quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Papiniano Carlos - Presente ainda hoje e sempre

Avante!

  • Fernando Miguel Bernardes 


Papiniano Carlos
Presente ainda hoje e sempre

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A voz e o gesto de Papiniano Carlos colocam-nos desde o primeiro contacto com a sua pessoa perante uma personalidade muito apreciável. Um misto de modéstia e de firmeza clamam perante nós que há um Homem em nossa frente que nos quer ouvir e nos quer falar, dar e receber o que de melhor houver no ser complexo que cada um de nós constitui e ali está presente.

A sua serenidade impõe-se, sem que de qualquer modo Papiniano dê mostras de querer suplantar-se a quem o acompanhe. Antes pelo contrário, Papiniano amodesta-se, como que oferece ao seu interlocutor a oportunidade de conduzir a relação amigável.

Um ser ameno e calmo foi o que sempre senti ao meu lado quando com ele tive a oportunidade de me encontrar. Um homem que sabe também não ser devedor de gentilezas, pois desta qualidade possui ele avonde no seu íntimo generoso.

Quando em 1958 obtive o seu livro de poemas Caminhemos Serenos não pude deixar de sorrir perante o título: onde um casamento mais perfeito entre a epígrafe de um livro e o seu autor? E pensei: se me propusessem a adivinha, mostrando-me a capa e ocultando-me em cima o nome do escritor, «Quem é ele?», perguntavam-me, e se principalmente no Porto nos encontrássemos, creio ainda hoje que não podia deixar de acertar: «Papiniano Carlos, pois quem mais poderá ser?»

Mas, atenção!, serenidade em Papiniano não rima com forçada calma; e muito menos com indiferença. Abro, para matar saudades, aquele velho livro e à sorte sai-me o poema:

INSCRIÇÃO
Aqueles que para vencer-te pulverizaram
tua carne teu último reduto grita-lhes
que no centro do último átomo resistes
esperas a primavera
 

Para consolo nosso, deixem-me pôr mais este:

RETRATO
Eis a montanha brava
mai-la sua face mansa:
É no fundo que dormem
as torrentes de lava: 

Violado, mísero homem,
em ti próprio guardas
tua cólera, tua esperança.
 


Aqui está, quanto a mim, nestes simples exemplos, o que diríamos um auto-retrato do autor: na sua face mansa guardadas andam sua cólera, sua esperança – e a Primavera. E sua revolta, sua confiança, acrescentarei, com a devida vénia eu, seu amigo de mais de meia vida.

Guardo na memória, rica de trágicos mas também de exaltantes acontecimentos vividos, uma passagem nos dias de Papiniano, que talvez tu, caro poeta e sensível autor de textos para crianças, tenhas olvidado: lembrar-te-ás certamente do julgamento, no Tribunal Plenário do Porto, dos 52 réus acusados de actividades contra a segurança interna e exterior do Estado, e recordarás que deles foste testemunha de defesa; aliás, como tantos outros homens e mulheres de prestígio em todo o País. O que talvez te tenha esquecido, pouco pensando em ti próprio como sempre, foi o episódio da tua identificação naquela qualidade. Perante os réus, os corajosos advogados que nos acompanhavam, e a assistência que, contra a vontade do tribunal e do regime que representava, sempre comparecia com o seu calor humano, perguntou-te o juiz presidente, às formalidades, o nome e a profissão. Declinaste a primeira parte, fizeste uma pausa; e o juiz: «Profissão?» Aí respondeste, sereno: «escrevo»... «Não lhe perguntei o que faz, pergunto-lhe a profissão!» Então tiveste mesmo de deixar a modéstia para outras ocasiões e, em voz alta, o que em ti era raro, avançaste: Sou escritor! Não calculas, querido amigo, como corei de prazer a essas palavras tuas. Ali tínhamos mais uma testemunha por inteiro, um homem assumido, uma profissão esclarecida, um humanista, um poeta que todos admirávamos.

E o melhor ainda foi depois: a defesa sincera, sentida, vivida, que fizeste, daquelas dezenas de jovens e outros já não tanto; e que com brio soubeste e quiseste assumir como um inconformado que também te sentias.

Assim apresentaste naquele acto, como testemunha de defesa, um libelo de acusação contra o regime que nos oprimia e ali nos julgava; como um resistente que tu próprio eras – e em nós serás, pois hoje não podemos de igual modo deixar concretizar aos «de cima» todas as iniquidades que pretendem, tal como naquelas datas não deixávamos o campo livre para que executassem todos os malefícios dos seus programas e respectivas intenções e práticas.

