domingo, 22 de outubro de 2017

José Afonso - a realidade e a utopia


“Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os alíbis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta”. Em entrevista a Viriato Teles, in «O Jornal», 27/4/84.

* Victor Nogueira


1. - O José Afonso comove-me muitas vezes, Faz parte da história de resistência e de luta de muitos da minha geração, de luta contra o fascismo e a opressão. Tem uma voz rica e multifacetada. Mas José Afonso não era apenas o cantautor da resistencia e luta. era também o do lirismo (Carta a  Faia Maria)

2. Não sei quando foi a 1ª vez que ouvi falar do Zeca Afonso (creio que havia discos dele na discoteca dos meus pais, que apreciavam fados de Coimbra, para além de ópera e música coral, inclundo a alentejana e a dos Coros do Exército Vermelho), mas lembro-me de em Luanda nos anos 60 ter atendiido em casa um telefonema dum nosso colega no Salvador Correia - o Virgílio Barbosa . a dizer-me que tinha acabado de receber um certo disco, e foi assim que pelo telefone ele me deu a ouvir .... "Os Vampiros" 

3. -  memória de zeca afonso e do fascismo 


1971
Como única companhia nesta tarde o José Afonso, melhor, a voz do Zeca Afonso, que sai dos alto falantes [do giradiscos] e enche o quarto, mas não a minha alma, demasiado grande para a minha alma tão pequena. (NSF - 1971.02.28 - em évoaburgomedieval)

1972
Em Setúbal reconheci o Zeca Afonso. Refreei o impulso de perguntar lhe "Você é que é o Zeca Afonso ?" e deixei o seguir para um café da Praça do Bocage. (MCG - 1972.12.29)

1987
Ali no gravador canta o Zeca Afonso, que tinha uma voz muito bonita. E ao mesmo tempo fico triste com elas (canções), porque me fazem lembrar o tempo do fascismo, quando havia esperança de lutar e conseguir um mundo melhor, sem guerra,. nem miséria, nem fome, mas onde houvesse alegria, liberdade e paz. (SNS - 1987.04.26)

2007
 José Afonso - Um amigo - Para muitos de nós o Zeca foi uma referência e um amigo. Ao vivo, só o vi duas vezes; num dos últimos espectáculos, no Clube Naval Setubalense, quase sempre sentado por causa da doença que o mataria, e outra no meio da multidão num dia normal na Praça do Bocage. O Zeca tinha uma voz rica e era um homem solidário, que os senhores do dinheiro através dos seus tiranetes e marionetas, quiseram calar, maneira eufemística de dizer ASSASSINAR, que é o que decorre da proibição de trabalhar, do activo repúdio do comunismo e doutras formas subversivas que resultam do dia de trabalho à hora, à peça, ou do desemprego, seja ele resultante da informação de bufos e PIDES, seja pela prepotência do patronato, seja este analfabeto ou matarroano ou mal vestido, ou doutorado, bem vestido, bem penteado e escanhoado, para além de perfumado e bem falante.

Durante o meu «exílio» em Évora, a música foi uma das minhas amizades e companhias. Entre outra, o canto de intervenção, de que destaco três «amigos» - o Zeca, o Adriano e o Joaquin Diaz. Para não falar, noutra onda, no Jacques Brell, no Charles Aznavour, no Gilbert Bécaud e na Edith Piaff. (2007.11.16)

Por isso, andando por ali e por aqui, convido-vos a visitar José Afonso. A entrada é aqui -> Maria Faia - José Afonso
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2014 / 2016
Em José Afonso - Um amigo falei das duas únicas vezes em que me lembro de ter visto o Zeca Afonso pessoalmente. Mas já o conhecia de Luanda, duma data, que situa nos anos 60 do milénio passado, quando em casa recebi um telefonema do meu colega do Liceu e amigo Virgílio que me disse um pouco em surdina: «Ouve este disco que acabou de me chegar às mãos». E assim, pelo telefone, ouvi pela 1ª vez o José Afonso, interpretando «Os Vampiros».

