segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Sónia Sapage - Uma execução em directo é um retrocesso civilizacional

 * Sónia Sapage

“Eu apoio totalmente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem”, escreve o republicano Austin Scott nas redes sociais. “A América é melhor do que isso.”

Há uma semana, o Pentágono anunciou que irá transmitir em directo (streaming), no dia 3 de Dezembro, às 13h, a execução por fuzilamento de um militar condenado a pena de morte pelo massacre de Fort Hood, no Texas, do qual resultaram 13 mortos e 32 feridos, em 2009.

Nidal Malik Hasan, major e psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, especialista em stress pós-traumático, tinha 39 anos quando concretizou o ataque. Durante o julgamento, declarou-se culpado e assumiu a sua adesão aos ideais da jihad (guerra santa). “Eu estava no lado errado, mas mudei de campo”, justificou.


Por se tratar de um militar, o Presidente Donald Trump teve de confirmar formalmente a sentença de morte, o que aconteceu em 2 de Outubro. Seis dias depois, Pete Hegseth, secretário da Defesa, defendeu que o fuzilamento fosse público com o argumento do efeito dissuasor: se as pessoas assistirem a uma morte em directo, perceberão que crimes desta gravidade têm consequências sérias.

Já houve várias manifestações públicas de condenação à transmissão do fuzilamento em streaming. E não foram só o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o secretário de Estado do Vaticano ou o congressista democrata Adam Smith a darem conta das suas reservas. Do lado dos republicanos, Austin Scott fez uma comparação inesperada. “Eu apoio totalmente a pena de morte, mas transmitir execuções ao vivo é o que os jihadistas fazem”, escreveu o congressista da Geórgia nas redes sociais.

Execuções públicas em estádios e perante multidões é o que fazem os talibã no Afeganistão – aconteceu seis vezes em 2025, segundo dados da Amnistia Internacional. No Irão, a forma de execução mais comum é o enforcamento e aconteceu 11 vezes na praça pública, no mesmo ano. E a Arábia Saudita também tem um historial de execuções públicas, incluindo decapitações.

Uma palavra de Donald Trump confirmará ou impedirá este retrocesso civilizacional que, a acontecer, colocará os Estados Unidos, de novo, no momento da História em que havia enforcamentos, fogueiras e uso de guilhotinas para decapitar condenados na praça pública. Era uma demonstração de poder através do espectáculo e da morte.

Só porque a tecnologia que vai ser usada é do século XXI não significa que a prática seja aceitável. Não é. Há uma razão para as democracias ocidentais terem retirado esta forma de punição do espaço público: chama-se dignidade. Senhor Presidente dos EUA, ainda vai a tempo de impedir este regresso ao passado. A vida não é um videojogo.


Público 12 de Outubro de 2026

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