Assim interveniente, escritor comprometido, te vi e vejo, te conheci e conheço: mesmo agora, que em corpo nos deixaste.
Até sempre, companheiro! 
 __________

CAMINHEMOS SERENOS

(Para Julius e Ethel Rosemberg)
 

Sob as estrelas, sob as bombas,
 
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas,
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
 
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade,
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
 
sob a treva e os furacões de fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos,
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
 
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
 
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas,
 caminhemos serenos.


In «Caminhemos Serenos» - 1958

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

4 canções de José Afonso, ilustradas, para ver, ler e ouvir


por Victor Nogueira a Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013 às 22:58 ·
*  A canção de José Afonso «A morte saiu à rua» [1971] é uma homenagem a José Dias Coelho, dirigente do PCP assassinado pela PIDE em 1961.12.19 

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
~
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada, há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

ouvir em


* Cantar alentejano
 (Vicente Campinas / José Afonso) [1967 / 1971] 
 Homenagem a Catarina Eufémia, assalariada rural alentejana, assassinada pela GNR em 1954.05.19, durante uma greve por melhores condições de vida e de trabalho

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

ouvir em



Era de noite e levaram [1969]
(Luís Andrade / José Afonso)

Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia

Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia

Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada

ouvir em


* Canto Moço [1971]
José Afonso


Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

ouvir em



litogravura de José Dias Coelho - imprensa clandestina do pcp

litogravura de Jisé Dias Coelho - asassinato de Catarina Eufémia

cartoon de João Abel Manta - preso político kladeado pela PIDE e pela GNR

litogravura de José Dias Coelho - manifestação

Álvaro Cunhal - desenhos da prisão

Álvaro Cunhal - Projectos


Cartoon de João Abel Manta - interrogatório e tortura pela PIDE dum preso político


sábado, 5 de janeiro de 2013

António Gedeão - Lágrima de Preta

Lágrima de pretaPDFImprimire-mail
António Gedeão - Poemas

"Encontrei uma preta
Manuscrito lágrima de preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.


Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio."

António Gedeão, in Máquina de fogo

Fernando Pessoa - No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos



No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15/10/1929

Fernando Pessoa ~ VELHA ANGÚSTIA...




“Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.

Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos
Estou assim…

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.

Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!

Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!”


- Álvaro de Campos [16-6-1934]

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Eugénio de Andrade ~ Poema à Mãe



* Eugénio de Andrade 


No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

José Matoso - História da Vida Privada

ColecçãoHISTORIA VIDA PRIVADA
HISTORIA VIDA PRIVADA
Autor:Dir. José Mattoso
 











5 Volumes:
A Idade Média – Coordenação de Bernardo Vasconcelos e Sousa
A Idade Moderna - Coordenação de Nuno Gonçalves Monteiro
A Época Contemporânea – Coordenação de Irene Vaquinhas
Os Nossos Dias – Coordenação de Ana Nunes de Almeida
Mesa dos Reis

Trata-se de uma obra que procura lançar luz sobre a vida que decorre para além das vidas públicas das pessoas, dentro de portas, na sala, à mesa, no quarto, na cama, nos afectos. E isto em toda a sociedade, ao longo da história de Portugal.
A maioria das obras sobre história em Portugal fala-nos de política, de reis, de presidentes, de economia, de arte, de alterações na sociedade... 

Assim, a falta, até hoje, de uma história inteiramente dedicada à vida privada em Portugal tem sido possivelmente a maior lacuna da historiografia portuguesa recente porque:

• A história privada fala-nos da vida das pessoas e não apenas da "vida" do país.
• Porque a vida privada constitui uma matéria fundamental para a compreensão do passado humano. 
• Só uma figura com a relevância, a experiência e a autoridade científica do Prof. José Mattoso poderia chamar a si os melhores colaboradores para levarem a cabo uma tarefa com a envergadura e o significado deste projecto. 
• Se trata de um trabalho feito de raiz, para o qual não há praticamente estudos antecedentes. Parte-se quase do zero neste domínio em Portugal.
• Só o historiador mais experiente entra no domínio do privado, estudando tudo aquilo que não é dito, que não é escrito, ou que fica nas entrelinhas dos documentos históricos.
• Porque é na história da vida privada que mais nos identificamos e mais reconhecemos as nossas características culturais enquanto povo português. 


