quinta-feira, 4 de agosto de 2016

John Lennon - Imagine



Imagine
John Lennon
  


Imagine there's no heaven
It's easy if you try
No hell below us
Above us only sky
Imagine all the people
Living for today

Imagine there's no countries
It isn't hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will be as one

Imagine no possessions
I wonder if you can
No need for greed or hunger
A brotherhood of man
Imagine all the people
Sharing all the world

You may say
I'm a dreamer
But I'm not the only one
I hope some day
You'll join us
And the world will live as one


John Lennon - Working Class Hero



As soon as you're born they make you feel small
By giving you no time instead of it all
Till the pain is so big you feel nothing at all

A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

They hurt you at home and they hit you at school
They hate you if you're clever and they despise a fool
Till you're so fucking crazy you can't follow their rules

A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

When they've tortured and scared you for twenty odd years
Then they expect you to pick a career
When you can't really function you're so full of fear

A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

Keep you doped with religion and sex and TV
And you think you're so clever and class less and free
But you're still fucking peasants as far as I can see

A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

There's room at the top they are telling you still
But first you must learn how to smile as you kill
If you want to be like the folks on the hill

A working class hero is something to be
A working class hero is something to be

If you want to be a hero well just follow me
If you want to be a hero well just follow me

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Shakespeare's Sonnet-a-Day

*  Shakespeare

LXVII.

Ah! wherefore with infection should he live,
And with his presence grace impiety,
That sin by him advantage should achieve
And lace itself with his society?
Why should false painting imitate his cheek
And steal dead seeing of his living hue?
Why should poor beauty indirectly seek
Roses of shadow, since his rose is true?
Why should he live, now Nature bankrupt is,
Beggar'd of blood to blush through lively veins?
For she hath no exchequer now but his,
And, proud of many, lives upon his gains.
O, him she stores, to show what wealth she had
In days long since, before these last so bad.


http://sonnetaday.com/about.php

João Carlos Brito - Dicionário de Calão do Porto

Um livro para desenferrujar a língua e os costumes, a partir do Porto

João Carlos Brito apresenta esta sexta-feira o seu Dicionário de Calão do Porto, em modo revisto e aumentado.
  •  
João Carlos Brito promete que, depois desta, desampara a loja e,andor violeta, que há outros projectos para cumprir. Depois de umhaquitriqui (hat-trick), com Heróis à Moda do Porto (2010), deLugares e Palavras do Porto (2014) e do Dicionário de PORTOguês-Inglês (editado em 2015, em co-autoria com Ana Cruz e Cristina Vieira Caldas), este professor, portuense e portista, lança esta semana um revisto e aumentado Dicionário de Calão do Porto, remate para poker,de um autor que, nisto dos livros sobre o tema já deu uma abada das antigas à concorrência. 
A culpa é da cidade, e dos que nela vivem. Portugal tem duas línguas oficiais – o Português e o Mirandês – mas no Porto, e na região em volta, o uso que é dado à primeira é de tal modo inventivo que há muito se constituiu um corpus de expressões típicas, que identificam os “nativos-falantes” entre si, e perante os outros. João Carlos Brito, um “apaixonado” por estas questões da identidade socio-linguística, apercebeu-se disso quando foi estudar para Aveiro. A sessenta quilómetros, tão à beira de casa (ao pé, diriam no Sul), havia palavras e expressões desconhecidas para os seus interlocutores. Gente estranha, que nunca tinha usado uma sertã para fritar um ovo.
Estes localismos, regionalismos, expressões familiares, populares, de gírias e de algumas formas de calão faladas têm sido a matéria de investigação de João Carlos Brito. É um trabalho sem fim, admite, confessando que logo depois de ter entregado este seu último livro à gráfica lhe apareceram mais algumas expressões “óbvias”, como ir de escantilhão (algo como rolar por uma ribanceira abaixo, segundo o Ciberdúvidas), que já não entraram neste Dicionário de Calão do Porto. O trabalho estava feito, e sexta-feira, às 21h30, no café Progresso, volta a falar-se português à moda do Porto, durante a apresentação deste livro.
Brincando um pouco, o evento é desaconselhado a lagartos (sportinguistas) e a lampiões – adeptos desse clube dos seis milhõesque, depois de umas épocas a ganhar a Taça da Cerveja (Taça da Liga) tem ultimamente quilhado (lixado) a malta do FCP no campeonato. A cidade incorpora no seu falar muito dessa relação intensa com os azuis-e-brancos e respectivos adversários, e João Carlos Brito, num dos seus 30 artigos em que desenvolve a origem e as histórias em torno de algumas expressões – chega a dedicar uma página ao Papa, cognome de Pinto da Costa. Nisto dos futebóis, o Porto teve em Fernando Santos o engenheiro do Penta, mas o actual seleccionador nacional falhou a seguir o Bi-tri, que é como quem diz o Hexa-campeonato. Estávamos no início do milénio, e o Sporting de Inácio nem precisou de um Calabote (antigo árbitro, e polémico) para calar o tribunal das Antas.
Mas, nisto da bola, se uns dias estamos c’a beiça, noutros a equipaengata a quinta e vai que Gelsenkierchen se torna, graças a Mourinho – um treinador fino com’o alho – e aos seus, uma expressão local, inesquecível para os adeptos do Fêquêpê. Que guardam boa memória de outras cidades, como Dublin (liga Europa, frente ao SC Braga), Sevilha (Liga Europa, contra o Celtic de Glasgow) e claro, de Viena, onde em 1987, o clube, já então liderado pelo Papa, e sob a batuta de Artur Jorge, desunhou-se muito bem perante o Bayern de Munique e venceu a sua primeira competição europeia. Outros tempos, que cunharam a expressão golo à Madjer, gesto repetido por Ronaldo, no Euro 2016, com sucesso. Com o actual domínio dos mouros, o Porto vai ter de dar corda aos vitorinos (correr) para voltar a pôr a escrita em dia e a cidade a festejar o São João antecipado, enchendo os Aliados lá para o final de Maio.  
Graças a uma atenção quotidiana, a muitas entrevistas, leituras e, aos amigos (do Porto e de outras regiões, usados, estes, como grupo de controlo para validar os termos) ao todo, este dicionário de “calão” inclui mais de 2500 entradas e 4000 significados para essas palavras ou expressões. Quase todas carregadas de muito humor, ou não fossem este falares ditos “marginais” – porque usados nas margens da linguagem corrente – ferramentas úteis para a crítica social, em múltiplas circunstâncias. São, acima de tudo, vinca João Carlos Brito, marcas fortes de uma identidade que resistiram ao tempo, as mais antigas – e à globalização, que tudo equaliza, coligidas num trabalho levado “muito a sério”. “Esta não é uma obra académica, mas pode ser uma boa fonte para trabalhos académicos”, assume o autor, que depois destas incursões bem-sucedidas neste português do Porto, vai continuar a dar ao zingarelho (trabalhar), para lançar um dicionário dos falares marginais de todo o país. Um projecto do carago.
https://www.publico.pt/local/noticia/um-livro-para-desenferrujar-a-lingua-e-os-costumes-a-partir-do-porto-1740143

Herberto Helder - Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos

* Herberto Helder


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.

Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.

Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.

E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.

Herberto Helder
Cobra | Poesia Toda
Assírio & Alvim | 1979

Reinaldo Ferreira - Se eu nunca disse

* Reinaldo Ferreira


Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo olhos, lábios, dentes.

Reinaldo Ferreira Livro I, Um voo cego a nada, s.l.

OBRA DE REINALDO FERREIRA EM  http://alfarrabio.di.uminho.pt/reinaldo/

terça-feira, 2 de agosto de 2016

António Bagão Félix . a narrativa

***






2 de Agosto de 2016, 13:34

Por


A narrativa

D
e tempos em tempos, o modismo lexical faz-nos deparar, em qualquer esquina de comunicação escrita ou oral, com uma palavra antes ignorada ou esquecida. Não falo de neologismos que, aportuguesados ou inglesados, nos surgem amiúde, nem do modo sincopado do “siglês” que também fez e faz o seu percurso. Falo, antes, de palavras quase subitamente acordadas de longa letargia ou de esparso e comedido uso.

