sábado, 22 de maio de 2021

António Sousa Homem - A depressão de Dona Elaine e a cozinha de Moledo

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.



  
07/12/14
A depressão de Dona Elaine e a cozinha de Moledo


Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas 

 

Desde há meses que Dona Elaine não perde um programa de cozinha na televisão. Se não o vê em directo, escolhe as horas mansas da tarde – enquanto os nossos visitantes se estendem no areal da praia, reconfortados pelo calor que, finalmente, chegou a Moledo – para verificar o que se cozinha na Austrália, nos Estados Unidos e, por vezes, em programas de viagem que atravessam a Tailândia, a Mongólia ou regiões ainda mais exóticas, como o Alto Douro ou o Alentejo. Ontem mesmo deparei com um espectáculo preocupante: a governanta deste eremitério sentada à mesa da cozinha, tendo à sua frente um caderninho comprado na mercearia, tomando notas acerca de um filete de garoupa braseado com raspa de gengibre e um caril de legumes, colorido como um Caravaggio alegre.

Dona Elaine é uma cozinheira de mérito, educada nos fogões da sua família (emigrantes no Brasil), aconchegados pela sabedoria minhota – de Cerveira. Isso significa que oscila bastante entre uma certa simplicidade e um desejo barroco que nunca é atingido: pratos suculentos e letais andam de braço dado com peixes frescos e saladas da horta. Por alturas do Verão, Dona Elaine rejuvenesce e recolhe-se à despensa, animada pela chegada dos meus sobrinhos e outros acompanhantes; limitada pela minha dieta, esta pequena multidão estival, jovem e esfomeada, é uma oportunidade para relembrar a sua arte. Surgem, então, tabuleiros de arroz de pato, travessas de escabeche, doces que fazem tremer os tempos modernos, massas folhadas que desafiam a austeridade, peixes que passam pela tortura do forno e uma grande variedade de recordações dos velhos livros de gastronomia do Alto Minho – para os quais, não raras vezes, é convocado o Dr. Barreto Nunes, que vem de Braga com mais um opúsculo raríssimo que apreciamos à hora da sesta.

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. Foi necessária uma “terapia de choque”, garantindo que detestávamos as técnicas de “empratamento” contemporâneas (onde a comida é amontoada como uma torre de Babel) e que apreciávamos como ninguém o seu frango no forno, recheado, luminoso e suculento. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas, os pratos que o Tio Alberto preparou para D. Ramon Otero Pedrayo, o insigne galego. Toda a gente compreendeu que são necessários sacrifícios para manter impoluta a mesa de Moledo.

https://antoniosousahomem.blogs.sapo.pt/a-depressao-de-dona-elaine-e-a-cozinha-21392


António Sousa Homem - Começar pelo fim

* António Sousa Homem 

SÁBADO, JANEIRO 14, 2006

Dobrei já aquilo que se chama a idade do século. O mundo não tem para mim, hoje, passados oitenta e quatro anos, menos segredos do que quando o senhor general Craveiro Lopes foi apeado da Presidência. Há quem pense que a idade é uma vantagem. Seguramente não é. Com o tempo vamos ficando maduros e tranquilos; mas com a idade vamos apenas reparando nos defeitos dos outros e quase nunca nos nossos. Reparo que os meus sobrinhos espremem a pasta dentífrica pelo meio e não pela base. Dou-me conta das mudanças de estação quando os pinhais de Moledo mudam de cor. A velocidade das coisas não me interessa, há muito que me conformei com a sua passagem e a ideia, vulgar e triste, de que há coisas novas para experimentar.

Sou um conservador, um botânico e um velho. Até como botânico sou conservador, reservando sempre o mesmo espaço para as begónias – que me lembram Júlio Diniz e “Uma Família Inglesa” – e o mesmo enlevo para os hibiscos. A velha casa de Moledo, onde a família passa os domingos e, episodicamente, os finais de semana, não acolhe memórias de um século; alberga apenas a poeira de oitenta e quatro anos assinalados, religiosamente, em Dezembro de cada ano e anunciados à família como um avanço na conservação da espécie. Tenho uma biblioteca razoável, mantida sem esforço e sem ordem. Aprendi com o velho doutor Homem (meu pai), que a abundância de livros não deve fazer-nos pensar na sabedoria mas apenas na vaidade e no prazer. Não na alegria (que raramente se retira deles); antes, no prazer que se retira do silêncio, da contemplação e da pequena vaidade.

Aos oitenta e quatro anos devia interessar-me pelas doenças do meu corpo, já que pouco me interessei pelas do meu país. Aliás, com o tempo e com a idade, simultaneamente, o meu país ficou reduzido ao Minho e ao velho Porto de que recordo amigos desaparecidos, ruas antigas, perfumes de antanho. Gosto de palavras antigas. A minha sobrinha Luísa, alimenta a minha imoderada vaidade literária, feita de clássicos, de romances baratos e de repetições. Também gosto de repetições. Gosto de lugares onde me sento sempre da mesma maneira, de urzes que mantêm a mesma cor, de livros que não mudaram de estante e de bandas de música que tocam marchas incompreensíveis e desafinadas. Hoje, sou um rural. As pessoas razoáveis do meu país, em vez de viverem e envelhecerem tranquilamente no campo, ficaram nas cidades, rodeados de médicos e de novidades como a televisão, a internet e as eleições.

O meu avô e o velho doutor Homem, meu pai, legaram-me uma ideia de felicidade doméstica que já não existe e que eu, o mais velho de seis irmãos e irmãs, devia saber explicar. Mas não sei, essa é a verdade. Era uma felicidade feita de repetições, de moderação e de pouco engenho, contentando-se com o facto de haver Inverno e de, mais tarde, poder haver Verão. A minha família atravessou os séculos e as convulsões adaptando-se ligeiramente aos factos consumados e tratando a História como um incómodo que era preciso suportar. Fomos miguelistas e mudámos de campo. Fomos indiferentes à República e achámos insuportável o doutor Salazar. A última das revoluções, em 1974, já não nos surpreendeu porque na altura tínhamos aprendido a falar no “curso da História” e no fim dos tempos. Houve uma altura em que me senti vagamente contrariado com o país. Não hoje. Sou apenas um velho homem do Minho, um pouco reaccionário, habituado ao mar de Moledo, à superfície das coisas, às memórias que não se podem mudar, como ter começado estas crónicas pelo fim. Pelos meus oitenta e quatro anos.

in Revista Notícias Sábado - 14 Janeiro 2006
POSTED BY ANTÓNIO SOUSA HOMEM AT 14.1.06

http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2006/01/comear-pelo-fim.html

Maria João Avillez - O dr. António Sousa Homem & família


ANTÓNIO SOUSA HOMEM


* Maria João Avillez

Nessa noite, ao apagar a luz, com um cansaço jubiloso, feito de uma curiosidade que galopava à minha frente, surpresa sem nome e raríssimo deleite, olhei distraidamente para o relógio: era madrugada.

22 mai 2019, 00:30
    
1. Há dias escrevi aqui sobre Nápoles mas não contei tudo. Uma viagem começa sempre antes da partida mas o meu “antes”, em vez de se atardar na obrigatória apreciação dos patrimónios que me esperavam, passou por penosas horas de hesitação: como é que eu iria passar sem notícias do Alto Minho? Sem o dr. António Sousa Homem e as idiossincrasias dos seus? Sem a tia Benedita, matriarca da família, os tios, o gastrónomo e o tocador de oboé, os sobrinhos, a namorada Frízia de um deles, o dr. Paulo… sem, enfim, esse universo minhoto, conservador e recalcitrante que o dr. Homem teve a amabilidade generosa de passar para papel de jornal e depois para livro (“O Crepúsculo em Moledo”, Porto Editora)? E a que nos últimos tempos tanto me afeiçoara e que pura e simplesmente se me tornara indispensável? Sim, como estar em Nápoles sem o Minho? De modo que andei às voltas, levo o livro, melhor deixá-lo, que fazer? Carregar uma mala já de si carregada (é preciso ver que para as mulheres, mesmo para as do MeToo, fazer malas em estações do ano indefinidas onde tanto se pode precisar de umas sandálias como de uma gabardina, é tarefa longuíssima que normalmente acaba mal) e além disso misturar o Alto Minho do dr. António Sousa Homem com os Palácios do ex-Reino das Duas Sicílias, seria boa ideia? Seria, justamente seria: não me imaginava oito dias, oito — uma eternidade — sem aquelas neblinas matinais, as caminhadas pelos pinhais de Moledo, o cheiro a iodo de Afife, os almoços dominicais, o mundo da Tia Benedita, a memória de Dona Ester, a personalidade do tio Alberto, as reflexões (definitivas) de Dona Elaine, governanta e asa protectora do dr. António Sousa Homem, no seu eremitério. Sem eles, em suma.