Para além de se tratar de um tema inovador no nosso país, esta obra analisa as características da vida íntima e privada das diversas camadas sociais, dos membros da corte ao clero, ao povo.

Ao longo das suas páginas vamos descobrindo, por exemplo:

• como eram os espaços de habitação e de que modo se organizavam?
• o que se comia em cada época e o que comia cada classe social?
• de que modo se cozinhava, e com que utensílios, e quanto se cozinhava?
• como se caracterizava a vida familiar?
• quais os princípios que regeram a educação até hoje? 
• como era o relacionamento de pais com filhos e vice-versa; como seriam entre as classes mais abastadas e os mais desfavorecidos?
• como se foi modificando a higiene ao longo dos tempos no nosso país?
• de que modo foi encarada ao longo do tempo a sexualidade e as sexualidades (adultério, bigamia, homossexualidade, etc.)?
• o que marcava a fé e a relação de cada pessoa com a religião e com o Além?
• que relação tinham com o seu corpo, com a saúde, com a doença?
• que vícios minaram as famílias e a sociedade das gerações que nos precederam?
• quem foi considerado marginal e como foram eles vistos ao longo dos tempos?

Esta obra constitui um contributo fundamental para o historiador pintar um retrato do nosso país, mas proporciona também ao leitor comum o prazer de ver desfilar curiosidades, hábitos próximos ou distantes no tempo, semelhantes ou diferentes dos nossos, intimidades, segredos e modos de ver o mundo. No fundo, usando a expressão de José Mattoso, oferece a possibilidade «de espreitar o passado "pelo buraco da fechadura"».


«O rigor de detalhe desta pesquisa não retira a esta colecção o prazer da leitura que se assemelha ao dos grandes clássicos.»
in Diário Económico

«Estamos perante uma das mais ambiciosas obras no campo da História feita nos últimos anos em Portugal e que vem preencher um vazio nesta área.»
in Diário Económico
«Profusamente ilustrado, sempre com ligação ao tema tratado, a obra confirma a existência de um lado dos nossos antepassados quer merece ser historiado e lido pelos contemporâneos.»
João Céu e Silva, Diário de Notícias, NS’, 19 de Março 2011

http://www.circuloleitores.pt/catalogo/1040898/historia-da-vida-privada-em-portugal-1-volume#

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Domingos Lobo - Alves Redol - A escrita contra a sujeição



 logo
Nº 315 - Nov/Dez 2011 • Efeméride

Alves Redol - A escrita contra a sujeição

Este texto pretende-se evocativo de um dos autores mais fecundos, éticos e corajosos da ficção portuguesa do século XX; um dos obreiros do movimento estético e literário que teve na sua génese o contar das vivências, das lutas e das dores dos humilhados e ofendidos, dos «homens que acrescentavam ainda mais realidade ao real», no dizer de Óscar Lopes. No ano em que se cumprem 100 anos sobre a data do seu nascimento, a obra de Redol merecia uma mais extensa, demorada e profunda análise: ficam, no entanto, neste texto breve, alguns sinais para que os leitores regressem a um autor e a uma escrita que, tantos anos volvidos, ainda nos convoca, seduz e indigna.

Porque, como o afirmou Alexandre Pinheiro Torres no seu ensaio Os Romances de Alves Redol, avieiros «há-os por todo o lado: milhões de avieiros, que vêm hoje até às margens das cidades, avieiros, cujas angústias simbolizam as de um povo traído em nova revolução frustrada pelas ambições dos burgueses iluminados como o Polidor de Reinegros» (1).

É ainda a oportunidade para relembrar um autor e uma obra singulares que as nossas faculdades de letras têm, de forma sistemática e ideologicamente orientada, ignorado.

Não deixa, no entanto, de ser uma obra urgente e necessária nestes dias amargos que nos impõem. O próprio Redol, no prefácio à 6ª. edição de Fanga (1963), não deixou de o assinalar: «Exijo para mim a saudável simplicidade de reenunciar as necessidades primárias do homem português alienado pela servidão, pela suspeita e pelo medo, sem que me perturbem os rótulos que cada qual queira emprestar-me. As verdades profundas e urgentes são muito lineares em certas épocas. A autêntica vanguarda literária está nos que souberam chapá-las a corrosivo nos lombos da besta.»

