Opinião
As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.
Se há cidade europeia que sabe o
que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada
rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens
pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias
arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses
retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas
sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações
da violência sectária. Só mudou o alvo.
A história da caça às minorias
que se viveu na última semana é relativamente simples de contar. Um
requerente de asilo sudanês, a quem fora concedida autorização de
permanência no Reino Unido, foi responsável por um ataque à faca de rara
brutalidade. A vítima, um homem na casa dos 40 anos, perdeu um olho e
testemunhas falaram de uma tentativa de decapitação. O crime exige mão
rápida e pesada.
É o tipo de crime que a
extrema-direita adora para espalhar a culpa e a vingança por associação. Não
quer saber da vítima e até ignorou os familiares que pediram para “não se
politizar” o ataque. Quer combustível para o ódio. Em poucas horas, foram publicadas
listas com moradas de imigrantes e de advogados de imigração nas redes sociais.
Homens mascarados arrombaram portas para “libertar” as casas. Enfermeiras
de minorias étnicas foram arrancadas dos carros a caminho do trabalho. O ano
passado já tinha acontecido algo parecido, depois de uma acusação de violação
contra jovens romenos.
Na véspera da oferta pública
em Wall Street que o tornou o homem mais rico do planeta — uma fortuna
equivalente a tudo o que o nosso país produz em três anos —, o que
ocupou o tempo de Elon Musk não foi a SpaceX. Foi Belfast. Mais de cem
tweets em quatro dias. Partilhou o apelo a protestos por todo o país, lançado
pelo ativista britânico de extrema-direita, Tommy Robinson, sabendo muito
bem que acabariam em violência. Continuou a dar palco a Rupert Lowe, líder
de um partido sem qualquer exposição até Musk o promover, que defende
deportações em massa, a proibição do abate halal e kosher e
a reposição da pena de morte. Amplificou Matt Goodwin, outra figura marginal.
Difundiu listas com dezenas de locais para protestos-relâmpago e acrescentou a
sua própria instrução: “só protestando REPETIDAMENTE e
RUIDOSAMENTE haverá mudança”.
Segundo o Center
for Countering Digital Hate, Musk amplificou as imagens da
violência de Belfast até elas somarem mais de 64 milhões de visualizações.
Musk não é um nome lateral nestes protestos. É um dos seus maiores instigadores
e promotores.
Elon Musk não vive no Reino
Unido. O mais certo é não conhecer Belfast e as suas camadas de
história. Mas sabe, como Trump, que cada país pode ser usado como cenário para
a sua guerra ideológica. O multiculturalismo, os direitos, os tribunais, os
requerentes de asilo, a BBC, os governos liberais, tudo é apresentado
como prova de uma civilização que se odeia a si própria. Não é por acaso que
Ventura partilha um sem número de falsidades internacionais, como a que
Amesterdão proibiu a publicidade a carne no espaço público para não ofender
muçulmanos. A imagem de caos e dissolução das sociedades é central na
propagação do medo e ressentimento que alimenta a sua mensagem.
A violência sectária recuou,
mas as estruturas que a alimentaram não
desapareceram. Em alguns bairros, antigas redes paramilitares
protestantes, antes viradas contra católicos, encontraram novos alvos. A
organização, a intimidação, o controlo territorial, a capacidade de mobilizar
jovens, tudo isso já lá estava. Mudou o inimigo. O imigrante, o muçulmano, o
requerente de asilo, o não branco, o advogado que o defende. A violência
sectária apenas mudou de alvo para continuar a demonstrar quem manda no bairro.
O que ardeu em Belfast tem um
nome que a Europa devia conhecer de cor, porque o escreveu com o seu próprio
sangue: pogrom. Casas marcadas, famílias expulsas, multidões
a “limpar” bairros, minorias transformadas em ameaça comum.
As redes sociais não inventaram a
propaganda do ódio. As máquinas que normalizaram o extermínio dos judeus
não precisaram de algoritmos. A diferença é que a mentira viaja à
velocidade da luz e não conhece fronteiras. As redes não são apenas
espaço público digital, são sistemas de comando emocional. Representam
a concentração sem precedentes históricos dos fluxos informativos, nas mãos de
três ou quatro pessoas. São elas que, através do algoritmo, decidem o que
vemos, o que se repete, o que parece ameaça e o que é escondido. Sem
transparência, sem controlo democrático e com um incentivo estrutural para
amplificar o que nos torna piores. O ódio é rentável
porque é partilhável. E a violência e o medo do caos são sempre
excelentes conteúdos.
As democracias são frágeis quando
a desigualdade volta a ser obscena, o custo de vida esmaga classes médias
atormentadas por sucessivas crises inflacionistas. É o caldo perfeito para a
extrema-direita. O ressentimento nasce de uma vida material em degradação, de
instituições desacreditadas, de um sistema de poder onde sentimento que o voto
conta cada vez menos nas decisões que efetivamente contam. E tem o mais
poderoso dos aliados: a elite das big tech. Os mesmos que, sentados
numa concentração sem paralelo, se aliaram a Trump para fazer frente às
tentativas de regulação da União Europeia e lhes permitir carta-branca para as
suas explorações na nova fronteira tecnológica, a Inteligência Artificial.
O
primeiro-ministro britânico fez alusões, mais ou menos veladas, a Musk quando
falou na perseguição legal dos autores morais dos distúrbios racistas. O
empresário sul-africano respondeu como sempre, dizendo que Starmer “odeia
brancos”. Musk é um dos rostos mais perigosos desta
convergência entre riqueza extrema, poder tecnológico e autoritarismo cultural.
Não é excêntrico ou provocador. É o proprietário de uma
máquina global de influência que usa para promover forças interessadas em
tornar a democracia ingovernável.
Numa coisa, Musk tem razão: Belfast
não é apenas Belfast. É um aviso. Quando um trilionário
consegue exportar ódio para um país que desconhece e antigas paramilícias
encontram nas redes sociais uma nova logística para os seus pogroms, temos
um problema existencial no coração da democracia. Ou os governos europeus tomam
a sério a regulação das redes sociais ou podem organizar as exéquias das suas
democracias.
Sem comentários:
Enviar um comentário