2. Talvez deva aclarar tudo isto melhor, um leitor, mesmo distraído ou desconfiado, merece todo o respeito. Aclaro: um dia dei comigo a ler uma notícia onde era questão de um prefácio escrito por João Pereira Coutinho para um livro de alguém de quem nunca ouvira o nome – o dr. Sousa Homem, justamente — mas que importância? Não era o prefaciante tão seguro de si a avaliar o verbo alheio e a separar o trigo do joio em páginas impressas (e para só para mencionar esta sua fatia intelectual)?

De modo que fui à “Barata” que é para os meus lados e onde me tratam tão bem e pedi o livro mas o “qual deles?” que obtive como pronta resposta fez-me embaraçadamente tropeçar na minha própria ignorância: como era possível que António Sousa Homem tivesse escrito já três ou quatro livros sem que nunca tivesse ouvido pronunciar o seu nome, lido uma crítica, encontrado alguém, feliz ou infeliz, com a sua literatura? Envergonhadamente constatei que sim: era possível. Com um tom de voz falsamente seguro pedi “o último, naturalmente” e fugi dali para fora. Nessa noite, ao apagar a luz, com um cansaço jubiloso, feito de uma curiosidade que galopava à minha frente, uma surpresa sem nome e um raríssimo deleite, olhei distraidamente para o relógio: era madrugada.

3. Confesso a dificuldade: não serei talvez capaz de explicar o livro, nem de traduzir a natureza do meu agrado. Ele foi, como dizer? diferente. O adjectivo é, reconheço, modesto, mas não acho as palavras certas , paciência, mais vale não usar as erradas. Assim como assim, o melhor é agradecer ao autor ter escrito o livro e logo a seguir, agradecer-lhe ainda mais o mundo para onde nos leva. Mundo conservador e português dos quatro costados, anichado no Alto Minho e nisso reside uma das mais originais trouvailles da sua “diferença”: fazer de um diminuto perímetro do norte do país, o centro irradiador de uma história sem história, assente em meia dúzia de personagens, sempre os mesmos, e no olhar céptico-terno do autor sobre eles, conseguindo ser genial nesse “enjeu” (e deliciosamente sábio no seu poder de observação da natureza humana e no andar da vida).

Sem alarido, antes de mansinho e em breves apontamentos, o dr. Sousa Homem sugere-nos que convivamos com a sua família consentindo-nos depois que o ouçamos discorrer sobre os seus membros: cada um deles ancorado no “Portugal” que respectivamente elegeu e reivindica como o “bom” e isto pelo menos desde D. Miguel até aos felizes dias do dr. António Costa.

Enquanto para nossa real felicidade – bem mais real que aquela que nos oferece o mesmo dr. António Costa, o que certamente o espantaria, mas as coisas são o que são – nos deixamos conduzir pela lupa do autor sobre o mundo, observado da janela de Moledo – de onde simplesmente ele não vê uma boa razão para sair, há mais de trinta anos. O mundo e o que ali o faz: das pessoas — quase sempre só as da sua família — aos seus comportamentos; dos pequenos nadas do quotidiano que logo são matéria e pretexto para subtis observações; das ocorrências no país que o dr. Sousa Homem vê de longe com uma irremovível lucidez que lhe dispensa a esmola de qualquer ilusão; dos “acontecimentos” que escrevem a pauta dos seus dias – a chegada do verão a Moledo, as idas a Caminha “beber uma água de Melgaço”, os preparativos do Natal sob a égide severa de Dona Elaine; o arroz de pato e o leite creme dos reencontros familiares no eremitério de Moledo quando acorrem parentes vindos de outros lugares do Alto Minho; a periódica viagem do retrato do “Senhor Dom Miguel” a restaurar a Braga, entregue aos cuidados inesperados da “sobrinha esquerdista da família”; as certezas sobre o país, atiradas com invejável segurança pelos irmãos – “ambos economistas” – do dr. Sousa Homem; a implacabilidade dos invernos, os nevoeiros, o aparecimento das giestas, os sentimentos, o tempo.

E por sobre tudo isso, uma melancolia fininha. A indisfarçável melancolia, nossa e a do dr. Sousa Homem.

https://observador.pt/opiniao/o-dr-antonio-sousa-homem-familia/

terça-feira, 18 de maio de 2021

Filipe Chinita - a uma mulher

* Filipe Chinita

uma 
mulher
e nela... 
a todas elas
.
em especial 
às que amei
ou 
me amaram 
elas
.
ó
suprema expressão
da alegria e dádiva
de ser.es mulher
e fêmea...
maior
.
deixaste de ser minha
e eu deixei de ser 
quem era...
mas sou 
sempre 
teu
.
que estejas 
feliz
ó 3º andar
iluminado
de eros
para 
lá 
da rua
.
era 
só... 
atravessá-la 
e já tu me esperavas
sempre pronta a te dares
.
éramos o todo... 
o corredor
afora...
num 
só.mesmo.corpo
deslizante
.
fj
10.10
04.09.2021
.
nunca 
poderei deixar de amar 
esa tua imensa 
disponibilidade
a te d(o)ares
como sempre 
escolhi-te 
de um.só 
olhar 
no teu sorriso matreiro
na elasticidade das tuas pernas caminhantes
enquanto já nos sabíamos ser um do outro
.
nunca 
conheci mulher que amasse 
com mais e mor alegria 
de o fazer
.
obrigado!
ó 
sem pudor
algum
.
urgente!
arranja-me alguém... 
que te 'substitua' 
ao mesmo 
nível

04/05/2021, 16:51

Filipe enviou a mensagem: 4 de Maio às 10:58

a

uma

mulher

e nela...

a todas elas

.

em especial

às que amei

ou

me amaram

elas

.

ó

suprema expressão

da alegria e dádiva

de ser.es mulher

e fêmea...

maior

.

deixaste de ser minha

e eu deixei de ser

quem era...

mas sou

sempre

teu

.

que estejas

feliz

ó 3º andar

iluminado

de eros

para

da rua

.

era

só...

atravessá-la

e já tu me esperavas

sempre pronta a te dares

.

éramos o todo...

o corredor

afora...

num

só.mesmo.corpo

deslizante

.

fj

10.10

04.09.2021

.

nunca

poderei deixar de amar

esa tua imensa

disponibilidade

a te d(o)ares

e

como sempre

escolhi-te

de um.só

olhar

no teu sorriso matreiro

na elasticidade das tuas pernas caminhantes

enquanto já nos sabíamos ser um do outro

.

nunca

conheci mulher que amasse

com mais e mor alegria

de o fazer

.

obrigado!

ó

sem pudor

algum

.

urgente!

arranja-me alguém...

que te 'substitua'

ao mesmo

nível

04/05/2021, 16:51




quarta-feira, 12 de maio de 2021

Diogo Hoffbauer- Não são só eles que sabem porque não ficam em casa

*  Diogo Hoffbauer 

“Daqui a 15 dias, quero ver. Por mim, nem tinham direito a ventilador!”

Para começar, são 14 dias. Duas semanas são 14 dias, não 15. Sete mais sete. Mas mais relevante ainda é que, quando a poeira da insanidade assentar, o chavão dos 15 dias irá figurar no nosso anedotário. É um prazo de validade intimidante, um macabro vaticínio de morte e, portanto, perfeitamente enquadrado na narrativa apocalíptica. Carece, no entanto, de qualquer validação factual.