Tal como em 1939, ano da publicação de Gaibéus, embora escudados por uma subtil camada de verniz cosmopolita, sob a égide do neo-liberalismo, continuamos a ter à liça os Agostinho Serra, senhores de poder e mando, os Francisco Descalço, subalternos que lhes aparam as migalhas e estendem o tapete para que o esbulho e as humilhações quotidianas permaneçam intactas e se aprofundem. Para tanto, basta que alguma coisa mude, como dizia o senhor Giuseppe Tomasi di Lampedusa (um cenário minimal, um leve odor de Calvin Klein, um humor rançoso) para que a essência da exploração capitalista perdure.

Gaibéus mostra-nos um Alves Redol jovem que se lançava à tarefa de nos contar a saga desse rancho de homens e mulheres que das Beiras desciam, no final do Verão, aos vastos campos do Ribatejo para as tarefas de ceifa dos arrozais, mas, apesar de um romance primeiro e de juventude, este texto revela-nos um autor já destro no manejo da língua, senhor de um estilo seguro, de uma peculiar forma de contar que percorreria, num labor incomum (Alves Redol teve vida breve, vindo a falecer com apenas 58 anos), cerca de 34 títulos, abarcando o conto, o romance, o teatro e as estórias para a infância. Esse trabalho de contínuo e apurado exercício ficcional, culminaria com a publicação, em 1961, daquele que a crítica considera o seu melhor romance e uma das obras-primas do neo-realismo: Barranco de Cegos.

O autor era, aos 28 anos, um escritor já de prosa enxuta, rodada no conto, na crónica e na escrita jornalística, trazendo no bornal das experiências adolescentes uma breve e pouco frutuosa passagem por Angola, conhecedor das gentes e da paisagem ribatejanas, das grandezas e misérias da lezíria de entre Tejo, Sorraia e Almansor, observador atento e estudioso (veja-se esse incontornável ensaio de etnografia que é «Glória, Uma Aldeia do Ribatejo», no qual o ficcionista não está ausente) dos hábitos e tarefas do seu povo, desse povo da «borda d´água» ao qual orgulhosamente afirmava pertencer.

Das notas encontradas no seu espólio, consta uma sintomática reflexão sobre os ofícios de escritor, ofício que ele sempre exerceu com coragem, luta e desafio, não desligando essa tarefa das suas actividades políticas e cívicas: «Se um dia alguém me perguntasse que aprendizagem deveria um jovem fazer para chegar a romancista, se o ofício se ensinasse, eu diria que enquanto a vida lhe não desse todas as voltas e reviravoltas, amores, sofrimentos, repúdios, sonhos, frustrações, equívocos, etc., etc., (...) seria avisado que o mandasse ensinar a sapateiro, não para saber deitar tombas e meias solas, porque nem para tanto ele usufruirá, às vezes, com a escrita, mas para que ganhasse o hábito de padecer bem, amarrado ao assunto durante largos anos, antes que provasse o paladar gostoso de algumas horas de pleno prazer». E esse prazer teve-o Redol em muitos dos seus textos, prazer que, junto com a indignada revolta que muitas das suas páginas ainda hoje nos provoca, com ele partilhamos e sentimos ao lê-lo.

Gaibéus, o primeiro romance de Redol, é um marco histórico no movimento neo-realista, dado que iniciador de uma corrente literária sem a qual dificilmente conseguiríamos entender o contexto sócio-económico vivido durante o regime fascista e as lutas a que essa especificidade social e histórica deu origem, mas inaugura igualmente um novo modo de contar, de olhar o real, embora nestas páginas perpasse, por vezes, indelével, o ofício de repórter que atenta aos pormenores da paisagem, aos humores do tempo e da natureza, detectável sobretudo no capítulo inicial. Pormenores que substantivam o estilo ao invés de o tornar opaco. Em Gaibéus, Redol introduz, com inteligente parcimónia, um processo narrativo que só encontraremos muito mais tarde na novelística portuguesa: a elipse, a repetição frásica (e, neste particular, os versos das cantigas que criam, na sua repetição sincrónica ao longo do texto, atmosferas a um tempo distanciadoras e dramáticas) e a heterodiegese.

