* Daniel Oliveira
Após a execução falhada de
Christa Pike, o Tennessee tenta melhorar as condições de execução, repetindo a
ilusão do homicídio "humano" num estado que confunde justiça com
vingança. Nos EUA, o apoio público à pena de morte caiu para níveis mínimos em
meio século, mas o poder político aumentou o número de execuções. O ódio chegou
ao poder e até pensa transmitir um fuzilamento. Nesta matéria, os EUA continuam
a ser o farol da barbárie
Na quarta-feira, 30 de setembro,
às 19h27, subiu a cortina da câmara de execução da prisão de Riverbend, em
Nashville. Christa Pike já estava amarrada à maca, com o cateter no braço.
Ressonava, falava. Segundo a Associated
Press, queixou-se de que o braço lhe doía e perguntou a um funcionário se
era suposto sentir aquilo. Às 19h46, fecharam a cortina. Três minutos depois,
voltaram a abri-la. Pike recebeu duas doses de pentobarbital, porque o
protocolo do Tennessee manda repetir quando a primeira não mata. Durante 40
minutos, as testemunhas ouviram-na do outro lado da cortina. Mais de uma hora
depois da primeira injeção, ainda respirava e tinha pulsação. Às 20h53, uma voz
pediu às testemunhas que abandonassem a sala. Pike foi levada para um hospital. Tinha
recebido cinco gramas de um sedativo que, em condições normais, mata qualquer
pessoa.
Pike tinha 18 anos quando, em
1995, participou na tortura e no assassinato de Colleen Slemmer, uma colega de
19. Foi condenada à morte aos 20 e passou quase 30 anos no corredor da morte.
Seria a primeira mulher executada no Tennessee em mais de dois séculos. O
departamento prisional garante que seguiu à risca o protocolo aprovado pelo
procurador-geral do estado. Um dos advogados de Pike, que estava na sala,
contou ao Guardiansete
agulhas no braço esquerdo, uma delas dobrada. Segundo os advogados, o braço
ficou queimado e coberto de bolhas. O responsável pelas prisões do estado,
Frank Strada, demitiu-se, sempre a insistir que tudo foi feito segundo as
regras. A mãe de Colleen quer que o Estado corrija o erro e que Pike continue
condenada à morte. Donald Trump, questionado sobre o caso, comentouque uma
execução não devia ser assim tão difícil.
Não foi um acidente. Em maio, o
mesmo Tennessee desistiu de executar Tony Carruthers porque a equipa não
conseguiu montar uma via intravenosa de reserva. Antes disso, o Alabama tinha
falhado com Alan Miller e Kenneth Smith por não lhes encontrar uma veia. Acabou
por matá-los com azoto, um método que os veterinários proíbem para abater cães
e gatos. Em junho, um juiz federal travou o uso de azoto no Alabama por o
considerar uma pena cruel. Restava o fuzilamento. O Supremo Tribunal
da Carolina do Sul aceitou-o com a garantia de que a dor duraria dez a quinze
segundos, a não ser que todos os atiradores falhassem o coração. Em abril de
2025, a conclusão da autópsia de Mikal Mahdi encontrouduas
feridas de bala em vez de três, e nenhuma lhe atingiu diretamente o coração.
Cada método nasce para corrigir o anterior e falha à sua maneira. O governador
do Tennessee, Bill Lee, suspendeuas
execuções até ao fim do ano e encomendou uma revisão independente. Para que, da
próxima vez, corra melhor.
O CRIME “HUMANO”
Estuda-se o melhor método,
troca-se a injeção pelo gás e o gás pelas balas, como quem encontra
alternativas terapêuticas. Pensa-se na técnica para não pensar no ato,
com a mesma frieza operacional com que se estudou a melhor forma de gerir o
extermínio nos campos construídos para a função. Em agosto de 1941,
depois de assistir a um fuzilamento em massa de judeus perto de Minsk, Himmler
concluiu que as balas ainda não eram a forma mais humana de matar e mandou
procurar outra. O problema, explicariadepois
um dos inspetores das carrinhas de gás, era o desgaste psicológico e moral de
quem disparava. O gás era mais rápido, mais "humano", menos
traumático para quem fazia a "limpeza".
Enganamo-nos quando queremos
fazer execuções respeitando qualquer regra moral. A ideia de tratar com
dignidade aquele que matamos, sem que haja qualquer necessidade de o fazer, não
serve para proteger a dignidade da pessoa assassinada. Serve para tentar que
fique intacta a dignidade que, enquanto comunidade, decidimos perder. E
serve para não nos chamarmos o que somos: assassinos.
Matar só não é crime quando é a
única forma de travar uma ameaça imediata à vida. Até na guerra, é crime matar
um prisioneiro rendido. Quando é o Estado a matar, o crime é mais grave. Mata a
frio, depois de anos a preparar a data. Mata quem já não é perigo para ninguém,
preso e amarrado a uma maca. E mata em nome de todos nós. Somos apenas mais
cobardes do que aqueles que executamos, porque nos escondemos atrás do
aparelho burocrático que mantém limpas as nossas mãos.