Não é a genuína preocupação com a saúde pública que os mobiliza a apregoar a condenação de gente que só quis usufruir do merecido festejo. É, isso sim, um impulso onanístico e inquisitório. Observar aquilo que aos nossos olhos são condenáveis meliantes representa para muitos a oportunidade perfeita para se distanciarem da sua malvadeza. Faz sentido que o queiram fazer: como reivindicam punições e musculada intervenção policial e militar, é importante deixar claro que não é a eles que devem ser dadas as cacetadas, é naturalmente aos outros. Arrogando-se o papel de protetor de vidas e ciência, quando contribuem diariamente para destruir ambas, fazem da menina d’A Lista de Schindler que vocifera “Goodbye, Jews!” sem saber o que são judeus, só porque toda a gente à volta a ensinou a odiar.

Seria expectável que, perante a sucessão de situações em que este prognóstico da catástrofe iminente em 15 dias não se verificou, o medo em que nos afogaram começasse a dar lugar à dúvida. É dela que nasce a ciência, e não do dogma.

Mas há uma pedra pesada no caminho da lógica: o orgulho. Custa demasiado engolir o amargo   paladar do reconhecimento de um erro. Desconfiamos das nossas informações, embaraçam-nos as nossas próprias palavras e abalam os alicerces das nossas convicções. E, com a dimensão deste assunto e com a convicção emocional por trás das tomadas de posição, vemo-nos sujeitos a vexame alheio. Transformaram isto numa guerra de dois lados e qualquer cedência intelectual é encarada como humilhante derrota. A este preço, vai ser muito difícil que as pessoas, mesmo vendo a hipocondria desvanecendo-se nos ventos curandeiros da racionalidade, venham a admitir que foram enganadas. É essa resistência egotística – aliada a uma perversa inclinação autoritária e alergia a felicidade alheia – que prende a opinião pública a uma posição que neste momento não passa de um delírio coletivo.

12/05/2021


https://aventar.eu/2021/05/12/nao-sao-so-eles-que-sabem-porque-nao-ficam-em-casa/


quinta-feira, 6 de maio de 2021

César Alves - Sugar a essência da vida


* César Alves 

O Clube dos Poetas Mortos era o grupo das pessoas que queria sugar a essência da vida. Que queria extrair de cada pequeno momento tudo o que ele teria para dar.

O filme é aclamado pela crítica, é citado vezes sem conta, mas parece-me que nós, enquanto seres-humanos, nem sequer chegamos perto de o perceber.

Quando nascemos, a vida está-nos praticamente pré-estabelecida. Sabemos que temos um percurso escolar obrigatório, é-nos quase impingida uma ida para o ensino superior, por forma a construir uma carreira que dure 40 ou 50 anos, a reforma na casa dos 60 e depois o calendário, como nas prisões, de quantos dias faltam até morrermos.


Estamos tão anestesiados com esta ideia que nem percebemos o quanto ela é assustadora e castradora. Usamos estes edifícios da vida pré-construídos, quais construções em cadeia, porque são mais fáceis. Aparentemente mais certos. Usamos esta “fórmula mágica” vazia de verdadeira magia para nos escondermos dos medos e dos fantasmas da instabilidade, do perigo, do desconforto.

E talvez possamos morrer continuando a acreditar nesta farsa travestida de caminho correcto. Farsa porque nos diz, erradamente, que há uma fórmula mágica para todos. Que há uma resposta para a questão da vida que encaixa em toda a gente. Não percebemos que essa ideia falaciosa nos esgota, nos consome, e nos retira a individualidade que nos é própria e intrínseca. Aceitamo-nos cordeiros de um rebanho gigantesco, aceitamos que somos todos iguais, porque temos medo.

Medo de arriscar, medo de sentir. Temos medo daquilo que a vida nos dá de melhor. O sentimento. Achamos que ele não chega para suportar tudo. Achamos, até, que ele tem um qualquer preço. Escravos do dinheiro e do fantasma da estabilidade financeira, baixamos a cabecinha e damos passos muito vagarosos, muito pequenos, analisando o chão múltiplas vezes para termos a certeza de que estamos a pisar terra firme.

Mas e se não for firme? E se ao pousar o pé sentirmos o chão a tremer e tivermos uma descarga de adrenalina que, por meros segundos que sejam, nos faz sentir humanos?

E se chegarmos ao final da vida e sentirmos um arrependimento profundo por não termos feito mais? E se, como João da Ega, dissermos que falhamos a vida? Valerá a pena tanto medo, tanto receio, para, anos e anos mais tarde, sermos corroídos pelo arrependimento, às portas da morte?

Devíamos deixar de pensar que somos imortais. Que temos todo o tempo do mundo. Devíamos arranjar, ou no mínimo procurar, o equilíbrio perfeito entre a estabilidade da vida propriamente dita e da nossa parte emocional. Devíamos deixar-nos levar pelas nossas paixões. Porque as carreiras acabam, os filhos crescem e saem de casa. Mas as paixões, os sentimentos, tudo o que nos faz sentir vivos, perdura para sempre. Aliás, morreremos sempre com um sentimento: mas temos a capacidade de escolher se queremos que seja a paixão e a alegria de uma vida vivida; ou o arrependimento dos e ses… que nunca concretizamos.

06/05/2021 by 

https://aventar.eu/2021/05/06/sugar-a-essencia-da-vida/#more-1315947

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Mariana Durães - Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”?

LÍNGUA PORTUGUESA

Os brasileiros “têm meia língua portuguesa”? Quando as palavras são motivo de discriminação

O que o Atlântico separa a língua portuguesa une. Ou não? Matias foi alvo de chacota por causa do sotaque; Jullyana foi avisada para fazer um exame em português europeu e a Thalita disseram que os brasileiros só têm “meia língua portuguesa”. A todos pedem (ou exigem?) que falem “português correcto”. Mas, no Dia Mundial da Língua Portuguesa, perguntamos: o que é o português correcto?

Mariana Durães

5 de Maio de 2021, 8:08

“Por favor, façam o exame em português de Portugal, porque eu não entendo nada do que vocês escrevem”: a ordem foi dada antes de um exame do curso de História da Arte, mas não havia sido a primeira vez que Jullyana Rocha se tinha sentido confrangida por não falar português europeu.

Antes, quando foi mudar a morada a uma repartição de Finanças, teve o mesmo problema. “Fui com todos os documentos e expliquei à senhora que precisava de mudar a morada fiscal. Tentei-me explicar umas quatro vezes e ela simplesmente dizia que não entendia o que eu estava a falar. Ainda nem usávamos máscara, por isso não havia nenhum impedimento”, recorda a brasileira de 25 anos, a viver em Portugal desde 2017.

Não é caso único: os relatos de brasileiros a viver em Portugal que dizem ser discriminados por “não falarem português correcto” multiplicam-se nas redes sociais. Na página de Instagram Brasileiras não Se Calam, por exemplo, em que são partilhados relatos de xenofobia, é recorrente encontrar denúncias de discriminação por causa da língua: em situações do quotidiano, nos locais de trabalho, e, diversas vezes, nas faculdades.

Foi lá que Jullyana e os colegas brasileiros foram avisados para realizar o exame em português europeu, e foi esse momento, aliado a muitos outros de discriminação, que a fizeram sair do curso e optar por estudar Marketing remotamente, numa universidade brasileira: “Não quis voltar para o sistema de ensino de aqui.”

Também Matias Guimarães foi alvo de chacota quando chegou atrasado a uma aula. “Quando entrei na sala, o professor começou a fazer uma série de críticas e piadas sobre o meu sotaque, sobre eu ser burro pelo meu sotaque, por não falar direito”, relata. Pelo que tem ouvido, refere, “há pelo menos um professor em todas as faculdades que reclama que os brasileiros não falam da maneira mais correcta”. Mas o que é, afinal, o português correcto?

“A língua pode ter diversas cores”

“Desde que somos crianças, a escola diz-nos que certas formas são correctas e outras são incorrectas”, começa por enquadrar Ronan Pereira, doutorando em Linguística pela Universidade Nova de Lisboa. Há, no entanto, uma premissa que é importante não esquecer: “As línguas não são elementos estáticos. Elas variam territorialmente, ao longo do tempo, de acordo com as classes sociais, etárias... Mas, por algum motivo, temos na nossa cabeça que a língua é uma coisa só.”