E é este sentido de espaço amplo das personagens que entram na narrativa, a pluralidade de vozes que a enformam, que tornam Gaibéus uma epopeia na qual o herói é o corpo colectivo, esse punhado de homens e mulheres que de sol a sol na campina buscavam o sustento para os dias amargos do Inverno que se aproximava. E se, nesse corpo heterogéneo, apenas os sonhos esparsos do «ceifeiro rebelde» parecem entender a real dimensão do momento e da exploração de que são alvo os alugados, se apenas ele tem essa lucidez e essa isolada angústia, não é menos verdade que os outros, embora de forma menos evidente e dialéctica, sentem, cada um a seu modo, na pele e na carne a profundidade dessa exploração e da sujeição que os oprime: «aquelas, as éguas apeadas, estão com´à gente...». E sentem, mesmo dobrados sobre a terra, olhos cegos de tanta seara por ceifar, que «na crista das marachas os capatazes espiam sempre» e que o destino é coisa difícil de torcer, porque «a ceifa não pára, não pára nunca», metáfora de quem só a terra abarca no círculo do olhar – são batalhas sem fim, a da seara e a do destino, que não impossíveis de vencer. Até o céu, que tanto pode suspender um sol abrasador (áuga, áuga, pedem os alugados, gargantas secas de sol e suor), como trazer borrasca no capricho cinzento das nuvens. E, a chuva, obriga a paragem nas tarefas da ceifa e logo a menos jorna, menos dinheiro nos bolsos minguados para o regresso à leira natal e aos rigores invernais. Daí que os gaibéus prefiram sofrer a canícula e a secura das gargantas a rebentar de sezões (áuga, áuga) do que perderem um dia curvados, de sol a sol, na ceifa e na debulha.

Óscar Lopes refere, num estudo que dedicou a este romance de Redol, que o autor não prestou particular atenção, como faria em textos posteriores, como faria em Marés, Avieiros e no Ciclo Port Wine, «à dialéctica pessoal da conduta, à entredeterminação de uma personagem e da sua história», opondo-se, desse modo, ao personalismo literário da malta da Presença. Embora concordando com o mestre, entendo que nessa particularidade reside ainda hoje a importância dos modos narrativos experimentados por Redol e a singularidade semântica e de corpo orgânico deste modelar romance. Neste texto, o sujeito é o corpo colectivo, o rancho, essa anónima força que apenas a espaços se individualiza para introduzir novos elementos de unidade ficcional. Daí que o patrão, Agostinho Serra, seja apenas um esboço, um traço de pena («não tenho medo que me não gramem», diz ele e basta), que a Rosa do rancho do Francisco Descalço, depois de violada pelo patrão se negue a regressar à aldeia, se transforme em Balbina e se perca na Rua Pedro Dias, que o Cadete, o Pananão, o Passarinho, Fomelas e o Marrafa, sonhem com afagos de mulheres, ladrões heróicos e fugas para o Brasil, que «o ceifeiro rebelde» parta com o bornal às costas à procura de outro poiso para o corpo e outra sorte como maltês que é; rabezanos e gaibéus são apenas a mancha escura, anódina, dobrada na campina, dado que ali «não há homens, só máquinas» e o dinheiro que assim os obriga não é mais afinal «que a apoteose da incerteza do ano», todos «ferrados com o nove, quem padece é o pobre», atados ao mesmo chão. É a opressão que os irmana e torna corpo, que lhes dá o sentido de gesta e de colectivo e esse sentimento abstracto, mas fundo, da opressão, ainda que o não saibam expressar em acto (o único dentre eles que o sabe, partirá solitário pelos caminhos do mundo), conduzi-los-à, em Maio e Junho de 1962, à luta, à greve e às manifestações pelo aumento dos salários e pela jornada de trabalho de 8 horas.

Regresso a Óscar Lopes e ao seu texto (2) sobre Gaibéus para referir uma passagem com a qual não poderia estar mais de acordo: «o protagonista da acção é claramente colectivo, como acontece com o coro da mais antiga tragédia ática». É este aspecto, o da introdução na estrutura ficcional da personagem num ser colectivo, que pela vez primeira torna consequente e estrutural a estética neo-realista. Embora o realismo social já tivesse cultores de mérito, reconhecidos e influentes (Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, por exemplo), é com este romance que o neo-realismo se funda e vem consignar um dos mais profícuos e exaltantes movimentos literários de todo o século XX português.

Augusto da Costa Dias afirma, sobre as origens do movimento: (3) «O neo-realismo é, à nascença, contemporâneo dos primeiros esforços para a reorganização do Partido. Surge como sua expressão na batalha cultural e ideológica, como oposição fundamental à ideologia dominante das classes dominantes fascistas, ao totalitarismo da sua escolástica medieval, ao seu obscurantismo e ao obscurantismo raso em que embalsamava o povo, à proibição sistemática das realidades portuguesas das quais fazia uma antologia escolhida e folclórica para tapar a cloaca das suas devastações (...).»

