quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Gustavo Carneiro - Neutralidade?

Gustavo Carneiro

O rapper norte-ame­ri­cano Mac­kle­more foi ex­cluído da di­gressão de Ed She­eran por ex­pressar o seu apoio a uma Pa­les­tina livre da ocu­pação e do ge­no­cídio. Dos 10 es­pec­tá­culos pre­vistos, par­ti­cipou apenas em dois, mas não se ar­re­pende: nu­ma­men­sagem par­ti­lhada nas redes so­ciais, va­lo­rizou essas «duas opor­tu­ni­dades para dizer pe­rante 90 mil pes­soas as pa­la­vras que de al­guma forma se tor­naram de­ma­siado pe­ri­gosas de serem ditas: Pa­les­tina livre! E se essas pa­la­vras me cus­tarem o palco ao mesmo tempo que re­co­locam a atenção na Pa­les­tina, então foi a minha di­gressão mais bem su­ce­dida».


O caso deu que falar e não se ficou por aqui. A banda Beoga, que também acom­pa­nhava She­eran, so­li­da­rizou-se com Mac­kle­more e aban­donou a di­gressão, a maior em que al­guma vez es­teve en­vol­vida: «Nós somos ir­lan­deses que per­cebem o que é co­lo­ni­a­lismo. Como fun­da­dores do mo­vi­mento Ar­tistas Ir­lan­deses pela Pa­les­tina, somos ac­ti­vistas com­pro­me­tidos com a jus­tiça e con­ti­nu­a­remos a sê-lo. Todo este epi­sódio está a servir no­va­mente para dis­trair da ver­da­deira questão: mais de 1000 pa­les­ti­ni­anos foram mortos desde o cha­mado cessar-fogo.»


Da mú­sica pas­samos para o ci­nema. “Naza”, dos is­ra­e­litas Yuval Abraham e Ra­chel Szor, ga­nhou o Prémio Es­pe­cial do Júri da edição deste ano do Fes­tival de Ve­neza e me­receu o aplauso do pú­blico du­rante longos 25 mi­nutos. «Fil­mado à noite a partir dos te­lhados de Te­la­vive, este do­cu­men­tário de in­ves­ti­gação exa­mina as ví­timas civis das ope­ra­ções mi­li­tares is­ra­e­litas em Gaza e os sis­temas por de­trás dos as­sas­si­natos se­lec­tivos de pa­les­ti­ni­anos», lê-se na si­nopse do filme que tem es­treia mar­cada para hoje na salas por­tu­guesas. Ao re­ceber o ga­lardão, Yuval Abraham re­feriu-se ao ge­no­cídio em curso como um pro­jecto cons­ci­ente, as­sente na «total de­su­ma­ni­zação dos pa­les­ti­ni­anos». Os re­a­li­za­dores foram ame­a­çados com a perda de na­ci­o­na­li­dade is­ra­e­lita e as suas fa­mí­lias já re­ce­beram di­versas ame­aças.


Por cá, o ma­estro e com­po­sitor César Viana deixou a di­recção ar­tís­tica do Fes­tival In­ter­na­ci­onal de Mú­sica Re­li­giosa de Gui­ma­rães por «ra­zões de cons­ci­ência», dada a apro­xi­mação ins­ti­tu­ci­onal e co­mer­cial da Câ­mara Mu­ni­cipal a Is­rael. No con­texto da si­tu­ação que se vive em Gaza, jus­ti­ficou, não lhe era pos­sível «per­ma­necer in­di­fe­rente».


Todos estes gestos – e tantos ou­tros ha­veria a des­tacar por esse mundo fora – con­frontam a “neu­tra­li­dade” exi­gida pelos in­te­resses po­lí­ticos e eco­nó­micos que de forma as­su­mida ou en­ver­go­nhada apoiam o ge­no­cídio e a ocu­pação.

Nos úl­timos três anos, mais de 20 mil cri­anças foram as­sas­si­nadas na Faixa de Gaza pelo exér­cito de Is­rael, bem ar­mado pela maior po­tência mi­litar do pla­neta. A que se somam as so­bre­vi­ventes – am­pu­tadas, fa­mintas, órfãs, ir­re­me­di­a­vel­mente trau­ma­ti­zadas. Como bem afirmou Mac­kle­more na sua de­cla­ração, de­nun­ciar o ge­no­cídio já não é um acto de co­ragem, mas de mera hu­ma­ni­dade. Não há neu­tra­li­dade pos­sível!

Avante n.º 2757 (1/10/2026)

https://www.avante.pt/pt/2757/opiniao/185234/Neutralidade.htm


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