segunda-feira, 27 de julho de 2026

Tiago Franco - OS AVENÇADOS DE ISRAEL |



* Tiago Franco

Por achar que já não tenho irritações que cheguem na vida, o algoritmo desta rede passa a vida a bombardear-me com "influencers" portugueses, de extrema-direita, pagos pelo estado de Israel para andarem por Gaza a repetir as narrativas que lhes são ditadas.

Vou deixar de lado esta coisa, muito do século XXI, da malta arranjar sustento a dizer banalidades e transmiti-las para uma geração onde, apesar da informação ao minuto, sobra ignorância. Quando vejo pessoal da minha idade, e mais velhos, a repetirem ideias destes gajos, vou perdendo um pouco a fé na humanidade. 

Não vou fazer publicidade a esta gente, são as novas Ferro Gouveia em potência e provavelmente vocês já os/as terão visto por aí. A gorducha da voz irritante, o anafado do táxi, a cruela da voz rouca e mais umas quantas azedas que por aqui andam.

Também não vou discutir o investimento que Israel faz em publicidade com influencers de vários países. Isso é do conhecimento público e nem aquele estado genocida o nega. 

Até percebo que se tenha que meter comida na mesa e, trabalhar, é algo que a poucos apetece.   Estou solidário nessa parte. Se pudesse andar a bater mundo e alguém me fosse pagando as contas, certamente chegaria mais depressa a alguns dos sonhos que me faltam concretizar. 

Mas não há um limite, de decência vá, para o preço da nossa alma? Por mais ódio e frustração que a vida nos traga, por mais racistas e intolerantes que sejamos, por mais xenófobos, conservadores ou islamofóbicos...não há uma linha vermelha a partir do qual se diz, "tenho que arranjar outra forma de pagar as contas"?

Há algum ser humano com coluna que, vendo o que os colonos na Cisjordânia estão a fazer, consiga encontrar um ponto de vista que justifique aquele terror e a expulsão dos palestinianos?

Alguém, que não siga fanaticamente a vida por um qualquer livro religioso, a bíblia, a tora, o corão ou outra merda qualquer, consegue encontrar uma justificação para as constantes chacinas em Gaza? Ainda se fala no 7 de Outubro como justificação? Os 70 000 (número onde parou a contagem) palestinianos mortos, maior parte deles mulheres e crianças, ainda não chegam para justificar o "direito de defesa" sobre a morte de 800 civis israelitas?

Quando vemos aquele inenarrável ministro de extrema-direita, Ben-Gvir, a entrar por Gaza a dentro, com uma horda de colonos, a gritar "quem diria, há 3 anos, que hoje estaríamos a controlar 70% da faixa de Gaza?", ainda conseguimos procurar uma narrativa que justifique as atrocidades de Israel?

Quase 2 milhões de pessoas, em Gaza, enfiadas num quintal, em condições desumanas e outros tantos na Cisjordânia, a sofrerem um processo de expulsão, patrocinado pelas IDF. E prestam-se estes "influencers", um pouco por todo o mundo, a troco de umas viagens e uns trocos para ficarem em casa a fazer vídeos mais uns meses, a mentir para as suas comunidades, fazendo parte de uma tentativa, à escala global , de limpar a imagem de Israel. 

Mas como? Sim, como meus amigos? Dá para apagar a morte de milhares de mulheres e crianças inocentes? Ou ainda estamos a vender a história de que cada pedra em Gaza era um terrorista do Hamas? Dá para apagar os vídeos diários de novos colonatos na Cisjordânia? Dá para apagar os vídeos do Ben-Gvir a celebrar a pena de morte para palestinianos? 

Também já perdi um pouco a paciência para as discussões das perspectivas ou das opiniões. Não há duas visões em crimes tão óbvios e tão desproporcionais.

Quem, a troco de dinheiro (ou não), se presta ao papel de tentar justificar um estado genocida, está exactamente a entrar no papel de colaboracionista, mas sem aquela desculpa clássica e histórica de quem luta pela sobrevivência. 

São, no fundo e apenas, uns filhos da puta

27 Junho 2026
https://www.facebook.com/tiago.franco.735

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