Assim foi, há anos, com o adjectivo incontornável, que tão incontornável aparecia que quase não se podia contornar. Com o tempo foi minguando e hoje, pelos vistos, já nada é incontornável.
Já no âmbito do “economês”, o vocábulo descontado foi reabilitado, não em termos do valor pago a menos em saldos, mas para se usar, com ar tecnocrático, como uma poderosa arma de previsão económica a posteriori para um efeito ou acção já concretizados.
Outro exemplo mais recente é o uso do verbo demandar (fora do contexto jurídico) como sinónimo de procurar, reclamar ou requerer. Um galicismo que se tornou algo elitista, pois cativa mais a erudição dizer que “este problema demanda atenção” do que dizer que “requer atenção”.
Fiz esta breve introdução para eleger uma das mais recentes palavras da moda linguística: narrativa, seja por que motivo for. Antes usada com parcimónia no domínio técnico dos géneros literários, eis que foi exponenciada após a pletora de “narrativas” que José Sócrates usou para narrar a jorros numa entrevista televisiva.
Vai daí, a narrativa (oral) anda por todo o lado. Transformou-se numa espécie de genérico, que se usa por dá cá aquela palha. Ela é exposição, raciocínio, relato, narração, enredo, conto, novela, prosa, récita, história, “estória”, conversa, sonho, paleio, imaginação, aconselhamento, intriga. De toda a narrativa que vamos ouvindo, há um género que, nestes tempos conturbados e de expansão de redes sociais, vai fazendo escola e, por regra, traz água no bico: a narrada ou inventada pelo narrador.
A narrativa está, como substantivo, para implementar, como verbo. Dão para quase tudo e, assim sendo, também dão para nada significar.
E por aqui me fico na brevíssima narrativa sobre a narrativa.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/08/02/a-narrativa/

Alberto Caeiro - poema XLVIII d' O Guardador de Rebanhos

*  Alberto Caeiro 


Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide, de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

s.d.


“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 71.

Mahmud Darwish - HOMENAJE A LAS VÍCTIMAS DE GAZA

* Mahmud Darwish

CADÁVERES ANÓNIMOS

 Cadáveres anónimos.
Ningún olvido los reúne,
Ningún recuerdo los separa...
Olvidados en la hierba invernal
Sobre la vía pública,
Entre dos largos relatos de bravura
Y sufrimiento.
"¡Yo soy la víctima!". "¡No, yo soy
la única víctima!". Ellos no replicaron:
"Una víctima no mata a otra.
Y en esta historia hay un asesino
Y una víctima". Eran niños,
Recogían la nieve de los cipreses de Cristo
Y jugaban con los ángeles porque tenían
La misma edad... huían de la escuela
Para escapar de las matemáticas
Y la antigua poesía heroica. En las barreras,
Jugaban con los soldados
Al juego inocente de la muerte.
No les decían: dejad los fusiles
Y abrid las rutas para que la mariposa encuentre
A su madre cerca de la mañana,
Para que volemos con la mariposa
Fuera de los sueños, porque los sueños son estrechos
Para nuestras puertas. Eran niños,
Jugaban e inventaban un cuento para la rosa roja
Bajo la nieve, detrás de dos largos relatos
De bravura y sufrimiento.
Luego escapaban con los ángeles pequeños
Hacia un cielo límpido.



Traducción del árabe: María Luisa Prieto
Del poemario: La ta´tadhir ´ammâ fa´alta (No pidas perdón) (2004)


Andre Vltchek - A dura literatura russa anticapitalista




por Andre Vltchek [*]

Imaginemos Moscovo sendo tomada por um cartel de empresas internacionais. Por um monstro com suas próprias fábricas, edifícios de escritórios, serviços de segurança, prisões privadas, centros de reeducação (ditos de 'formação') e obedientes meios de comunicação social. Imaginemos ue também dispõem de bases de dados sobre toda a gente que tenha real importância na capital.

