* Pedro Candeias
É inevitável que o uso de IA seja discutido brevemente, porque as sociedades estão mais sensibilizadas para o tema, mais bem preparadas para o discutir – e porque há uma desconfiança generalizada.
O trabalho de Jonathan Haidt influenciou decisivamente o debate que se gerou à volta do uso desregulado do smartphone, sobretudo entre os mais jovens, argumentando que a exposição prolongada a estas tecnologias tinha criado A Geração Ansiosa.
No livro seminal sobre o tema, o psicólogo norte-americano traçou causalidades entre o crescente consumo do TikTok ou do Instagram e o aumento de casos de depressão, isolamento e ansiedade, e defendeu que as crianças e os adolescentes não deveriam ter acesso a nenhuma destas plataformas.
Agora, Haidt volta-se para a Inteligência Artificial (IA) e alerta para os riscos que as crianças podem correr se abusarem nas interacções com os modelos OpenAI, Google ou Anthropic. Citemos alguns: a 'natureza' hiper-responsiva da IA, que está programada para agradar, cria vínculos emocionais artificiais capazes de rivalizar com as relações familiares; a externalização do trabalho intelectual, que atrofia o pensamento crítico; e a falha sistemática das tecnológicas em cumprir os protocolos de segurança que haviam prometido.
Por isso, propõe que a IA seja banida das escolas até ao secundário, que os chatbots para menores funcionem apenas como ferramentas de pesquisa e com perguntas limitadas, e que as empresas sejam juridicamente responsáveis por garantir a segurança.
Ora, tal como aconteceu no caso das redes sociais, é inevitável que o uso dos modelos de linguagem seja discutido brevemente, porque as sociedades estão mais sensibilizadas para o tema, mais bem preparadas para o discutir – e porque há uma desconfiança generalizada sobre a IA. Sim, é verdade que uma conversa com o chatbot pode tornar-se tão viciante como um scroll no Instagram; e sim, é verdade que a máquina, ao reduzir o atrito ao máximo, responde a perguntas feitas até no português mais deficitário.
Mas a tentação de proibir por proibir ignora a realidade: a IA vai revolucionar o mercado de trabalho. Uma proibição por decreto nas escolas públicas, por exemplo, não iria impedir o uso pelos mais novos e criaria uma nova linha de fractura social. Enquanto as famílias com maiores recursos poderiam continuar a fornecer aos seus filhos os modelos mais recentes, que aprenderiam a dominar, os estudantes desfavorecidos seriam duplamente penalizados. Se há uma virtude na IA, é a possibilidade de democratizar e universalizar o acesso ao conhecimento complexo e a ferramentas tecnológicas.
Uma democracia não ergue muros, mesmo os digitais, e deve garantir que todos partem de uma mesma base para enfrentar o futuro.
PÚblico 2026 Outubro 06
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