Ora, quando uma criança vai para a escola, não é possível abordar todas as formas que uma língua pode ter. O ensino foca-se, então, no ensino da gramática normativa, aquela que nos diz as regras a seguir para escrever e falar correctamente. É essa gramática que estabelece o padrão, e é importante que seja ensinada, “porque, se todos começássemos a escrever como nos apetece, a coisa ficava confusa”, refere o linguista.

Quando falamos de português europeu e português brasileiro, estamos a falar de “duas variedades linguísticas” — o que mostra que “a língua é uma definição algo abstracta e, neste caso, vemos como a língua portuguesa pode ter diversas cores”. E nem é preciso atravessar um oceano para encontrar estas variedades: dentro do território continental encontramos muitas formas de falar português. A diferença é que “uma pessoa de Évora vai ter muito mais em comum na sua gramática mental com alguém de Coimbra do que com alguém de São Paulo”.

Os “entraves” linguísticos começaram a sentir-se no dia-a-dia de Mônica Santos logo desde que veio para Portugal, há três anos. “Uma atitude quotidiana como ir a uma padaria era muito difícil, porque o meu simples pedido de um pão era pouco percebido pelas pessoas, porque não queriam”, conta. “Existia uma certa necessidade de demonstrar que não estava a falar da melhor forma, era satirizada”, continua.

Foi também na faculdade que experienciou situações “mais fortes”. Ainda que seja necessário apresentar uma declaração de proficiência em língua portuguesa ao ingressar na faculdade, esta não especifica a necessidade de ser em português europeu. E, quando as aulas começam, “os professores são bastante críticos na forma como escrevemos relatórios, trabalhos, etc.”, lamenta. Chegam até a descontar pontos pela escrita, refere.

“Ouvir dizer todos os dias que falamos brasileiro em vez de português é o mesmo que dizer que nos Estados Unidos se fala ‘americano’ e que na Austrália se fala ‘australiano’, quando na verdade todos falam a língua inglesa.”

Alguns portugueses “olham com estranheza” quando Thalita Meros diz que dá aulas de Português. A viver em Portugal desde 2019, veio fazer mestrado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, como já tinha experiência em dar aulas no Brasil, começou a dar aulas voluntariamente a estrangeiros em Portugal. Quando alguns alunos lhe dizem que “não querem aprender português brasileiro”, a professora de 38 anos explica que “não funciona assim”, que há materiais didácticos e que “a regra é comum para todos”.

“O português é uma língua multicultural. As pessoas que vão para a minha aula vão ouvir o sotaque do português de Portugal todos os dias na rua, vão acabar por pegar um pouco”, afiança. Mas pergunta: “Que estrangeiro fala realmente com o sotaque português de Portugal? Se ensinar português a um espanhol, ele vai falar com o sotaque espanhol.”

Também ela já viveu situações de preconceito por causa da língua. Numa ida ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, quando teve de indicar o número de telemóvel, disse “meia”, em vez de “seis”, como é comum no Brasil. Do outro lado ouviu: “Os brasileiros têm meia língua portuguesa.”

A globalização da língua portuguesa “traz muitos desafios”, começa por dizer Patrícia Ferraz de Matos, antropóloga e investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “Em primeiro lugar, porque o português que se fala em vários continentes não é exactamente o mesmo e tem muitas variantes — nacionais, regionais e locais. Em segundo lugar, porque este movimento para criar um Dia da Língua Portuguesa não se centra apenas nesta e parece querer estender-se a outros fenómenos culturais, ou seja, parece ser mais ambicioso.”

E porque não olhar para essas variantes como um factor de enriquecimento? Afinal, como relembra a investigadora, “é devido ao Brasil e ao seu tamanho que o português é hoje uma das cinco línguas mais presentes no espaço digital”.

Também inserida no espaço académico, a antropóloga refere que, “embora o português do Brasil seja admirado na literatura” (veja-se “a riqueza do vocábulo dos livros de Jorge Amado, por exemplo”), o mesmo não acontece nas aulas ou avaliações. No doutoramento em Antropologia, onde é docente, aceita teses escritas em português do Brasil ou português africano, por exemplo. Mas nem sempre é assim, como a experiência de Jullyana mostra.

A variedade mantém a língua viva

Mas de onde vem, afinal, a ideia de que o português do Brasil não é correcto? “Durante o processo evolutivo do português brasileiro, surgiram formas coloquiais que são violações à gramática mental dos falantes de português europeu”, explica Ronan Pereira. Um exemplo: “Eu vi-o”, como diz um português, versus “eu vi ele”, dito por um brasileiro. “Para a gramática mental de um português, [a segunda formulação] soa mal, mas isso não quer dizer que o falante de português brasileiro fale mal. Ele fala a sua variedade, que tem essa estrutura.”

Na verdade, quanto mais portugueses e brasileiros se aproximarem da norma gramatical — ou, por outras palavras, quanto mais correctamente falarem —, mais próximos ficam. Se assim fosse, “teríamos sotaques diferentes, o que é completamente natural e acontece em todas as línguas, mas a questão estrutural seria basicamente a mesma”, explica o linguista. “A regra é comum para todos”, acrescenta Thalita.

“Alguns dos preconceitos actuais podem ainda ser resquícios do passado”, refere Patrícia Ferraz de Matos. Podem estar relacionados “com as várias influências que o português do Brasil recebeu”. “É como se o português do Brasil fosse menos puro do que o português europeu, ao qual se associa por vezes uma identidade própria, associada à antiguidade do país na Europa, à sua permanência como país independente ao longo de vários séculos, sem nunca se ter subjugado ao poder (e língua) espanhol”, contextualiza.

A herança cultural, marcada por séculos de colonialismo, é, para Matias Guimarães, a principal justificação para esta discriminação. “Sinto que existe uma parcela da população portuguesa que vê as ex-colónias como inferiores de diversas formas”, atira. E essa percepção é generalizada. “Os mais velhos têm um sentimento de nacionalismo muito forte, acham que estamos para reconquistar o que nos foi tirado na época dos descobrimentos, como já ouvi muitas vezes”, refere Jullyana.

Thalita chama-lhe “saudosismo da língua”. Acredita que o pensamento comum é, muitas vezes, este: “Eu levei a língua para esse país e eles estragaram-na, deviam mantê-la como é aqui.” Ou, em forma de pergunta, como já fizeram a Mônica: “Quem é que inventou a língua?”

Esse saudosismo, acredita Thalita, poderá estar prestes a acabar, com ajuda das gerações futuras. “Os alunos de hoje já têm questões sobre a variação linguística nos seus manuais”, afirma. “A variação agrega muito. Tem algumas palavras que são diferentes? Tem. E isso só vai acrescentar”, atira. Patrícia Ferraz de Matos vai mais longe: “É talvez essa riqueza que mantém a língua viva — a de um conjunto diversificado de pessoas que a utiliza há vários séculos, mas que a vai adaptando e fazendo evoluir.”