Imaginemos de repente que as vidas humanas não importam mais. As pessoas só interessam para produzir e consumir; tornaram-se também totalmente descartáveis.

Imaginemos uma Rússia, no passado extremamente instruída, com seus lendários artistas e filósofos, ficando gradualmente reduzida a um nível inimaginavelmente primitivo. De repente, há lixo pop dos EUA voando por toda parte e o entretenimento dado às massas são inúmeros 'reality shows' na televisão, incluindo os que exibem homens e mulheres defecando e urinando em casas de banho públicas.

Isso é o que acontece lendo um romance contundente, provocador e violento de Sergei Minaev, chamado R.A.B. com 521 páginas!

Em todos os seus romances, incluindo Soulless, The Telki, Mídia Sapiens e R.A.B. Minaev retrata magistralmente os continuados crimes cometidos pela cultura empresarial e os seus media. Brutal e candidamente descreve uma sociedade apocalíptica, construída nos princípios do moderno sistema capitalista ao estilo ocidental, sem alma, impiedoso e assassino.

Neste mundo, já nada é sagrado. As 'elites' divertem-se grandemente caçando nos arredores da cidade, não alguns animais, mas pessoas sem-abrigo que vivem em pipelines abandonados ("R.A.B."). Um canal de notícias de televisão do mainstream norte-americano, juntamente com o seu parceiro local, gerem o desencadear de um conflito militar entre a Geórgia e a Rússia, após contratarem vários helicópteros de combate e soldados reformados, matando pessoas apenas para aumentar sua audiência. Vários ataques terroristas em Moscou estão a ser pagos e encenados por outros conglomerados dos grande media. (Media Sapiens). 

Minaev não escreve chorando. Definitivamente está longe de ser um "coração sangrando". Ele é duro e cínico. Os seus personagens são na sua maioria cruéis super yuppies de Moscovo, empreendedores, vivendo uma vida rápida, tomando drogas, participando em festas de clubes de luxo, tendo sexo literalmente com tudo que se move (Soulless). 

Mas eles consomem-se, destroem-se, são levados para perto do suicídio. Não têm ideologia, nem opiniões políticas. Riem, insultam tudo e todos, mas no fundo estão realmente sofrendo de uma horrível vacuidade, do seu vazio.

Nos raros momentos de honestidade, admitem uns aos outros e a eles mesmos, que na realidade ainda anseiam por pelo menos "algo puro e decente", não corrompido pelo regime fundamentalista do mercado global, seus "valores" e "cultura".

Em R.A.B., Minaev vai muito mais longe. Os yuppies (paradoxalmente, gestores de nível médio e superior) começam uma rebelião contra o sistema. Fazem greve, marcham pelas ruas e constroem barricadas. Começam por exigir justiça social. Incendeiam os seus próprios escritórios.

Fazem isso depois da sua empresa russa produtora de brinquedos (e outras empresas por toda a cidade) serem engolidas por uma transnacional norte-americana, que imediatamente começa a desmontar todos os benefícios sociais, enquanto injeta incerteza e medo no local de trabalho. Outra transnacional abre uma horrorosa fábrica de brinquedos nos arredores de Moscovo, empregando imigrantes desesperados das repúblicas da Ásia Central.

Os meios de comunicação privados, primeiro confrontam os manifestantes, depois fazem o acompanhamento com propaganda a favor das empresas e no final aos serviços de segurança privados e ao exército. Muitas pessoas desaparecem. Outras são fechadas em escritórios e prisões secretas das empresas e torturadas. Aqueles que sobrevivem tornam-se "não empregáveis", sendo os seus nomes registados numa inapagável lista negra.

Mas a que apela realmente Minaev? A uma verdadeira revolução?

Sim e não. Ele não acredita que nos países que têm sido conquistados pelo fundamentalismo de mercado e pelo consumismo desenfreado, uma verdadeira 'revolução' seja possível. Ele não acredita que as pessoas tenham ideais ou qualquer fervor à esquerda. Porém, ao mesmo tempo, pelo menos alguns dos seus personagens claramente não estão dispostos a render-se.

