Gustavo Carneiro
O rapper norte-americano Macklemore foi excluído da digressão de Ed Sheeran por expressar o seu apoio a uma Palestina livre da ocupação e do genocídio. Dos 10 espectáculos previstos, participou apenas em dois, mas não se arrepende: numamensagem partilhada nas redes sociais, valorizou essas «duas oportunidades para dizer perante 90 mil pessoas as palavras que de alguma forma se tornaram demasiado perigosas de serem ditas: Palestina livre! E se essas palavras me custarem o palco ao mesmo tempo que recolocam a atenção na Palestina, então foi a minha digressão mais bem sucedida».
O caso deu que falar e não se ficou por aqui. A banda Beoga, que também acompanhava Sheeran, solidarizou-se com Macklemore e abandonou a digressão, a maior em que alguma vez esteve envolvida: «Nós somos irlandeses que percebem o que é colonialismo. Como fundadores do movimento Artistas Irlandeses pela Palestina, somos activistas comprometidos com a justiça e continuaremos a sê-lo. Todo este episódio está a servir novamente para distrair da verdadeira questão: mais de 1000 palestinianos foram mortos desde o chamado cessar-fogo.»
Da música passamos para o cinema. “Naza”, dos israelitas Yuval Abraham e Rachel Szor, ganhou o Prémio Especial do Júri da edição deste ano do Festival de Veneza e mereceu o aplauso do público durante longos 25 minutos. «Filmado à noite a partir dos telhados de Telavive, este documentário de investigação examina as vítimas civis das operações militares israelitas em Gaza e os sistemas por detrás dos assassinatos selectivos de palestinianos», lê-se na sinopse do filme que tem estreia marcada para hoje na salas portuguesas. Ao receber o galardão, Yuval Abraham referiu-se ao genocídio em curso como um projecto consciente, assente na «total desumanização dos palestinianos». Os realizadores foram ameaçados com a perda de nacionalidade israelita e as suas famílias já receberam diversas ameaças.
Por cá, o maestro e compositor César Viana deixou a direcção artística do Festival Internacional de Música Religiosa de Guimarães por «razões de consciência», dada a aproximação institucional e comercial da Câmara Municipal a Israel. No contexto da situação que se vive em Gaza, justificou, não lhe era possível «permanecer indiferente».
Todos estes gestos – e tantos outros haveria a destacar por esse mundo fora – confrontam a “neutralidade” exigida pelos interesses políticos e económicos que de forma assumida ou envergonhada apoiam o genocídio e a ocupação.
Nos últimos três anos, mais de 20 mil crianças foram assassinadas na Faixa de Gaza pelo exército de Israel, bem armado pela maior potência militar do planeta. A que se somam as sobreviventes – amputadas, famintas, órfãs, irremediavelmente traumatizadas. Como bem afirmou Macklemore na sua declaração, denunciar o genocídio já não é um acto de coragem, mas de mera humanidade. Não há neutralidade possível!
Avante n.º 2757 (1/10/2026)
https://www.avante.pt/pt/2757/opiniao/185234/Neutralidade.htm