tp.ocilbup@searud.anairam

https://www.publico.pt/2021/05/05/p3/noticia/brasileiros-meia-lingua-portuguesa-palavras-sao-motivo-discriminacao-1961161


terça-feira, 4 de maio de 2021

Filipe Chinita - manda quem... pode

* Filipe Chinita

manda 
quem... pode
.
nós.
pobres.de espírito
e não
já 
temos 
de nos dar 
por mui felizes
com a.s esmola.s...
e por haver quem ainda! asssim
se digne - perdendo do 
seu tempo 
e vida - 
mandar... em nós
.
avenç(o)ados 
sejam...
sejas...
ó 
altíssimo!
.
fj
13.15
03.05.2021
.
ou 
de quando 
passámos a confundir os políticos 
com os oficiais de contas ao fisco
senão mesmo 
com os jogadores da  bisca... 
às tardes... pelo sol e sombra
dos jardins
.
que
em espanha 
já as touradas da mui brilhantina
recomeçaram... 
.
mundo 
vai continuar igual
se... não  mesmo... pior
.
conseguimos nós! viver 
em 'alegria' 'copos' 
e 'festa.s'...
enquanto 
outros humanos seres
em tudo a nós iguais
baqueiam 
falhos de tudo
pelas valetas 
de cada 
dia
.
pandemia...só acabará 
quando já não existir 
e não se propagar 
em nenhum 
outro
.
então sim!
poderemos voltar a falar 
de alegria e 
festa...
humanamente
universal
de todos 
os
iguais...
.
sim 
que mais importante que os humanos 
- que qualquer um humano! -
são as diversas espécies 
de vacas sagradas que 
sagradamente nos 
des.governam 
a.s vida.s
nos dão
a morte
___________________________________________
o mundo apenas precisa de uma só cousa:
revolução total. social e da mente humana
___________________________________________
ah
falta ainda dizer 
que 
prostituição no mundo.e em todas as línguas! 
é cada vez mais  jovem...
chegam-nos... todos os dias! 
mesmo escrevendo eu
a todo o tempo
contra
qualquer 
prostituição... física e mental


Filipe enviou a mensagem: 3 de Maio às 14:19

domingo, 2 de maio de 2021

Filipe Chinita - es. cravo... de dia seguinte

* Filipe Chinita

es.
cravo...
de dia seguinte
1.
salvam-me... ainda assim
os magníficos jantares... 
que faço... para 
nada...
2.
escassos momentos
de des.contracção
de mim...
entre horas de 
trabalho...
sem fim!
3.
com 
as palavras
os olhos em perda
e os dedos que já se encavalitam sobre si
sentado sobre umas 
nádegas 
feridas... 
de 
em 
sangue
castigado
4.
o sono 
é-me só.já apenas
uma passagem...
para a outra
banda...
ou margem
5.
tanto
que é sempre já vestido 
que me deito
e acordo
à.s rua.s saio 
só quando absolutamente necessário
à  nossa subsistência
6.
pois 
já nada... mais 
me move nesta vida
7.
do que 
- apenas - continuar 
escrevendo 
até ao 
fim
qualquer que ele seja
8.
ante 
discursos 
absolutamente 
monocórdicos
de mera leitura 
de papéis
9.
nada alegres! 
... diga-se
10.
que 
dizem sempre!
mesma parada
cousa
que todos nós
já mais do que
sabemos
11.
enquanto
entretanto humanos
continuam morrendo 
'alegremente'...
lá longe!
num outro ganges
sobre o chão 
dos dias
o parado rio 
das pútridas
águas
das fogueiras
dos religiosos
humanos...
de classes
e castas
e
viúvas
sem vida 
alguma
12.
enquanto 
as religiões... 
continuam medrando a morte
com a nossa calada e divina benção
de 'humanos' amigos... 
de bolsonaro.s.
e quejandos 
que tais
13.
benza-os... 
deus!
haveis de ter
um lindo
e evangélico
fim...
.
14.
amén
.
fj
20.48
02.05.2021
Filipe enviou a mensagem: 2 de Maio às 21:50

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Filipe Chinita - Heróicos camaradas nossos

* Filipe Chinita - 




Filipe enviou a mensagem: 29 de Abril às 22:35

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Pedro Tadeu - Marcelo está a pedir-nos o impossível?

* Pedro Tadeu
28 Abril 2021 — 00:10

O  que Marcelo Rebelo de Sousa pede aos portugueses - que olhem para a História do país "sem autojustificações" nem "autoflagelações excessivas" - parece-me um objetivo bem-intencionado, mas...

Lembro-me de um exemplo que me parece lapidar: em 2012, uma universidade grega resolveu refazer o julgamento de Sócrates.

Estou a falar do filósofo grego, condenado à morte há 2420 anos por três razões principais: não aceitar os deuses gregos, promover falsos deuses e, com a divulgação das suas ideias, corromper a juventude. Em resumo, era ímpio, e isso, nessa altura, naquele sítio, era crime.

Os académicos gregos convidaram 10 juízes para apreciarem os factos, arranjaram advogados de acusação e de defesa para argumentarem, puseram historiadores qualificados a servirem de testemunhas e pediram sentenças que estivessem de acordo com as leis gregas da época, para respeitar o enquadramento espaço/tempo desse acontecimento.

Cinco juízes declararam Sócrates inocente. Cinco juízes declararam-no culpado, embora sem motivo para uma sentença de pena capital.

Portanto, mesmo passados mais de dois mil anos sobre os factos, quando não há razão para particulares paixões político-ideológicas associadas à questão, a análise das ocorrências e a elaboração de um juízo moderno subordinado à mentalidade da Antiguidade levou a conclusões, entre gente qualificada, diametralmente opostas.

Se olharmos para a realidade que preocupa o nosso Presidente da República, a tarefa que ele propõe é ainda mais difícil e divisora do que a dos juízes convocados pelos académicos gregos.

Como se pode pedir a um preso político do Estado Novo e à sua família, aos seus descendentes, que aceite o repto do Presidente da República na forma de olhar esse passado, quando é o próprio líder do Estado democrático que nunca diz o nome do objetivo da luta que levou essa pessoa à cadeia e à tortura: o derrube do fascismo?

Como pode Marcelo Rebelo de Sousa, "filho de um governante na Ditadura", como se apresentou, pedir a esta pessoa, e às suas famílias, o pressuposto de que o fascismo, que dominou boa parte das suas vidas, afinal não existiu, houve "apenas" uma... "Ditadura" (e com "D" maiúsculo, tal como o Presidente a escreve)?

Como se pode pedir a um descendente de escravos de há 200 anos, ou de contratados de há 80 anos, ou de mortos na guerra colonial de há 60 anos, ou de um espancado por um capataz numa roça há 50 anos, um juízo "menos apaixonado" sobre o colonialismo?

Como pode o Presidente da República de Portugal achar que pedir aos colonizadores para olharem "tanto quanto possível" para este tempo com "os olhos dos antigos colonizados" não corre, contraditoriamente, o risco de dar um sinal de condescendência paternalista totalmente insuportável para o "antigo colonizado"?


Como, por outro lado, se pode pedir a uma família de colonizadores, proprietários ou altos funcionários durante décadas em África, regressada a Portugal apenas com a roupa que trazia no corpo, que ache o mundo pós-colonial em geral e o processo português em particular um avanço civilizacional? É de certeza muito rara essa aceitação, mesmo que a pura racionalidade e educação a recomendem.

Até quando se olha para um passado bastante mais distante a serenidade não impera. Basta ver os insultos na internet sempre que vem ao de cima uma discussão ligada à Guerra Civil de 1832-1834 e sobre a legitimidade na sucessão ao trono na época: historiadores e políticos de direita e esquerda a trocar "mimos" emocionais, absolutistas de um lado e liberais do outro, miguelistas irritados, maçons indignados e um eterno refazer da História a tentar diabolizar o outro lado.

A pacificação destas polémicas históricas só se consegue quando elas deixarem de ter importância no presente, e isso está longe de acontecer.

O esforço do Presidente da República com o seu discurso no 25 de Abril tem vários méritos - é humano, procura ser justo, tenta o bom senso -, mas pensar que é possível olhar a História sem a "infetar" com a ideologia política do presente - seja a ideologia dominante, sejam as ideologias alternativas - é pedir aquilo que a humanidade, ao longo da História, nunca fez.

Este debate histórico, dominado pela luta político-ideológica do presente, por muito duro que seja, tem de continuar, e durante muito tempo.


Jornalista
https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-esta-a-pedir-nos-o-impossivel-13619174.html

terça-feira, 27 de abril de 2021

Fernanda Câncio - "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo"

COLONIALISMO

Relatórios da administração colonial que denunciam "o bafio da escravatura" e uma diplomacia que tenta negar as acusações internacionais e adiar ao máximo a mudança: Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, de José Pedro Monteiro, é um testemunho poderoso sobre o ocaso do Império português.

Fernanda Cânciocoo

29 Dezembro 2018 — 15:00 

"Tratados como animais bravios", agrilhoados, chicoteados, espancados, "arrebanhados no mato", com alta taxa de morte no transporte, mantidos décadas longe da família, à qual eram por vezes devolvidos em "estado de morto de pé", "grávidas e mulheres com filhos monstruosamente espancadas por abandonarem o trabalho": as descrições e observações encontradas nos relatórios da administração colonial portuguesa chocam pela crueza e naturalização daquilo a que um inspetor chama, em 1949, "o cheiro a bafio da escravatura".

Apesar de os castigos físicos serem proibidos por lei e de o próprio trabalho forçado ter sido, a partir da publicação do Código de Trabalho Indígena, de 1928, interditado exceto "para fins públicos" - e mesmo assim apenas quando estivesse em causa o interesse das populações que eram para ele mobilizadas --, as autoridades coloniais continuaram, pelo menos até aos anos 1960 (o Código de Trabalho Indígena só é revogado em 1962, sendo substituído pelo Código de Trabalho Rural, que deixa de ter referência racial e proíbe todas as formas de trabalho forçado, incluindo para fins públicos), a servir de recrutadoras compulsivas para privados - tratava-se, na linguagem de então, de "contratos com facilidades" -- e a aceitar as punições corporais com naturalidade, como vários relatórios reconhecem.

A candura destes relatórios e a forma como alguns inspetores ou outros membros da administração colonial exprimem a sua discordância e até revolta face à situação - um deles chega a escrever, referindo, em 1949 em S. Tomé, a existência de "grilhetas superiores a dois metros" e o facto e de o governador certificar que "só ele podia ordenar punições": "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo!" - é, para o leitor não especialista, uma das grandes surpresas que resulta da leitura de Portugal e a Questão do Trabalho Forçado/Um império sob escrutínio (1944-1962), do historiador José Pedro Monteiro, publicado este mês, e que, nas palavras do próprio, "mobilizando fontes inéditas, ilustra, pela voz de administradores imperiais e locais e de testemunhas autóctones, algumas realidades laborais e sociais vigentes nas colónias, permitindo, deste modo, cotejá-las tanto com as denúncias que se produziram internacionalmente como com os esforços de refutação oficial, frequentemente de natureza propagandística."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia, por exemplo, em 1944, o inspetor Nunes de Oliveira; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles, por essa razão; eles constituem uma considerável multidão, de algumas dezenas de milhar, dispersos pela densa floresta, e os agentes dos patrões que têm de os conduzir, só tal conseguem impondo-lhes uma disciplina severa, disciplina que só se consegue por meio de sanções expeditas e bem sentidas."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia em 1944 um inspetor; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles,"

É, recorda José Pedro Monteiro, o mesmo ano do célebre relatório choque que o inspetor-geral da Administração Colonial Henrique Galvão apresenta à Comissão das Colónias da Assembleia Nacional (o nome então dado ao parlamento), no qual informa que "o trabalho forçado ou "contratado" era a norma, as condições de vida miseráveis, a corrupção entre as autoridades generalizada", chegando mesmo a dizer que os escravos eram melhor tratados que os trabalhadores forçados, já que aos primeiros, sendo sua propriedade, o dono se esforçava por manter vivos e com saúde, enquanto que os segundos, se morriam de fome ou exaustão, eram substituídos por mais trabalhadores "recrutados" pelo Estado. Um excerto do relatório de Galvão: "A mortalidade infantil atingia a percentagem de 60%. O índice de mortalidade era de 40%, mesmo entre os trabalhadores na plenitude da vida. As figuras era mudas, estáticas. Não gritavam, não falavam de dor. Era preciso ver com os próprios olhos, era preciso encorajar até aqueles que queriam ver"

"Grilhetas ao pescoço" e chicote

Nada que devesse surpreender quem vinha lendo os documentos das inspeções "normais". Seis anos antes, diz José Pedro Monteiro, "um relatório do Curador Geral dos Indígenas de Angola relatava que os "indígenas" sentiam tal "horror" pelo contrato que, no Lobito, se tinha dado um episódio em que uns quantos se tinham lançado ao mar para lhe escapar. (...) O mesmo curador relembrava uma nota confidencial, relativa à intendência do Moxico, em que se informava que não havia capacidade para recrutar trabalhadores para a Companhia de Diamantes de Angola porque todos os "indígenas" que podiam ser recrutados tinham desaparecido. "A excepcional mortalidade entre os indígenas em serviço naquela companhia e o "Estado de Morto em pé" com que todos têm sido repatriados, alguns indígenas que morrem pouco depois [de aqui] chegar, e, ainda, os que com o corpo mutilado conservam a vida e vivem actualmente pedindo esmola, sem receber qualquer indemnização da Companhia, constituem, como todos nós sabemos, a razão da relutância que os indígenas mostram por aquele serviço"".

E em 1945, lê-se em Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...). Invocava-se ainda um relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, em que se relatava a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados, do que decorria, segundo o raciocínio do inspetor, que era preciso pensar estes incidentes à luz do que vinha ocorrendo nos fora internacionais, onde os Estados Unidos vinham censurando a solução colonial."

"Em 1945 o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...)". Num relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, relatava-se a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados."

Já em 1951, o encarregado de serviços da Inspeção Superior de Negócios Indígenas, após um introito no qual "enaltecia a essência humanista e benévola da intervenção portuguesa em territórios coloniais", prosseguia "desfiando um rol de iniquidades e abusos. Referia-se à taxa de mortalidade no transporte de 650 indígenas que era de 15,38 por mil quando comparados com os 4,25 por mil registados nas minas da África do Sul, um trabalho, já de si, extremamente perigoso; aos acidentes de trabalho que eram dados como ocorridos nas horas de descanso, como forma de desresponsabilização, o mesmo recurso estatístico usado também para os classificar como "agonias e congestões"; aos inválidos que eram obrigados a trabalhar em S. Tomé ("verdadeiros farrapos humanos") por salários miseráveis; que não eram pagas às famílias as indemnizações por morte de trabalhadores em S. Tomé; que milhares de "indígenas" ficaram mais de uma década para além do termo oficial do seu contrato sem serem repatriados; que os salários em Moçambique e especialmente em Angola chegavam a constituir cerca de um sétimo dos valores na África do Sul e menos de metade dos salários da Rodésia; que mulheres de trabalhadores eram sistematicamente violadas por grupos de serviçais enquanto outras grávidas e mulheres com filhos eram "monstruosamente espancadas com mais de 50 palmatoadas" por terem abandonado o trabalho.""

Muito impressionante também é um relato de 1949, referente ao "caso dos Tongas" (filhos de trabalhadores deslocados de outras colónias para trabalho em São Tomé, que nunca tinham vivido na colónia dos seus pais): "Muitos deles alegavam que desejavam reencontrar suas famílias, mas o governador-geral de S. Tomé simplesmente entendia que era um desejo descabido, visto não conhecerem as famílias, não saberem onde estavam nem sequer se ainda existiam. Ressalve-se que eram indivíduos com todas as obrigações fiscais e militares cumpridas. Mas eram também "fortes e saudáveis, educados numa vida de trabalho" e, como tal, o seu repatriamento devia-lhes ser negado, justificava o governador."

Não é possível saber, escreve José Pedro Monteiro, "o destino destas populações, mas a simples ideia de que o governador entendia possível mantê-las em S. Tomé revela os termos do debate em matéria de liberdade de trabalho. O relatório é ainda ilustrativo no sentido em que o funcionário da ISNI, no ensejo de contrariar a vontade do governador, elencava um conjunto de informação crítica. Desde logo, referia que serviçais havia que tinham estado entre 10 a 30 anos nas ilhas e que, se o seu contrato tivesse sido cumprido, o problema dos "Tongas" simplesmente não se punha. Recuperava um trecho do relatório do curador que os descrevia como "acabrunhados e tristes" e sem qualquer ideia do que era um contrato livre. Como finalizava o relator: "As expressões "os meus tongas" ou "tongas das roças" "embora se autorizem a mudar de situação", como se diz no ofício, cheiram ainda a bafio de escravatura"."