É arrepiante ler R.A.B. ao mesmo tempo que "rebeliões" estão a ocorrer na Grécia, França, Espanha e Reino Unido.

Um dos principais personagens de R.A.B. confronta os manifestantes:   Isto não é uma revolução! Todos vocês são partes do sistema. Vocês só pretendem um melhor negócio para vocês próprios. Através desta rebelião, na verdade estão a negociar com o cartel das empresas. Se obtiverem o que estão a pedir, então vão ficar felizes e continuar como se nada tivesse acontecido.

Em seguida, Minaev faz exatamente o que nenhum escritor ocidental teria coragem de fazer. Ele começa a argumentar que para destruir o sistema, tem de haver uma luta armada. Caso contrário, nenhuma mudança real jamais poderia ser alcançada.

A rebelião reprimida dos yuppies eventualmente desencadeia um movimento muito mais amplo, e em breve há verdadeiras batalhas em várias capitais provinciais.

O fim do romance é aberto. O personagem principal de R.A.B. é destruído. Ele perde o amor da sua vida (no desespero ela comete suicídio); fica sem emprego, sem dinheiro e sem lugar para onde ir. Mas ainda está vivo. A Rússia ainda está viva. É óbvio que aconteça o que acontecer, nunca aceitará o sistema monstruoso que foi imposto pelo ocidente.

Tudo pode parecer uma fantasia louca, mas na verdade o que Minaev escreve não está muito longe dos pesadelos para onde a Rússia estava a ser levada depois de Gorbachev ter permitido que o país (a URSS), se desmoronasse. Yeltsin introduziu então a privatização desenfreada e entregou concessões sem precedentes a empresas estrangeiras. Durante esse período, a Rússia passou por algo que poderia ser facilmente descrito como um genocídio social. A expectativa de vida caiu para os níveis de guerra declarada em África. Governou com base na ilegalidade. Todos os ideais foram ridicularizados e cuspidos.

Um grande número de intelectuais russos foi comprado e organizado pelo Ocidente em inúmeras ONG. O nível mais baixo do pop e do entretenimento ocidental sabotou a cultura russa. Durante esses dias sombrios, o ocidente conseguiu finalmente por a Rússia de joelhos.

Mas menos de duas décadas depois, uma nova Rússia está mais uma vez orgulhosa, forte e confiante. Pôs-se de pé, começou com sucesso novamente produzir e passou por uma transformação social enorme e positiva.

Há apenas uma semana voltei do Extremo Oriente russo, das cidades de Vladivostok e Khabarovsk, Petropavlovsk, Kamchatski. Onde quer que fosse, testemunhei uma infraestrutura nova e impressionante. Encontrei uma nação confiante trabalhando duramente para restaurar pelo menos algumas das estruturas e benefícios socialistas que pode usufruir no passado.

A Rússia nova, atual está muito mais perto de China; muito mais impressionada com o sistema chinês, do que pelo que foi forçado a adotar no passado durante a "era do pró-ocidental" que é agora considerado sinônimo de desastre nacional.

Os escritores russos desempenharam um papel importante ao descrever os horrores dos anos Gorbachev/Yeltsin e o regime económico, político e "cultural" globalizado e brutal injetado pelo ocidente em todos os cantos do planeta. De um Eduard Limonov com seu enorme romance It's Me, Eddie a R.A.B. de Minaev, a literatura russa tem sido ousada, insultante, direta e brutalmente honesta.

Enquanto Limonov e Minaev vendem milhões de cópias de seus livros no seu país, o seu trabalho é praticamente desconhecido no ocidente. Não encontrei traduções para inglês pesquisando na Amazon.com e em outros sítios.

No seu romance nova-iorquino, Eddie, Limonov pede abertamente atos terroristas contra o regime ocidental, enquanto alguns dos personagens do Minaev também acreditam numa luta armada, apesar de tipo mais convencional.

