quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

hélder moura - (528) Perceções induzidas

hélder moura

26.02.25

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

A forma como pensamos é a forma com que os poderosos nos treinaram para pensar.

Aqueles para quem a socialização se acredita dever ser genética, opõem-se a essa socialização.

O ocidental típico habita um universo mental completamente divorciado da realidade. As atrocidades são cometidas apenas por Estados estrangeiros dos quais o seu governo não gosta.

 

Se perguntarmos à grande maioria dos nossos conhecidos qual é a percentagem atual de afroamericanos (pretos) na população dos EUA, o número mais citado será à volta de 40%, o que de certa maneira é o reflexo que está de acordo com as componentes culturais mais apregoadas, desde a fala coloquial generalizada – com os “bros”(manos) e outros que tais – aos vários apertos de mão – os distintos “take five” em cima e em baixo –o andar bamboleante, os ténis desapertados, os enormes capuchos (hoodies), as canções e danças, aos atletas e desportistas mais nomeados, etc.

Acontece que, segundo o censo de 2022 da ACS (American Community Survey) a população americana rondava os 330 milhões, dos quais os brancos ainda constituíam a maioria com 60%, seguidos pelo grupo dos hispânicos (que não incluem espanhóis) com 19%, só depois vindo o grupo dos afroamericanos (pretos) com 12%, asiáticos com 6%, e nativos americanos índios e do Pacífico com 1%.

Segundo as projeções (a manterem-se as condições atuais), a população branca deixa de ser maioritária dentro de cinco anos, a hispânica crescerá bastante, a africana manter-se-á ou decrescerá, a asiática crescerá ligeiramente.

 

Alguém gosta de perder a maioria? Que fazer para a manter?

 

 

Uma das surpresas que os Democratas tiveram nestas últimas eleições presidenciais, foi o voto dos hispânicos ser fortemente favorável a Trump. Constituído essencialmente por imigrantes, com baixos rendimentos, sujeitos à retórica anti-imigração por parte dos Republicanos, o “normal” para os Democratas seria que votassem por eles.

Não previram que para esses imigrantes paupérrimos o seu Sol era o país capitalista por excelência: os EUA.O eldorado para onde imigravam. E uma vez lá chegados, por mais miseráveis que venham a estar, não querem que mais nenhum dos imigrantes venha. Tal como os trabalhadores das fábricas de armamento (e outros) não querem que as guerras acabem, não querem que as “suas” fábricas fechem, porque isso lhes garante o emprego. Qualquer resquício de bondade social é inexistente: o indivíduo (eles) acima de tudo.

Aliás, o mesmo se passa nesta Europa cume dos valores sociais: os trabalhadores servem-se de todos os argumentos devidamente explicados e propagandeados pelos seus donos para se oporem à vinda de imigrantes, não lhes vá faltar o emprego, a cultura que tanto os distingue, a segurança, alterar a cor da pele que qual estrela de David os distingue, etc.  Aqueles para quem a socialização se acredita devia ser genética, opõem-se a essa socialização, o que democraticamente tem de ser respeitado. Evidentemente, enquanto for necessário. Para esta perceção, jogadores de futebol e outros artistas não contam (o espetáculo fica fora, “o circo” sempre esteve aparte).

 

Perdidas que foram as eleições para Trump, não tendo por enterro político para quem se voltar, os Democratas e seus apoiantes olham agora com saudade para o reinado Obama. Moralmente exemplar. Um novo velho Messias. “Barack Obama never did anything bad”.

E, no entanto, “Obama cometeu todo o tipo de atrocidades enquanto presidente que seriam consideradas escandalosas se vivêssemos num mundo que fosse remotamente são. Destruiu a Líbia e deixou-a num desastre humanitário. Destruiu a Síria com a guerra suja que envolveu o lançamento de armas para os braços dos afiliados da Al-Qaeda. Iniciou a incineração do Iémen. Acendeu o pavio para a ruína da Ucrânia com a operação de mudança de regime apoiada pelos EUA em 2014. O seu notório programa de drones. A lista continua.”

 

Mas nada disto importa para o democrata médio. Só estão interessados nos sentimentos que Barack Obama lhes fez sentir em relação à sua fação política favorita. É apenas nisso que foram treinados para se concentrarem.