(...) E aqui voltamos ao gira-discos e ao Zeca. Para além de música clássica, havia livros e discos apreendidos pela PIDE e FORA do MERCADO, sendo crime tê-los em casa. E assim o que sobrava da mesada era para livros e discos, estes comprados por baixo do balcão e vendidos apenas a clientes de confiança. Deste modo, para além de pessoas, acompanhavam-me, para além da música clássica e de ópera, o Luís Góis, o Fernando Machado Soares, o Zeca Afonso, o Adriano, o então Pe. Fanhais, Cantos Revolucionários de Le Chant du Monde, Joaquin Diaz, Luís Cila, Jacques Brell, José Mário Branco, o Manuel Freire. Ary dos Santos e o seguimento quase religioso do Zip-Zip e, quanto a mim, d’ As Conversas em Família do Marcelo Caetano, num outro café mais popular, salvo erro o Alentejano, que comentavam em voz alta e entre si as suas discordâncias com a conversa fiada do Marcello.

(...) Aqueles cantores atrás referidos e outros eram os nossos amigos e companheiros, a Voz da Resistência e do Combate, e por isso ouvir hoje essas canções comove-me e simultaneamente melancoliza-me, pela não concretização do Sonho que o 25 de Abril criou, afinal breve esperança que não será concretizada na nossa geração..Mas o capitalismo já leva seiscentos anos de existência e só agora conseguiu criar condições para se estender pelo todo o mundo. Mas a Comuna de Paris durou escasso tempo, as Revoluções de 1848 e de 1918 foram esmagadas de forma cruel e sangrenta, a Revolução de Outubro aguentou-se mais tempo. E como dizia Lincoln ( se entretanto não houver um holocausto nuclear), «pode-se enganar todo o Povo durante algum tempo, pode enganar-se uma parte do Povo todo o tempo, mas não se pode enganar todo o Povo todo o tempo». (2014.02.23 / 2016.11.25)

https://aoescorrerdapena.blogspot.pt/2017/02/jose-afonso-notas-breves-e-memorias.html



Canção de embalar -  Cantares do Andarilho "LP 1968"

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada

Outra que eu souber será pra ti
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô (bis)
Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor
Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer


Canto moço - do LP Traz Outro Amigo Também, lançado em 1970.

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.



José Afonso canta "Maria" acompanhado à viola por Rui Pato. Esta música é o lado B do single "Ó Vila de Olhão" editado em 1964. A capa é uma pintura de Maria de Lurdes Ribeiro, mais conhecida por Maluda.

Maria

Maria
Nascida no monte
À beira da estrada
Maria
Bebida na fonte
Nas ervas criada

Talvez
Que Maria se espante
De ser tão louvada
Mas não
Quem por ela se prende
De a ver tão prendada

Maria
Nascida do trevo
Criada na trigo
Quem dera
Maria que o trevo
Casara comigo

Prouvera
A Maria sem medo
Crer no que lhe digo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo
Maria
Nascida no trevo
Beiral do mendigo

Maria
De todas primeira
De todas menina
Maria
Soubera a cigana
Ler a tua sina

Não sei
Se deveras se engana
Quem demais se afina
Maria
Sol da madrugada
Flor de tangerina
Maria
Sol de madrugada
Flor de tangerina



Menino do bairro negro  do EP Baladas de Coimbra editado em 1963

Olha o sol que vai nascendo 
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção



A Morte Saiu à Rua é um EP de José Afonso, editado a partir do LP  Eu Vou Ser Como a Toupeira, lançado em 1972. A canção de José Afonso é uma homenagem a José Dias Coelho, militanta do PCP  morto pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome para qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue de um peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal

E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o Pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale

À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim

Na curva da estrada hà covas feitas no chão
E em todas florirão rosas de uma nação


Catarina Efigénia Sabino Eufémia foi uma ceifeira portuguesa que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada a tiro, pelo tenente Carrajola da Guarda Nacional Republicana.
O poema de Vicente Campinas "Cantar Alentejano" foi musicado por Zeca Afonso no álbum "Cantigas de Maio" editado no Natal de 1971.

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar


Menina dos olhos tristes - do single "Canta Camarada" (1969) - Poema de Reinaldo Ferreira

Menina dos olhos tristes 
o que tanto a faz chorar 
o soldadinho não volta 
do outro lado do mar 

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar


"Tenho barco, tenho remos" dum poema popular alentejano

Tenho barcos, tenho remos 
Tenho navios no mar 
Tenho amor ali defronte 
E não lhe posso chegar.
Tenho navios no mar 
Tenho navios no mar 
Tenho amor ali defronte 
Não o posso consolar. 
Tenho amor ali defronte 
Não me posso consolar.
Já fui mar já fui navio 
Já fui chalupa escaler 
Já fui moço, já sou homem 
Só me falta ser mulher.
Só me falta ser mulher 
Só me falta ser mulher 
Já fui moço, já sou homem 
Já fui chalupa escaler.


