e preferindo ser chamadas de gostosas a viçosas. Não o culpe.


Máximas e boas frases
* sobre ter apenas dois amigos na vida:
“ – É muito, se estiverem enganando você – respondeu sentenciosamente o velho – e suficiente, se amarem você.” (p. 115)

* sobre a juventude:
“ (…) gosto da juventude, desde que seja jovem! Os velhos antecipados sempre me pareceram uns hipócritas!” (p. 115)

* sobre as mulheres:
“ (…) a opinião que possamos ter das mulheres, nós homens, é muito variável. Pela manhã não penso o que pensava à noite; a primavera me inspira coisas diferentes a respeito delas das que me inspira o outono; a chuva ou o bom tempo tem o poder de modificar singularmente minha doutrina; na verdade, até minhas digestões têm uma influência incontestável sobre meus sentimentos para com elas.” (p. 143)

* das condições que devem existir para forçar um solteirão a se casar:
“ (…) Enquanto não instituírem o famoso tribunal solicitado por Voltaire para julgar casos de infidelidade, composto por seis homens e seis mulheres, com um hermafrodita com voto preponderante nos casos de empate.” (p. 146)

* do casamento com um artista:
“ – Meu filho, então você não sabe que o gênio e até o talento são uma doença, e que a mulher de um artista tem que conformar-se com o papel de enfermeira?” (p. 150)

* sobre a recém liberdade:
“ Haveria de querer dizer a um escravo ébrio com suas primerias horas de liberdade: ‘Saiba, meu amigo, que agora vai morrer de fome!’ “ (p. 155)

* sobre o absurdo da propriedade da terra:
“Quando se pensa que um homem, seu semelhante, feito de carne e osso, nascido de uma mulher, de uma simples mortal, possui uma certa porção do globo terrestre! Que essa porção de globo terrestre lhe pertence de fato, como sua cabeça, e muitas vezes mais ainda que sua cabeça!” (p. 159)

* sobre a imprestabilidade do Rio Sena quando congelado:
“ – Mau tempo para o desespero – exclamou. – A pessoa não pode sequer afogar-se.” (p. 198)

revisto por Mayra Corrêa e Castro ® 2012

VERNE, Julio. Paris no século XX. Tradução de Heloisa Jahn; prefácio e estabelecimento do texto: Piero Gondolo della Riva; preâmbulo do editor na França: Véronique Bedin. São Paulo: Editora Ática, 1995.
OBS: O livro está esgotado em português. Procure-o nos sebos da Estante Virtual.
Postado há 1st August 2012 por Mayra Corrêa e Castro

in http://asmelhorespartes.blogspot.pt/2012/08/paris-no-seculo-xx-julio-verne.html


 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

F Scott-Fitzgerald - TRÊS HORAS ENTRE DOIS AVIÕES


* F Scott-Fitzgerald 

Era uma probabilidade longínqua, mas Donald estava bem-disposto, cheio de saúde e aborrecido, com a sensação de ter cumprido um dever maçador. Ia agora ter a sua compensação. Talvez.
Quando o avião aterrou ele saiu para uma noite de Verão do médio-oeste e dirigiu-se para o isolado aeroporto do «Pueblo», como se convencionara chamar a velha «estação de caminho-de-ferro» vermelha. Não sabia se ela estava viva, nem se vivia naquela terra, nem qual era o seu nome actual. Com crescente excitação procurou na lista telefónica o nome do pai dela, que também podia ter morrido em qualquer altura, durante aqueles vinte anos.
Mas não. Juíz Harmon Holmes - Hillside 3194. Quando perguntou por Miss Nancy Holmes respondeu-lhe uma voz divertida de mulher:
- A Nancy está casada com Mr. Walter Gifford. Quem é que fala?
Mas Donald desligou sem responder. Descobrira o que queria saber e só dispunha de três horas. Não se lembrava de nenhum Walter Gifford e houve outro momento de expectativa enquanto consultava rapidamente a lista. Podia estar casada fora da cidade.
Não. Walter Gifford - HilIside 1191. O sangue voltou-lhe às pontas dos dedos.
- Está lá? Mrs. Gifford está? Fala um velho amigo dela.
- Sou eu própria.
Lembrou-se, ou julgou lembrar-se, da estranha magia da voz dela.
- Fala o Donald Plant. Já não te vejo desde os meus doze anos.
- Ah-h-h! - O tom era de completa surpresa, muito delicado, mas não conseguiu distinguir nele alegria, nem qualquer sinal de que fora reconhecido. - Donald! - acrescentou a voz. Desta vez havia nela mais do que uma luta de memória.
- ...quando foi que voltaste? - E depois com cordialidade. - Onde estás?
- Estou no aeroporto; só por algumas horas.
- Bem, vem até cá ver-me.
- Tens a certeza de que não estavas para ir para a cama?
- Não, santo Deus! - exclamou ela - estava aqui sentada a tomar um whisky sozinha. Diz ao homem do táxi...
Durante o caminho Donald analisou a conversa.
As suas palavras «no aeroporto» indicavam que tinha conservado a sua posição na alta burguesia. A solidão de Nancy podia ser sinal de que se transformara numa mulher sem atractivos e sem amigos. O marido podia ter saído, ou já estar deitado. E- porque ela tinha sempre dez anos nos seus sonhos - o whisky chocou-o. Mas recompôs-se com um sorriso - ela estava muito perto dos trinta.
No fim de uma curva viu uma pequena beldade de cabelos escuros contra a porta iluminada, com um copo na mão. Surpreendido por a ver finalmente materializada, Donald saiu do táxi dizendo:
- Mrs. Gifford?
Ela voltou-se na luz do átrio e encarou-o com olhos muito abertos e perscrutadores. Um sorriso irrompeu da expressão de espanto.
- Donald - és mesmo tu - todos mudamos tanto. Oh, é extraordinário.
Ao entrarem, as vozes de ambos diziam as palavras «todos estes anos», e Donald sentiu uma fraqueza no estômago. Era em parte motivada pela recordação do último encontro, quando ela passara por ele de bicicleta quase o atropelando, e em parte pelo receio de não terem nada para dizer. Era como uma reunião de colégio - mas aí a dificuldade de encontrar o passado era disfarçada pela ocasião alegre e confusa. Aterrado, apercebeu-se de que aquela podia ser uma hora longa e vazia. Mergulhou nela em desespero.
- Sempre foste encantadora. Mas estou um pouco chocado por te ver tão linda como estás.
Deu resultado. O reconhecimento imediato da mudança de ambos, o cumprimento ousado transformou-os em estranhos interessantes em vez de desajeitados amigos de infância.
- Tomas um whisky? - perguntou ela. - Não?
Por favor, não penses que me transformei numa bebedora solitária, mas esta noite era para esquecer. Estava à espera do meu marido mas ele telegrafou a dizer que tem de ficar mais dois dias. É muito simpático, Donald, e muito atraente. Mais ou menos do teu tipo e cor de pele. - Hesitou. - E acho que está interessado em alguém em Nova Iorque, não sei.