As descrições são arrasadoras, e muitas até agora inéditas. Constituindo uma versão editada e revista da tese de doutoramento do autor, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o livro procura dar a compreender "como e porquê as modalidades de trabalho coercivo se mantiveram política e socialmente aceitáveis no seio da burocracia imperial portuguesa por um período consideravelmente mais longo que noutros impérios europeus; porque estavam as propostas que procuravam pôr-lhes termo tão recuadas face às normas internacionais; e, finalmente, porque e como foi finalmente concretizada a reforma que lhes pôs termo, ainda que de modo meramente formal."

O historiador, de 34 anos, que investigou em vários arquivos -- no arquivo Histórico Diplomático, no Arquivo Histórico Ultramarino, na Torre do Tombo ("Onde havia pouca coisa"), e também nos da Organização Internacional do Trabalho em Genebra, da ONU, nos National Archives nos EUA bem como nos arquivos britânicos, em Kew - conversou com o DN sobre o seu trabalho.

Houve alguma coisa que o tenha surpreendido ou chocado particularmente nas suas leituras?

Houve relatórios que li, que fiquei... Uma pessoa pode-se chocar. Nos debates sobre a escravatura diz-se muito que é preciso olhar com os olhos daquele tempo. Curiosamente esse é um dos motivos pelos quais o facto de a abolição da escravatura ter resultado na generalização do trabalho forçado faz com que com que nas discussões públicas a questão do trabalho forçado quase não apareça. Porque se torna um bocadinho mais complicado poder dizer "ah, temos de olhar com os olhos daquele tempo." Não, aos olhos daquele tempo o trabalho forçado já era condenado de forma unânime. Não é por acaso que nos debates sobre a escravatura se alguém quer falar do trabalho forçado vem o "isso era outra coisa". Reforçando uma distinção legal que não é confirmada pela continuidade das práticas.

https://www.dn.pt/pais/e-manda-ainda-o-senhor-deus-pretos-a-este-mundo-10343094.html


Fernanda Câncio - Marcelo e o Portugal mais que imperfeito

* Fernanda Câncio

Em 2017, oito alunos de história do 12.º ano do Liceu Camões aceitaram falar com o DN sobre a forma como viam o passado imperial e colonial português. Para estranheza da própria professora, a maioria reproduziu o mito de que Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura, em 1761 (altura em que foi abolida a escravatura apenas no território de Portugal "metropolitano" e mesmo assim não completamente). Do mesmo modo, quando questionados sobre o que sucedera aos escravos depois de em 1869 se ter dado a oficial abolição da escravatura em todos os territórios nacionais, muitos ficaram interditos. Um afirmou: "Então, deram-lhes o estatuto igual aos das outras pessoas."

Não é espantoso. A maioria esmagadora dos portugueses, atrevo-me a dizer - eis uma sondagem que gostava de ver - continua a achar que "fomos os primeiros a abolir" e desconhece totalmente o facto de à escravatura dos negros se ter seguido o trabalho forçado, só formalmente abolido em 1962. Essa realidade do trabalho forçado, que em pouco se distinguia da escravatura, atravessou o final do século XIX, a Primeira República e praticamente todo o Estado Novo. Nas leis, os negros classificados como "indígenas", ou seja a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos - constatação que o próprio regime salazarista fez através dos seus documentos internos, como demonstra o historiador José Pedro Monteiro em Portugal e a questão do trabalho forçado (Edições 70, 2018).

A esmagadora maioria dos portugueses, dizia, desconhece estes factos, e desconhece-os não porque eles não estejam amplamente estudados por gerações de historiadores e investigadores académicos, com vasta obra publicada sobre a matéria, mas porque disso pouco tem passado quer para a discussão pública quer, o que é fundamental, para aquilo que se aprende na escola e se lê nos manuais do ensino básico e secundário. E não passa porque haja uma determinação consciente e malévola de mentir, mas porque coletivamente nos apegámos à mistificação.

O problema não é, ao contrário do que se possa crer, exclusivo de pessoas "pouco cultas". Ainda há poucos meses um reputado constitucionalista português me asseverava que o "nosso" regime colonial não foi racista. Quando lhe retorqui com alguns factos básicos - nomeadamente a instituição do trabalho forçado e a lei do indigenato - respondeu-me "era assim também nos outros países". Só ficou sem argumentos quando lhe lembrei que data de 1930 a convenção da Organização Internacional do Trabalho - só ratificada por Portugal em 1956, com prazo de cinco anos para aplicação - obrigando os signatários a acabar com o trabalho forçado no mais curto prazo possível, e que os próprios relatórios dos funcionários coloniais portugueses comparavam, até ao final dos anos 1950, a realidade do trabalho forçado à da escravatura, descrevendo castigos corporais com chicote e grilhetas e chegando a dizer que o primeiro era pior que a segunda, já que nesta ao menos o dono não estava interessado em matar o escravo já que pagara por ele, enquanto no trabalho forçado tanto lhe fazia: se morria pedia outro.

A ideia de que "não se pode olhar para a realidade do passado com os olhos de hoje", tão usada a propósito da história imperial e colonial portuguesa, soçobra perante a evidência de que estamos também a falar de coisas que se passaram há menos de 100 anos, quando outros países ocidentais já tinham iniciado a descolonização e quando eram muitas as vozes, inclusive em Portugal e nas colónias, a criticar - e a lutar contra - o que se passava. Muitos dos olhos de então já olhavam aquela realidade como a olhamos hoje, como iníqua, ilegítima e brutal.

E sim, vem todo este grande introito a propósito do discurso de Marcelo neste 25 de abril - um discurso notável, talvez o melhor que já lhe ouvi, e no qual teve a inteligência de sublinhar a sua condição de filho do último ministro das Colónias e de um dos últimos governadores de Moçambique, testemunha privilegiada (em vários sentidos) do ocaso do império e da ditadura colonial.

Esta assunção da sua condição pessoal - que aliás repetiria a seguir num encontro com capitães de Abril e jovens, no qual também fez um discurso muitíssimo interessante - tem um propósito mais ou menos claro: o de demonstrar, e bem, que o 25 de Abril é simultaneamente rutura e continuidade. Como ele, filho de um alto dignitário da ditadura que faria parte da Assembleia Constituinte de 1975 e acabaria duas vezes eleito presidente da democracia, os militares que fizeram o golpe "não vieram de outras galáxias, nem surgiram num ápice daquela madrugada para fazerem história. Traziam já consigo a sua história." E a sua história eram "as suas comissões em África, uma, duas, três, até quatro, (...) tudo em situações em que a linha que separa o viver ou morrer é muito ténue."

Eram pois os soldados do regime colonial, algozes, ocupantes, matadores, até serem os heróis da libertação. Sabemo-lo, ou devemos sabê-lo - mas saberá Marcelo distinguir entre quem retirou dessa experiência a deliberação de acabar com ela e quem, como Marcelino da Mata, a cujo enterro foi há meses como presidente, ou seja em nome de todos nós, se gabava dos seus crimes nessa guerra e louvava a ditadura?

É que esse é o problema: distinguir. E Marcelo, como a maioria esmagadora dos políticos da democracia, sejam como ele filhos de homens da ditadura ou como António Costa de oposicionistas, têm mostrado dificuldade nessa distinção e nesse olhar para trás, na capacidade de traçar a linha entre o que é admissível e até celebrável e o que deve ser censurado - porque é preciso dizer que houve coisas censuráveis e criminosas, por mais que tenham feito parte de um contexto.

Daí que seja tão bem-vinda a exortação do presidente para "que se faça história, história da história, que se tirem lições de uma e de outra, sem temores sem complexos", o reconhecimento de que "é prioritário estudar o passado e nele dissecar tudo, o que houve de bom e o que houve de mau. (...) Que saibamos fazer dessa história lição de presente e de futuro. Sem álibis nem omissões (...)."

É isso mesmo. Ou seria, se a seguir não acrescentasse: "É prioritário assumir tudo, todo esse passado, sem autojustificações ou autocontemplações globais indevidas nem autoflagelações globais excessivas (...) nem apoucamentos injustificados." É de novo a preocupação com "a visão auto flageladora da nossa história" que vimos recentemente em António Costa, preocupação extraordinária num país que até hoje se encarniça em negar "o que houve de mau" ou chega mesmo a celebrá-lo; preocupação contraditória num discurso presidencial que nos diz que temos de olhar a história também "pelo olhar dos colonizados".