Verdes são os campos - poema de Luís de Camões musicado por José Afonso.

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.



Milho verde - Popular (Beira Baixa) - do LP Cantigas do Maio, ediado em 1971.

Milho verde, milho verde
Milho verde maçaroca
À sombra do milho verde
Namorei uma cachopa

Milho verde, milho verde
Milho verde miudinho
À sombra do milho verde
Namorei um rapazinho

Milho verde, milho verde
Milho verde folha larga
À sombra do milho verde
Namorei uma casada

Mondadeiras do meu milho
Mondai o meu milho bem
Não olhais para o caminho
Que a merenda já lá vem



"As sete mulheres do Minho" (poema popular) do. álbum: "Fura-fura" (1979)

As sete mulheres do Minho
mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca
correram com o regedor

Essa mulher lá do Minho
que da foice fez espada
há-de ter na lusa história
uma página doirada

Viva a Maria da Fonte
com as pistolas na mão
para matar os Cabrais
que são falsos à nação



Chamaram-me cigano - do LP Cantares de Andarilho, editado em 1968

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rés
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão
Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive o diabo na mão
Voltei da charola
De cilha e arnês
Amigo, vem cá
Outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive
O diabo na mão
Ao dar uma volta
Caí no lancil
E veio
O diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas
Que nunca tal vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Mas tive
O diabo na mão



Os Vampiros, no EP Baladas de Coimbra editado, em 1963
José Afonso - (ao vivo no Coliseu de Lisboa, em  29 de Janeiro de 1983) - 

No céu cinzento 
Sob o astro mudo 
Batendo as asas 
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo 
Chupar o sangue 
Fresco da manada 

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo 
E lhes franqueia 
As portas à chegada 
Eles comem tudo 
Eles comem tudo 
Eles comem tudo 
E não deixam nada 
A toda a parte 
Chegam os vampiros 
Poisam nos prédios 
Poisam nas calçadas 
Trazem no ventre 
Despojos antigos 
Mas nada os prende 
Às vidas acabadas 

São os mordomos
Do universo todo 
Senhores à força 
Mandadores sem lei 
Enchem as tulhas 
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia 
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

D. Dinis - vós hei e des i por vos dar a entender



* D. Dinis

O que vos Nunca Cuidei a Dizer
O que vos nunca cuidei a dizer, 
com gram coita, senhor, vo-lo direi, 
porque me vejo já por vós morrer; 
ca sabedes que nunca vos falei 
de como me matava voss'amor; 
ca sabe Deus bem que doutra senhor, 
que eu nom havia, mi vos chamei. 

E tod[o] aquesto mi fez fazer 
o mui gram medo que eu d ria — de que hei, 
bem sabedes, mui pequeno pavor; 
e des oimais, fremosa mia senhor, 
se me matardes, bem vo-lo busquei. 

E creede que haverei prazer 
de me matardes, pois eu certo sei 
que esso pouco que hei de viver 
que n?um prazer nunca veerei; 
e porque sõo desto sabedor, 
se mi quiserdes dar morte, senhor, 
por gram mercee vo-lo [eu] terrei. 

D. Dinis, in 'Antologia Poética' 

sábado, 21 de outubro de 2017

Natália Corrreia - Bilhete para o Amigo Ausente

* Natália Corrreia


Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira" 

Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago






    sábado, 17 de novembro de 2012

    Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago

    Dois poemas que, embora separados por cinco séculos, têm um tema comum: A separação amorosa.

    João Roiz de Castel-Branco foi um cavaleiro nobre português, fidalgo português, fidalgo da casa Real, cortesão, e poeta humanista. Nasceu presumivelmente em Castelo Branco em meados do Século XV e faleceu na mesma cidade depois de 1515. Celebrizou-se como poeta, encontrando-se algumas de suas composições integradas no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, publicado em 1516.