- Depois de te ver acho que é impossível - assegurou ele. - Estive casado durante seis anos e houve uma altura em que me torturava com essas coisas. Então um dia expulsei para sempre o ciúme da minha vida. Depois da minha mulher morrer fiquei contente por isso. Deixou-me uma recordação muito rica - nada veio perturbar, ou estragar, ou endurecer a sua memória.
Enquanto ele falava ela olhava-o com atenção e depois com simpatia.
- Lamento muito - disse. E depois de um momento da praxe: - Mudaste muito. Volta a cabeça. Lembro-me de o meu pai dizer: «Aquele rapaz tem miolos.»
- Se calhar não estiveste de acordo.
- Fiquei impressionada. Até aí achava que toda a gente tinha miolos. Foi por isso que me ficou na cabeça.
- Que mais te ficou na cabeça? - perguntou ele sorrindo.
De repente Nancy levantou-se e afastou-se um pouco.
- Ah, não - censurou ela. - Não há direito! Se calhar eu era "muito mazinha.
- Não eras - disse ele resoluto. - E agora vou tomar uma bebida.
Enquanto ela o servia, ainda com o rosto desviado, ele continuou.
- Pensas que foste a única rapariguinha que foi beijada?
- Agrada-te o assunto? - perguntou ela. A irritação momentânea desvaneceu-se e ela disse: - Que diabo! Divertimo-nos bem. Como na cantiga.
- No passeio de trenó.
- Sim. E no pic-nic não sei de quem, da Trudy James.
E em Frontenac naquele, naqueles Verões.
Era do passeio de trenó que ele se lembrava melhor e de lhe beijar as faces frescas na palha a um canto, enquanto ela ria para as estrelas brancas e frias. O par ao lado estava de costas voltadas e ele beijou-lhe o pescoço delicado e as orelhas, e nunca os lábios.
- E a festa do Mack, onde brincaram aos correios e eu não pude ir porque estava com papeira disse ele.
- Não me lembro disso.
- Ora, estavas lá. Beijaram-te e eu fiquei danado com ciúmes como nunca mais tive.
- É esquisito, não me lembro. Talvez tenha querido esquecer.
- Mas porquê? - perguntou ele divertido. Éramos dois miúdos perfeitamente inocentes, Nancy. Sempre que eu falava com a minha mulher acerca do passado, dizia-lhe que tu foste a rapariga que eu amei quase tanto como a ela. Mas acho que realmente te amei tanto como a ela. Quando saímos da cidade levei-te dentro de mim como uma bala de canhão.
- Estavas assim tão entusiasmado?
- Santo Deus, se estava! - De repente ele apercebeu-se de que estavam a meio metro um do outro, que estava a dizer coisas como se estivesse apaixonado por ela naquele momento, que ela o olhava com os lábios semi-cerrados e um olhar embaciado.
- Continua - disse ela. - Tenho vergonha de o dizer, mas estou a gostar. Não sabia que estavas tão transtornado nessa época. Julgava que eu é que estava.
- Tu! - exclamou ele. - Não te lembras de me teres mandado passear no café? - Riu-se. - Deitaste-me a língua de fora.
- Não me lembro de todo. Parecia-me que tu é que me tinhas mandado passear. - A mão dela tocou-lhe no braço ao de leve, quase consoladora. Tenho lá em cima um álbum de fotografias; não olho para ele há anos. Vou descobri-lo.
Donald ficou sentado durante cinco minutos com dois pensamentos: primeiro, a desesperante impossibilidade de conciliar o que diferentes pessoas recordavam sobre o mesmo acontecimento; e depois que, de uma forma assustadora, Nancy o impressionava como mulher como o impressionara como criança.
Em meia hora sentira uma emoção que não conhecia desde a morte da mulher, que nunca esperara voltar a conhecer.
Lado a lado no sofá, puseram o álbum aberto entre os dois. Nancy olhou para ele sorrindo e muito feliz.
- Ah, isto é tão engraçado - disse ela. - Tão engraçado que tu sejas tão gentil e que te lembres assim de mim, de uma maneira tão bela. Deixa-me dizer-te: quem me dera ter sabido disso então! Depois de te teres ido embora fiquei a odiar-te.
- Que pena - disse ele amável.
- Mas agora não - tranquilizou-o ela; e depois, num impulso: - beija-me para compensar.
- ...isto não é ser uma boa esposa - disse ela passado um minuto. - A verdade é que não beijei dois homens desde que me casei.
