segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Daniel Oliveira - A barbárie de novo, agora em direto

* Daniel Oliveira

Após a execução falhada de Christa Pike, o Tennessee tenta melhorar as condições de execução, repetindo a ilusão do homicídio "humano" num estado que confunde justiça com vingança. Nos EUA, o apoio público à pena de morte caiu para níveis mínimos em meio século, mas o poder político aumentou o número de execuções. O ódio chegou ao poder e até pensa transmitir um fuzilamento. Nesta matéria, os EUA continuam a ser o farol da barbárie


Na quarta-feira, 30 de setembro, às 19h27, subiu a cortina da câmara de execução da prisão de Riverbend, em Nashville. Christa Pike já estava amarrada à maca, com o cateter no braço. Ressonava, falava. Segundo a Associated Press, queixou-se de que o braço lhe doía e perguntou a um funcionário se era suposto sentir aquilo. Às 19h46, fecharam a cortina. Três minutos depois, voltaram a abri-la. Pike recebeu duas doses de pentobarbital, porque o protocolo do Tennessee manda repetir quando a primeira não mata. Durante 40 minutos, as testemunhas ouviram-na do outro lado da cortina. Mais de uma hora depois da primeira injeção, ainda respirava e tinha pulsação. Às 20h53, uma voz pediu às testemunhas que abandonassem a sala. Pike foi levada para um hospital. Tinha recebido cinco gramas de um sedativo que, em condições normais, mata qualquer pessoa.

Pike tinha 18 anos quando, em 1995, participou na tortura e no assassinato de Colleen Slemmer, uma colega de 19. Foi condenada à morte aos 20 e passou quase 30 anos no corredor da morte. Seria a primeira mulher executada no Tennessee em mais de dois séculos. O departamento prisional garante que seguiu à risca o protocolo aprovado pelo procurador-geral do estado. Um dos advogados de Pike, que estava na sala, contou ao Guardiansete agulhas no braço esquerdo, uma delas dobrada. Segundo os advogados, o braço ficou queimado e coberto de bolhas. O responsável pelas prisões do estado, Frank Strada, demitiu-se, sempre a insistir que tudo foi feito segundo as regras. A mãe de Colleen quer que o Estado corrija o erro e que Pike continue condenada à morte. Donald Trump, questionado sobre o caso, comentouque uma execução não devia ser assim tão difícil.

Não foi um acidente. Em maio, o mesmo Tennessee desistiu de executar Tony Carruthers porque a equipa não conseguiu montar uma via intravenosa de reserva. Antes disso, o Alabama tinha falhado com Alan Miller e Kenneth Smith por não lhes encontrar uma veia. Acabou por matá-los com azoto, um método que os veterinários proíbem para abater cães e gatos. Em junho, um juiz federal travou o uso de azoto no Alabama por o considerar uma pena cruel. Restava o fuzilamento. O Supremo Tribunal da Carolina do Sul aceitou-o com a garantia de que a dor duraria dez a quinze segundos, a não ser que todos os atiradores falhassem o coração. Em abril de 2025, a conclusão da autópsia de Mikal Mahdi encontrouduas feridas de bala em vez de três, e nenhuma lhe atingiu diretamente o coração. Cada método nasce para corrigir o anterior e falha à sua maneira. O governador do Tennessee, Bill Lee, suspendeuas execuções até ao fim do ano e encomendou uma revisão independente. Para que, da próxima vez, corra melhor.

O CRIME “HUMANO”

Estuda-se o melhor método, troca-se a injeção pelo gás e o gás pelas balas, como quem encontra alternativas terapêuticas. Pensa-se na técnica para não pensar no ato, com a mesma frieza operacional com que se estudou a melhor forma de gerir o extermínio nos campos construídos para a função. Em agosto de 1941, depois de assistir a um fuzilamento em massa de judeus perto de Minsk, Himmler concluiu que as balas ainda não eram a forma mais humana de matar e mandou procurar outra. O problema, explicariadepois um dos inspetores das carrinhas de gás, era o desgaste psicológico e moral de quem disparava. O gás era mais rápido, mais "humano", menos traumático para quem fazia a "limpeza".

Enganamo-nos quando queremos fazer execuções respeitando qualquer regra moral. A ideia de tratar com dignidade aquele que matamos, sem que haja qualquer necessidade de o fazer, não serve para proteger a dignidade da pessoa assassinada. Serve para tentar que fique intacta a dignidade que, enquanto comunidade, decidimos perder. E serve para não nos chamarmos o que somos: assassinos.

Matar só não é crime quando é a única forma de travar uma ameaça imediata à vida. Até na guerra, é crime matar um prisioneiro rendido. Quando é o Estado a matar, o crime é mais grave. Mata a frio, depois de anos a preparar a data. Mata quem já não é perigo para ninguém, preso e amarrado a uma maca. E mata em nome de todos nós. Somos apenas mais cobardes do que aqueles que executamos, porque nos escondemos atrás do aparelho burocrático que mantém limpas as nossas mãos.