    José Saramago dispensa apresentações.Não sei o ano do poema do Saramago, mas não admira que ele tenha prestado esta homenagem a João Roiz de Castelo Branco, um homem, como ele diz em Viagem a Portugal (1981), «que, pouco mais tendo feito que estes sublimes versos, há-de ser lembrado e repetido enquanto houver língua portuguesa». Uma justa homenagem!


    Cantiga sua partindo-se

    Senhora, partem tam tristes
    meus olhos por vós, meu bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    Tam tristes, tam saudosos,
    tam doentes da partida,
    tam cansados, tam chorosos
    da morte mais desejosos
    cem mil vezes que da vida.

    Partem tam tristes os tristes,
    tam fora d'esperar bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    João Roiz de Castelo-Branco (Séc. XV)


    Lembrança de João Roiz de Castel´Branco

    Não os meus olhos, senhora, mas os vossos,
    Eles são que partem às terras que não sei,
    Onde memória de mim nunca passou,
    Onde é escondido meu nome de segredo.

    Se de trevas se fazem as distâncias,
    E com elas saudades e ausências,
    Olhos cegos me fiquem, e não mais
    Que esperar do regresso a luz que foi.

    José Saramago (1922-2010)

    http://alegriabreve47.blogspot.pt/2012/11/dialogos-poeticosjoao-roiz-saramago.html



    CD-Cantos D'antiga Idade-1994



    Gabriel Carlos - SENHORA PARTEM TÃO TRISTES - Fado de Coimbra


    Adriano Correia de Oliveira - "Senhora,partem tão tristes" do disco "Fados de Coimbra II" (EP 1962)


    AMÁLIA, canta João Roiz de Castelo Branco
    Música: Alain Oulman


    "Senhora Partem tão Tristes" 
    Letra de João Ruiz de Castelo-Branco e música de João Barros Madeira
    Jorge Tuna e Jorge Godinho (guitarra)



    sexta-feira, 20 de outubro de 2017

    Carla Romualdo - O pó da fivela



    ©Guy Denning
    Já toda a gente conhece o Tomé e esse é o maior problema dele. Já não há ouvintes para os seus poemas, nem mecenas para umas cervejas, nem testemunhas para as epifanias que com frequência o arrebatam.
    Ao Tomé, ignora-se e apenas quando não é possível evitá-lo.
    É um homem de idade incerta, algures entre os 40 e os 65, escanzelado, com cabelo cortado às três pancadas, roupa que já passou por outros corpos antes de lhe chegar, sapatos cambados, dentes estragados, o nariz sempre a pingar porque, como ele vai contando a toda a gente, sofre de uma alergia que lhe dura o ano inteiro e tem o septo desviado.
    Por acaso, no dia em que o conheci, e em que ele insistia em ler-me a sua elegia “A sétima morte dos ludopatas”, comecei por oferecer-lhe um lenço de papel, que ele recusou com gesto soberbo.
    – Não, obrigado. Só uso lenços Poker.
    Ora, a última pessoa a quem eu tinha visto usar lenços Poker foi o meu pai, que perdeu dúzias de lenços em anos de espera pelo autocarro. O meu pai chegava à paragem habitual, tirava o seu lenço do bolso, estendia-o sobre o muro baixo, sentava-se sobre ele para não sujar as calças, puxava do jornal e imediatamente se esquecia do lenço e mesmo do autocarro, pelo menos até vê-lo deter-se, de porta aberta, à sua frente. Era só na terceira ou quarta paragem seguintes que se lembrava do lenço que ficara sobre o muro. No dia seguinte, o lenço já não estava lá. Nunca estava lá. Julgo que houve uma bem oleada rede de venda de lenços Poker em segunda mão inteiramente financiada pelo meu pai.
    Pois aquele poeta literalmente ranhoso, sempre aos caídos, pedinchão, que apenas tolerava, para o seu arrogante nariz pingoso, os já vetustos lenços de algodão marca Poker, agradou-me logo. Ouvi o poema, contribuí para a escrita do próximo, e da vez seguinte que passei lá no pouso dele levei-lhe um pacotinho de Poker que encontrei numa retrosaria moribunda da Barão de S. Cosme. Abriu a embalagem, revirou o pacote entre os dedos. Não ficou satisfeito.
    – Só seis? Podia ser uma dúzia.
    Nesse dia estava também a Véronique, a francesa, que num momento de debilidade havia aceitado traduzir-lhe um poema e assim se tinha convertido na maior – e única – esperança do Tomé para a internacionalização da sua obra. Pobre Véronique, nunca soube dizer non. E por isso está a meio, sempre a meio, da tradução de uma obra que o Tomé continua a reescrever porque é a primeira que será traduzida e é a que lhe abrirá as portas da fama internacional.
    Porque o Tomé não tem dúvidas de que virá a ser um poeta célebre, ainda que seja postumamente. Quando lhe perguntamos pelos autores preferidos, diz-nos mal de todos excepto daquele a quem chama Mestre, cujo nome nunca revelou, mas de quem diz não ser digno de sacudir o pó da fivela da sandália. Dos que dizem que o Mestre não existe, ri-se com um riso amargo e chama-lhes néscios.
    Às vezes, o Tomé bebe de mais, fica irascível, leva um soco de um forasteiro que não está para aturá-lo, ou cai na rua e vai na ambulância do INEM. Volta passado uns dias com passos mais arrastados e conta que esteve num retiro poético.
    Soube hoje que o Tomé anda desaparecido há mais tempo do que o costume e que alguns dos que habitualmente o evitavam estão agora à sua procura. Não é por sentirem a consciência pesada nem têm motivos para isso. É só porque há pessoas que são muito maiores do que parecem, mas claro que isso só se aprende quando elas deixam de estar.
    https://aventar.eu/2017/05/19/o-po-da-fivela/#more-1278123