Ele estava excitado, mas acima de tudo confuso.
Tinha beijado Nancy? ou uma recordação? ou aquela encantadora desconhecida que, tremendo, desviou os olhos dele e voltou uma página do álbum?
- Espera! - disse ele. - Acho que por uns segundos não posso ver nem mais uma fotografia.
- Não vamos recomeçar. Eu também não me sinto muito calma.
Donald disse uma daquelas coisas triviais que têm tanto alcance.
- Não era horrível se nos apaixonássemos outra vez?
- Pára com isso! - Ela riu-se mas quase sem respiração. - Já acabou. Foi só um momento. Um momento que vou ter de esquecer.
- Não contes ao teu marido.
- Porque não? Geralmente conto-lhe tudo.
- Vais magoá-lo. Nunca contes coisas destas a um homem.
- Está bem, não conto.
- Beija-me uma vez mais - disse ele sem convicção, mas Nancy virara uma página e apontava entusiasmada para uma fotografia.
- Aqui estás tu - gritou. - Aqui mesmo!
Ele olhou. Era um rapazinho de calções num cais com um barco ao fundo.
- Lembro-me - e ria-se triunfante - do próprio dia em que foi tirada.
Foi a Kitty que a tirou e eu roubei-lha.
Por um momento Donald não conseguiu reconhecer-se na fotografia; depois, olhando mais de perto, não conseguiu de todo reconhecer-se.
- Esse não sou eu - disse.
- És sim. Foi em Frontenac, no Verão em que costumávamos ir para a cave.
- Qual cave? Só estive três dias em Frontenac. - E de novo fixou os olhos na fotografia ligeiramente amarelada. - E esse não sou eu. Esse é o Donald Bowers. Éramos um bocado parecidos.
Agora ela olhava-o espantada, - inclinada para trás, parecendo querer fugir-lhe.
- Mas tu és o Donald Bowers! - exclamou ela elevando um pouco a voz. - Não, não és. És o Donald Planto
- Eu disse-te ao telefone. Ela pôs-se de pé com uma expressão de horror.
- Plant! Bowers! Devo estar louca. Ou foi da bebida! Fiquei um tanto baralhada quando te vi. Olha cá! O que foi que eu te disse?
Tentou aparentar uma calma monástica enquanto virava uma página do álbum.
- Não disseste nada - afirmou. Fotografias onde não aparecia surgiam e voltavam a surgir - Frontenac - uma cave - Donald Bowers - «Tu mandaste-me passear!»
Nancy falou do outro lado da sala.
- Nunca contes esta história - disse ela. - As histórias têm sempre tendência para se espalharem.
- Não há nenhuma história - disse ele hesitante.
Mas pensou: então ela era mesmo uma rapariguinha marota.
E agora, de repente, estava cheio de loucos ciúmes do pequeno Donald Bowers, ele que banira para sempre o ciúme da sua vida.
Nos cinco passos que deu através da sala liquidou vinte anos e a existência de Walter Gifford.
- Beija-me outra vez, Nancy - disse ele tombando sobre um joelho ao lado da cadeira dela e pondo-lhe a mão no ombro. Mas Nancy desviou-se.
- Disseste que tinhas de apanhar um avião.
- Não interessa. Posso perdê-lo. Não tem importância.
- Por favor, vai - disse ela com voz fria. - E por favor tenta imaginar como me sinto.
- Mas estás a agir como se não te lembrasses de mim - gritou ele. - Como se não te lembrasses do Donald Plant!
- Lembro-me. Também me lembro de ti... mas foi tudo há tanto tempo. - A voz dela tornou-se mais dura. - O número dos táxis é Crestwood 8484.
No caminho para o aeroporto Donald abanava a cabeça de um lado para o outro. Estava de novo em si mas não conseguia digerir a experiência. Só quando o avião rugiu em direcção ao céu negro, e os passageiros se transformaram numa entidade diferente do mundo organizado lá em baixo, é que ele estabeleceu um paralelo a partir da realidade do seu voo. Durante cinco minutos estonteantes vivera como um louco, em dois mundos ao mesmo tempo. Tinha sido um garoto de doze anos e um homem de trinta e um, indissolúvel e irremediavelmente ligados.
Donald perdera muito, também, naquelas horas entre dois aviões; mas como a segunda metade da vida é um longo processo de nos desfazermos das coisas, aquela parte da experiência não tinha provavelmente importância.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Primo Levi - Poichè l'angoscia di ciascuno è la nostra