Nada é poupado. Quando a transnacional de produção de brinquedos dos EUA exige um sistema especial de descontos aplicado aos seus funcionários na Rússia, para "ajudar as crianças pobres do terceiro mundo", o personagem principal de R.A.B. pensa:   "bem, eles podem agora usar esse dinheiro para comprar caixões para as crianças que põem a trabalhar e matam na Indonésia ou na Tailândia". Quando o imposto sobe um pouco mais ele comenta: "agora eles vão ter fundos suficientes para pelo menos cavar algumas valas comuns".

Tudo isso é simplesmente demasiado chocante para leitores ocidentais. Ou mais precisamente, a "carteira de negócios" ocidental provavelmente "pensa" que é.

O fato é que, apesar do que a propaganda ocidental constantemente repete, quem lê russo pode claramente ver e apreciar que a literatura russa é na verdade muito mais livre, ousada e rebelde que as do ocidente.

Quando vários romancistas russos best-sellers estão chamando abertamente para o combate contra o regime global (o mesmo regime que, até agora, pelo menos parcialmente controla a economia do seu país), cada pessoa não pode senão ficar impressionada com o nível de liberdade no país que permite tal trabalho ser publicado e promovido.

Mas no Ocidente, nunca saberemos isto, a menos que se fale russo. É porque no Ocidente (e em seus Estados "cliente" e colónias) as pessoas estão extremamente bem "protegidas" de tão desconfortáveis (e o regime diria 'perigosos') pensamentos! 

20/Julho/2016

Do mesmo autor em resistir.info:
  • O povo chinês sente-se ultrajado
  • Como combater a propaganda ocidental
  • RDPC: isolada, demonizada e desumanizada pelo Ocidente

    [*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigador. Fez coberturas de guerras e conflitos em dezenas de países. Os seus livros mais recentes são: Exposing Lies Of The Empire", "Fighting Against Western Imperialism", "Discussion with Noam Chomsky: On Western Terrorism , ou o seu aclamado romance politico Oceania – a book on Western imperialism in the South Pacific . Sobre a Indonésia escreveuIndonesia – The Archipelago of Fear . Presentemente realiza filmes para a Telesur e Press TV. Pode ser contatado através de seu sítio web ou do Twitter Filósofo, romancista, cineasta e jornalista de investigação. Cobriu guerras e conflitos em dezenas de países. Seus livros mais recentes são: "Exposing Lies Of The Empire" "Fighting Against Western Imperialism" Discussão com Noam Chomsky: "On Western Terrorism". "Point of No Return" é um seu aclamado romance político. " Oceania – a book on Western imperialism in the South Pacific Oceania" , um livro sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul. O seu estimulante livro sobre a Indonésia:"Indonesia – The Archipelago of Fear". Andre realiza filmes para a teleSUR e Press TV. Depois de viver por muitos anos na América Latina e na Oceania, Vltchek atualmente reside e trabalha no sudeste da Ásia e Médio Oriente. Pode ser contactado através de seu site ou seu Twitter.

    O original encontra-se em www.informationclearinghouse.info/article45149.htm. Tradução de DVC. 

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 1 de agosto de 2016

    Moniz Pereira - Valeu a pena

    * Mário Moniz Pereira

    Com voz serena
    perguntaram-me ao ouvido
    valeu a pena
    vir ao mundo e ter nascido
    com lealdade
    vou responder, mas primeiro
    consultei meu travesseiro
    sobre a verdade
    tive porém, que lembrar o meu passado
    horas boas do meu fado
    e as más também

    Valeu a pena
    ter vivido o que vivi
    valeu a pena
    ter sofrido o que sofri
    valeu a pena
    ter amado quem amei
    ter beijado quem beijei
    valeu a pena

    Valeu a pena
    ter sonhado o que sonhei
    valeu a pena
    ter passado o que passei
    valeu a pena
    conhecer quem conheci
    ter sentido o que senti
    valeu a pena
    valeu a pena
    ter cantado o que cantei
    ter chorado o que chorei
    valeu a pena

    Valeu a pena
    ter amado quem amei
    ter beijado quem beijei
    valeu a pena
    valeu a pena
    ter cantado o que cantei
    ter chorado o que chorei
    valeu a pena

    https://www.vagalume.com.br/maria-da-fe/valeu-a-pena.html


    Maria da Fé - Valeu a pena