Com Gaibéus inicia Alves Redol «o ciclo da ficção temática ribatejana», a que se seguiriam Marés, Avieiros e Fanga e, mais tarde, já no final da sua vida literária, os seus dois textos canónicos: Barranco de Cegos e Muro Branco.

Alves Redol insere-se, a partir dos anos trinta, na luta clandestina antifascista. É preso em 1944 e, de novo, em 1963. Gaibéus é apreendido pela PIDE, em 1940. O regime exerce várias pressões sobre as editoras que publicam os seus livros e submete os seus originais a censura prévia. É o único escritor português a sofrer semelhante humilhação.

O texto de Costa Dias remete-me novamente para o episódio que referi no início desta crónica. Estamos a viver, como nos anos 1940, uma feroz luta ideológica por parte dos média ditos de referência, patronato e subalternos de espinhaço torcido. Neste contexto histórico, faz todo o sentido regressarmos ao verbo libertário de Gaibéus, de Seara de Vento, de Esteiros, de Quando os Lobos Uivam, de Até Amanhã, Camaradas, de Casa na Duna, de Bastardos do Sol, de Viúvas de Vivos, de Levantado do Chão. São património nosso, ameias nossas, do povo que somos e nesse chão prenhe das palavras nos reconhecemos; o nosso mais perene «lugar do ser».

Enquanto nós referimos, com sentido orgulho, a efeméride de um autor que traça o percurso colectivo rumo à dignidade da nossa condição, os próceres da direita comprazem-se em rituais de afronta aos direitos que os trabalhadores conquistaram com Abril, o mesmo Abril que estava já, nos seus mais lídimos contornos, inscrito em muitos dos romances de Redol. A incontinência verbal com que nos invectivam tenta, em desespero, que nos demitamos de lutar, de exigir, de impedir o retorno aos dias azedos vividos por homens e mulheres que a escrita certeira e luminosa de Redol, com corajosa argúcia, denunciou. Ao evocarmos o autor, e o singular significado da sua obra, estamos a afirmar o repúdio por um tempo em que os homens traziam as gargantas secas de gritos, de fome, de febres e pediam em vão «áuga, áuga» e só o eco surdo da lezíria, ou das escarpas agrestes do Douro, lhes devolvia o angustiado rogo. Um tempo de desumanidade de cujo modelo de sociedade, preconizada pelos Agostinho Serra, de Gaibéus, António Falcão, de Fanga, Diogo Relvas, de Barranco de Cegos, e outros títeres menores, arautos de uma sociedade que estes senhores, herdeiros dilectos de uma galeria de fantasmas, ainda hoje evocam e tentam impor.

E não esqueçamos, como o próprio Redol afirma no prefácio de Gaibéus, que este romance «nasceu quando muitos morriam por nós». O nós que ele próprio inaugura na sua estrutura narrativa.

Notas
(1) Alexandre Pinheiro Torres, Os Romances de Alves Redol, Morais Editora, p. 358.
(2) Gaibéus – Óscar Lopes - Uma Leitura cinquentenária.- Cifras do Tempo, Editorial Caminho, Lisboa, 1990, p. 233. 
(3) Augusto da Costa Dias, Literatura e Luta de Classes, Editorial Estampa, Lisboa, 1975, p. 66.
Alves Redol nasceu em 29 de Dezembro de 1911 em Vila Franca de Xira, terra que alberga hoje, muito justamente, o Museu do Neo-realismo, corrente estética vinculada ao povo trabalhador e da qual Alves Redol é considerado um dos principais impulsionadores.

Da sua intensa actividade literária fala-nos o artigo do camarada Domingos Lobo. 

Com este breve apontamento, a redação de O Militante apenas quer sublinhar que Alves Redol foi um militante comunista consequente e destacado que tendo aderido ao PCP muito jovem, ao PCP se manteve ligado até ao fim da sua vida.

Alves Redol desenvolveu uma intensa actividade cultural e política no meio operário, participou activamente na actividade da Oposição Democrática, tendo nomeadamente sido membro da Comissão Central do MUD (Movimento de Unidade Democrática) e da Comissão Nacional para a Defesa da Paz. Foi dirigente do Partido no Baixo Ribatejo, tendo tido papel destacado em importantes lutas sociais antifascistas.
Foi preso por três vezes, em 1953, 1958 e 1963.

Faleceu em 29 de Novembro de 1969. O seu funeral em que participaram milhares de pessoas foi uma expressiva manifestação de pesar e de luta antifascista.