* Primo Levi

Poichè l'angoscia di ciascuno è la nostra
ancora riviviamo la tua, fanciulla scarna
che ti sei stretta convulsamente a tua madre
quasi volessi ripenetrare in lei
quando al meriggio il cielo si è fatto nero.

Invano, perché l'aria volta in veleno
é filtrata a cercarti per le finestre serrate
della tua casa tranquilla dalle robuste pareti
lieta già del tuo canto e del tuo timido riso.

Sono passati i secoli, la cenere si è pietrificata
a incarcerare per sempre codeste membra gentili.

Così tu rimani fra noi, contorto calco di gesso,
agonia senza fine, terribile testimonianza
di quanto importi agli dei l'orgoglioso nostro seme.

Ma nulla rimane fra noi della tua lontana sorella,
della fanciulla d'Olanda murata fra quattro mura
che pure scrisse la sua giovinezza senza domani:
la sua cenere muta é stata dispersa dal vento,
la sua breve vita rinchiusa in un quaderno sgualcito.

Nulla rimane della scolara di Hiroshima,
ombra confitta nel muro dalla luce di mille soli.

Vittima sacrificata sull'altare della paura.

Potenti della terra padroni di nuovi veleni,
tristi custodi segreti del tuono definitivo,
ci bastano d'assai le afflizioni donate dal cielo.

Prima di premere il dito, fermatevi e considerate.


http://www.poesieracconti.it/poesie/a/primo-levi/nulla-rimane-della-scolara-di-hiroshima

Los poemas de la bomba atómica; a 70 años de Hiroshima y Nagasaki

* Aldabi Olvera

Antes que novelas y películas, nacieron los poemas de la bomba atómica.

Es normal, horriblemente normal, que personas cercanas a las catástrofes usen la poesía. Quienes fundaron el “Genbaku bungaku” (literatura de la bomba atómica) sufrieron  los efectos de las radiaciones sobre sus cuerpos.

Los versos que ocultaron los “hibakusa”(sobrevivientes) son los más importantes de los memoriales.

Entre quienes plasmaron su experiencia, no había distinción entre “poeta” profesional  y ama de casa. Algunos publicaron ilegalmente, pues las fuerzas de ocupación estadounidense prohibieron durante diez años los textos que se relacionaran con el acontecimiento.

Y a pesar de que el Nobel de literatura, Kenzaburo Oé, asegura que  las víctimas de los bombardeos tienen el perfecto derecho a olvidar y callar: “suelen elegir hablar, estudiar y dejar constancia con toda su energía” (Cuadernos de Hiroshima, 1965).

De hecho, hay tantos poetas de la bomba atómica que aparecieron recopilaciones como Antología de tanka de Hiroshima, que cuenta con más de 6500 poemas.

En Más de 131 te compartimos la voz de dos mujeres y dos hombres en este setenta aniversario de “la experiencia vital más inhumana del siglo XX”.

1.Tamiki Hara, autor de Natsu no Hana, Flores de verano, (1947). Se suicidó en 1951. Perdió a su familia durante el bombardeo.

El cielo se parte


El cielo se parte; 
las calles desaparecen;
el río,
¡el río fluyendo!
¡Ah… Ah… Ah  Ah!
 Ah… Ah… Ah… Ah!
 La noche se acerca
 a estos ojos resecos;
 a estos labios inflamados,
 escocidos y tórridos.
 ¡Ah! El quejido de un hombre,
 tambaleándose.
 su cara arruinada,
 abrasada, ardiente;
 el gemido de un ser humano,
 un ser humano.

 Denme agua 
 Denme agua!
 ¡Denme agua!
 ¡Ah! ¡Denme agua, déjenme beber!
 ¡Prefiero morir,
 Morir!
 ¡Ah!
 ¡Audadme, ayudadme!
 Socorro!
 ¡Agua,
 Agua!
 ¡Os lo ruego!
 Alguien…
 ¡Ah… Ah… Ah… Ah!
¡Ah… Ah… Ah… Ah!


 Las “Notas sobre la bomba atómica”, también de Tamiki Hará en inglés, editadas por la Universidad de Hiroshima.

La editorial Impedimenta tiene publicado Flores de verano completo en castellano.


2. La poeta Yōko Ōta publicó la novela Shikabane no machi, La ciudad de los cadáveres,  en 1948.

En el prefacio, dice:

“Eso (el bombardeo atómico de Hiroshima), está fuera de la categoría de literatura. En la ficción ordinaria, hay patrones y categorías, —literatura de niños, historias románticas. Pero no hay patrón ni categoría para la experiencia de una bomba atómica. Es una experiencia tan fuerte, tan grande  tan poderosa, que no se pueden hallar palabras para describirla. Como sujeto de ficción es tan difícil, no quiero escribir ficciones, sólo quiero decir la verdad”.