    Carla Romualdo - Equívocos

    Equívocos

    No degrau onde um homem costuma dormir estava uma embalagem de donuts de morango. Não havia sinal do homem, mas estavam lá os cartões que lhe servem de colchão, agora ao alto, encostados à parede. No chão, a embalagem de plástico, fechada, com três donuts de um estridente cor-de-rosa E128, intactos. Faltava pouco para as nove da manhã. Os donuts eram de uma marca estranha, talvez saídos da loja de oportunidades da esquina, que vende produtos “de fora do nosso mercado”, como diz a gerente, e que vêm com rótulos em servo-croata e prazos de validade indecifráveis.
    Quem os deixara ali? Podia ter sido uma compra disparatada, um desses impulsos de que é difícil não acabar arrependido. Podiam estar fora de prazo ou perto disso. Ou podiam ter sido comprados de propósito para oferecer ao homem que nunca pede esmola mas aceita o que lhe oferecem.
    Apareceu, rua abaixo, uma mulher que conheço de vista e de quem me disseram que ajuda numa mercearia do bairro, acarreta caixas, sacos de batatas, e em troca dão-lhe arroz, latas de conservas, leite. É alta, sólida, com um andar masculino, ancas muito direitas e as pernas um tanto arqueadas. Vê os donuts e detém-se. Do outro lado da rua, vou subindo eu, vagarosa. A mulher vai apanhar os donuts, já sei que é isso que vai acontecer, mas estupidamente não afasto o olhar e ela sente-o, pelo canto do olho, vira o rosto para mim, envergonha-se e segue caminho, quase a correr, e de mãos vazias. Arrependo-me, mas de quê? De ter olhado.
    À hora de almoço, quando desço a rua ensolarada, os donuts estão no mesmo sítio, uma massa pegajenta, ainda dentro do plástico.

    https://aventar.eu/2017/10/20/equivocos/#more-1284142

    quinta-feira, 19 de outubro de 2017

    Adélia Prado - Amor Violeta.

    * Adélia Prado


    O amor me fere é debaixo do braço,
    de um vão entre as costelas.
    Atinge meu coração é por esta via inclinada.
    Eu ponho o amor no pilão com cinza
    e grão de roxo e soco. Macero ele,
    faço dele cataplasma
    e ponho sobre a ferida.




    quarta-feira, 18 de outubro de 2017

    Maria Azenha - O neoliberal



    (Maria Azenha, publicado como comentário a um artigo deste blog, 18/10/2017)