Olharmo-nos pelo olhar dos "descobertos", dos submetidos, dos colonizados e dos seus descendentes não é só dizer que "nunca houve um Portugal perfeito" - a melhor frase do discurso do presidente. É sobretudo reconhecer o que desse passado mais que imperfeito resta em nós como país, denunciá-lo e combatê-lo. Aquilo, suspeito, a que Marcelo chama "excesso".

Jornalista

NOTA:

Na semana passada, escrevi sobre o Primeiro Plano Nacional Contra o Racismo e o ensino de história no básico e secundário, sob o título Implodir o padrão dos descobrimentos. Cometi erros no que escrevi e fui para isso alertada pela Associação dos Professores de História, por via de um email do seu presidente, Miguel Monteiro de Barros, pelo que me apresso a corrigir, agradecendo a retificação, que foi também colocada no artigo em questão.

Nesse artigo, lê-se: O programa de história do básico e secundário não mexe desde 2002 - ou seja há praticamente 20 anos. A responsabilidade pelos programas, como pela aprovação dos manuais, é das associações de professores - neste caso os de história; os governos limitam-se a homologar. É pois importante saber como a Associação dos Professores de História tenciona pôr em prática o plano de combate ao racismo na sua disciplina; como pensam contribuir para desfazer estereótipos e complexificar a visão romantizada dos "descobrimentos" e daquilo que se lhes seguiu, exorcizando a ideia verdadeiramente insultuosa de que o colonialismo português "não foi racista".

A APH retifica: "O documento curricular de referência já não são os programas, mas as Aprendizagens Essenciais (AE), elaboradas pela Associação de Professores de História, após consulta pública, e homologadas pela DGE (Direção Geral da Educação). O processo de elaboração das AE iniciou-se em 2016, tendo estas sido homologadas em 2018. Esta foi a primeira vez que a Associação de Professores de História foi parceira no processo de elaboração de um documento curricular basilar, nunca antes participou na elaboração de qualquer programa disciplinar, apenas foi consultora."

Parte do erro deveu-se ao facto de me ter baseado na informação que tinha recolhido em 2017 para um artigo sobre os programas e manuais, não me tendo dado conta de que entretanto (em 2018) tinha havido alterações.

Mais uma vez baseando-me nessas informações recolhidas em 2017, afirmei também no referido artigo de opinião que os manuais escolares eram aprovados (querendo dizer certificados) pela APH. Esta nega: "A Associação de Professores de História, tal como acontece com os programas, não possui quaisquer competências para "aprovar manuais". As editoras editam os manuais, sendo estes certificados, atualmente, por centros de certificação existentes em diversas universidades e institutos politécnicos, designados pela tutela. A Associação de Professores de História não tem nada a dizer sobre o assunto."


https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-e-o-pais-mais-que-imperfeito-13614976.html

Manuel Loff - Uma história “sem álibis nem omissões”

OPINIÃO


Pela minha parte, eu e muitos investigadores estamos disponíveis para “estudar o passado e nele dissecar tudo”. Mas “tudo” é tudo mesmo, e é importante que inclua, de uma vez por todas, aquilo que, por envolver crimes nunca julgados, o Estado e a maioria da sociedade nunca quis assumir.

Manuel Loff

27 de Abril de 2021, 0:15

Lamento mas, se chegou a haver alguma unanimidade quanto ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no 25 de Abril, eu não me junto a ela. Por mais corajosa que possa ter parecido a atitude do homem que nos falou como filho de “governante na ditadura e no Império”, e que entende ser “prioritário assumir tudo, todo o passado, sem auto-justificações ou auto-contemplações globais indevidas”, deveria, ele que me desculpe, começar por si próprio.

É compreensível que o filho de Baltazar Rebelo de Sousa, cuja carreira política esteve associada até à medula à gestão colonial nos anos da guerra, nos recorde que, como “constituinte, [viveu] o arranque do novo tempo democrático (...) como milhões de portugueses [situado] entre duas histórias da mesma história” – mas já não é aceitável ser quem nos peça que, ao “revisitarmos a história”, não a julguemos com os valores do presente. Porque é isso mesmo que ele faz, como fizeram os anteriores presidentes da República todos os dias 10 de Junho, 1.º de Dezembro, 5 de Outubro e, claro está, 25 de Abril.

Chama-se a isso o uso político do passado, que Marcelo usa como usam representantes de Estados que queiram dar lições aos cidadãos do presente a propósito dos atos dos cidadãos de ontem, e que, em nome da honestidade, não deveria pretender que é coisa apenas daqueles que discutem o passado nos termos que lhe não agradam.

Quando Marcelo nos pede para não “[exigir] aos que viveram esse passado que pudessem antecipar valores (...) agora tidos por evidentes, intemporais e universais”, persiste num dos mais velhos erros metodológicos da leitura reacionária do passado: o de inventar um tempo em que os valores dominantes seriam tão consensuais que nenhuns outros teriam sido enunciados. Em todas as épocas os valores dominantes tiveram alternativas; todas as ordens tiveram resistência; todas as verdades do tempo tiveram quem as denunciasse.

Marcelo, que em 2017 foi a Gorée (Senegal) elogiar precocidade portuguesa na história da abolição da escravatura, pretendendo que Pombal a teria abolido em 1761, não só sabia que o Estado português o não fez antes de passados mais de cem anos – eis o (ab)uso político do passado – como sabia também que a condenação da escravatura, do papel pioneiro e persistente que portugueses tiveram no tráfico, ou a denúncia do trabalho forçado que se manteve até aos anos 1960 nas colónias portuguesas, foi contemporânea dos próprios fenómenos e não é um “juízo do passado com os olhos de hoje”. Como o anticolonialismo foi contemporâneo do colonialismo, e contemporânea da guerra foi a recusa em fazê-la (sobre a qual Marcelo não pronunciou uma palavra) e foi a contestação da resistência antifascista portuguesa à escolha de Salazar em fazê-la. Nenhuma destas batalhas é recente, pelo que é inaceitável qualquer insinuação de que estas podem ser “campanhas de certos instantes”.

Era bom que o Presidente esclarecesse se “dissecar tudo” abriria, afinal, essas discussões que ele entende não serem “prioritárias para os portugueses”, e que é “duvidoso que o sejam alguma vez"

Com toda a razão, o Presidente diz que “o 25 de Abril foi feito para libertar, sem esquecer nem esconder”. Deveria, contudo, lembrar-se como o seu partido e todo o universo conservador da sociedade portuguesa, que, logo desde 1974, amaldiçoaram a Revolução e descreveram a descolonização como uma traição, não simplesmente procuraram “esconder”, mas pura e simplesmente negaram a natureza intrínseca da dominação colonial e toda a violência que ela significou. Se hoje, como Presidente da República, pretende que se faça uma História “sem álibis nem omissões”, pode desde já ajudar à desclassificação de muita documentação militar que continua inacessível.

Pela minha parte, eu e muitos investigadores estamos disponíveis para “estudar o passado e nele dissecar tudo”. Mas “tudo” é tudo mesmo, e é importante que inclua, de uma vez por todas, aquilo que, por envolver crimes nunca julgados, atos inaceitáveis à luz da moral e do Direito (não apenas os de hoje, mas também os do momento em que foram praticados), o Estado e a maioria da sociedade nunca quis assumir e não quer que se investigue.

Era bom que o Presidente esclarecesse se “dissecar tudo” abriria, afinal, essas discussões que ele entende não serem “prioritárias para os portugueses”, e que é “duvidoso que o sejam alguma vez”. Se assim fosse, teríamos de duvidar da sinceridade do discurso. É que só esclarecendo essas “omissões” seria verdade que, enquanto sociedade, “nos responsabilizamos” pelos nossos “fracassos” históricos da mesma forma como “assumimos as glórias que nos honram”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

 https://www.publico.pt/2021/04/27/opiniao/noticia/historia-alibis-omissoes-1960136