Y en la novela:

“Las reverberaciones continúan hasta hoy. Traté de escribir otros trabajos sin relación con la bomba atómica. Pero la imagen de mi pueblo de Hiroshima borra de mi mente otras cosas”.

3. El poeta Sankichi Tôge lanzó Genbaku shishu, Poemas de la Bomba Atómica, en 1951. Murió dos años después de una hemorragia pulmonar. 

Devuélvanme la gente

 devuélvanme mi padre
 devuélvanme mi madre
 devuélvanme mis abuelos
 devuélvanme mis hijos
 devuélvanme mi persona
 devuélvanme mis hijos
 y los hijos de mis hijos
 devuélvanme una paz
 la paz humana
 que nunca termine


Lee todos los Poemas de la Bomba Atómica en inglés en este sitio de la Universidad de Chicago.


4. La poeta Shinoe Shoda público ilegalmente en 1947 el poemario Sange (un tipo de arreglo floral budista). Tenía la culpa de la bomba: “por el alma de nuestros compatriotas, obligados a morir, ofrezco mi diaria aflicción”. Murió de cáncer de pecho 20 años después del bombardeo.

Dos de sus tankas (poema corto tradicional japonés) que hablan de la experiencia de las mujeres:


Tanka (I)

En la locura
 una madre llora
 “Dejé a mis hijos en las flamas.
 Ahora todo lo que tengo
 Es mi propia vida.”

 Tanka (II)

Pregunto
 si existe una operación
 que remueva memorias.
 ¿Dónde hay una cura
 para mi corazón lleno de pena?


(Traducciones del inglés al español de los poemas y comentarios, a cargo del autor del artículo)


@aldabi

http://www.masde131.com/2015/08/los-poemas-de-la-bomba-atomica-a-70-anos-de-hiroshima-y-nagasaki/

Nazim Hikmet - LA BAMBINA DI HIROSHIMA

* Nazim Hikmet

“Apritemi sono io…
busso alla porta di tutte le scale
ma nessuno mi vede
perché i bambini morti nessuno riesce a vederli.

Sono di Hiroshima e là sono morta
tanti anni fa. Tanti anni passeranno.

Ne avevo sette, allora:
anche adesso ne ho sette perché i bambini morti non
diventano grandi.

Avevo dei lucidi capelli, il fuoco li ha strinati,
avevo dei begli occhi limpidi, il fuoco li ha fatti di vetro.

Un pugno di cenere, quella sono io
poi il vento ha disperso anche la cenere.

Apritemi; vi prego non per me
perché a me non occorre né il pane né il riso:
non chiedo neanche lo zucchero, io:
a un bambino bruciato come una foglia secca non serve.

Per piacere mettete una firma,
per favore, uomini di tutta la terra
firmate, vi prego, perché il fuoco non bruci i bambini
e possano sempre mangiare lo zucchero.”

in http://balbruno.altervista.org/index-796.html

Vinícius de Morais - Rosa de Hiroshima

*  Vinícius de Morais

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada


Link: http://www.vagalume.com.br/vinicius-de-moraes/rosa-de-hiroshima.html#ixzz3htdQytOt


Ney Matogrosso - Rosa de Hiroshima


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

sofia de mello breyner - cantata da paz



Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos

Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima

Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname

Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar

O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ana hatherly - Esta Gente / Essa Gente

* Ana Hatherly

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente
NENHUMA!
A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente.

(Ana Hatherly, In “Um Calculador de Improbabilidades”)


sobre ana hatherly ver  Morreu Ana Hatherly, a pintora da palavra
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/morreu-ana-hatherly-a-pintora-da-palavra-1704158
(Ana Hatherly, In “Um Calculador de Improbabilidades”)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Eduardo Alves da Costa - NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

* Eduardo Alves da Costa 


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

EDUARDO ALVES DA COSTA
Niterói, RJ, 1936

Nota: Poema publicado no livro 'Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século', organizado por José Nêumanne Pinto, pag. 218.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Bertold Brecht - A caminho com Maiakovski

* Bertolt Brecht


Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.
Na segunda, já não se escondem. Pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.


http://www.umacoisaeoutra.com.br/literatura/falsos.htm