O ocidental típico habita um universo mental completamente divorciado da realidade. As atrocidades são cometidas apenas por Estados estrangeiros dos quais o seu governo não gosta. A propaganda é algo que só acontece com pessoas de outros países ou com pessoas com ideologias políticas diferentes. Os escândalos são quaisquer controvérsias que os meios de comunicação imperiais decidam focar e inflamar. As coisas reais que estão a acontecer no nosso mundo não são registadas.

 

Como diz C. Johnstone, “Isto acontece porque vivemos numa distopia controlada pela mente, onde o pensamento, a fala e o comportamento públicos são agressivamente manipulados por operações psicológicas em grande escala ao serviço dos poderosos. A notícia é propaganda. Os algoritmos de pesquisa são extremamente encaminhados. As plataformas de redes sociais arrebanham-nos em câmaras de eco ideológicas isoladas. Ninguém que desafie significativamente os interesses informativos dos poderosos pode ascender à fama e à influência. Hollywood é apenas uma máquina de relações públicas para o império (veja aqui os 410 filmes feitos debaixo da supervisão do Pentágono).”

 

A forma como pensamos é a forma com que os poderosos nos treinaram para pensar.

 

 

Amplamente noticiado, Trump disse que Zelenski era um “ditador”! E por aí ficamos, ditador não, ditador sim, está ao serviço de Putin, etc. Dos grandes meios de comunicação, nenhum procurou investigar ou enquadrar o acontecido. E era importante.

A pequena história:

Zelenski rejeitou o que considerou ser uma “oferta” de chantagem de Trump para obter 50% de todos os rendimentos futuros da Ucrânia a partir dos seus recursos. (Relembremos que oferecer aos EUA acesso aos recursos ucranianos constava do “plano de vitória” de Zelenski). Assumiu também uma posição hostil em relação às conversações com a Rússia e disse que não aceitaria os seus resultados.

E fez mais: imediatamente antes das negociações EUA-Rússia, os militares ucranianos atacaram interesses dos EUA na Rússia, a saber, um complexo petrolífero (Kropotinskaya Pumping Station, em Kuban) pertencente a empresas americanas. Tal só podia ter sido feito com autorização de Zelenski.

Acreditando-se Trump como máximo defensor dos interesses americanos, não tardou a responder à que efetivamente fora uma provocação, e na conferência de imprensa seguinte não se coibiu de dizer que Zelenski era “um ditador sem eleições” que tinha falhado ao evitar uma guerra que “não podia ser ganha” e que agora recusava conversações para a paz.

Se quiserem uma resposta mais diplomática, podem encontrá-la na conferência de imprensa do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov.

Tão mal que se dão. Tão pouco elegantes. Mas acabaremos por os ver a todos sorridentemente sentados à mesma mesa, elogiando-se mutuamente. A nós cabe-nos enviar os nossos filhos para a guerra. “Os que vão morrer te saúdam!”

Parafraseando Henry Miller (The Times of the Assassins), os monstros estão soltos, vagueando pelo mundo, fugiram do laboratório, estão ás ordens de quem quer que tenha a coragem de os contratar.

Notas:

É no blog de 10 de maio de 2017, “A ordem natural do negócio”, que refiro que quando foi do Katrina (Nova Orleães), “todas as informações, relatórios, imagens de televisão que descreveram a violência que se instalou, deram origem a histórias que circularam e chegaram a todos os lares. Subjacente a todas elas, muito embora fossem verdadeiras, encontrava-se sempre um elemento patológico e racista, para que no fim se pudesse dizer: “Veem? Os pretos são assim!”.

 Como diz Zizek, trata-se de “mentir a coberto da verdade”. Ou seja, ainda que o que se diga seja verdadeiro, os motivos porque o faço são falsos.”

Mais à frente, pergunto: “Será que os seres humanos são de si racistas, xenófobos, antissemitas, ou será que temos sido conduzidos perante um processo de ‘domesticação’ (dir-se-á hoje ‘formatação’) social?”

Exemplifico com a tomada do poder pelos nazis em 1933, em que grande parte dos intelectuais e professores universitários se manifestaram, agradecendo a Hitler por ter livrado a Alemanha da tripla ameaça da revolução russa, da decadência cultural e do declínio económico […] Heidegger diz:

  “Não são proposições e conceitos que garantem as leis do Ser. Apenas o Führer e só ele é a Realidade na Alemanha hoje e no futuro”.

 https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/ 

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