    neoliberal

    O neoliberal não cai. Há-de cair.
    O neoliberal cheira mal. Nunca vai cheirar bem.
    É pior que o dantas.
    É pior que a dona constança
    e que a dona leonor teles.
    O neoliberal não tem dó do dantas.
    O dantas ao pé dele é uma criança.
    O neoliberal é sempre a favor de uma europa geral
    com o pseudónimo de merkel ou holand.
    A necessidade que portugal tem de ser um neoliberado mete nojo!
    No tempo do afonso não havia EDP nem GALP nem TAP nem PT!
    Nem sabiam nada das pedantices do coelho
    nem dos manguitos do zé !
    Nem dos silva da silva nem dos rodrigues da silva
    nem das marias tontas.
    O neoliberal vai-se enchendo com o bónus dos incêndios
    e lava-se com sabonetes de marca branca.
    Calça peúgas de mousse e cheira mal dos pés.
    Quando se levanta limpa as mãos à parede e fica com as mãos a cheirar às entranhas.
    O neoliberal não tem vergonha das partes íntimas da boca.
    Tudo o que diz é uma indecência.
    O neoliberal corta a relva com os dentes.
    Ele é uma tartaruga política .

    Tenho a certeza que o neoliberal escreve poesia com o criptónimo da troika.
    O neoliberal puxa o autoclismo com toda a força e deita o mês de abril pela pia abaixo.
    Em dois tempos decide o futuro das tartaruguinhas neoliberadas.
    Senão vejamos: O neoliberal tem um corno azul e outro vermelho
    e anda de joelhos com as cuecas à vista!
    Nada do que sai do seu bocal é credível.
    Fiquem a saber que o neoliberal se reúne todos os dias
    com os coelhos e com os chinas! E com os excrementos dos párias.
    O neoliberal tem sempre a mão esticada para a Banca.
    E está-se a transformar num entulho com a máscara do trump.
    O neoliberal sofre de perturbação auditiva.
    Nunca ouviu falar de hanna arendt nem da gulbenkian
    nem do Café Gelo.
    O neoliberal traz lágrimas de crocodilo
    embrulhadas em papel de alumínio.


    https://estatuadesal.com/2017/10/18/o-neoliberal/

    quinta-feira, 12 de outubro de 2017

    [Soneto] Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado

    submitted  by Vasco_da_Gamba
    Adaptação do "Soneto de todas as Putas" de Bocage.
    Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado
    Corrupta tem sido muita gente boa
    Corrompidos deputados tem Lisboa
    Milhares de vezes corruptos têm governado
    
    Major Valentim,corrupto, desde os tempos de soldado
    Já Vara, pescou robalos sem ver mar nem proa
    E tu,Cavaco, não me esqueço da tua pessoa
    Nem da tua fidelidade a Salgado
    
    Esse da Madeira, dinossauro famoso,
    Que odeia o chinês, o bastardo e o rabeta
    Entre mil ponchas fez legado penoso
    
    E lá nas finanças deixou funda greta
    Não fiques pois, oh Sócrates, duvidoso
    Que isso de político honesto é tudo peta
    
    https://www.reddit.com/r/portugal/comments/75qpb5/soneto_n%C3%A3o_lamentes_oh_s%C3%B3crates_o_teu_estado/

    Soneto de Todas as Putas

    Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
    Puta tem sido muita gente boa;
    Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
    Milhões de vezes putas têm reinado:

    Dido foi puta, e puta d'um soldado;
    Cleópatra por puta alcança a c'roa;
    Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
    O teu cono não passa por honrado:

    Essa da Rússia imperatriz famosa,
    Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
    Entre mil porras expirou vaidosa:

    Todas no mundo dão a sua greta:
    Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
    Que isso de virgo e honra é tudo peta.

    Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage
    (✩ 15/09/1765 — † 21/12/1805)
    Autores Clássicos no Luso-Poemas


    Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=205416 © Luso-Poemas

    domingo, 1 de outubro de 2017

    Manuel Alegre - Nambuangongo, meu amor

    `Manuel Alegre

    Em Nambuangongo tu não viste nada
    não viste nada nesse dia longo longo
    e a cabeça cortada e a flor bombardeada
    não tu não viste nada em Nambuangongo

    Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
    em cada homem um morto que não morre.
    Sim nós sabemos Hiroxima é triste
    mas ouve em Nambuangongo existe
    em cada homem um rio que não corre.

    Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
    em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
    em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
    Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
    Em Nambuangongo há gente que apodrece.

    Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
    cada carta é um adeus em cada carta se morre
    cada carta é um silêncio e uma revolta.
    Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
    E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

    É justo que me fales de Hiroxima.
    Porém tu nada sabes deste tempo longo
    tempo exactamente em cima do nosso tempo.
    Ai tempo onde a palavra vida rima
    com a palavra morte em Nambuangongo.