É O PODER QUE NOS EMPURRA

Durante duas décadas, o apoio à pena de morte e as execuções caíram, paralelamente, nos EUA. Em 1999 houve 98 execuções, em 2021 apenas 11, ao mesmo tempo que o apoio descia de 80% para 54%. Com o regresso de Trump, as linhas separaram-se de vez. Em 2025 executaram-se 47 pessoas, quase o dobro do ano anterior, ao mesmo tempo que o apoio caía para 52%, o valor mais baixo em meio século, segundo a Gallup. Entre os 18 e os 34 anos, só 41% a defendem. Nos tribunais, os júris recusam-na: houve apenas 22 novas condenações à morte, e a maioria dos júris chamados a escolher optou pela prisão perpétua.

Quem faz a diferença é o poder político. Na Florida, Ron DeSantis passou de uma execução para 19, 40% do total do país. A administração Trump levantou a moratória federal e pressiona os estados para matarem mais depressa. Executam-se mais do dobro das pessoas que se condenam, esvaziando o corredor da morte de sentenças antigas. Quem aplaude é uma fação: entre os republicanos, 81% apoiam a pena de morte, tal como há 25 anos. É a eles que se dirige o espetáculo. Há uma liderança de parte da nossa comunidade que espalha o ódio no discurso público, feito mercadoria nas redes sociais, e o sangue pelas mãos do Estado. Não é uma pulsão natural da turba. É um caminho para onde nos arrastam.

A VOLÚPIA DOS ALGOZES

O próximo espetáculo já tem data. Se nenhum recurso o travar, Nidal Hasan, o psiquiatra do Exército que em novembro de 2009 matou 13 pessoas na base de Fort Hood, no Texas, será fuzilado a 3 de dezembro, às 13h. Nada foi deixado ao acaso: morrerá na base onde matou, numa quinta-feira, como a do ataque, e por volta da hora a que começou a disparar. Vingança simbólica administrada pelo Estado. E a vingança é, por natureza, o oposto da justiça. Será a primeira execução militar nos EUA desde 1961.

Pete Hegseth, secretário da Guerra, como significativamente gosta de ser tratado, quer o público a assistir, como lição, e planeou uma inédita transmissão digital do fuzilamento. Até hoje, os tribunais nunca tinham permitido uma execução em direto. Quando lhe perguntaram se Hasan tinha feito algum último pedido, Hegseth respondeu: "Não quero saber. Vemo-lo a 3 de dezembro." Confrontado com a ideia do espetáculo televisivo, Donald Trump recuou na certeza absoluta e revelou que a administração ainda está a "tomar uma decisão" final, enquanto o seu vice-presidente, J.D. Vance, expressou ceticismo sobre se o fuzilamento vai mesmo passar no ecrã. Aconteça ou não, sabemos que ódio chegou ao poder.

A 14 de agosto de 1936, em Owensboro, no Kentucky, entre 15 e 20 mil pessoas juntaram-se para ver enforcar Rainey Bethea, um jovem negro de 22 anos. Bethea confessou a violação e o homicídio de uma mulher branca de 70 anos. A acusação deixou cair o homicídio: no Kentucky, um homicida morria na cadeira elétrica, dentro da prisão, enquanto um violador podia ser enforcado diante de toda a gente. Muitos chegaram de véspera. Vendiam-se cachorros-quentes e refrigerantes, como numa feira. Dois anos depois, envergonhado, o Kentucky fechou as execuções atrás dos muros das prisões. Os americanos esconderam a pena de morte por vergonha. Agora perderam a vergonha. E já não é preciso sair de casa para assistir.

O FAROL DO CRIME

No ano passado, a Amnistia Internacional registou 2.707 execuções em 17 países, o número mais alto desde 1981. A conta não inclui a China, que guarda os números como segredo de Estado e onde se estima que se executem milhares de pessoas por ano. Oito em cada dez execuções conhecidas aconteceram no Irão. Seguem-se a Arábia Saudita, o Iémen e, logo depois, os Estados Unidos, o único país do continente americano que executou alguém em 2025. Há 145 países que já aboliram a pena de morte, na lei ou na prática. Os EUA escolheram outra companhia: a secretária-geral da Amnistia junta-os ao Irão, à China, à Coreia do Norte e à Arábia Saudita no grupo de Estados que usam a execução para semear o medo. Nenhum Estado que mata em seu nome, como forma de impor a lei, merece ser tratado como Estado de direito ou uma democracia. Um Estado que mata quem já tem encarcerado é um Estado de terror.

Os Estados Unidos não são os maiores carrascos do mundo. Mas são o futuro do mundo, porque representam o regresso à barbárie. O Irão e a Arábia Saudita nunca deixaram de matar. Os EUA eram a democracia que, aos poucos, ia deixando de o fazer, e voltaram atrás. Com tudo o que destruímos nas nossas democracias, não destruímos apenas a democracia. Destruímos a nossa civilização.

A nova barbárie será executada pelas máquinas que tomarão os nossos lugares. Na guerra, já começou. Em Gaza, um sistema de inteligência artificial do exército israelita chegou a marcar37 mil pessoas como potenciais alvos. Um dos militares que validavam as escolhas da máquina contou que lhes dedicava cerca de 20 segundos cada. A máquina oferecerá o sonho nazi: o crime banal sem consciência. Seremos apenas carne, a abater quando estivermos fora da ordem do tecnofascismo. A alma, essa, já foi perdida.

Expresso 12 de Outubro de 2026

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