É O PODER QUE NOS EMPURRA
Durante duas décadas, o apoio à
pena de morte e as execuções caíram, paralelamente, nos EUA. Em 1999 houve 98
execuções, em 2021 apenas 11, ao mesmo tempo que o apoio descia de 80% para
54%. Com o regresso de Trump, as linhas separaram-se de vez. Em 2025
executaram-se 47 pessoas, quase o dobro do ano anterior, ao mesmo tempo que o
apoio caía para 52%, o valor mais baixo em meio século, segundo a Gallup. Entre
os 18 e os 34 anos, só 41% a defendem. Nos tribunais, os júris recusam-na:
houve apenas 22 novas condenações à morte, e a maioria dos júris chamados a
escolher optou pela prisão perpétua.
Quem faz a diferença é o poder
político. Na Florida,
Ron DeSantis passou de uma execução para 19, 40% do total do país. A
administração Trump levantou a moratória federal e pressiona os estados para
matarem mais depressa. Executam-se mais do dobro das pessoas que se condenam,
esvaziando o corredor da morte de sentenças antigas. Quem aplaude é uma
fação: entre os republicanos, 81% apoiam a pena de morte, tal como há 25
anos. É a eles que se dirige o espetáculo. Há uma liderança de parte da nossa
comunidade que espalha o ódio no discurso público, feito mercadoria nas redes
sociais, e o sangue pelas mãos do Estado. Não é uma pulsão natural da
turba. É um caminho para onde nos arrastam.
A VOLÚPIA DOS ALGOZES
O próximo espetáculo já tem data.
Se nenhum recurso o travar, Nidal Hasan, o psiquiatra do Exército que em
novembro de 2009 matou 13 pessoas na base de Fort Hood, no Texas, será fuzilado
a 3 de dezembro, às 13h. Nada foi deixado ao acaso: morrerá na base onde matou,
numa quinta-feira, como a do ataque, e por volta da hora a que começou a
disparar. Vingança simbólica administrada pelo Estado. E a vingança é, por
natureza, o oposto da justiça. Será a primeira execução militar nos EUA
desde 1961.
Pete Hegseth, secretário da
Guerra, como significativamente gosta de ser tratado, quer o público a
assistir, como lição, e planeou uma inédita transmissão digital do fuzilamento.
Até hoje, os tribunais nunca tinham permitido uma execução em direto. Quando
lhe perguntaram se Hasan tinha feito algum último pedido, Hegseth respondeu:
"Não quero saber. Vemo-lo a 3 de dezembro." Confrontado com a ideia
do espetáculo televisivo, Donald Trump recuou na certeza absoluta e revelou que
a administração ainda está a "tomar uma decisão" final, enquanto o
seu vice-presidente, J.D. Vance, expressou ceticismo sobre se o fuzilamento vai
mesmo passar no ecrã. Aconteça ou não, sabemos que ódio chegou ao
poder.
A 14 de agosto de 1936, em
Owensboro, no Kentucky,
entre 15 e 20 mil pessoas juntaram-se para ver enforcar Rainey Bethea, um jovem
negro de 22 anos. Bethea confessou a violação e o homicídio de uma mulher
branca de 70 anos. A acusação deixou cair o homicídio: no Kentucky, um homicida
morria na cadeira elétrica, dentro da prisão, enquanto um violador podia ser
enforcado diante de toda a gente. Muitos chegaram de véspera. Vendiam-se
cachorros-quentes e refrigerantes, como numa feira. Dois anos depois,
envergonhado, o Kentucky fechou as execuções atrás dos muros das prisões. Os
americanos esconderam a pena de morte por vergonha. Agora perderam a vergonha.
E já não é preciso sair de casa para assistir.
O FAROL DO CRIME
No ano passado, a Amnistia
Internacional registou 2.707 execuções em 17 países, o número mais
alto desde 1981. A conta não inclui a China, que guarda os números como segredo
de Estado e onde se estima que se executem milhares de pessoas por ano. Oito em
cada dez execuções conhecidas aconteceram no Irão. Seguem-se a Arábia Saudita,
o Iémen e, logo depois, os Estados Unidos, o único país do continente americano
que executou alguém em 2025. Há 145 países que já aboliram a pena de morte, na
lei ou na prática. Os EUA escolheram outra companhia: a secretária-geral da
Amnistia junta-os ao Irão, à China, à Coreia do Norte e à Arábia Saudita no
grupo de Estados que usam a execução para semear o medo. Nenhum Estado que mata
em seu nome, como forma de impor a lei, merece ser tratado como Estado de
direito ou uma democracia. Um Estado que mata quem já tem encarcerado é
um Estado de terror.
Os Estados Unidos não são os
maiores carrascos do mundo. Mas são o futuro do mundo, porque representam o
regresso à barbárie. O Irão e a Arábia Saudita nunca deixaram de matar. Os EUA
eram a democracia que, aos poucos, ia deixando de o fazer, e voltaram atrás. Com
tudo o que destruímos nas nossas democracias, não destruímos apenas a
democracia. Destruímos a nossa civilização.
A nova barbárie será
executada pelas máquinas que tomarão os nossos lugares. Na guerra, já começou.
Em Gaza, um sistema de inteligência artificial do exército israelita chegou
a marcar37
mil pessoas como potenciais alvos. Um dos militares que validavam as escolhas
da máquina contou que lhes dedicava cerca de 20 segundos cada. A
máquina oferecerá o sonho nazi: o crime banal sem consciência. Seremos
apenas carne, a abater quando estivermos fora da ordem do tecnofascismo. A
alma, essa, já foi perdida.
Expresso 12 de Outubro de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário